segunda-feira, 4 de maio de 2026

Quem pode

 

Manda. Lá, também, afinal, num mundo imutável, de toleima superando o bom senso, aqui como ali, o “Mudam-se os tempos não já como soía” nem sempre batendo certo, a sabedoria camoniana definitivamente ultrapassada pela russa, Salazar bem o sabendo, Putin o demonstrando, perseguindo, prosseguindo …

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O "gulag digital", a economia a decair e a guerra sem fim: a vaga inédita de críticas a Putin na Rússia

 

Economistas, influencers e até aliados comunistas: Putin está a ser criticado por bloqueios à internet, má gestão da economia e guerra sem fim. Presidente admite algumas falhas, mas aperta a malha.

JOSÉ CARLOS DUARTE: Texto

OBSERVADOR,03 mai. 2026, 18:20

ÍNDICE

O vídeo da influencer com que muito russos se identificaram

A “batalha burocrática” entre as secretas e o Governo sobre o bloqueio na Internet

Popularidade de Putin está a cair nas sondagens: “Notável”

A economia em queda e a população a pagar a guerra

As baixas russas e a alienação de Putin sobre a guerra

Revolução de Outubro de 1917. Foi a este evento histórico que instaurou a ditadura do proletariado liderada por Vladimir Lenine que o Partido Comunista da Federação Russa recorreu, no dia 21 de abril, para manifestar o seu descontentamento numa sessão no Parlamento.Se não forem tomadas urgentemente medidas financeiras e económicas, até ao outono espera-nos uma repetição do que aconteceu em 1917”, afirmou o secretário-geral comunista, Gennady Zyuganov. As declarações foram surpreendentes; afinal, o fogo era amigo, já que o Partido Comunista russo evita muitas vezes criticar Vladimir Putin. O responsável enfatizou que o partido está a “fazer tudo ao seu alcance para apoiar Putin”, mas ninguém o “está a ouvir”.

Para se manter no poder, o Presidente russo forjou alianças com vários sectores da sociedade russa, incluindo os nostálgicos da União Soviética e os que idealizam o passado comunista. Daí que estas críticas, vindas de um partido que se subjugou ao Kremlin e fechou os olhos à deriva autocrática da Rússia, sejam particularmente significativas. Até os apoiantes do regime começam a ficar descontentes — e a ter coragem de denunciar publicamente a actual situação que fez com que a popularidade de Vladimir Putin caísse nas últimas semanas.

O que está a motivar o descontentamento de muitos é o gulag digital que o Kremlin está a colocar em marcha, à semelhança do que a China fez com a Great Firewall. A presidência russa está a bloquear VPNs e vários sites — incluindo redes sociais populares — e impôs cortes prolongados da internet móvel em várias zonas do país, incluindo Moscovo, onde o blackout durou quase três semanas e deixou milhões de pessoas sem acesso a serviços digitais. O regime parece ignorar a importância que a internet tem hoje para o quotidiano dos russos, pretendendo em simultâneo que a população use aplicações específicas criadas e controladas pelo Estado.

 O secretário-geral do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, avisou que "até ao outono" pode haver uma nova "Revolução de Outubro" GETTY IMAGES

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Ao mesmo tempo, a conjuntura económica não melhora e as projecções continuam longe de ser favoráveis. Embora as receitas das exportações de petróleo tenham aumentado por causa da guerra do Irão e do bloqueio do Estreito de Ormuz, isso não chega nem para compensar o agravamento dos indicadores financeiros russos, nem para diminuir o custo de vida da população. O principal motivo? A guerra na Ucrânia. O conflito continua a absorver uma fatia crescente do Orçamento do Estado russo, canalizando recursos para sustentar o esforço militar.

No campo de batalha, a longo prazo, as perspectivas não são nada favoráveis a Vladimir Putin. Usando métodos inovadores e disruptivos, a Ucrânia tem conseguido avançar em várias partes da linha da frente nas últimas semanas. Entretanto, a União Europeia (UE) aprovou um pacote de 90 mil milhões de euros, verba que será crucial para sustentar o esforço de guerra ucraniano nos próximos dois anos. Em paralelo, a UE impôs o 20.º pacote de sanções contra Moscovo, pelo que a economia russa continuará sob forte pressão nos próximos tempos.

Tudo isto está a aumentar a insatisfação dos russos, quase privados de internet e a viver num país com uma economia cada vez mais frágil para sustentar o esforço de guerra na Ucrânia. Como tem acontecido no seu longo mandato de 26 anos, solução de Vladimir Putin passa por esmagar a dissidência e silenciar as críticas. Contudo, até parte da elite e os seus apoiantes estão a contestar a forma como o Presidente russo tem actuado nas últimas semanas. E há vozes da sociedade civil — como a da influencer e antiga apresentadora de televisão Victoria Bonya — que tiveram a coragem de denunciar o que se está a passar na Rússia: “Vladimir Vladimirovitch, as pessoas têm medo de si”.

