O Universo Bíblico.
Rostos do Evangelho
É como quem se vê ao espelho e
vê o mundo. Não há noticiário ou reportagem que se aproxime do que podemos ver
nos rostos que desfilam pelo Evangelho
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 01 mai. 2026, 00:24
Volti dei Vangeli é um programa do Dicastério para a Comunicação
do Vaticano de 2022, em que o Papa Francisco vai comentando brevemente e de
viva-voz rostos dos Evangelhos, que passam diante de nós vistos e ilustrados ao
longo dos séculos por grandes pintores ou anónimos copistas.
É um desfile que nos alerta para uma
evidência: não há noticiário ou
reportagem que se lhe aproxime, até em actualidade; nada que nos dê tão
sucintamente o mundo e a natureza humana na paz e na guerra.
Todos nos vamos reconhecendo e reconhecendo este mundo e os rostos que o
habitam nos pequenos tratados da condição humana que são as parábolas: o pobre
Lázaro e o rico sem nome; o filho pródigo, o irmão mais velho e o Pai; o homem
assaltado, o sacerdote, o levita e o bom samaritano.
Dir-nos-á alguma coisa o abismo
sulcado pelo rico que “se vestia
elegantemente e vivia todos os dias no prazer e no luxo”, sensível a todos os
requintes e subtilezas, mas insensível a Lázaro que, “deitado à sua porta,
desejava comer ao menos as sobras da sua mesa”; um abismo tornado
intransponível e que, consequentemente, assim continua quando, depois da morte, as posições se invertem (Lucas
16:19-31). Ou o
homem assaltado por ladrões que fica
no chão, meio-morto, ante a indiferença dos que passam, até do sacerdote e do
levita, membros e símbolos da religião e da solidária ideologia oficial, e que
só encontra o seu verdadeiro próximo no samaritano, no marginal excluído da boa
sociedade, que cuida dele, o carrega até uma hospedaria e zela pela sua cura
(Lucas 10, 25-37). Ou como o Pai que
recebe o filho devasso e perdulário, ante o escândalo e o ressentimento do
filho mais velho, o correcto, o cumpridor (Lucas 15, 11-32).
Entre os rostos do Evangelho que
o Papa vai percorrendo, estão também os rostos reais de S. Pedro,
inseparável do galo que apregoa a sua repetida traição, e de S. José, santo
que, tal como nós mas mais notoriamente, vive lado a lado com o mistério e com
a aceitação do mistério e de que Francisco se diz particularmente
devoto (tinha na mesa de cabeceira uma imagem de S. José dormindo e, quando tinha alguma dúvida,
escrevia-lhe um bilhete e punha-o debaixo da imagem).
Cristo prevê a traição
de Pedro, tal como prevê a traição
de Judas, porém a liberdade de cada um leva-os por
caminhos diferentes.
Pilatos e Judas
E há também o rosto
de Pilatos, num dos momentos cruciais dos Evangelhos: a paixão
e a morte de Cristo. E
quanto a Pilatos, o Papa Francisco não tem dúvidas: o governador da Judeia, homem inteligente e até
sensível, condena Cristo para não comprometer a carreira. Pilatos ocupa, assim,
o 14º episódio
dos Volti dei Vangeli,
que Francisco intitula “schiavo del carreirismo”, “escravo do carreirismo”.
Pilatos e Judas – e com eles o
mistério do Mal, o lavar de mãos, a traição por trinta dinheiros – são dos
rostos mais perturbadores do Evangelho e dos mais presentes na arte e na
cultura ao longo dos séculos.
O
diálogo entre Jesus e Pilatos, relatado pelos quatro evangelistas, é dos textos
mais intrigantes e fascinantes da Bíblia. Pôncio
Pilatos é o poder político, o poder de Roma e
do seu império, a autoridade máxima na Judeia.
É a Pilatos que
os judeus recorrem para neutralizar Cristo, usando o ardil de um delito que
sabem punível pela lei romana e de que Cristo seria réu: o crime
de lesa-majestade de se intitular “rei dos judeus”, elevando-se acima de César.
A figura de Pilatos, que devia ser
ali o decisor “schmittiano”, mas que se recusa a sê-lo, é objecto de juízos
variados e opostos ao longo da História. Nietzsche, no Anticristo (1895),
vê-o como um “aristocrata romano” entre judeus primitivos e fanáticos. Ao seu modo radical,
vai mesmo classificar o governador da Judeia como “a única figura nobre” do Novo Testamento, na sua distância e recusa
em se envolver nas querelas dos locais. E no famoso “O que é a verdade?” de Pôncio Pilatos, vê, naturalmente, uma
sentença céptica e até irónica. Para Nietzsche, uma religião em que Deus, o Filho de Deus, morre
voluntariamente numa cruz, é uma patética apologia da fraqueza e da renúncia ao
poder, uma
negação da verdade, a origem do Mal (já que o Bem, conforme o define no Anticristo,
é tudo o que é susceptível de aumentar “a vontade de poder” e o próprio poder
no homem).
Bem oposta a esta imagem de Pilatos como nobre governador romano é a de Mikhail
Bulgakov, em O Mestre e Margarida. O Pilatos de Bulgakov é um homem inteligente e a
figura e o pensamento de Yeshua Ha-Nozri fascinam-no; mas hesita em
salvá-Lo e recua, perante o risco que representa para a sua carreira de alto
funcionário imperial. Bulgakov
imagina também um destino e uma punição para Pilatos, pondo o Procurador, na
sua humanidade medrosa e cautelosa, a mandar punir Judas Iscariotes por ter
vendido Cristo.
Se
Pilatos tivesse tido a coragem de não condenar Jesus, como se consumaria a
Paixão? E
se Judas, o traidor, não tivesse traído e entregado Cristo, como se consumaria
o que “estava escrito” e a Salvação? São mistérios da presciência divina e da liberdade humana,
da conflituosa coexistência do Mal e do
Bem, da providência divina e do livre-arbítrio com que, consciente ou
inconscientemente, nos confrontamos diariamente.
Dante põe Judas na Judecca, o pior lugar do Inferno, o Nono Círculo
gelado, onde o traidor é pessoalmente atormentado pelo próprio Lúcifer;
e em Shakespeare, em tragédias como Othello e Macbeth,
Judas é também o traidor por
excelência. Já Jorge Luis
Borges, no conto “Tres versiones de Judas”, de
1944, escreve uma imaginativa e imaginária justificação de Judas,
narrando em jeito de nota ou de opúsculo académico a história de Nils Runeberg, um teólogo sueco fictício,
que, no livro Kristus och
Judas, seguindo
Thomas De Quincey, sustenta que Judas entrega Cristo para O obrigar a
assumir a Sua divindade, instigando
uma revolta nacional judaica contra Roma.
Há muitas outras explicações para a
traição de Judas, assistidas por razões racionais ou até éticas. Eu, que cresci
nos primeiros anos cinquenta, nos tempos pré-conciliares de Pio XII,
aprendi que só havia uma pessoa que, garantidamente, estaria no Inferno: Judas
Iscariotes. Mas, disse-nos Bento XVI, parece que nem isso é certo; que “no Seu
misterioso projecto de salvação”, Deus assumia “o gesto indesculpável de Judas
como ocasião do dom total do Filho pela salvação do mundo”, e, quem sabe, na
Sua infinita misericórdia, não tivesse até perdoado o discípulo traidor, que
devolveu os 30 dinheiros antes de, no desespero, se suicidar.
CRISTIANISMO RELIGIÃO SOCIEDADE 22
COMENTÁRIOS (de 22)
António Rocha: Excelente, obrigado
Domingas
Coutinho: Este maravilhoso texto leva-nos a refletir
primeiro sobre as parábolas de Jesus cheias de enigmas que até os padres
sempre demoncstram dificuldade em explicar e depois sobre a atitude controversa
de Pilatos e a traição de Judas que afinal pode ter sido digno de misericórdia
divina. É bom que de vez em quando alguém aborde estes temas e Jaime
Nogueira Pinto já nos habituou a assuntos diferentes que gosto sempre de ler.
Obrigada.
Maria Nunes: JNP, obrigada por este brilhante artigo.
Miguel Macedo:
Muito
bem! Como sempre!
Seknevasse: Caramba, excelente reflexão. Gostei muito, ainda há católicos com méritos!! Também gostava de ler alguma coisa escrita pelo prof,
sobre Pedro Sanchez, o actual lider progressista de cariz mundial... Fica a sugestão.
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