Guardado está o bocado para quem o há-de comer.
25 de
Abril sempre? De modo nenhum
Faz falta uma perspectiva
una e normalizadora sobre um evento que transformou totalmente Portugal.
YANN LOÏC ARAÚJO, Historiador e Politólogo
OBSERVADOR, 02 mai. 2026, 00:02
Ao começar este texto torna-se
necessário desde logo esclarecer três pontos: primeiro, nasci nos pós-25 de
Abril de 1974, na democracia da III República, num regime democrático e
integrado num projecto federalista Europeu; depois, fui criado no
seio de uma família e de um ambiente social que, ou sofreu com as mudanças
provocadas pelo 25 de Abril ou – como a maioria dos Portugueses – vivia
pacificamente a ordem da II República sem exigir a sua morte por meios
revolucionários; por fim, muito foi dito, escrito, pensado,
pintado, cantado…partido e repartido sobre o 25 de Abril, ficando os vencedores
da história com a melhor parte, como é natural. Faz falta uma perspectiva una e
normalizadora sobre um evento que transformou totalmente Portugal.
Quais os meus objectivos
deste curto texto e de o publicar perto do 25 de Abril e o 1º de Maio de 2026?
São três, também, na verdade, procurando colocar a questão numa
perspectiva o mais objectiva e imparcial possível, fazendo uso de metodologia
unanimemente aceite, das esquerdas às direitas.
O primeiro exercício que
proponho é um de contraposição face a um bom exemplo, dado que o Estado Novo vigorou entre 11 de abril de 1933 e o 25 de Abril
de 1974 inserido numa realidade europeia, atlântica, mundial com que se
relacionou profundamente. De acordo com a presente e maioritária
vox populi, vivemos em ditadura durante o Estado Novo, que reprimiu, perseguiu
e castrou, manteve o país e o povo Português na pobreza, conduzindo-o para uma
guerra injusta de 14 anos por territórios a cuja defesa da soberania não tinha
direito. Ignorando a tese de que há um Estado Novo antes e
depois da IIª Guerra Mundial, se tomarmos o exemplo de França – bastião de
democracia onde foram produzidas várias lições bebidas por intelectuais e
políticos Portugueses – poderemos encontrar vários paralelos das suas 4ª e 5ª
Repúblicas com a nossa IIª. Além de ser uma nação imperial que
se bateu contra movimentos independentistas, com técnicas antiterroristas
(utilizando até a guerra química e a nuclear) no Rif marroquino,
nos seus territórios da Indochina e da Argélia (apenas no século XX) França
enviou centenas de milhares de presos políticos para várias prisões políticas
ultramarinas, fuzilando e decapitando condenados até bem tarde no século XX.
De referir, no que aos direitos humanos diz respeito, que até
1944 as mulheres não podiam votar e, até, 1965, as senhoras não podiam abrir
uma conta num banco sem autorização do marido. A enumeração
de atropelos a modernas garantias não cabe neste texto, mas faria objectivamente
do Estado Novo, por comparação, um regime brando e leniente, paradoxalmente até
na burocracia. Refira-se finalmente, neste exercício
comparativo, que o período dos Trinta Gloriosos com De Gaulle, teve
no Portugal do pós-Guerra e do Plano Marshall o seu espelho com a Época de Ouro
da economia nacional com o PIB a crescer a uma taxa média de 7,5% ao ano entre
as décadas de 1960 e 1970 em virtude dos planos de fomento e da abertura
económico-industrial que a adesão à OCDE, ao GATT e à EFTA proporcionaram.
O segundo exercício é o
da contextualização
internacional, dado que Portugal foi membro fundador da NATO e,
lembremo-nos, Agostinho Lourenço foi o primeiro director da Polícia de
Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) entre 1945 e 1956, saindo dessa posição
para abraçar a de vice-director da INTERPOL, assim se reconhecendo internacionalmente a
qualidade da intelligence nacional no pós-Guerra. Portugal participaria
activamente na guerra fria, combatendo no seu território a acção de células socialistas,
anarquistas e comunistas, estas últimas directamente apoiadas pela União
Soviética. O nosso país, pela vasta extensão do seu território, pelo domínio de
pontos estratégicos (com especial destaque para os Açores, a Guiné,
Cabinda, Lourenço Marques, Macau, Timor) tornar-se-ia uma das
principais âncoras do combate às potências do Pacto de Varsóvia.
A guerra contra o comunismo que Portugal desenvolveu internamente tem
vários paralelos com, por exemplo, o Reino Unido e os Estados Unidos, embora reduzindo-se os níveis de
violência e ingerência, dado não ter participado como estes países nas inúmeras
acções secretas levadas a cabo em diversos continentes nos últimos 100 anos,
apoiando governos anticomunistas, promovendo golpes militares, substituindo
chefias políticas. Se no Reino Unido o MI5 e o Information Research Department
faziam censura, prendiam, torturavam (não apenas no
Camp 020) e faziam as suas dirty ops, é bem conhecido que os Estados Unidos
através das suas várias agências de intelligence e defesa dos interesses
estratégicos do seu país faziam o mesmo, numa escala maior e até aos dias de
hoje, mantendo em 2026 e por todo o globo vários campos de
presos políticos tidos por terroristas (sendo Guantanamo o mais conhecido)
com milhares de inquilinos desprotegidos de direitos básicos humanitários.
A IIª República
cumpriu, portanto, a sua parte na guerra fria e as colónias/províncias
ultramarinas com ela sofreram, tornando-se palco de sangrenta cobiça e luta
entre imperialismos, até sucumbir por completo e entregar à barbárie das
guerras civis países/nações que Portugal havia criado e desenvolvido desde os
idos de 1400.
O terceiro e final
exercício que proponho, através do qual sugiro que não devemos “sempre”
celebrar Abril como algo de essencialmente positivo, prende-se com o
aparecimento daquilo que Adriano
Moreira referiu como o “país exíguo”, que restou após a violenta
mutilação do Ultramar, incluindo de territórios/províncias como o arquipélago
de dez ilhas de Cabo Verde, desabitado até à chegada dos Portugueses no século
XV. Assim, na sequência do golpe militar corporativo organizado a 25
de Abril por oficiais subalternos revoltados contra a ultrapassagem
administrativa na sua antiguidade por oficiais milicianos, surgiu o
movimento político-militar que tomou de assalto o golpe de abril, comandando em
ditadura/tutelando militarmente até 1976
o país, através do MFA, do COPCON, do Conselho da Revolução. Nesse
período de dois anos, a economia Portuguesa passou de possuir números saudáveis
e dentro das médias da OCDE (de acordo com dados recentemente sancionados pela
Fundação Francisco Manuel dos Santos) com uma dívida pública e inflação
controladas (apesar de um esforço de guerra e de sanções internacionais que
consumiam mais de 10% do PIB) para uma recessão que levaria as finanças
nacionais à bancarrota, e à primeira intervenção do FMI em 1977. Doravante, o sentido e a própria
sobrevivência do Estado Português face aos seus credores apenas seriam
garantidos graças à conclusão do processo de adesão à CEE, hoje UE, formalizado
em 1986, apesar de se impor a perda dos três símbolos clássicos de soberania: a
justiça, a defesa nacional e a cunhagem de moeda. Portugal neste processo perdeu o
Escudo, as suas Forças Armadas tem os mesmos efectivos que a Guarda Nacional
Republicana e a lei dos seus tribunais é superada por jurisprudências
estrangeiras.
Com o amanhecer violento do 25 de Abril Portugal
perdeu capital financeiro, talento humano, a sua economia e as suas finanças
afundaram-se dramática e irremediavelmente, foram entregues sem contrapartidas
territórios que custaram centenas de anos a serem desenvolvidos, incontáveis
vidas e cabedais, criando uma onda de um milhão de refugiados. Tornámo-nos
neste processo num país paradoxalmente periférico, da cauda da Europa, apesar
de sermos a primeira porta de entrada e saída face ao Atlântico e termos compatriotas
nas sete partidas do Mundo. Será assim, verdade, “25 de Abril sempre”? Não o cremos.
COMENTÁRIOS (de 10):
TIM DO A > JOSÉ ROQUE: Não atire areia para os
olhos dos outros e seja sério. O 25 de Abril é só propaganda para tentarem
justificar o falhanço e a tragédia, extensiva a África, que foi a abrilada. Um
golpe de traidores ao serviço da cobiça dos estrangeiros. O Estado Novo apanhou
Portugal num nível extremamente baixo. A mortalidade infantil diminuiu também
muito durante o Estado Novo. E não diga tantas mentiras. Durante o Estado Novo
o analfabetismo passou de 60% para 25%. O Estado Novo construiu escolas em
todas as aldeias que a democracia tratou de fechar. Havia aldeias ainda sem
electricidade, mas muitas povoações foram electrificadas. Também a evolução
continuaria sem o 25 de Abril, pois Portugal era antes da abrilada o pais que
mais crescia na Europa. Se não fosse o 25 de Abril Portugal seria hoje um pais
rico. O sistema de saúde estava a ser pensado e construíram-se os 2 ainda hoje
maiores hospitais do país. E muitas das proibições de que fala foram acabando.
Agora há liberdade para os políticos roubarem à vontade. Não há justiça, o
crime grassa, imigrantes lixo do mundo invadem Portugal. Antes, mesmo com pouco
dinheiro, os jovens conseguiam sair de casa dos pais, arranjar casa e fazer
vida. Portugal é hoje um dos países mais pobres da Europa e com 4 milhões de
pessoas pobres ou em risco de pobreza. A produtividade é muito baixa, a
educação universitária é ideológica woke. A censura voltou. Portugal deixou de
ser importante no mundo e tornou-se irrelevante e a viver à conta alheia,
pedinte sem vergonha nem dignidade. Só as elites e os políticos estão
contentes.
JOSÉ B DIAS: É efectivamente importante
reflectir sobre a narrativa que foi construída e que é repetida até à exaustão
há já mais de 5 décadas ... houve coisas más e até muito más, mas também as
houve boas e até muito boas! Obrigado ao autor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário