quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Acontece

 

Os requintes universitários produzem, por vezes, requintes de autopromoção enviesada. Mas não são só os universitários, julgo.

Jason Arday e a crise da Universidade

A Universidade transformou-se num sistema no qual muitos processos de avaliação, e financiamento são capturados por grupos associados a agendas ideológicas radicais.

ANDRÉ AZEVEDO ALVES,  Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

OBSERVADOR, 19 ago. 2026, 00:25

O trágico final de Jason Arday – com o jovem professor catedrático a ser encontrado morto em sua casa em Londres poucos dias depois de se ter demitido da sua posição em Cambridge – não deve impedir a reflexão séria sobre o caso. Aliás, parte do respeito que é devido a Jason Arday como pessoa inclui não lhe negar retrospectivamente a possibilidade de agência pela sua conduta passada, reduzindo-a a uma vítima totalmente manipulada por um ou outro lado do sistema. Com base no que foi revelado desde que o caso começou, parece impossível negar que Arday foi, até ser denunciado e alvo de escrutínio, um charlatão extraordinariamente persuasivo e bem sucedido. Além dos múltiplos fortes indícios de fraude no plano académico, Arday acumulou várias histórias que deveriam ter suscitado suspeitas muito antes: desde correr 30 maratonas em 35 dias até sucessivas alegações de perseguição pessoal não confirmadas (o insuspeito Guardian disponibiliza aqui um bom resumo dessas histórias).

Não é, claro, incompatível que Arday pudesse ter muitas qualidades pessoais – em especial no plano comunicacional e de relacionamento interpessoal – e, simultaneamente, ser um mentiroso patológico e um fantasista. São aliás características que muitas vezes convivem no mesmo perfil psicológico e a natureza humana, como convém nunca esquecer, é complexa e muitas vezes retorcida (ou não fosse o pecado original uma condição universal comum a todos nós). O que é mais notável no caso não é Jason Arday em si mesmo, mas como foi possível chegar onde chegou sem que a charlatanice fosse detectada antes. É essa a questão mais importante e sobre a qual importa reflectir.

Esta é uma questão que pode, naturalmente, ter vários ângulos possíveis de análise. Um primeiro, entre nós bem apontado e resumido por Mário Amorim Lopes, foca-se em especificidades nacionais que associa ao declínio moral do Reino Unido:

“Na verdade, o caso Arday é apenas o sintoma do longo e lento declínio moral do Reino Unido. A polícia foi uma dessas instituições severamente afectadas por esta crise moral. Quando um jornalista do Times Higher Education começou a investigar a fraude e enviou perguntas a Arday, a Metropolitan Police passou quatro meses a investigar o caso – não o de fraude académica, mas a investigação jornalística de Jack Grove. Encerrado o caso, a polícia ainda ligou ao jornalista a recomendar-lhe que não voltasse a incomodar o professor. A polícia britânica transformada em secretariado emocional.”

Tanto a perseguição institucional e até policial a quem tentou escrutinar Jason Arday como a inaceitável forma como a Universidade de Cambridge inicialmente defendeu cegamente Arday e só depois, sob crescente pressão externa, anunciou abrir uma investigação que acabou por desencadear a demissão de Arday podem certamente ser vistos como sintoma dos problemas do Reino Unido. Mas prefiro aqui focar-me numa outra dimensão de análise, centrada em problemas que estão longe de ser exclusivos do Reino Unido mas afectam (pelo menos) todo o contexto universitário ocidental.

Por muito que os processos de recrutamento, promoção, avaliação científica e escrutínio académico em geral tenham falhas e limitações (e têm certamente), é difícil acreditar que Jason Arday pudesse ter sido o mais jovem negro a atingir a posição de professor catedrático em Cambridge se o seu posicionamento e a sua própria narrativa pessoal não encaixassem perfeitamente nos enviesamentos dominantes nas ciências sociais e nas humanidades – nomeadamente o progressismo e o wokismo.

As ideias têm consequências e os enviesamentos sistemáticos – nomeadamente nos meios académicos e (supostamente) científicos – têm causas que remontam precisamente à predominância esmagadora de ideologias de esquerda (e frequentemente de extrema-esquerda) e da agenda woke no sistema universitário, com particular intensidade e gravidade nas ciências sociais e nas humanidades. A este respeito, e recorrendo uma vez mais a uma fonte insuspeita, vale a pena ler o (longo) ensaio “Why I Quit the Tenure Track: The insufferable hypocrisy of elite academia”, de Tyler Austin Harper. No texto, o autor – um jovem académico negro com impecáveis credenciais progressistas – descreve a sua gradual desilusão com a degradação de padrões académicos e científicos que as motivações de engenharia social provocaram na instituição de elite para a qual foi contratado, assim como a hipocrisia reinante (neste caso no Bates College, no Maine). O ensaio merece ser lido na íntegra mas a passagem na qual Harper descreve a sua experiência num júri de recrutamento é particularmente elucidativa:

“Even more upsetting, my experience on that committee changed how I viewed other newly hired minorities on campus. I sometimes found myself reflexively wondering whether Bates’s professors of color were up to the job, or whether they were underqualified fodder for the school’s social-engineering regime. I could not unlearn what I had discovered: that more than a few people at this elite little college seemed happy not just to move the goalposts for people like me, but to take them down entirely. (…) How many other Charlottes had already been hired at Bates? And how common was this kind of thing at other colleges around the country? It seemed highly unlikely that I had landed at the only school in America so hell-bent on getting minorities through the door that it would make a mockery of academic standards if need be.”

Não creio que os problemas em causa estejam fundamentalmente (ou sequer principalmente) relacionados com práticas de discriminação racial (dita) “positiva”. Antes, eles inserem-se numa estrutura de enviesamento ideológico sistemático, através do qual a Universidade e o sistema científico se tornam ilhas de radicalismo financiadas por uma sociedade que não reflectem mas que ambicionam desesperadamente revolucionar. É esse enviesamento sistemático que possibilita casos como o de Jason Arday, que pode ser extremo pelo exagero mas infelizmente não constitui um desvio face às práticas vigentes e dominantes, em especial nas ciências sociais e humanidades.

Longe de serem um exclusivo do Reino Unido ou dos EUA, estes enviesamentos prevalecem em boa parte das Universidades e dos sistemas científicos ocidentais, inquinando e distorcendo de forma sistemática grande parte dos processos de avaliação, selecção e promoção. O resultado final, como acontece de forma flagrante também em Portugal e na UE, é um sistema no qual muitos processos de avaliação, acreditação e financiamento são capturados por grupos associados a agendas ideológicas radicais, por vezes associados sectorialmente a interesses rentistas instalados.

Concursos de recrutamento e promoção, avaliações institucionais, concursos para projecto e bolsas, entre outros, todos são inquinados por esses enviesamentos sistemáticos gerando um sistema estruturalmente disfuncional e capturado e uma situação de difícil resolução, em especial nas ciências sociais e nas humanidades.

Como lidar com esta gravíssima crise da Universidade é uma questão complexa e difícil. Se nada se fizer, a é a própria Universidade que arrisca a descredibilização total e, a prazo, a irrelevância. Por outro lado, programas de activismo de sinal contrário para tentar contrariar a hegemonia progressista dominante – como na Hungria de Orbán – levantam eles próprios preocupações e reservas. Numa perspectiva de reforma séria e consciente mas tentando evitar a ruptura, há iniciativas interessantes na Florida, como a Hamilton School for Classical and Civic Education da University of Florida (que contratou recentemente o português Nuno Palma) ou o Adam Smith Center for Economic Freedom da Florida International University (disclaimer: com o qual colaboro como investigador num projecto internacional em curso), mas é discutível que constituam uma abordagem suficientemente robusta face à gravidade e enraizamento dos enviesamentos que contaminam o sistema. O futuro da Universidade no contexto ocidental depende da capacidade que tenhamos para lidar com esta crise, em especial nas ciências sociais e nas humanidades. Possíveis caminhos a seguir serão tema para futuras reflexões.

UNIVERSIDADES       EDUCAÇÃO

COMENTÁRIOS (de 9)

Isabel Gomes: Nāo consigo perceber como é que as instituições britânicas que primavam pelo rigor, venderam a alma ao diabo, perdão wokismo.

Santos: Universidades, centros de investigação, associações de tudo (sem-abrigos, LGBTI+, da pobreza, disto e daquilo), que só promovem a sua agenda e querem financiamento público! Nas artes é tudo cultura de esquerda, etc. Mas nem mesmo o PS2 tem coragem de acabar com isto!

Eduardo Lourenço: Nós também cá temos os nossos Jason Arday. Na  classe política parecem cogumelos depois de um dia chuvoso.

 

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