Pareceres vários do tal “roseau
humain” a respeito deste Mundo Humano, imperfeito, é claro, tantas vezes
trágico, mas, afinal, extraordinário sempre!
Entre o recolher dos estilhaços da reforma laboral e
os avanços e recuos sobre a hipótese de paz no Golfo, o grande tema da semana
esteve em Espanha.
CARLOS MARIA BOBONE: Pontos de Vista
Fotografia de CARLOS MARIA BOBONE
Nuno Gonçalo Poças bem explicou a Fabian de Figueiredo que nem toda a riqueza vem da espoliação
dos outros, mas a explicação não parece ter convencido os socialistas
dos dois lados da Península Ibérica.
Na semana passada,
perguntámos nesta newsletter ao Jorge Fernandes quais eram as semelhanças entre o caso de Sócrates e o de Zapatero; esta semana, José Manuel Fernandes
explica-as bem, e mostra porque é que o caso espanhol pode ser ainda pior do
que o português.
Rui Ramos também escreveu sobre o assunto, num texto que mostra
que a corrupção nunca pode ser um acto isolado. Só
é possível num contexto que a incentiva ou, pelo menos, não desencoraja.
No meio do texto, há uma passagem que nos chamou a atenção. Rui Ramos diz que os Partidos são meios competitivos,
com várias pessoas em disputa pelo poder. Faz sentido, sobretudo dentro de uma
lógica que olha para a competição como um modo próprio da natureza do homem. Isto, no entanto, levou-nos a
perguntar: o que é que há de especial nos partidos para que neles
essa competição não funcione como um meio para prevenir contra a corrupção?
De onde vem o beneplácito e a indiferença, quando as acusações de
corrupção seriam armas fáceis que os inimigos internos podiam arremessar contra
quem está no poder?
Rui Ramos respondeu que “A tolerância da corrupção nos
meios partidários talvez se possa explicar pela percepção de que “facilitar”
negócios é, independentemente das contrapartidas pessoais, uma forma de alargar
influência e exercer poder. É esse o perigo maior: quando a corrupção se torna parte
natural da política. De qualquer modo, também é provável que
algumas investigações criminais tenham começado a partir de pistas dadas por
rivais dos visados”.
Fizemos também uma pergunta
a José António
Rodrigues do Carmo, que dissecou o acordo de Obama com o
Irão e fez dele uma leitura muito crítica. Fizemos-lhe a pergunta
clássica para casos destes: se o acordo é tão mau como ele o pinta, o que é que levou a
que fosse feito. Incompetência? Ignorância? Ingenuidade no trato com os
iranianos? Cegueira ideológica?
José António Rodrigues do Carmo respondeu: “Não
creio que tenha sido medo, inépcia ou intenção. Foi sobretudo uma escolha
estratégica de controlo temporário de danos em vez de uma solução final.
No fundo, uma preferência para gerir o risco, em vez
de o eliminar, adiar a crise em vez de a enfrentar. Um acordo imperfeito, em
vez de uma confrontação sem garantia de sucesso.
Há alguma racionalidade nisso, mas também uma mistura
de realismo, ilusão, cálculo político e aversão à guerra.
Contudo, em política internacional,
comprar tempo só é
uma boa estratégia quando se sabe o que fazer com ele. Caso contrário, é apenas pagar juros
ao problema até ele regressar maior, mais rico e mais insolente”.
Por fim, fizemos ainda uma
pergunta a Patrícia
Fernandes, que a propósito dos recentes furtos em grandes cadeias
explicou, a partir da História contemporânea e dos exemplos
internacionais análogos, o alcance e os problemas deste tipo de
protesto, a que habitualmente se chama “micro-looting”. A pergunta (e a resposta) foram
um pouco mais filosóficas, porque têm que ver com a natureza da crítica de Patrícia
Fernandes ao fenómeno. Perguntámos-lhe:
Um dos pontos importantes no
texto é a questão do plano
inclinado – é difícil aceitar que podemos roubar algumas
coisas por razões políticas, sem cair depois numa justificação do roubo de
coisas maiores, por exemplo. O problema com este argumento é que nega
a importância do “micro” como categoria, como se a quantidade não fosse um
valor político. Ou seja, a política não se faz apenas de princípios – isso é a ideia abstracta da esquerda;
o princípio em
matar uma mosca e matar uma manada de elefantes pode ser o mesmo, mas não é a
mesma coisa. Dessa forma, o microlooting não pode ser
defensável?
Patrícia Fernandes respondeu: “De
acordo com as Filosofias da Razão, os seres humanos agiriam sempre segundo princípios
éticos, mas essa visão parece-me longe da realidade: nós não funcionamos assim e tendemos
a violar constantemente regras pequenas que nos parecem injustas.
São aqueles exemplos iniciais que a jornalista dá: quem nunca partilhou a pass da
netflix? E quem é que nunca usou aqueles sites que
desbloqueiam os artigos de jornal para não pagar uma subscrição de 40e?
Ou quem é que nunca registou nas caixas de continente um pão que pesa o
mesmo mas custa metade do preço? Somos bastante flexíveis, sobretudo se
tivermos a certeza que ninguém está a ver ou que que as pessoas não vão julgar.
Por isso, acredito que a maioria das pessoas acha o microlooting aceitável em
certas condições – não tenho ilusões quanto à natureza humana. O que sobra
é chamar a atenção para o plano inclinado e tentar convencer as pessoas dos
possíveis efeitos negativos (é a disputa filosofia pragmatista vs. filosofias da razão)”.
A
Figura
Podia, claro, ser Sánchez, podia até ser António José Seguro, sobre
quem Helena
Garrido escreveu, mas desta vez apanhámos um pouco as ideias. Foi a semana em que saiu a primeira
encíclica do Papa Leão XIV, e a opinião do Observador
desdobrou-se em textos sobre o assunto. PEDRO LOMBA, ANDRÉ
AZEVEDO ALVES, BRUNO CARDOSO REIS, O PADRE JOÃO BASTO – todos escreveram sobre a encíclica,
numa colecção notável de perspectivas.
Fotografia
do Colunista
Jaime
Nogueira Pinto
O 28 de
Maio de há um século
Indiferentes à agonia de
uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas trabalhadoras
acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da Revolução de
Maio.
Fotografia do Colunista
Helena
Matos
O
activismo de bordo
Portugal tem uma política diferente da espanhola em
relação às Lajes e a Israel pela mesma razão que teve uma política diferente da
francesa em relação à ETA. A razão chama-se interesse nacional.
Fotografia do Colunista
Miguel Morgado
Zapatero:
Um cínico manipulador das partes sensíveis da alma da
esquerda política que operou para, sem qualquer escrúpulo, e arrastando consigo
para o fundo as instituições e o Estado de Direito, enriquecer.
Fotografia do Colunista
CARLOS MARIA BOBONE
ISABEL MOREIRA, a censurada
A quantidade de gente que
prefere achar que não é publicada porque incomoda alguém poderoso, ou é
demasiado acutilante, é extraordinária.
Papa Leão
XIV
"Mais do que a promessa
de capacidades extraordinárias ou mesmo de novos estádios da evolução humana,
arrisco dizer que para o imaginário colectivo das sociedades
contemporâneas é a possibilidade colocada no horizonte de remover todo o
sofrimento e perda que gera efectivamente um apelo mais tentador.
"
André
Azevedo Alves
sobre o problema
fundamental da encíclica, que justifica que um Papa se debruce sobre a Inteligência
Artificial
"Leão XIV coloca a irrepetibilidade da pessoa – na
sua identidade, fragilidade, imperfectibilidade – no centro da sua resposta à
inteligência artificial. Para o Papa, há domínios da vida
humana em que a delegação às máquinas é simplesmente inadmissível, qualquer que
seja o nível de precisão do sistema. Magnífica humanidade, perfeita desumanidade.
"
Pedro
Lomba
a explicar de que modo Leão XIV tenta, pela via
teológica, recuperar a ideia da consciência como fundamento da dignidade humana
"Para o Cristianismo a fragilidade não é um erro que
deve ser corrigido; a plenitude coexiste com a falha. “Para
suprimir totalmente a dor, seria necessário, no fundo, extinguir também o amor
e o desejo”, diz o Papa. "
PE. JOÃO
BASTO
a propósito das relações entre o Cristianismo e a
Civilização Ocidental, e sobre o papel que o Cristianismo pode ter na sua
salvação
A não
perder
1 O
professor chanfrado
Quem sabe, faz; quem não
sabe, ensina? Eis uma boa definição do ideólogo mais proeminente nas escolas
contemporâneas – e ainda por cima, em Português.
2 O
turista é um colonizador
A descolonização do
turismo não deixa de ser também a nova face do turismo religioso. Mas é um
turismo religioso secularizado. Pode não ter capelas mas não prescinde dos
grandes objectivos do peregrino
3 Nem
boa física, nem boa química
Doping tomado sob
supervisão médica? Droga com segurança? Responsabilidade? Parece aquelas orgias
modernas em que há aconselhamento psicológico.
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