Tranquilizantes, na questão dos furtos “micro”, acentuando uma
vivência humana mais repousante, contrabalançada, é certo, pelos furtos do
patronato, naturalmente mais consistentes, porque mais civilizados.
O que é isso de “microlooting”?
A palavra tem uma origem
contestada: teria servido para designar, no império britânico, o furto ou a
pilhagem feita pelos nativos com o objectivo de a distinguir da “pilhagem”
feita pelos ingleses.
PATRÍCIA FERNANDES, Professora
na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 25 mai. 2026,
00:20
O termo anda a circular no
espaço anglo-americano desde que a editora de cultura do The New York Times,
Nadja Spiegelman, convidou a jornalista Jia Tolentino e o comentador político
Hasan Piker para conversar sobre uma tendência cada vez mais popular: realizar pequenos furtos como forma
de protesto político. (Vale a pena conhecer este Hasan Piker, uma
espécie de Joe Rogan da esquerda, aqui em conversa com Ross Douthat.)
A palavra “looting” tem uma origem
contestada: com origem no hindi, teria servido para designar, no
contexto do império britânico, o furto ou a pilhagem feita pelos nativos com o
objectivo de a distinguir da “pilhagem” feita pelos ingleses – naturalmente,
muito mais civilizada. O termo ter-se-ia depois normalizado em língua inglesa e
passou a ser usado, no século XX, para circunstâncias específicas de pilhagem
ou saque em contexto de manifestações ou protestos.
A destruição de bens fez sempre parte da história do protesto
político (não foi isso que aconteceu com a Boston Tea Party?), mas
a palavra “looting”
é mais associada a situações como a dos motins de Londres, no verão
de 2011, ou a dos protestos após a morte de George Floyd, no verão de 2020, com
situações de “looting” que pareciam tudo menos desorganizadas.
O trabalho de Vicky Osterweil, activista
anarquista, publicado precisamente em 2020 mas ainda antes desses
protestos, permite-nos compreender porquê. Em In Defense of Looting, encontramos
um argumento típico da tradição anarquista e que tem tido uma enorme influência
nas acções do movimento Antifa: uma resistência pacífica e legal é aqui entendida
como uma forma de manter o status quo – já a verdadeira resistência
deve admitir formas tumultuosas e violentas de protesto e reconhecer que roubar
bens e destruir propriedade privada são estratégias legítimas e adequadas de
redistribuição de riqueza. O “looting” torna-se um modo de acção política.
Para Nadja Spiegelman, seria
possível encontrar precisamente este espírito na nova tendência que
pulula nas redes sociais: mas em vez do “looting” violento e
agressivo, estaríamos perante “pequenas acções de saque” – i.e., “microlooting”. A
conversa abre com alguns exemplos: partilhar a senha da Netflix, usar ferramentas que permitam
superar a paywall dos artigos de jornal ou, claro, sair do supermercado sem
pagar o que levamos.
A admissão de Jia Tolentino de
que já o fez em certas condições gerou uma reacção indignada, sobretudo porque
a jornalista desvaloriza o acto: na sua opinião, não é politicamente significativo
como forma de protesto (trata-se de um acto individualista que carece da dimensão
pública, simbólica e colectiva da acção direta anarquista), mas
também não é significativo como falha moral. “Não me senti nada mal depois
de o ter feito”, admitiu, e a razão é política: as grandes superfícies têm demasiados
lucros e pagam muito pouco aos trabalhadores. É mais do que
justo que sejam “roubados”. A Climáximo, atenta às tendências
norte-americanas, não diria melhor.
E é precisamente este aspecto
que Nadja
Spiegelman pretende discutir: é que não se trata de “roubar por fome”. As
pessoas que publicitam o “microlooting” nas redes sociais fazem-no com raiva e
uma justificação moral: “se os ricos não cumprem as regras, por que razão eu o devo
fazer?” De outra forma: devemos cumprir as regras e
respeitar as leis se o sistema parece injusto e desequilibrado?
Reconheçamos que o termo é
bem concebido: trata-se, de facto, de uma micro-acção uma vez que
pequenos furtos de loja não têm um impacto real significativo (o preço do bem
já inclui este risco). Mas as suas implicações não parecem exactamente
“micro”: se
aceitarmos que é possível quebrar algumas regras por razões políticas, como
poderemos evitar a contínua inclinação do plano moral?
Nos Estados Unidos, esse
aspecto é particularmente relevante se tivermos em conta os dados recolhidos
recentemente nos inquéritos sobre o apoio à violência política. De acordo com o American
Political Perspectives Survey 2025, cerca de 1 em cada 3 adultos jovens (geração Z e Millennials)
manifesta apoio à violência política. Mais interessante ainda, o
inquérito revela que:
o apoio à violência política é mais
elevado entre aqueles que se identificam como politicamente “muito liberais [de
esquerda]”;
as mulheres da Geração Z
com orientação liberal mostram-se mais favoráveis à violência política do que
os homens da Geração X e da geração Baby Boomer; e
os norte-americanos com o nível de
escolaridade mais elevado são cerca de duas vezes mais propensos a apoiar a
violência política do que aqueles com menos escolaridade formal.
Os dados são confirmados
pela Gallup:
Será, assim, surpreendente o
contínuo apoio expresso a Luigi Mangione (Carsie Blanton, mais uma vez)? E que Hasan Piker, quando
confrontado com o assunto, prefira falar de como Brian Thompson, na qualidade
de director executivo da United Healthcare, estava envolvido em “social murder”?
É verdade que a moralidade, ao contrário do que os
racionalistas nos querem fazer crer, é fortemente contextual: em determinadas circunstâncias
estamos dispostos a tolerar coisas que, em abstrato, não aceitaríamos.
E o contexto não é irrelevante nos Estados Unidos: como Spiegelman faz
notar, em 1965 um CEO recebia 21 vezes mais do que um trabalhador médio,
mas em 2024 essa diferença era de 281; por outro lado, a confiança no governo
tem caído a pique.
No Reino Unido, e a par do gravíssimo problema de
habitação, encontramos uma inflação tão elevada que o governo trabalhista
sugeriu durante a semana às grandes superfícies que estabelecessem um limite
máximo para bens essenciais. A proposta foi timidamente
retirada, mas as pessoas parecem facilmente seduzidas por este tipo de
promessas.
O custo de vida que, aos poucos, vai destruindo a
coesão social na Europa pode acabar por gerar um contexto em que as regras
morais se tornam menos claras e as gerações mais novas se tornam mais dispostas
a deitar tudo a perder.
Mas desvalorizar os
meios usados por desejarmos os fins políticos que eles prometem pode constituir
o mais grave deslize dos nossos tempos: como poderemos estabelecer o que é
inadmissível se tivermos destruído o tecido moral em que as sociedades se
organizam?
FURTO CRIME SOCIEDADE
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