Coragem
É do que se precisa, quando se
adopta um cargo público, como esse de governar, tantos somos os que saberíamos
fazê-lo melhor!
Estamos a censurar o sucesso de Montenegro?
O primeiro-ministro
mostrou-se desapontado com o retrato que se dá do país e escolheu os grandes
números da economia para mostrar que tudo vai bem. Esqueceu-se do resto.
HELENA GARRIDO Colunista
OBSERVADOR, 18 ago. 2026,
00:25
António, nome fictício,
tinha umas 20 ovelhas que cuidava nos intervalos do seu emprego. Um dia, chega lá, e restavam três. Tinham
sido roubadas. Viu as marcas dos pneus pelo terreno. Ali perto, um armazém
tinha videovigilância e as imagens foram-lhe entregues. Foi à polícia fazer
queixa, entregou as imagens em que se via claramente um grupo de homens, numa
carrinha, a roubarem as ovelhas. A polícia disse que conhecia os ladrões, sabia
onde moravam e até identificou o condutor dizendo que nem carta tinha.
Imaginaríamos nós, pouco versados nos meandros da justiça, que a polícia iria
ao local e rapidamente se deslocaria ao sítio onde sabia que moravam os
ladrões. Pois não é assim. Foi dito a quem foi roubado que nada podia fazer,
tinha de esperar pelo juiz. E que nem valia a pena ir ao local. Naturalmente
revoltado, António correu o risco de ser ele o preso, por dizer que a polícia
só se preocupava com multas.
Maria e Luísa, nomes
fictícios, são enfermeiras de um centro de saúde. Acompanham uma população
envelhecida em domicílios, que conseguem fazer duas vezes por semana à tarde.
Porque não fazem mais? Porque há apenas um carro para vários centros de saúde e
a equipa tem de estar sistematicamente a batalhar para ter acesso à viatura.
Como todos nós, também sabem que proliferam “carros de trabalho” por essa
administração pública fora, para directores, administradores ou apenas vogais.
Não são histórias inventadas. São experiências vividas por
essas pessoas que, sim, têm emprego, poderão até ter tido um bom aumento do seu
poder de compra, nestes anos em que Luís Montenegro é primeiro-ministro. Mas
aquilo que vêem do seu ponto de observação é um país em colapso, onde parece
que se pode roubar sem castigo e onde a hierarquia de valores e prioridades dá
sinais de estar virada do avesso.
Corremos com isto o
risco de validar a mensagem do primeiro-ministro nos 50 anos da festa do
Pontal. Estamos focados em coisas que “correm menos bem” em vez de nos
concentrarmos no que, nas suas palavras, “corre muito bem”. O primeiro-ministro
esquece-se de alguns ensinamentos das experiências ligadas à economia da
felicidade: o ser humano é avesso à perda, valoriza mais o que perde do que o
que ganha.
O que corre muito bem, segundo o primeiro-ministro e
que genericamente os números que apresentou confirmam? O emprego está em máximos históricos,
a inflação está controlada, as contas públicas estão basicamente equilibradas e
a dívida pública a descer, o IRS desceu por quatro vezes e foi criado o IRS
Jovem, o salário mínimo e médio estão a subir assim como tem aumentado o poder
de compra, o Complemento Solidário para Idosos aumentou, há medicamentos
gratuitos para os beneficiários do CSI e a economia pertence ao grupo das que
mais cresce no conjunto do Euro.
Tudo o que o primeiro-ministro disse no Algarve é
factualmente verdade. Mas foram números escolhidos a dedo. Luís Montenegro até
podia ter ido mais longe, dizendo que a economia portuguesa resistiu bem às
tempestades e à guerra com o Irão. Mas o Governo sabe que esses números, que
têm pessoas atrás, não contam toda a realidade económica e financeira do país
Sim, a economia está a crescer, mas estará a
produtividade? Nem isso sabemos com rigor, uma vez que estamos à espera de
números do PIB e do emprego consistentes com o aumento da população.
Aparentemente estamos a crescer por aumento da quantidade de trabalho injectada
na economia – tal como acontece em Espanha – e não por aquilo que é mais
saudável, por via da subida da produtividade.
Temos depois as contas públicas. Sim,
mantêm-se controladas. Mas já olhamos para o detalhe para perceber que esse
equilíbrio se deve ao excedente da Segurança Social que, por sua vez, se deve
ao nível histórico do emprego? Temos de
estar preocupados com o perfil do crescimento e do equilíbrio orçamental. O
mais pequeno abalo no emprego pode transformar este sucesso em pó.
Depois há as escolhas políticas, que
podem ser muito importantes do ponto de vista eleitoral, mas são discutíveis
quanto à sua eficácia, numa lógica de custo benefício. Há dois casos especialmente
importantes. Um é o IRS Jovem que custa mais de mil milhões de
euros, foi criticado por instituições como o FMI e que tem uma eficácia
altamente duvidosa – que, diga-se, não parece suscitar qualquer curiosidade
quanto ao seu efeito. Quantos jovens optaram por ficar em Portugal por causa do IRS
Jovem? Depois temos o caso das medidas na
habitação para jovens. Sabendo bem que correlação não é
causalidade, parece evidente que uma das consequências dessa medida foi aquecer
ainda mais o mercado imobiliário, ou seja, fazer subir mais os preços.
A compra de 13,7% da REN ao dono da Zara é outra opção
discutível e muito difícil de perceber. A REN é altamente
regulada, a sua estratégia de investimento assim como os seus preços dependem
já de decisões do Estado, entre eles o regulador. Ou seja, em termos gerais, a
REN ganha aquilo que o Estado a deixa ganhar. Quanto mais é que o Estado vai mandar
com uma posição minoritária na REN? E vai mandar para fazer o quê que não
pudesse já neste momento concretizar? E assim se terão gastado, de acordo
com as cotações de sexta-feira passada, dia 14 de agosto, 325 milhões de euros.
Um dos argumentos
do primeiro-ministro, no Pontal, é que o Estado pede emprestado a uma taxa mais
baixa do que aquela que vai garantir com o rendimento da participação na REN.
Ou seja, o Governo apresenta como uma vantagem o facto de fazer arbitragem
financeira com crédito – financiando com dívida, que tem encargos fixos, um
activo com resultados variáveis. Foi assim que faliram alguns
accionista do BCP e outros, pequenos, enfrentaram dificuldades, e foi com
tácticas destas que a PT acabou como acabou.
Finalmente temos tudo aquilo que o primeiro-ministro
não disse e que aí pode estar a causa das sondagens lhe estarem a ser menos
favoráveis. E o que não disse? Não nos falou da Saúde. Não nos
falou do que foi o problema dos exames este ano. E não nos falou do estado em
que está a administração da justiça, embora o pudesse fazer mostrando que está
a tomar medidas, nomeadamente no domínio da justiça administrativa. Não
nos falou de segurança, depois de um grave e inédito caso como o que aconteceu
na baixa de Lisboa, com uma turista atingida por uma bala perdida.
Um dos erros dos governos é atirarem-se aos
mensageiros, neste caso aos jornalistas. Jornalismo pode não
ser o que muitas vezes vemos acontecer hoje, mas não é relatar o que corre bem,
porque isso é o que é suposto acontecer. Quem tem a ilusão que é através dos
jornais, das rádios e das televisões que conhece a realidade está enganado.
Jornalismo é expor o que em estatística se chamam os “outliers” ou, como é
comum dizer, a notícia é o homem morder o cão e não o contrário.
Percebe-se que o
primeiro-ministro esteja irritado com os casos que o perseguiram nesta entrada
para o Verão, um deles relacionado com as reformas que está a fazer – na Educação – mas o outro, o
do ministro da Administração Interna, reúne condições para lhe continuar a dar
dores de cabeça. Luís Neves mostrou que considera que os fins justificam os
meios, o que, com as investigações em curso, pode revelar muito mais da
actuação da PJ do que o Governo gostaria.
Em dois anos o Governo ainda não devia estar na fase de se
queixar de ser incompreendido e de os seus sucessos estarem a ser supostamente
censurados. Luís
Montenegro quis convencer-nos que vamos ter, com ele, uma década de
sucesso como foi a de Cavaco Silva (interessante que José Luís Carneiro também
foi ao passado para ir buscar, não Costa, mas Guterres). Mas todo o discurso
no Pontal foi marcado por queixumes de incompreensão que, já vimos muitas
vezes, acontecem em final de ciclo.
Em vez de se queixar e
opinar sobre aquilo que acha que deviam ser as notícias e os comentários, Luís
Montenegro e a sua equipa faziam melhor em tentar compreender porque é que todo
este descontentamento acontece e se reflecte na comunicação social, apesar dos bons números da economia.
E aquilo que aconteceu às ovelhas de António, aquilo com que batalham as
enfermeiras do centro de saúde, assim como tudo o que temos visto nos últimos
tempos de colapso no funcionamento do Estado podem ser boas pistas para
reflectir. Em vez de se queixar.
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