Manda. Lá, também, afinal, num mundo
imutável, de toleima superando o bom senso, aqui como ali, o “Mudam-se os tempos não já como soía” nem
sempre batendo certo, a sabedoria camoniana definitivamente ultrapassada pela
russa, Salazar bem o sabendo, Putin o demonstrando, perseguindo, prosseguindo …
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O "gulag digital", a economia
a decair e a guerra sem fim: a vaga inédita de críticas a Putin na Rússia
Economistas, influencers e até
aliados comunistas: Putin está a ser criticado por bloqueios à internet, má
gestão da economia e guerra sem fim. Presidente admite algumas falhas, mas
aperta a malha.
JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto
OBSERVADOR,03 mai. 2026, 18:20
ÍNDICE
O vídeo da influencer com que muito russos
se identificaram
A “batalha burocrática” entre as secretas e o Governo
sobre o bloqueio na Internet
Popularidade de Putin está a cair nas sondagens:
“Notável”
A economia em queda e a população a pagar a guerra
As baixas russas e a alienação de Putin sobre a guerra
Revolução
de Outubro de 1917. Foi a este evento histórico que instaurou a ditadura do
proletariado liderada por Vladimir Lenine que o Partido Comunista da
Federação Russa recorreu, no dia 21 de abril, para manifestar o seu
descontentamento numa sessão no Parlamento. “Se
não forem tomadas urgentemente medidas financeiras e económicas, até ao outono
espera-nos uma repetição do que aconteceu em 1917”, afirmou o secretário-geral
comunista, Gennady Zyuganov. As declarações foram surpreendentes; afinal, o fogo era amigo, já que o Partido Comunista russo evita
muitas vezes criticar Vladimir Putin. O responsável enfatizou que o
partido está a “fazer tudo ao seu alcance
para apoiar Putin”, mas ninguém o “está
a ouvir”.
Para se
manter no poder, o Presidente russo forjou alianças com vários sectores da sociedade
russa, incluindo os nostálgicos da União Soviética e os que idealizam o passado
comunista. Daí que estas críticas, vindas de um partido que se
subjugou ao Kremlin e fechou os olhos à deriva autocrática da Rússia, sejam
particularmente significativas. Até os
apoiantes do regime começam a ficar descontentes — e a ter coragem de denunciar
publicamente a actual situação que fez com que a popularidade de Vladimir Putin
caísse nas últimas semanas.
O que está a
motivar o descontentamento de muitos é o “gulag digital” que o Kremlin está a colocar em marcha, à semelhança do que a
China fez com a Great Firewall. A presidência
russa está a bloquear VPNs e vários sites — incluindo redes sociais
populares — e impôs cortes prolongados da internet móvel em várias zonas do
país, incluindo Moscovo, onde o blackout durou
quase três semanas e deixou milhões de pessoas sem acesso a serviços digitais. O regime parece ignorar a importância que a internet tem hoje para o
quotidiano dos russos, pretendendo em simultâneo que a população use aplicações
específicas criadas e controladas pelo Estado.
▲ O
secretário-geral do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov,
avisou que "até ao outono" pode haver uma nova "Revolução de
Outubro" GETTY IMAGES
ÍNDICE
Ao mesmo
tempo, a conjuntura económica não melhora e as projecções continuam longe de
ser favoráveis. Embora as receitas das exportações de petróleo tenham
aumentado por causa da guerra do Irão e do bloqueio do Estreito de Ormuz, isso
não chega nem para compensar o agravamento dos indicadores financeiros russos,
nem para diminuir o custo de vida da população. O principal motivo? A guerra na Ucrânia. O conflito continua a absorver uma fatia
crescente do Orçamento do Estado russo, canalizando recursos para sustentar o
esforço militar.
No campo de batalha, a longo prazo, as perspectivas
não são nada favoráveis a Vladimir Putin. Usando
métodos inovadores e disruptivos, a Ucrânia tem conseguido avançar em várias
partes da linha da frente nas últimas semanas. Entretanto, a União Europeia
(UE) aprovou um pacote de 90 mil
milhões de euros, verba que será crucial para sustentar o esforço de
guerra ucraniano nos próximos dois anos. Em paralelo,
a UE impôs o 20.º pacote de sanções contra Moscovo, pelo que a economia russa
continuará sob forte pressão nos próximos tempos.
Tudo isto está a aumentar a insatisfação dos russos,
quase privados de internet e a viver num país com uma economia cada vez mais
frágil para sustentar o esforço de guerra na Ucrânia. Como
tem acontecido no seu longo mandato de 26 anos, a solução de Vladimir Putin passa por esmagar a dissidência e silenciar as
críticas. Contudo, até parte da
elite e os seus apoiantes estão a contestar a forma como o Presidente russo tem
actuado nas últimas semanas. E há vozes da
sociedade civil — como a da influencer e antiga apresentadora
de televisão Victoria Bonya — que tiveram a coragem de denunciar o que se está a
passar na Rússia: “Vladimir Vladimirovitch, as
pessoas têm medo de si”.
O
vídeo da influencer com que muito russos se identificaram
Victoria Bonya tem mais de 600 mil seguidores
no Instagram. Foi modelo, participou em reality shows na Rússia e tornou-se apresentadora de
televisão. Há alguns anos deixou o país, mudou-se para o Mónaco e passou a
viver como influencer. Faz
vídeos nas redes sociais a mostrar as roupas que usa, as marcas que consome, a
sua paixão pelo montanhismo e as suas escaladas no Monte Evereste. Como muitos
russos, Victoria Bonya nunca tinha demonstrado
publicamente as suas opiniões políticas. Nem tinha razões para o fazer: vivia
no estrangeiro e usufruía de um estilo de vida luxuoso.
A influencer é
particularmente activa no Instagram — rede social que se tornou extremamente
popular na Rússia e onde mostra os outfits e os produtos
luxuosos que consome. Mas o modo
como ganha dinheiro está a mudar radicalmente. O Kremlin proibiu o acesso a
todos os sites geridos pela Meta, o conglomerado
norte-americano que detém o Instagram, o Facebook e o Whatsapp. Victoria Bonya sente na pele as ordens da
presidência russa, ainda que os seus efeitos estejam a ser parcialmente
mitigados pelo uso de VPNs, que ainda permitem que muitos russos contornem os
bloqueios e simulem a localização noutro país.
Muitos estão
na situação de Victoria. Durante anos, apesar de todas as limitações na
liberdade de expressão, os russos puderam partilhar fotos e escrever
publicações nas redes sociais geridas no Ocidente, desde que não criticassem
abertamente o Governo. Puderam montar negócios no Instagram. Fazer publicidade
no Google. Trocar mensagens no Telegram. O Kremlin
deseja terminar com isto. Na prática,
as principais redes sociais ocidentais estão a ser bloqueadas ou a sua
utilização está a ser bastante restringida. A única alternativa é migrar para plataformas como o
Max, que é controlado pelo Estado. Mas muitos temem estar a ser monitorizados e
leva tempo para construir uma nova base de seguidores e clientes de raiz.
▲ Victoria Bonya, a influencer que desafiou
Vladimir Putin, mas que garantiu não ser uma "traidora"
GETTY IMAGES
ÍNDICE
Contrariamente
a outras restrições à liberdade de expressão, esta atinge praticamente todos os
russos: desde a influencer que trabalha
no Mónaco até ao funcionário público de meia‑idade na Sibéria. Até mesmo os oligarcas
e as elites com quem Vladimir Putin
procura manter boas relações deixaram de
poder aceder ao Instagram diretamente. Pior: o Kremlin tem chegado ao ponto de cortar a internet móvel durante semanas
em várias partes do país com a justificação de que essas medidas servem para
prevenir ataques ucranianos em solo russo.
Por tudo
isto, a mensagem de Victoria Bonya
tornou-se viral. Através de VPNs, milhões de russos viram o
vídeo — e identificaram-se com ele. “Há uma sensação de que já não vivemos num país livre”, disse a influencer, que abordou no vídeo os bloqueios à internet e
os problemas quotidianos em várias partes da Rússia. “Sabe qual é o risco? Que as
pessoas deixem de ter medo, que estejam a ser comprimidas como uma mola e que,
um dia, essa mola rebente”, avisou.
A presidência
russa reagiu a este vídeo e assegurou tê-lo visto. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov,
admitiu que o vídeo “é bastante popular”, se bem que
desvalorize muitas das críticas da influencer. “Está a ser feito muito trabalho” quanto aos “muitos temas” abordados pelo
vídeo. Nos bastidores, o regime russo
terá instruído os meios de comunicação para não o explorarem e para apenas
mencionarem a resposta do porta-voz. Na mesma linha, Victoria Bonya veio dizer que não era
“traidora” e agradeceu à resposta de Dmitry Peskov. “Amo o meu país, não o vou
trair. Estou do lado do país, do povo. Não tenho mais nada a dizer. Não sou
nenhuma figura da oposição.”
“Amo o meu
país, não o vou trair. Estou do lado do país, do povo. Não tenho mais nada a
dizer. Não sou nenhuma figura da oposição."
Influencer Victoria Bonya
ÍNDICE
A influencer russa
no Mónaco não vai seguir o caminho político. O seu vídeo não deixa, ainda
assim, de ser um sintoma dos
problemas que os russos enfrentam diariamente. Num artigo escrito no site
do think tank Carnegie Endowment for International Peace, a analista Tatiana
Stanovaya recorda que o russos “se habituaram a uma sociedade altamente digitalizada
nas últimas duas décadas”. As proibições do início da guerra nunca “tiveram
grande impacto”, mas, em poucas semanas, o “mundo online que conheciam começou
a desintegrar-se”.
A
“batalha burocrática” entre as secretas e o Governo sobre o bloqueio na
Internet
A ideia de bloquear redes sociais e sites ocidentais
encaixa na lógica de um Estado cada vez mais autoritário, liderado por um
antigo agente do KGB. Para o Kremlin, as plataformas que não controla
totalmente representam um sério risco: o que os cidadãos escrevem escapa ao
filtro estatal e a gestão de conteúdos está nas mãos de grandes tecnológicas
estrangeiras, cujos donos podem não acatar as ordens de Moscovo.
A incógnita
aqui não está tanto nos motivos, mas no timing e na maneira
como Moscovo está a lidar com tudo isto. É certo que a Rússia tem eleições parlamentares
marcadas para setembro de 2026 e é costume que, nos meses que antecedem
momentos eleitorais, o Governo aperte a malha. O que é inédito desta vez é o grau
de indiferença do regime perante o tom das críticas: o Kremlin
avançou com cortes e bloqueios massivos sem se preocupar em explicar de forma
convincente por que razão tomou esta iniciativa.
▲ Russos
no metro de Moscovo a usar o telemóvel
GETTY IMAGES
Índice
“As
consequências políticas do esforço para estabelecer um controlo total da
internet permanecem incertas, mesmo para quem trabalha para o regime”, diz Tatiana Stanovaya, explicando que as repercussões passam por “sabotagem
cautelosa por parte de funcionários de base, críticas directas de apoiantes e
murmúrios de dissidência — e algum pânico — entre empresários”. “Esta insatisfação ganha tracção com as
frequentes interrupções na internet, que tornam impossíveis tarefas antes
simples.”
Isso tem
muito a ver com quem está por trás deste bloqueio, como revelou o portal de investigação The
Bell: o Serviço Federal de
Segurança (FSB). É o Segundo Serviço do FSB — o ramo das secretas
russas responsável pela “protecção da ordem constitucional” e pelo combate ao
“extremismo” interno — que teorizou e está a pôr em marcha o plano de controlo
da internet. Como lembra a jornalista russa
que colaborou com a investigação, Maria Kolomychenko, num
artigo publicado pelo think tank Carnegie Endowment for International Peace, trata‑se do mesmo grupo de
operacionais que esteve envolvido no envenenamento do líder da oposição Alexei Navalny, em 2020.
A transferência da supervisão
da internet russa “de técnicos dos departamentos do FSB para o Segundo Serviço”
fez com que a missão passasse a estar focada em “encontrar
inimigos internos”. “Para eles, a internet não representa uma
infraestrutura que permite a troca de informações ou que contribui para o
crescimento económico, mas antes um ambiente suspeito e caótico que requer
aplicar um filtro constante”, aclara Maria Kolomychenko. Esta abordagem mais radical terá sido
ordenada directamente por Vladimir Putin. O Presidente
russo sempre confiou no FSB, o principal herdeiro do KGB nos serviços secretos
russos.
▲ Vladimir Putin numa
reunião no FSB
POOL/AFP via Getty
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Ainda assim,
surgem várias interrogações e até disputas internas. Um relatório de 2022, baseado
em informações de vários serviços de informações ocidentais e citado pelo Wall
Street Journal, apurou que o chefe de Estado não usa internet e prefere
escrever tudo à mão, receando ser espiado. Em teoria, um líder quase
infoexcluído pode não ter plena noção do impacto quotidiano destas medidas
sobre a vida dos cidadãos.
Neste
contexto, o poder russo está dividido entre o Segundo Serviço e outras facções
que pretendem a aplicação de restrições menos severas na internet. Numa “batalha burocrática” em curso, de um lado está o FSB e do outro está o primeiro-ministro russo,
Mikhail Mishustin,
juntamente com o seu protegido político, Maksut Shadayev, que é o atual ministro do Desenvolvimento Digital. “Está a propor uma abordagem menos destrutiva em
alcançar o controlo total da internet”, nota Maria Kolomychenko sobre os esforços do actual governante.
A frustração
não é sentida apenas por membros do Governo russo. Outros grandes empresários e
políticos têm expressado a sua insatisfação. Além disso, até os responsáveis
por gerir a imagem pública de Vladimir Putin no Kremlin estão “claramente
irritados” com o “bloqueio dos serviços de segurança”. De
acordo com TATIANA STANOVAYA, muitos responsáveis no Kremlin
estão insatisfeitos com “a imprevisibilidade, os limites à sua capacidade para
exercer influência e o facto de serem excluídos das decisões sobre a forma como
as pessoas entendem e avaliam as autoridades”.
"Para o
FSB, a internet não representa uma infraestrutura que permite a troca de
informações ou que contribui para o crescimento económico, mas antes um
ambiente suspeito e caótico que requer aplicar um filtro constante." Jornalista Maria Kolomychenko
(CONTINUA)
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