A um Centenário - DAVID ATTENBOROUGH - a quem a INTERNET e os espectadores
desta devem tantos espectáculos sobre a VIDA ANIMAL.
Notícia da INTERNET, para melhor entendimento do texto a
seguir, sobre o célebre naturalista:
«David Frederick Attenborough OM, CH, CVO, CBE, FRS, FZS,
SAL é um naturalista britânico. A sua carreira representa a voz e a face dos
programas sobre história natural nos últimos sessenta anos. Os seus inúmeros
trabalhos foram feitos para a rede britânica de televisão BBC, da qual foi director
de 1965 a 1972.» Wikipédia
David Attenborough: 100 anos da espécie mais rara da
televisão
O rei dos documentários sobre a Natureza
ganhou todos os prémios, tem 50 plantas e animais com o seu nome e criou um
modelo insuperável. O que seria de nós sem este explorador?
SUSANA ROMANA: Texto
OBSERVADOR, 08 mai. 2026, 07:22
Todos temos um avô-cadeirão. Não tem de
ser literalmente nosso avô: pode ser um tio, um compadre de não sei quem, um
senhor que casou com alguém da nossa família de sangue e com quem não temos por
hábito falar mais do que 30 segundos, parcamente divididos entre cumprimentos e
despedidas. As características da espécie mamífera avô-cadeirão são
claras: é geralmente um tipo mais velho, de poucas palavras, que se
funde com um dos sofás da sala como se fossem um ser uno e indivisível, para
ver televisão. Mas há um momento em que conseguimos sentir uma comunhão
com ele, construir um ponto de convergência que permite conversas e afinidades:
quando, a fazer tempo para a uma da tarde de um domingo de almoço de família,
nos sentamos juntos na sala a ver um documentário sobre animais. O
avô-cadeirão pode não saber onde trabalhamos ou que idade temos, mas saberá que
o dragão‑de‑Komodo é capaz de comer 80% do próprio peso
e que a época de acasalamento acontece entre
maio e agosto.
O responsável pela
popularidade geracional deste tipo de documentários tem um nome: David Attenborough. Sir David Attenborough, como
tão bem os britânicos gostam de reforçar. O pedestal no qual o colocam é de
tal modo superior que, quando na Eurovisão que se realizou em Lisboa em
2018, um dos sketches tinha Herman José a fazer as vezes do prestigiado
naturalista — e os bifes passaram-se. O tabloide britânico Daily
Express escreveu mesmo que os “fãs” consideraram “ofensivo” que Attenborough
tenha sido “ridicularizado” durante a emissão. É que o
agora centenário (número redondo completado esta sexta-feira, dia 8 de maio) é
uma raridade de consenso num Reino Unido que de unido só vai tendo o nome.
Uma sondagem do início do ano para o podcast The Rest Is Entertainment
concluiu que 44 por cento dos inquiridos o considera o maior tesouro nacional do país,
destacado
da concorrência de actores, músicos e futebolistas (“national treasure”
é o rótulo britânico dado a uma figura pública amplamente amada, vista como
parte inegável do património emocional do país).
▲ A única
maneira de não discutir no tal almoço de domingo para o qual estávamos a fazer tempo é mesmo
elogiando o rei dos documentários
sobre vida selvagem
PA Images via Getty Images
Esta vitória de
Attenborough é em toda a linha, já que a sondagem mostra que é a primeira
escolha seja qual for a idade, região ou inclinação partidária dos
entrevistados. Lá está, a única maneira de não discutir no tal almoço de
domingo para o qual estávamos a fazer tempo é mesmo elogiando o rei dos
documentários sobre vida selvagem.
Ver este tipo de programas
pode encaixar no chamado virtue signaling, o acto de exibir publicamente
uma opinião ou gesto moral, sobretudo para parecer virtuoso. É
que, por um lado, estamos a ver algo de didáctico, a mostrar que
podemos evidenciar-nos como alguém que não embarca na estupidificação
latente de outro tipo de conteúdos (mesmo que, secretamente,
saibamos perfeitamente quem é a Ariana da Casa dos Segredos). E por outro, mostramos como nos
ralamos com o planeta. Caramba, estamos a ver um documentário
sobre a importância dos oceanos, a aprender tudo sobre as baleias‑jubarte
e como as proteger. De certeza que isso nos garante mais uns tempos a usar
palhinhas de plástico sem
sentimento de culpa.
Lisboa
Tóquio12
ANOS
Esse talvez seja até o
grande falhanço da carreira de David Attenborough — um falhanço que é nosso,
claro. Cem anos
(não os cem na totalidade, mas boa parte deles, vá) a explicar-nos a importância de
defender o meio ambiente para os resultados não serem particularmente
animadores. Várias das espécies que o naturalista
acompanhou (tem tantas décadas de carreira que é a única pessoa a
ganhar BAFTAs, o galardão mais importante do Reino Unido, por programas a preto
e branco, a cores, em HD e em 3D) já se extinguiram e não foi o constantemente
hiperbolizado poder da televisão a salvá-los. O britânico fez-nos achar que íamos
proteger a natureza (“Se cuidarmos da natureza, a natureza cuidará de nós.”)
— mas nem a nós
próprios nos sabemos proteger, que fará uma savana recôndita.
Attenborough tem
mais de 50 plantas e animais com o seu nome, incluindo a Nepenthes
attenboroughii, uma planta carnívora gigante capaz de devorar animais do
tamanho de um rato — e esse legado terá de chegar.
David Attenborough with orang utan and her baby at London Zoo
Para um português, a voz pausada e de sotaque distinto do
londrino tem uma competição feroz no nosso imaginário. Ao
contrário de um inglês, nós associamos o BBC Vida Selvagem à voz do locutor Eduardo Rêgo, ainda
no activo e simultaneamente fundador da Loving The Planet, uma
plataforma de comunicação que reúne e mobiliza agentes empenhados na construção
de um mundo mais sustentável. Mas em qualquer um dos casos, a
narração de um documentário sobre vida animal faz parte de um tipo de televisão
feita para nos envolver e relaxar, quase uma espécie de ASMR antes do tempo
(para quem não está cronicamente online como eu: ASMR é a sigla para
Autonomous Sensory Meridian Response — em português, Resposta Sensorial
Meridiana Autónoma — e é uma sensação de relaxamento desencadeada por sons
suaves ou repetitivos, com criadores próprios nas redes sociais). A narração de programas da Natureza,
tal como Attenborough a cunhou e o mundo imita, é pausada, explicativa,
deixando espaço para ser o animal a brilhar. No fundo, é o oposto de um relato
de futebol, rápido e emotivo.
Ora isto faz de Sir David um bastião
cada vez mais raro da chamada slow TV. Numa altura sôfrega em que vivemos
com o fantasma insistente de não ter tempo para nada, ver um documentário da
vida animal ainda constitui uma pausa — e, muitas vezes, o tal momento de
comunhão. É televisão que se pode ver sozinho, mas é muito
mais televisão geracional, que ganha em ser vista por várias pessoas ao mesmo
tempo, comentando factoides que provavelmente esquecerão pouco depois. A
qualidade das filmagens é de excelência, mas o resto é a supremacia da
simplicidade, do texto factual, da música suave entre a orquestra e o elevador,
da paisagem que se pode demorar sem irmos a correr procurar o comando.
Uma das vertentes
pós-televisivas dos programas da BBC Vida Selvagem (afinal, há cada vez menos
pessoas a verem televisão clássica) foi a passagem para evento ao
vivo, com o tal caráter familiar, facilmente instagramável e com o placebo de
“até é didáctico para os miúdos”. Fui a uma delas, numa visita a Londres em 2024. Num
barracão em Earls Court ocorria o BBC Earth Experience, descrito como “imagens
de cortar a respiração da premiada série da BBC Seven Worlds, One Planet,
projectadas com tecnologia de ecrã digital e acompanhadas por uma narração
exclusiva do mundialmente famoso Sir David Attenborough”. Na
prática? Pagar quase 35 euros por cabeça para ir ver projecções em
paredes brancas com demasiadas pessoas à frente e ter de andar à bulha por um
puffe daqueles tipo saca-de-esferovite para ficar esticada a ver vídeos de
pinguins bebés.
▲
Quando conseguiu o primeiro trabalho em televisão nem
sequer tinha o aparelho em casa. Chegou ao século de
vida tornando-se sinónimo de um tipo de televisão que, porventura, um dia morre com ele.
Os 100 anos de vida de Sir
David Attenborough foram pouco ou nada povoados por polémicas, sejam elas
pessoais ou profissionais. Com uma notável excepção: a veracidade das
imagens. Como guionista, conheço bem a chatice de quando a realidade
atrapalha uma boa história. Para um documentário de vida animal resultar, tem de ter, na
verdade, características semelhantes a uma telenovela: vilões e heróis claros,
cenas de clímax que fechem um arco narrativo, momentos de castigo ou redenção.
E isto raramente é possível apontando simplesmente uma câmara e esperando
dias a fio, agigantando os custos. Por isso, é uma regra não dita deste tipo de
programa que se pode falsear.
Ao longo dos anos, vários
casos de documentários de Attenborough acabaram por ser denunciados. Em
1997, uma sequência com uma ursa e as respectivas crias foi filmada num jardim
zoológico na Bélgica, sem que isso fosse de todo claro para o espectador.
Em 2021, a BBC foi obrigada a admitir que cenas com uma ursa‑polar
e as suas crias em Frozen Planet tinham sido filmadas num jardim zoológico nos Países
Baixos e não no Árctico. No mesmo ano, a série Human Planet mostrou um jovem camelo a ser morto por um
lobo, mas mais tarde veio a saber‑se que, como os cineastas não conseguiram encontrar um lobo selvagem, usaram um animal semi‑domesticado
levado para o local com uma trela. E Doug Allan, conceituado cameraman de vida
selvagem que trabalhou muito com Attenborough, revelou que a maioria das sequências envolvendo pequenos mamíferos era filmada em ambientes controlados e afirmou que o público “não se importava”.
David Attenborough, o homem que
quando conseguiu o primeiro trabalho em televisão nem sequer tinha o aparelho
em casa (como a maioria dos britânicos da época), chegou ao
século de vida tornando-se sinónimo de um tipo de televisão que, porventura, um
dia morre com ele. A caixinha mágica talvez tenha mais em comum com
as espécies animais: nasce, cresce, reproduz-se e morre.
NATUREZA AMBIENTE CIÊNCIA DOCUMENTÁRIOS CINEMA CULTURA
COMENTÁRIOS:
Boris Pasternak: Uma verdadeira lenda viva. Faltou
explicar que Sir David foi também director-geral da BBC2 durante anos
decisivos, quando este canal passou a transmitir a cores. Por causa dele, as
bolas de ténis são amarelas (para se verem melhor na televisão, durante
Wimbledon). Facto não menos importante: foi ele que encomendou e colocou na
grelha outro programa lendário: Monty Python Flying Circus. Uma loucura
à época.
Hugo Fraga: televisão de qualidade... os seus programas quando
jovem eram bem mais educativos mas continua a ter uma voz e presença sem igual.
GateKeeper: Congrats, David.
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