Ou desencantos existenciais ,,, Sim, o estímulo da leitura
devia ser mais impositivo, não se percebe bem por que razão não o é, podendo
aquela ser encarada como mais um nada que funciona como mais um estímulo para
as tais vidas feitas de nadas, mas simultaneamente de “tudos” que nos
aconchegam ,,.
Bucólica
A vida é feita de nadas;
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.
Miguel Torga TORGA,
M., Diário, 1941.
As humanidades não são de ninguém
Lê-se menos numa altura em que nunca tanta gente estudou; os
clássicos, outrora fechados nas bibliotecas de meia dúzia de famílias, estão
hoje na palma da mão, e ninguém os abre. Mas há um senão.
P. JOÃO BASTO. Sacerdote, membro da equipa formadora do
Seminário Diocesano de Viana do Castelo
OBSERVADOR,07 ago. 2026, 00:22
Há duas semanas, a Atlantic anunciou na capa o «fim da
leitura». Menos de metade dos americanos leu um livro no último ano, a maior
parte dos alunos recém-chegados à universidade não tem literacia suficiente, a
grande maioria das pessoas não escreve ou encarrega a inteligência artificial
dessa tarefa.
Diante disto, fazemos sempre uma de duas coisas. Ou cruzamos
os braços, com o fatalismo de quem vê, ao longe, uma tempestade que não pode
travar. Ou saímos à caça do culpado: o telemóvel, o TikTok, a geração Z, a
escola e agora a inteligência artificial. As duas reacções compreendem-se. As
duas são inúteis.
O diagnóstico é certo. Lê-se menos numa altura em que nunca
tanta gente estudou; os clássicos, outrora fechados nas bibliotecas de meia
dúzia de famílias, estão hoje de graça na palma da mão, e ninguém os abre;
vende-se-nos uma máquina que escreve por nós no preciso momento em que deixámos
de escrever. Tudo verdade.
Mas há uma coisa que estas contas nunca fazem entrar na
equação. Um punhado de pessoas que continua, sem dar nas vistas, a ler Homero e
Tolstoi ou a sublinhar Dostoievski e Steinbeck à noite, depois do trabalho. Não
são professores universitários. Trata-se de uma massa considerável de
trabalhadores, não necessariamente de profissões liberais, ou de jovens não
alinhados.
Dizer que o número é escasso para inverter a tendência é
enganador. Os renascimentos culturais começaram sempre à margem, e quase sempre
contra a ortodoxia do seu tempo. O renascimento europeu foi impulsionado por
tradutores não académicos e por uma ecologia de patronos e estudantes que
operava fora do círculo oficial. O romantismo foi liderado por leitores não
licenciados e por poetas das classes mais baixas, como William Blake, John
Keats e John Clare. O renascimento americano foi desencadeado por ex-pastores e
amadores, com Walt Whitman e Emily Dickinson a escreverem os seus poemas entre
empregos. O modernismo teve como maiores pensadores e poetas banqueiros,
bibliotecários, jornalistas e até vendedores de seguros, como Wallace Stevens.
É isto que se perde quando se tratam as humanidades como uma
propriedade institucional, grupal ou estatal. Não o são. As humanidades são a
maneira como uma sociedade aprende a imaginar, a discordar e a dar nome ao
mundo, sem corrimão. Salvará as humanidades quem se importar o bastante para o
fazer, mesmo que isso o empurre para as margens. Salvará as humanidades quem
carregar Rulfo, Faulkner e Camilo como um correio de droga transporta
estupefacientes. Salvaremos as humanidades desconfiando de tudo o que não for
quase clandestino.
Precisamos de voltar a confrontar-nos com livros, quadros,
filmes e obras difíceis. Precisamos de não perceber e de fazer leituras
enviesadas. Precisamos de resistir às dicotomias idiotas e empobrecidas que já
nos são oferecidas mastigadas. Precisamos de refinar ideias na solidão e no
silêncio, e testá-las em conversas reais.
Whitman sentiu o peso esmagador do desespero perante as
«cidades cheias de tolos» e «os fracos resultados de tudo». Não sei porque é
que, connosco, haveria de ser diferente.
BIBLIOTECAS
LIVROS LITERATURA CULTURA
COMENTÁRIOS:
José Roque: As humanidades não são de ninguém, mas o uso que
delas se faz, sim, é de alguém. Quando se escolhe Adorno e se ignora Pascal,
quando se ensina Habermas, mas não Montaigne, quando se discute Popper, mas não
Hegel, são humanidades que se seleccionam.
Carlos Nunes: Muito bem: menos de 50% dos americanos leu um
livro no último ano. Eu não sei, mas arriscava que menos de 50% dos portugueses
leu um livro desde que nasceu. E isto é muito grave. E perante este facto, o
Padre João agarra-se ao “punhado de pessoas” suficientes para os “renascimentos
culturais”. Ok, mas isso é outro assunto. O “assunto” é que uma sociedade que
não lê é uma sociedade ignorante, doente, perdida. É disto que se deveria
falar, e actuar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário