Impecavelmente traduzida por BERNARDO
RIBEIRO DA CUNHA, a quem agradecemos a seriedade racional. Nacional também.
ALJUBARROTA:
QUANDO PORTUGAL DECIDIU EXISTIR
É por isso que Aljubarrota
não pertence apenas à história militar. Pertence à história da soberania. Foi o
momento em que Portugal disse que a geografia não bastava para o definir.
BERNARDO RIBEIRO DA CUNHA
OBSERVADOR, 15 ago. 2026, 00:21
Há batalhas que ganham
territórios. Outras ganham tempo. Aljubarrota ganhou uma coisa mais rara: a possibilidade de
Portugal continuar a ser Portugal.
Em 14 de Agosto de 1385,
há 641 anos, no campo de São Jorge, perto de Aljubarrota, não se enfrentaram
apenas dois exércitos. Enfrentaram-se duas ideias de legitimidade. De um lado,
Castela, com a força do número, da sucessão dinástica e da ambição peninsular.
Do outro, um reino pequeno, politicamente ferido, socialmente dividido, mas
ainda capaz de reconhecer que a legalidade sem liberdade pode tornar-se apenas
a gramática elegante da submissão.
A crise começara com a morte de D. Fernando, em 1383.
A sua filha, D. Beatriz, casada com o rei de Castela, abria a porta a uma
solução dinástica aparentemente impecável e politicamente fatal: Portugal
podia deixar de ser reino independente sem que ninguém precisasse de o
conquistar formalmente. Bastava respeitar as regras até elas deixarem de
proteger a casa comum. É uma lição antiga, mas sempre nova: há momentos em que a forma da lei
pode ser usada contra o espírito da liberdade.
Foi então que emergiu D. João, Mestre de Avis. Não
como figura romântica inventada depois pelos cronistas, mas como resposta
política a uma necessidade histórica. As Cortes de Coimbra deram-lhe a coroa; João das Regras deu-lhe o
argumento; Nuno
Álvares Pereira deu-lhe a espada e, mais do que a espada, a disciplina.
Aljubarrota foi uma vitória da inteligência sobre a
massa. O exército castelhano era superior em número. Portugal
não tinha o luxo da imprudência. Escolheu o terreno, preparou obstáculos,
estreitou o espaço, obrigou a cavalaria inimiga a lutar onde a sua força se
convertia em embaraço. A grandeza castelhana entrou no campo como quem entra
numa avenida; descobriu tarde de mais que estava num corredor.
Nuno Álvares não venceu por entusiasmo. Venceu por
ordem. A coragem portuguesa, nesse dia, não foi grito: foi formação. Não foi
impulso: foi obediência. Cada homem no seu lugar; cada lança apontada; cada
passo calculado. A desproporção, que em teoria anunciava a derrota, tornou-se
argumento a favor da prudência. A pequena nação só podia sobreviver se pensasse
melhor do que o império que vinha esmagá-la.
Convém, porém, evitar a
simplificação patriótica. Aljubarrota não prova que os portugueses sejam
invencíveis. Prova
coisa mais séria: que uma comunidade política só resiste quando sabe o que quer
preservar. A independência não é um ornamento sentimental. É uma
responsabilidade. Exige elites que não vendam o país por conveniência, povo que
não confunda paz com rendição, e chefes que saibam que a autoridade existe para
servir uma continuidade superior ao próprio interesse.
A presença de D. Nuno Álvares Pereira
dá ainda à batalha uma dimensão que Portugal moderno raramente sabe ler sem
embaraço: a dimensão
espiritual. O Condestável não foi canonizado por ter sido bom general, mas é
impossível separar nele a disciplina militar da ascese cristã. A sua grandeza
não está apenas na vitória; está na forma como a vitória não o devorou. Num
tempo em que tantos confundem poder com destino pessoal, Nuno Álvares lembra
que a verdadeira autoridade começa no domínio de si.
Depois de Aljubarrota veio a dinastia de Avis, o
Mosteiro da Batalha, a aliança inglesa consolidada pelo Tratado de Windsor, e a
abertura de um ciclo que levaria Portugal ao mar. Mas nada disso estava
garantido naquela tarde de Agosto. A história gosta de parecer inevitável
depois de acontecer. Antes, é sempre risco, fadiga, pó, medo e decisão.
Portugal não nasceu em Aljubarrota. Já existia. Mas
confirmou ali que queria continuar a existir. E talvez seja essa a lição mais
actual da batalha: as nações não morrem apenas quando são vencidas por fora.
Morrem antes quando deixam de acreditar, por dentro, que vale a pena
defendê-las.
ALJUBARROTA FOI, POR ISSO,
MAIS DO QUE UMA VITÓRIA MILITAR. FOI UMA DECLARAÇÃO DE PERMANÊNCIA. Uma pequena clareira aberta na
História por homens que não tinham garantias, mas tinham dever. E quando um
povo ainda sabe distinguir o dever da conveniência, até a inferioridade
numérica pode tornar-se uma forma de soberania.
É por isso que Aljubarrota não pertence apenas à
história militar. Pertence à história da soberania. Foi o momento em que
Portugal disse que a geografia não bastava para o definir, mas que sem
independência política a geografia se tornaria propriedade alheia.
Os grandes reinos gostam de
chamar inevitável ao que lhes convém. Os pequenos, quando ainda têm alma,
respondem que a inevitabilidade também pode cair numa vala.
Em Aljubarrota, caiu.
COMENTÁRIOS:
JORGE CARVALHO: Muito obrigado pelo seu excecional artigo
que me trouxe a alegria e a responsabilidade de ser português até à morte
ALEXANDRE BARREIRA: Pois. Caro
Bernardo: Também conheço outra história: 25 de Abril de 1974: quando Portugal
decidiu....desistir.....!
FILIPE BATISTA: Excelente
texto. E muito actual. Hoje, as nossas "elites" servem-se a si
próprias e destroem Portugal. Políticos, juízes, intelectuais, artistas...
TIM DO A: E o 25 de Abril foi
o momento em que Portugal perdeu o império, a soberania, está (ou já foi) a ser
invadido e desistiu de existir como nação. A não ser para o futebol (em que a selecção também tem cada vez
menos portugueses)...
MANUEL MAGALHAES: É bom
relembrar o que temos vindo a perder, a falta de dignidade daquilo a que
chamamos as nossas “elites” que nos têm levado a esquecer a razão de ser de
Aljubarrota, temos
agora na Europa um bom exemplo de dignidade, a Ucrânia que nos deveria fazer
repensar e que muitos tratam de disfarçar… sinal dos tempos!!!
TOMAZZ MAN: Impecavelmente sintetizado.
ROSA RIBEIRO: É um orgulho,
uma honra e uma responsabilidade imensa ser português! Temos séculos de
História magnífica e épica! Tenhamos nas gerações futuras a continuidade e o
deslumbramento de nos ultrapassarmos em Cultura, Justiça e Ciência para o bem
da Humanidade!
TIM DO A > ALEXANDRE
BARREIRA: Exactamente
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