sábado, 9 de maio de 2026

Inevitabilidade

 


Guardado está o bocado para quem o há-de comer.

25 de Abril sempre? De modo nenhum   

Faz falta uma perspectiva una e normalizadora sobre um evento que transformou totalmente Portugal.

YANN LOÏC ARAÚJO, Historiador e Politólogo

OBSERVADOR, 02 mai. 2026, 00:02

Ao começar este texto torna-se necessário desde logo esclarecer três pontos: primeiro, nasci nos pós-25 de Abril de 1974, na democracia da III República, num regime democrático e integrado num projecto federalista Europeu; depois, fui criado no seio de uma família e de um ambiente social que, ou sofreu com as mudanças provocadas pelo 25 de Abril ou – como a maioria dos Portugueses – vivia pacificamente a ordem da II República sem exigir a sua morte por meios revolucionários; por fim, muito foi dito, escrito, pensado, pintado, cantado…partido e repartido sobre o 25 de Abril, ficando os vencedores da história com a melhor parte, como é natural. Faz falta uma perspectiva una e normalizadora sobre um evento que transformou totalmente Portugal.

Quais os meus objectivos deste curto texto e de o publicar perto do 25 de Abril e o 1º de Maio de 2026? São três, também, na verdade, procurando colocar a questão numa perspectiva o mais objectiva e imparcial possível, fazendo uso de metodologia unanimemente aceite, das esquerdas às direitas.

O primeiro exercício que proponho é um de contraposição face a um bom exemplo, dado que o Estado Novo vigorou entre 11 de abril de 1933 e o 25 de Abril de 1974 inserido numa realidade europeia, atlântica, mundial com que se relacionou profundamente. De acordo com a presente e maioritária vox populi, vivemos em ditadura durante o Estado Novo, que reprimiu, perseguiu e castrou, manteve o país e o povo Português na pobreza, conduzindo-o para uma guerra injusta de 14 anos por territórios a cuja defesa da soberania não tinha direito. Ignorando a tese de que há um Estado Novo antes e depois da IIª Guerra Mundial, se tomarmos o exemplo de França – bastião de democracia onde foram produzidas várias lições bebidas por intelectuais e políticos Portugueses – poderemos encontrar vários paralelos das suas 4ª e 5ª Repúblicas com a nossa IIª. Além de ser uma nação imperial que se bateu contra movimentos independentistas, com técnicas antiterroristas (utilizando até a guerra química e a nuclear) no Rif marroquino, nos seus territórios da Indochina e da Argélia (apenas no século XX) França enviou centenas de milhares de presos políticos para várias prisões políticas ultramarinas, fuzilando e decapitando condenados até bem tarde no século XX. De referir, no que aos direitos humanos diz respeito, que até 1944 as mulheres não podiam votar e, até, 1965, as senhoras não podiam abrir uma conta num banco sem autorização do marido. A enumeração de atropelos a modernas garantias não cabe neste texto, mas faria objectivamente do Estado Novo, por comparação, um regime brando e leniente, paradoxalmente até na burocracia. Refira-se finalmente, neste exercício comparativo, que o período dos Trinta Gloriosos com De Gaulle, teve no Portugal do pós-Guerra e do Plano Marshall o seu espelho com a Época de Ouro da economia nacional com o PIB a crescer a uma taxa média de 7,5% ao ano entre as décadas de 1960 e 1970 em virtude dos planos de fomento e da abertura económico-industrial que a adesão à OCDE, ao GATT e à EFTA proporcionaram.

O segundo exercício é o da contextualização internacional, dado que Portugal foi membro fundador da NATO e, lembremo-nos, Agostinho Lourenço foi o primeiro director da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) entre 1945 e 1956, saindo dessa posição para abraçar a de vice-director da INTERPOL, assim se reconhecendo internacionalmente a qualidade da intelligence nacional no pós-Guerra. Portugal participaria activamente na guerra fria, combatendo no seu território a acção de células socialistas, anarquistas e comunistas, estas últimas directamente apoiadas pela União Soviética. O nosso país, pela vasta extensão do seu território, pelo domínio de pontos estratégicos (com especial destaque para os Açores, a Guiné, Cabinda, Lourenço Marques, Macau, Timor) tornar-se-ia uma das principais âncoras do combate às potências do Pacto de Varsóvia. A guerra contra o comunismo que Portugal desenvolveu internamente tem vários paralelos com, por exemplo, o Reino Unido e os Estados Unidos, embora reduzindo-se os níveis de violência e ingerência, dado não ter participado como estes países nas inúmeras acções secretas levadas a cabo em diversos continentes nos últimos 100 anos, apoiando governos anticomunistas, promovendo golpes militares, substituindo chefias políticas. Se no Reino Unido o MI5 e o Information Research Department faziam censura, prendiam, torturavam (não apenas no Camp 020) e faziam as suas dirty ops, é bem conhecido que os Estados Unidos através das suas várias agências de intelligence e defesa dos interesses estratégicos do seu país faziam o mesmo, numa escala maior e até aos dias de hoje, mantendo em 2026 e por todo o globo vários campos de presos políticos tidos por terroristas (sendo Guantanamo o mais conhecido) com milhares de inquilinos desprotegidos de direitos básicos humanitários. A IIª República cumpriu, portanto, a sua parte na guerra fria e as colónias/províncias ultramarinas com ela sofreram, tornando-se palco de sangrenta cobiça e luta entre imperialismos, até sucumbir por completo e entregar à barbárie das guerras civis países/nações que Portugal havia criado e desenvolvido desde os idos de 1400.

