Na História de um país, afinal tão
prostituído assim, talvez por ter sido grande, com Descobrimentos que bem
alargaram a visão da Terra – e
do Mundo, claro. Não, “não havia necessidade” … de tanto rebaixamento,
numa História de alargamento territorial que começava assim, nos manuais da
História Pátria: “Em 1418 João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira
descobriram a Ilha de Porto Santo. No ano seguinte, os mesmos e Bartolomeu
Perestrelo descobriram a Madeira”. O Brasil foi em 1500. Mas chegámos mesmo
a Timor…, percorrendo em naus o mar salgado das lágrimas dos familiares que
ficaram, segundo tradução em verso ilustre …
Dá para espantar. Sempre. Embora também a Grécia, mais outrora ainda … É certo que teve os seus grandes clássicos. Mas não podemos contestar o valor dos nossos
… Pessoa e C . ia. … Clássicos para
sempre.
Agosto de 1808: Portugal não assinou
Costuma dizer-se que o Portugal do
império acabou em 1974 e que o princípio do fim foi o ouro do Brasil. A minha
opinião, que vale o que vale, é outra.
JOÃO A. B. DA SILVA Economista e
investidor
OBSERVADOR, 17 ago. 2026, 00:20
O Jardim de Kalahari: o conjunto de
joias da noiva Georgina
Um amigo inglês, jornalista de
profissão, embora não de diploma, tornou-se conhecido pelas longas entrevistas
que faz a figuras de grande notoriedade. Foi aceite em História na LSE, mas
decidiu não seguir os estudos universitários, por considerar a academia
demasiado woke para valer o seu tempo. E alimenta há anos a mania de me
recomendar livros sobre a história de Portugal. A mania nasceu no Museu
Marítimo de Greenwich, numa tarde em que, a braços com uma cerveja quente e sem
gás, como só os ingleses sabem fazer, discordámos com alguma energia sobre a
forma como certas notas históricas ali estão escritas. Não sobre datas, porque
as datas ninguém contesta. Sobre a arrumação. Quem começou, quem ensinou quem,
quem estava a proteger quem e a troco de quê. Ditas do lado de lá da mesa,
aquelas frases têm o inconveniente de contradizer, com cinismo britânico,
precisamente aquilo que em Portugal se ensina como facto assente e se repete em
discursos do Dez de Junho. Não que eu aprecie particularmente debates. Tenho a
tendência de ouvir o outro lado para confirmar que tenho razão.
O livro que ele acabou por me
impingir chama-se Britannia Sickens: Sir Arthur Wellesley and the Convention of
Cintra, é de Michael Glover, saiu em Londres em 1970, tem poucas páginas e o
título é um verso de Byron. Tarda uma tarde de praia a ser lido, o que já é
meio caminho andado para uma recomendação decente. E trata do que aconteceu a
partir de 17 de Agosto de 1808, data que hoje faz duzentos e dezoito anos.
Quanto mais avançava na leitura, mais
clara me parecia a provocação por detrás do livro. A tese de fundo é mais ou
menos esta: por essa altura, Portugal já não era verdadeiramente independente.
Havíamos entregue a nossa independência aos bárbaros das tribos do arquipélago
no norte da Europa. A partir de 1808, a primeira pessoa do plural, quando
aplicada às decisões sobre Portugal, deixou de incluir os portugueses. A
invasão francesa não transferiu apenas território, que aliás acabaria por
voltar. Transferiu a competência para decidir. Essa, porém, ficou por lá. O
território regressou. A autonomia, não. Ficou em Londres, onde haveria de criar
raízes mais profundas do que qualquer exército francês. A rainha havia muito
que não estava em condições de reinar, o príncipe regente saíra para o Brasil
em Novembro de 1807, as Cortes não se reuniam havia mais de um século e o que
restava do Estado era uma junta, pequena assembleia de homens a pedir
instruções por carta a duas capitais estrangeiras ao mesmo tempo. A soberania
tinha-se tornado uma espécie de administração por correspondência. Hoje está em
Bruxelas.
Glover conta a história do lado
britânico e conta-a com detalhe e parcimónia. A 17 de Agosto, na Roliça,
Wellesley bate Delaborde. A 21, no Vimeiro, bate Junot. Nesse intervalo é
ultrapassado na cadeia de comando por Burrard e depois por Dalrymple, dois
homens prudentes que preferiram negociar a perseguir. Em Portugal, defendemos
uma versão cómoda: a do velho general britânico que chegou tarde, não percebeu
o que tinha na mão e deitou fora uma vitória. Se a culpa foi de um homem
distraído, Portugal foi vítima de um azar e não de uma condição. Os documentos
históricos, esses, mostram outra coisa. O armistício de 22 de Agosto foi
assinado pelo próprio Wellesley, e o texto afirma que ele tinha poderes para o
fazer. Os seus defensores garantiram depois que não o escreveu, não o negociou
e não o aprovou, e que Kellermann exigiu a assinatura dele para dar
autenticidade ao papel. Pode ser tudo verdade. O ponto é que assinou na mesma.
Quanto à Convenção definitiva, não foi obra de Dalrymple sozinho. Foi negociada
e assinada por George Murray, por parte britânica, e por Kellermann, por parte
francesa, e só depois ratificada pelas chefias correspondentes. A caricatura do
burocrata teimoso ou do general idoso que atirou fora uma vitória alheia é
retoricamente poderosa, mas analiticamente medíocre.
O que a Convenção permitiu, isso sim,
resiste a qualquer revisão. Foram transportados para França 25 747 franceses,
dos quais 20 900 sob armas, ou seja praticamente o exército de Junot inteiro,
em navios britânicos, com armamento, artilharia, cavalos, bagagens, caixa
militar e propriedade privada. O texto especifica que a propriedade particular
seguiria sem excepção. Em lado nenhum se obriga os franceses a devolver aquilo
que tinham saqueado em Portugal, e foi isso, mais do que a retirada, que fixou
entre nós a percepção de afronta. Entre a bagagem seguiu, por exemplo, a Bíblia
dos Jerónimos, que não era propriedade particular de ninguém. Um exército
derrotado saiu do país mais rico do que tinha entrado, escoltado e alojado por
quem o derrotara.
Dizer que Portugal foi vendido é
falso. A Convenção não entregou um metro quadrado de território a França. Fez
exactamente o contrário. Expulsou de Portugal a totalidade da presença militar
francesa, entregou Lisboa e o Tejo aos britânicos e poupou-lhes uma campanha
contra um exército ainda numeroso, com o Inverno à porta e uma esquadra por
resolver. Militarmente, os britânicos conseguiram tudo aquilo a que tinham
vindo, e conseguiram-no em duas semanas. O preço foi deixar Junot ir embora
praticamente intacto. Foi um preço que os britânicos consideraram “justo”.
O pormenor que me interessa é que
Portugal não foi parte contratante. Não negociou, não assinou e não ratificou
coisa nenhuma.
A pergunta que se costuma fazer é porque é que os ingleses não nos chamaram. A
pergunta certa é quem é que teria ido. O príncipe regente estava no Rio, para
onde a corte partira no ano anterior, as Cortes não se reuniam desde o século
XVII, havia uma junta em Lisboa debaixo de ocupação francesa e outra no Porto
sem autoridade sobre a primeira, e nenhuma delas dispunha de exército, de
comando ou de mandato para falar em nome do reino. Não fomos excluídos de uma
negociação. Não tínhamos com que comparecer. E quem tirou daí a conclusão fomos
nós. Seis meses e uns trocos depois, a 7 de Março de 1809, o comando do
exército português foi entregue ao marechal Beresford com plenos poderes para
nomear e demitir os oficiais que entendesse. A escolha do nome foi de Londres.
O pedido foi de Lisboa. Beresford fez daquele exército uma força de primeira
linha, e essa é a parte da história que nos convém contar. Um país que precisa
de mandar vir de fora quem lhe faça o exército e quem assine por ele já não é
bem um país. É um teatro de operações com bandeira.
Coube no documento uma esquadra
russa. Os artigos adicionais trataram da neutralidade dos navios de Senyavin
fundeados no Tejo, estando a Grã-Bretanha em guerra com a Rússia, e o destino
da esquadra acabaria fixado dias depois, num acordo à parte com o almirante
Cotton. Havia espaço para uma potência terceira. Não havia para o dono da
casa.
Até o nome que damos ao escândalo é
emprestado. O documento foi assinado a 30 de Agosto e nem sobre o local há
acordo, porque Lisboa, Queluz e Torres Vedras disputam a honra. A designação de Sintra
fixou-se depois, em boa parte por causa do despacho que Dalrymple escreveu do
quartel-general instalado ali. Chamamos-lhe Convenção de Sintra porque um
general britânico datou uma carta.
Glover é abertamente favorável a
Wellesley, e a sua narrativa encaixa como uma luva na construção posterior do
grande Wellington, o general brilhante que vence, os superiores que chegam
tarde e estragam tudo, o inquérito que corrige a injustiça. É uma boa historieta. Não é, porém, a
única possível. Convém desconfiar sempre das versões em que os factos se
organizam demasiado bem em torno de um herói. A formulação mais honesta é
outra. A Convenção foi, ao mesmo tempo, um extraordinário êxito estratégico
britânico, um desastre político britânico e uma humilhação legítima para
Portugal. As três coisas são verdadeiras pela mesma razão: Portugal não
participou na escolha do seu próprio futuro. Quando um país abdica de negociar
os seus próprios interesses, quem parte e reparte fica naturalmente com a
melhor parte.
Costuma dizer-se que o Portugal do
império acabou em 1974 e que o princípio do fim foi o ouro do Brasil. A minha
opinião, que vale o que vale, é outra. O ponto de inflexão que marca o fim
da autonomia portuguesa está algures entre a chegada de Junot e a sua partida.
O que veio depois foi administração, por vezes competente, quase sempre alheia.
Beresford comandou o Exército, os ingleses comandaram Beresford, a corte ficou
no Rio e o país habituou-se a uma condição que nunca mais perdeu: a de assunto
tratado por terceiros. Hoje decide-se em Bruxelas o que é regra, em Washington o que é aliança e
em Pequim quem fica com a rede eléctrica, e em Lisboa a Lusa prepara o
comunicado. É uma condição confortável. Poupa deliberações e poupa culpas.
Talvez seja por isso que ainda discutimos se fomos traídos, quando a pergunta
certa é outra. Não fomos traídos. Fomos promovidos a colónia.
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