O vídeo da influencer com que muito russos se identificaram

Victoria Bonya tem mais de 600 mil seguidores no Instagram. Foi modelo, participou em reality shows na Rússia e tornou-se apresentadora de televisão. Há alguns anos deixou o país, mudou-se para o Mónaco e passou a viver como influencer. Faz vídeos nas redes sociais a mostrar as roupas que usa, as marcas que consome, a sua paixão pelo montanhismo e as suas escaladas no Monte Evereste. Como muitos russos, Victoria Bonya nunca tinha demonstrado publicamente as suas opiniões políticas. Nem tinha razões para o fazer: vivia no estrangeiro e usufruía de um estilo de vida luxuoso.

influencer é particularmente activa no Instagram — rede social que se tornou extremamente popular na Rússia e onde mostra os outfits e os produtos luxuosos que consome. Mas o modo como ganha dinheiro está a mudar radicalmente. O Kremlin proibiu o acesso a todos os sites geridos pela Meta, o conglomerado norte-americano que detém o Instagram, o Facebook e o Whatsapp. Victoria Bonya sente na pele as ordens da presidência russa, ainda que os seus efeitos estejam a ser parcialmente mitigados pelo uso de VPNs, que ainda permitem que muitos russos contornem os bloqueios e simulem a localização noutro país.

Muitos estão na situação de Victoria. Durante anos, apesar de todas as limitações na liberdade de expressão, os russos puderam partilhar fotos e escrever publicações nas redes sociais geridas no Ocidente, desde que não criticassem abertamente o Governo. Puderam montar negócios no Instagram. Fazer publicidade no Google. Trocar mensagens no Telegram. O Kremlin deseja terminar com isto. Na prática, as principais redes sociais ocidentais estão a ser bloqueadas ou a sua utilização está a ser bastante restringida. A única alternativa é migrar para plataformas como o Max, que é controlado pelo Estado. Mas muitos temem estar a ser monitorizados e leva tempo para construir uma nova base de seguidores e clientes de raiz.

 Victoria Bonya, a influencer que desafiou Vladimir Putin, mas que garantiu não ser uma "traidora"

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Contrariamente a outras restrições à liberdade de expressão, esta atinge praticamente todos os russos: desde a influencer que trabalha no Mónaco até ao funcionário público de meia‑idade na Sibéria. Até mesmo os oligarcas e as elites com quem Vladimir Putin procura manter boas relações deixaram de poder aceder ao Instagram diretamente. Pior: o Kremlin tem chegado ao ponto de cortar a internet móvel durante semanas em várias partes do país com a justificação de que essas medidas servem para prevenir ataques ucranianos em solo russo.

Por tudo isto, a mensagem de Victoria Bonya tornou-se viral. Através de VPNs, milhões de russos viram o vídeo — e identificaram-se com ele. “Há uma sensação de que já não vivemos num país livre”, disse a influencer, que abordou no vídeo os bloqueios à internet e os problemas quotidianos em várias partes da Rússia. “Sabe qual é o risco? Que as pessoas deixem de ter medo, que estejam a ser comprimidas como uma mola e que, um dia, essa mola rebente”, avisou.

A presidência russa reagiu a este vídeo e assegurou tê-lo visto. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, admitiu que o vídeo “é bastante popular”, se bem que desvalorize muitas das críticas da influencerEstá a ser feito muito trabalho” quanto aos “muitos temas” abordados pelo vídeo. Nos bastidores, o regime russo terá instruído os meios de comunicação para não o explorarem e para apenas mencionarem a resposta do porta-voz. Na mesma linha, Victoria Bonya veio dizer que não era “traidora” e agradeceu à resposta de Dmitry Peskov. “Amo o meu país, não o vou trair. Estou do lado do país, do povo. Não tenho mais nada a dizer. Não sou nenhuma figura da oposição.”

“Amo o meu país, não o vou trair. Estou do lado do país, do povo. Não tenho mais nada a dizer. Não sou nenhuma figura da oposição."

Influencer Victoria Bonya

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influencer russa no Mónaco não vai seguir o caminho político. O seu vídeo não deixa, ainda assim, de ser um sintoma dos problemas que os russos enfrentam diariamenteNum artigo escrito no site do think tank Carnegie Endowment for International Peace, a analista Tatiana Stanovaya recorda que o russos “se habituaram a uma sociedade altamente digitalizada nas últimas duas décadas”. As proibições do início da guerra nunca “tiveram grande impacto”, mas, em poucas semanas, o “mundo online que conheciam começou a desintegrar-se”.

A “batalha burocrática” entre as secretas e o Governo sobre o bloqueio na Internet

A ideia de bloquear redes sociais e sites ocidentais encaixa na lógica de um Estado cada vez mais autoritário, liderado por um antigo agente do KGB. Para o Kremlin, as plataformas que não controla totalmente representam um sério risco: o que os cidadãos escrevem escapa ao filtro estatal e a gestão de conteúdos está nas mãos de grandes tecnológicas estrangeiras, cujos donos podem não acatar as ordens de Moscovo.

A incógnita aqui não está tanto nos motivos, mas no timing e na maneira como Moscovo está a lidar com tudo isto. É certo que a Rússia tem eleições parlamentares marcadas para setembro de 2026 e é costume que, nos meses que antecedem momentos eleitorais, o Governo aperte a malha. O que é inédito desta vez é o grau de indiferença do regime perante o tom das críticas: o Kremlin avançou com cortes e bloqueios massivos sem se preocupar em explicar de forma convincente por que razão tomou esta iniciativa.

 Russos no metro de Moscovo a usar o telemóvel

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 “As consequências políticas do esforço para estabelecer um controlo total da internet permanecem incertas, mesmo para quem trabalha para o regime”, diz Tatiana Stanovaya, explicando que as repercussões passam por “sabotagem cautelosa por parte de funcionários de base, críticas directas de apoiantes e murmúrios de dissidência — e algum pânico — entre empresários”. “Esta insatisfação ganha tracção com as frequentes interrupções na internet, que tornam impossíveis tarefas antes simples.”

Isso tem muito a ver com quem está por trás deste bloqueio, como revelou o portal de investigação The Bell: o Serviço Federal de Segurança (FSB). É o Segundo Serviço do FSB — o ramo das secretas russas responsável pela “protecção da ordem constitucional” e pelo combate ao “extremismo” interno — que teorizou e está a pôr em marcha o plano de controlo da internet. Como lembra a jornalista russa que colaborou com a investigação, Maria Kolomychenko, num artigo publicado pelo think tank Carnegie Endowment for International Peace, trata‑se do mesmo grupo de operacionais que esteve envolvido no envenenamento do líder da oposição Alexei Navalny, em 2020.

A transferência da supervisão da internet russa “de técnicos dos departamentos do FSB para o Segundo Serviço” fez com que a missão passasse a estar focada em encontrar inimigos internos. “Para eles, a internet não representa uma infraestrutura que permite a troca de informações ou que contribui para o crescimento económico, mas antes um ambiente suspeito e caótico que requer aplicar um filtro constante”, aclara Maria Kolomychenko. Esta abordagem mais radical terá sido ordenada directamente por Vladimir Putin. O Presidente russo sempre confiou no FSB, o principal herdeiro do KGB nos serviços secretos russos.

 Vladimir Putin numa reunião no FSB

POOL/AFP via Getty Images

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Ainda assim, surgem várias interrogações e até disputas internas. Um relatório de 2022, baseado em informações de vários serviços de informações ocidentais e citado pelo Wall Street Journal, apurou que o chefe de Estado não usa internet e prefere escrever tudo à mão, receando ser espiado. Em teoria, um líder quase infoexcluído pode não ter plena noção do impacto quotidiano destas medidas sobre a vida dos cidadãos.

Neste contexto, o poder russo está dividido entre o Segundo Serviço e outras facções que pretendem a aplicação de restrições menos severas na internet. Numa batalha burocrática em curso, de um lado está o FSB e do outro está o primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, juntamente com o seu protegido político, Maksut Shadayev, que é o atual ministro do Desenvolvimento Digital. “Está a propor uma abordagem menos destrutiva em alcançar o controlo total da internet”, nota Maria Kolomychenko sobre os esforços do actual governante.

A frustração não é sentida apenas por membros do Governo russo. Outros grandes empresários e políticos têm expressado a sua insatisfação. Além disso, até os responsáveis por gerir a imagem pública de Vladimir Putin no Kremlin estão “claramente irritados” com o “bloqueio dos serviços de segurança”. De acordo com TATIANA STANOVAYA, muitos responsáveis no Kremlin estão insatisfeitos com “a imprevisibilidade, os limites à sua capacidade para exercer influência e o facto de serem excluídos das decisões sobre a forma como as pessoas entendem e avaliam as autoridades”.

"Para o FSB, a internet não representa uma infraestrutura que permite a troca de informações ou que contribui para o crescimento económico, mas antes um ambiente suspeito e caótico que requer aplicar um filtro constante." Jornalista Maria Kolomychenko

 

(CONTINUA)

 

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