O terceiro e final exercício que proponho, através do qual sugiro que não devemos “sempre” celebrar Abril como algo de essencialmente positivo, prende-se com o aparecimento daquilo que Adriano Moreira referiu como o “país exíguo”, que restou após a violenta mutilação do Ultramar, incluindo de territórios/províncias como o arquipélago de dez ilhas de Cabo Verde, desabitado até à chegada dos Portugueses no século XV. Assim, na sequência do golpe militar corporativo organizado a 25 de Abril por oficiais subalternos revoltados contra a ultrapassagem administrativa na sua antiguidade por oficiais milicianos, surgiu o movimento político-militar que tomou de assalto o golpe de abril, comandando em ditadura/tutelando  militarmente até 1976 o país, através do MFA, do COPCON, do Conselho da Revolução. Nesse período de dois anos, a economia Portuguesa passou de possuir números saudáveis e dentro das médias da OCDE (de acordo com dados recentemente sancionados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos) com uma dívida pública e inflação controladas (apesar de um esforço de guerra e de sanções internacionais que consumiam mais de 10% do PIB) para uma recessão que levaria as finanças nacionais à bancarrota, e à primeira intervenção do FMI em 1977. Doravante, o sentido e a própria sobrevivência do Estado Português face aos seus credores apenas seriam garantidos graças à conclusão do processo de adesão à CEE, hoje UE, formalizado em 1986, apesar de se impor a perda dos três símbolos clássicos de soberania: a justiça, a defesa nacional e a cunhagem de moeda. Portugal neste processo perdeu o Escudo, as suas Forças Armadas tem os mesmos efectivos que a Guarda Nacional Republicana e a lei dos seus tribunais é superada por jurisprudências estrangeiras.

Com o amanhecer violento do 25 de Abril Portugal perdeu capital financeiro, talento humano, a sua economia e as suas finanças afundaram-se dramática e irremediavelmente, foram entregues sem contrapartidas territórios que custaram centenas de anos a serem desenvolvidos, incontáveis vidas e cabedais, criando uma onda de um milhão de refugiados. Tornámo-nos neste processo num país paradoxalmente periférico, da cauda da Europa, apesar de sermos a primeira porta de entrada e saída face ao Atlântico e termos compatriotas nas sete partidas do Mundo. Será assim, verdade, “25 de Abril sempre”? Não o cremos.

COMENTÁRIOS (de 10):

TIM DO A > JOSÉ ROQUE: Não atire areia para os olhos dos outros e seja sério. O 25 de Abril é só propaganda para tentarem justificar o falhanço e a tragédia, extensiva a África, que foi a abrilada. Um golpe de traidores ao serviço da cobiça dos estrangeiros. O Estado Novo apanhou Portugal num nível extremamente baixo. A mortalidade infantil diminuiu também muito durante o Estado Novo. E não diga tantas mentiras. Durante o Estado Novo o analfabetismo passou de 60% para 25%. O Estado Novo construiu escolas em todas as aldeias que a democracia tratou de fechar. Havia aldeias ainda sem electricidade, mas muitas povoações foram electrificadas. Também a evolução continuaria sem o 25 de Abril, pois Portugal era antes da abrilada o pais que mais crescia na Europa. Se não fosse o 25 de Abril Portugal seria hoje um pais rico. O sistema de saúde estava a ser pensado e construíram-se os 2 ainda hoje maiores hospitais do país. E muitas das proibições de que fala foram acabando. Agora há liberdade para os políticos roubarem à vontade. Não há justiça, o crime grassa, imigrantes lixo do mundo invadem Portugal. Antes, mesmo com pouco dinheiro, os jovens conseguiam sair de casa dos pais, arranjar casa e fazer vida. Portugal é hoje um dos países mais pobres da Europa e com 4 milhões de pessoas pobres ou em risco de pobreza. A produtividade é muito baixa, a educação universitária é ideológica woke. A censura voltou. Portugal deixou de ser importante no mundo e tornou-se irrelevante e a viver à conta alheia, pedinte sem vergonha nem dignidade. Só as elites e os políticos estão contentes.

JOSÉ B DIAS: É efectivamente importante reflectir sobre a narrativa que foi construída e que é repetida até à exaustão há já mais de 5 décadas ... houve coisas más e até muito más, mas também as houve boas e até muito boas! Obrigado ao autor.

 

Nenhum comentário: