Os requintes universitários
produzem, por vezes, requintes de autopromoção enviesada. Mas não são só os
universitários, julgo.
Jason
Arday e a crise da Universidade
A Universidade
transformou-se num sistema no qual muitos processos de avaliação, e
financiamento são capturados por grupos associados a agendas ideológicas
radicais.
ANDRÉ AZEVEDO ALVES, Professor do Instituto de Estudos Políticos
da Universidade Católica Portuguesa
OBSERVADOR, 19 ago. 2026, 00:25
O trágico final de Jason Arday
– com o jovem professor catedrático a ser encontrado morto em sua casa em
Londres poucos dias depois de se ter demitido da sua posição em Cambridge – não
deve impedir a reflexão séria sobre o caso. Aliás, parte do respeito que é
devido a Jason Arday como pessoa inclui não lhe negar retrospectivamente a
possibilidade de agência pela sua conduta passada, reduzindo-a a uma vítima
totalmente manipulada por um ou outro lado do sistema. Com base no que
foi revelado desde que o caso começou, parece impossível negar que Arday foi,
até ser denunciado e alvo de escrutínio, um charlatão extraordinariamente
persuasivo e bem sucedido. Além dos múltiplos fortes indícios de
fraude no plano académico, Arday acumulou várias histórias que deveriam ter
suscitado suspeitas muito antes: desde correr 30 maratonas em 35 dias até
sucessivas alegações de perseguição pessoal não confirmadas (o insuspeito
Guardian disponibiliza aqui um bom resumo dessas histórias).
Não é, claro,
incompatível que Arday pudesse ter muitas qualidades pessoais – em especial no
plano comunicacional e de relacionamento interpessoal – e,
simultaneamente, ser um mentiroso patológico e um fantasista. São
aliás características que muitas vezes convivem no mesmo perfil psicológico e a
natureza humana, como convém nunca esquecer, é complexa e muitas vezes
retorcida (ou não fosse o pecado original uma condição universal comum a todos
nós). O que é mais notável no caso não é Jason Arday em si mesmo, mas
como foi possível chegar onde chegou sem que a charlatanice fosse detectada
antes. É essa a questão mais importante e sobre a qual importa reflectir.
Esta é uma questão que
pode, naturalmente, ter vários ângulos possíveis de análise. Um primeiro, entre
nós bem apontado e resumido por Mário Amorim Lopes, foca-se em especificidades
nacionais que associa ao declínio moral do Reino Unido:
“Na verdade, o caso Arday é
apenas o sintoma do longo e lento declínio moral do Reino Unido. A polícia foi
uma dessas instituições severamente afectadas por esta crise moral. Quando um
jornalista do Times Higher Education começou a investigar a fraude e enviou
perguntas a Arday, a Metropolitan Police passou quatro meses a investigar o
caso – não o de fraude académica, mas a investigação jornalística de Jack
Grove. Encerrado o caso, a polícia ainda ligou ao jornalista a recomendar-lhe
que não voltasse a incomodar o professor. A polícia britânica transformada em
secretariado emocional.”
Tanto a perseguição
institucional e até policial a quem tentou escrutinar Jason Arday como a
inaceitável forma como a Universidade de Cambridge inicialmente defendeu
cegamente Arday e só depois, sob crescente pressão externa, anunciou abrir uma
investigação que acabou por desencadear a demissão de Arday podem certamente
ser vistos como sintoma dos problemas do Reino Unido. Mas prefiro aqui focar-me numa outra
dimensão de análise, centrada em problemas que estão longe de ser exclusivos do
Reino Unido mas afectam (pelo menos) todo o contexto universitário ocidental.
Por muito que os processos de recrutamento, promoção,
avaliação científica e escrutínio académico em geral tenham falhas e limitações
(e têm certamente), é difícil acreditar que Jason Arday pudesse ter sido o mais
jovem negro a atingir a posição de professor catedrático em Cambridge se o seu
posicionamento e a sua própria narrativa pessoal não encaixassem perfeitamente
nos enviesamentos dominantes nas ciências sociais e nas humanidades –
nomeadamente o progressismo e o wokismo.
As ideias têm consequências e
os enviesamentos sistemáticos – nomeadamente nos meios académicos e
(supostamente) científicos – têm causas que remontam precisamente à predominância
esmagadora de ideologias de esquerda (e frequentemente de extrema-esquerda) e
da agenda woke no sistema universitário, com particular intensidade e gravidade
nas ciências sociais e nas humanidades. A este respeito, e
recorrendo uma vez mais a uma fonte insuspeita, vale a pena ler o (longo)
ensaio “Why I Quit
the Tenure Track: The insufferable hypocrisy of elite academia”, de Tyler
Austin Harper. No texto, o autor – um jovem académico negro
com impecáveis credenciais progressistas – descreve a sua gradual desilusão com
a degradação de padrões académicos e científicos que as motivações de
engenharia social provocaram na instituição de elite para a qual foi
contratado, assim como a hipocrisia reinante (neste caso no Bates College, no
Maine). O ensaio merece ser lido na íntegra mas a passagem na qual
Harper descreve a sua experiência num júri de recrutamento é particularmente
elucidativa:
“Even more upsetting, my
experience on that committee changed how I viewed other newly hired minorities
on campus. I sometimes found myself reflexively wondering whether Bates’s
professors of color were up to the job, or whether they were underqualified fodder
for the school’s social-engineering regime. I could not unlearn what I had
discovered: that more than a few people at this elite little college seemed
happy not just to move the goalposts for people like me, but to take them down
entirely. (…) How many other Charlottes had already been hired at Bates? And
how common was this kind of thing at other colleges around the country? It
seemed highly unlikely that I had landed at the only school in America so
hell-bent on getting minorities through the door that it would make a mockery
of academic standards if need be.”
Não creio que os problemas
em causa estejam fundamentalmente (ou sequer principalmente) relacionados com
práticas de discriminação racial (dita) “positiva”. Antes, eles inserem-se numa estrutura
de enviesamento ideológico sistemático, através do qual a Universidade e o
sistema científico se tornam ilhas de radicalismo financiadas por uma sociedade
que não reflectem mas que ambicionam desesperadamente revolucionar. É esse enviesamento sistemático que
possibilita casos como o de Jason Arday, que pode ser extremo pelo exagero mas
infelizmente não constitui um desvio face às práticas vigentes e dominantes, em
especial nas ciências sociais e humanidades.
Longe de serem um exclusivo do Reino Unido ou dos EUA,
estes enviesamentos prevalecem em boa parte das Universidades e dos sistemas
científicos ocidentais, inquinando e distorcendo de forma sistemática grande
parte dos processos de avaliação, selecção e promoção. O
resultado final, como acontece de forma flagrante também em Portugal e na UE, é um sistema no qual muitos processos
de avaliação, acreditação e financiamento são capturados por grupos associados
a agendas ideológicas radicais, por vezes associados sectorialmente a
interesses rentistas instalados.
Concursos de recrutamento e promoção, avaliações
institucionais, concursos para projecto e bolsas, entre outros, todos são
inquinados por esses enviesamentos sistemáticos gerando um sistema
estruturalmente disfuncional e capturado e uma situação de difícil resolução,
em especial nas ciências sociais e nas humanidades.
Como lidar com esta
gravíssima crise da Universidade é uma questão complexa e difícil. Se nada se fizer, a é a própria
Universidade que arrisca a descredibilização total e, a prazo, a irrelevância.
Por outro lado,
programas de activismo de sinal contrário para tentar contrariar a hegemonia
progressista dominante – como na Hungria de Orbán – levantam eles próprios
preocupações e reservas. Numa perspectiva de reforma séria e consciente mas tentando
evitar a ruptura, há iniciativas interessantes na Florida, como a Hamilton
School for Classical and Civic Education da University of Florida (que
contratou recentemente o português Nuno Palma) ou o Adam Smith Center for
Economic Freedom da Florida International University (disclaimer: com o qual
colaboro como investigador num projecto internacional em curso), mas é
discutível que constituam uma abordagem suficientemente robusta face à
gravidade e enraizamento dos enviesamentos que contaminam o sistema.
O futuro da Universidade
no contexto ocidental depende da capacidade que tenhamos para lidar com esta
crise, em especial nas ciências sociais e nas humanidades. Possíveis caminhos a
seguir serão tema para futuras reflexões.
UNIVERSIDADES EDUCAÇÃO
COMENTÁRIOS (de 9)
Isabel Gomes: Nāo consigo perceber como é que as
instituições britânicas que primavam pelo rigor, venderam a alma ao diabo,
perdão wokismo.
Santos: Universidades, centros de
investigação, associações de tudo (sem-abrigos, LGBTI+, da pobreza, disto e
daquilo), que só promovem a sua agenda e querem financiamento público! Nas
artes é tudo cultura de esquerda, etc. Mas nem mesmo o PS2 tem coragem de
acabar com isto!
Eduardo Lourenço: Nós também cá temos os
nossos Jason Arday. Na classe política
parecem cogumelos depois de um dia chuvoso.
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