Se serão vencidos - daninhos e espertos que são. Salazar sabia-o.
A parada dos vencidos
A parada da vitória devia
mostrar uma Rússia invencível. Mostrou uma Rússia encolhida. Devia celebrar
poder. Celebrou medo
JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel
"Comando"
OBSERVADOR, 11 mai. 2026, 00:22
Durante anos, o desfile do Dia da
Vitória foi a maquilhagem de gala do putinismo. Na Praça Vermelha, entre carros de combate,
mísseis, generais emproados e convidados estrangeiros em pose impressionada,
Moscovo encenou a velha ilusão imperial: a Rússia eterna, invencível, temida,
indispensável. Uma sessão anual de ilusionismo
político, com banda militar, bandeiras vermelhas e saudades de Estaline
travestidas de comemoração histórica.
Este ano, porém, a maquilhagem
falhou.
Houve desfile, houve soldados, houve discurso, houve a habitual prosódia
soviética aquecida no microondas. Mas faltou a convicção. E quando a convicção
desaparece, o espectáculo passa a ser apenas confissão. Putin
apareceu para proclamar, como sempre, que a Rússia vencerá. O problema é que já
ninguém consegue perceber exactamente onde,
como, quando ou em
quê. Chamou
heróis aos homens enviados para morrer na Ucrânia, acusou a NATO de agressão e
repetiu o catálogo inteiro da vitimização imperial. O costume. Invade-se um
país, arrasam-se cidades, deportam-se crianças, anexam-se territórios e, no
fim, protesta-se contra a hostilidade do mundo. É a velha escola russa de
partir a janela do vizinho e queixar-se das correntes de ar.
Desta vez a encenação decorreu sob a
sombra da Ucrânia. A
internet foi restringida, a segurança multiplicada, o aparato reduzido ao
mínimo que permitisse fugir depressa da Praca. A Rússia
que prometeu tomar Kyev em três dias mobilizou-se para impedir que drones
ucranianos estragassem a liturgia sagrada da Praça Vermelha. O país que, segundo a propaganda do Kremlin, nem sequer
existe, tornou-se suficientemente real para condicionar a festa maior do
regime. Há ironias que dispensam comentário,
embora o Kremlin continue a fornecê-lo em excesso.
Putin não podia cancelar o desfile.
Seria admitir fraqueza. Mas realizá-lo assim, com o favor de Trump, foi admitir
que a fraqueza já não se consegue disfarçar. Um império que esconde os blindados no dia em que os queria exibir
já explicou mais do que pretendia. Um poder que teme ataques na capital durante
a sua celebração fundadora já não projecta força, apenas gere sobressaltos. A Rússia longe de aparecer como superpotência
ofendida, apareceu como regime nervoso. E regimes nervosos são
perigosos, mas raramente são grandes.
A tragédia estratégica de Putin é
quase perfeita na sua simetria. Quis impedir a Ucrânia de se tornar uma nação ocidental e
transformou-a numa das sociedades militares mais inovadoras do mundo. Quis dividir a Europa e conseguiu acordá-la do seu
pacifismo sonolento. Quis afastar a NATO das fronteiras
russas e ofereceu-lhe novos membros, nova razão de ser e nova urgência. Quis
restaurar o império e acabou por entregar a Rússia, com desconto e recibo, à
China. É uma lista de sucessos que faria corar de
vergonha um sabotador mediano.
Naturalmente, a Rússia continua
perigosa. Tem armas nucleares, profundidade
territorial, serviços secretos, recursos naturais, capacidade de destruição e
uma espantosa tolerância histórica ao sofrimento dos seus próprios cidadãos. Mas isso não é grandeza, é apenas
patologia com mísseis. O país que Putin vende como
alternativa civilizacional é,
apenas uma potência extractiva, repressiva e envelhecida. Tem
petróleo, polícia, oligarcas, propaganda, medo e cemitérios em expansão.
A economia
russa não colapsa como nos filmes, com música
dramática e uma explosão final. Colapsa
à maneira russa: lentamente, entre comunicados
optimistas, estatísticas marteladas, regiões abandonadas, inflação maquilhada,
empresas estranguladas, reservas gastas e mães a receber filhos em caixões. O
regime pode prender manifestantes, calar jornalistas, manipular tribunais e
falsificar eleições. Não pode, porém, prender a aritmética,
a única forma de oposição que não se rala com autocratas.
No campo de batalha, Moscovo paga quilómetros com homens. Avança
por saturação, perde por desgaste, conquista ruínas e reivindica vitórias. O Kremlin
mede sucesso em metros; a Ucrânia mede sobrevivência em adaptação. A guerra tornou-se um laboratório brutal de drones,
sensores, guerra electrónica, robótica e comando distribuído. Enquanto
Moscovo recicla mitos imperiais, Kyiv transforma tecnologia civil em capacidade
militar. De um lado, monumentos. Do outro, inovação. De um lado, generais que
ainda sonham com Kursk. Do outro, operadores de drones que mudam a guerra com
peças compradas online ou feitas em impressoras.
E depois há a dependência chinesa,
talvez a mais humilhante das derrotas de Putin. O homem que prometeu devolver à Rússia a grandeza histórica está a
colocá-la numa posição de kowtow perante Pequim. Vende energia mais barata, compra produtos mais caros,
aceita condições piores e chama a isso parceria estratégica. A China não
precisa de conquistar a Rússia. Basta esperar. Moscovo encarrega-se de
entregar, contrato a contrato, factura a factura, aquilo que já não consegue
sustentar sozinha.
Os russos sabem menos do que deveriam, mas sentem mais do que o Kremlin
gostaria. Sentem a guerra nos mortos, nos
feridos, nos salários corroídos, nos filhos mobilizados, nas transferências
bloqueadas, nas empresas fechadas, nos boatos que substituem as notícias. A propaganda funciona enquanto a
realidade bate à porta dos outros. Quando começa a bater à nossa, perde forças.
E há sempre um momento em que a televisão estatal deixa de conseguir explicar o
frigorífico vazio.
A História russa tem, além disso, uma
premonição desagradável para os seus czares: as derrotas militares raramente
ficam no estrangeiro. Regressam a casa. Regressaram depois
da guerra russo-japonesa. Regressaram em 1917. Regressaram do Afeganistão e
foram necessários novos czares. Uma guerra lançada para provar grandeza transforma-se, de em prova
de incompetência. E, nessa
altura, os mesmos que batiam palmas na tribuna descobrem que sempre tiveram
reservas. A
cobardia política também tem excelente memória retrospectiva.
Putin ainda pode prolongar a guerra.
Pode matar mais ucranianos e mais russos. Pode destruir mais cidades, ameaçar
com armas nucleares, prender opositores, inventar inimigos, convocar mais
desfiles e mandar Dmitri Medvedev abrir outra garrafa de vodka antes de
anunciar o Apocalipse no Telegram pela enésima vez. Pode fazer tudo isso. O que já não consegue é convencer de que está a
vencer.
A parada da vitória devia mostrar uma Rússia invencível. Mostrou uma
Rússia encolhida. Devia celebrar poder. Celebrou medo. Devia projectar império.
Projectou isolamento. No fim, Putin ficou na Praça Vermelha
rodeado de bandeiras, soldados norte-coreanos, câmaras e mentiras, cada vez
mais só perante a única força que nunca conseguiu bombardear: a realidade.
E
a realidade, ao contrário dos generais russos, não desfila. Avança. Não pede
licença, não presta continência, não aparece em uniforme de gala. Chega sem
música, sem coreografia e sem autorização do Kremlin. Este ano,
chegou ao ponto de obrigar o czar, que tantas vezes caminhou a pé para depositar
flores no monumento ao soldado desconhecido, a recolher-se atrás da blindagem
de um carro. Há imagens que valem por epitáfios políticos. Esta é uma delas.
COMENTÁRIOS
Jorge Barbosa: Excelente artigo (aliás como sempre). Num
ambiente tão conspurcado pelo sectarismo político partidário como é o do
comentário da guerra na Europa, é extremamente agradável "ouvir" uma
análise inteligente e racional da situação da guerra na Ucrânia , e no caso em
apreço da real situação do país invasor sob o tirânico e assassino regime
putinesco agora na tentativa de recuperação da velha hegemonia perdida. Muito
obrigado ao Senhor Coronel por manter esta sua voz quase solitária neste nosso
infeliz país ainda sob o domínio do politicamente correcto.
José Paulo: O que impressiona em termos comentariado sempre pronto é desde sempre o tapar Sol com
peneira. E não percebo por que nas TVs temos de ser alvejados com tiros ao
nosso bom discernimento. Um tal Agostinho militar é o exemplo entre outros...
dá vómitos ouvir aquela criatura...
Fátima Januário: Uma apresentação da realidade muito bem
identificada e fundamentada. O seu colega militar, Agostinho Costa, deveria ser
obrigado a ler o seu artigo. Muito grata pela sua contribuição e que a mesma
seja estudada pelos loucos e pelos cegos que em loop apostaram em destruir a
paz, por recurso ao medo atómico, que estava enraizada na nossa memória
colectiva.
João Floriano: Excelente, como é hábito. Rússia e Irão, duas
verdadeiras ameaças para o mundo.
Vitor Batista: Excelente crónica como sempre, mas esta é
demasiado certeira a retratar a realidade que se viveu na praça vermelha. Há quatro anos, quando a escória russa disse
que iria tomar Kiev em três dias, nunca teriam pensado que a Ucrãnia mais
tarde, teria capacidade para os atacar nessa mesma praça. E além disso, as refinarias russas, a arder, são
a mostra do colapso evidente e da fanfarronice de Putin, e é isso que o torna
perigoso, porque o uso de meios altamente destrutivos pode acontecer a qualquer
momento, fazem parte da perversidade deste regime comandado por este personagem
do diabo, traidor do seu próprio povo.
A FJ: "E há sempre um momento em que a
televisão estatal deixa de conseguir explicar o frigorífico vazio." 👌
Zita Silva: O coronel que poderia ser escritor bem-sucedido.
Divirto-me a imaginar a azia do General Agostinho Silva, o fervoroso admirador
da grande Rússia, ao ler esse artigo tão inspirado. Os últimos acontecimentos e
notícias dão-nos esperança de chegarmos a ver pelo menos esse híper narcisista,
megalómano, cruel e patético Putin, derrotado e desprezado por seu povo. Com o
outro Narciso, Trump, que se baba pelo strong man russo, a assistir. Aterrador
como há sempre multidões infantilizadas e alienadas a eleger, apoiar e
reverenciar tais figuras. E toda a humanidade paga.
António Duarte > Zita Silva: Eu deixei de ouvir há anos!
Maria Tubucci: Muito bem Sr. Coronel. Não há ninguém com
coragem para dizer ao Putin que ele já perdeu a guerra, perdão, a operação
especial na Ucrânia. Observando nas imagens as caras das pessoas que assistiram
a esta comemoração, rostos fechados e sem expressão, que revelavam
uma alegria gélida e glacial. Foi uma comemoração que mais parecia o funeral da
Rússia …
S N: Análise excepcional e certeira sobre Putin e
a Rússia: uma lástima, mas perigosa.
Fátima Januário > Josel Paulo
: Não
entendo é como a CNN mantém semelhante viés a entrar pelo ecrã dentro a tentar
“vender” o que todos já vimos, estar podre. AS é, sem dúvida, um activo
pró-Putin. Este senhor é um cego
conduzido por um louco (Putin).
Antonio Almeida: O problema é que demora em cair, ainda vai
matar muitos ucranianos inocentes. Os russos também vão morrer mas não são
inocentes, sempre apoiaram o tirano e ainda o defendem🫣
Ruço Cascais > Vitor Batista: Num mundo digital, a tecnologia tende a
superar a força bruta. Os ucranianos, com ajuda, obviamente, dispensaram os tão
desejados F-16 e começaram eles próprios a fabricar drones que, provavelmente, são mais úteis para
combater os russos e incomparavelmente mais baratos que os caças.
Ruço Cascais: 5 estrelas. Aqui vai mais uma estrela para fazer 6 estrelas; os atentados. Poderá um
dia Putin ver a sanita ir pelos ares quando estiver a arrear o calhau? Sim, e a sanita tanto pode ser armadilhada
pelos ucranianos como pelos próprios russos já cansados de Putin. É esta a razão por que Putin está a obrar agora
num penico, num penico de ouro. Os esgotos podem estar armadilhados com a
última tecnologia ucraniana. A ideia de um micro-drone ser introduzido numa
caixa de esgoto exterior e ser conduzido pelas tubagens até ao trono onde se
senta Putin com as calças baixadas começa a ser real. A nanotecnologia na
robótica de guerra é cada vez menos ficção. Uma abelha pode ser um robot à
espera de apanhar Putin distraído de boca aberta. É também por isso que Putin
dorme agora protegido por uma rede mosquiteira. Brincadeiras à parte, a
nanotecnologia é uma realidade e não tardará muito para estar ao serviço da
indústria militar. A energia para uma libelinha robótica voar é mínima e as
nano baterias solares já são uma realidade. Uma libelinha robótica pode espiar
mas também pode matar se vier carregada com uma dose de cianeto. Dentro de
alguns anos, todo o exército de uma nação caberá dentro de um armazém não
contando com os operadores. Um ataque a uma cidade já não será feito com o
bombardeamento dos F-35, mas sim por um enxame de milhões de micro drones
carregados de vírus. A parada militar de Putin no Dia da Vitória é a
maior demonstração do atraso tecnológico russo em equipamento de guerra. Os
grandes mísseis que mostra ao mundo não são nada mais do que o equivalente às
grande mocas que os homens pré-históricos carregavam habitualmente às costas
para intimidaram inimigos e mulheres para o coito. A grande aposta para o
rearmamento da Europa não está em produzir porta-aviões mas sim em tecnologia
de ponta, designadamente em robótica e nanotecnologia. Putin será vencido pelo
atraso na economia e no desenvolvimento científico da Rússia provocado pelo
próprio.
helder carvalho: Mais
uma vez excelente análise da situação em que a Rússia se encontra. Antes, no 9
de Maio, a Rússia tentava iludir-nos, convencer-nos que era um elefante de
porcelana, de grande qualidade. Este ano caiu-lhes a máscara, não passa de um
elefante de barro de fraca qualidade.
Zita Silva > Josél Paulo: Nem consigo ouvi-lo até o final o ridículos
comentários daquele homem. Mudo de canal para não vomitar. Ha mais de 4 anos a
anunciar a iminente vitoria total da Russia. Um dos que deve ter em seu quarto
aquela fotografia do Putin a cavalo, em tronco nu. Trump deve tê-la num álbum
de recortes dos nice strong men que admira.
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