Pretensão a um relevo social mediático, nestes tempos de imodéstia
atrevida, segundo AG,
que não deixa
escapar as especificidades dos que bem se
prezam, esquecidos – e todos o somos – das vacuidades existenciais…
O vírus
que anda por aí
Nos cruzeiros tradicionais, as pessoas tendem a
contrair vírus sortidos depois de iniciada a jornada; nas “flotilhas” as
pessoas já entram infectadas, com um vírus único.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 16 mai. 2026, 00:24
A febre do momento são os
cruzeiros. Rectifico:
as febres do momento são nos cruzeiros. Mal se acabara de evacuar nas
Canárias os passageiros do navio em que irrompeu um surto do subitamente
popular hantavírus e logo os “media” arranjaram dois casos
colectivos de norovírus, um nas Caraíbas e outro a meio caminho entre a Irlanda do
Norte e a França. Antigamente, eram os barcos que iam à descoberta de terras vastas
e povos desconhecidos. Hoje são os “telejornais” que se esgadanham
para descobrir microorganismos nos barcos, o que pelo menos tem a vantagem
de evitar futuras acusações de colonialismo, além de que é pouco provável
que os germes venham a exigir reparações.
O lado negativo de tudo isto é a indisfarçável
desilusão dos “telejornais”, que começaram excitadíssimos e convencidos de que
chegara o digno sucessor do Diamond Princess, repleto de uma peste similar à
Covid, e afinal a coisa não excedeu os três mortos e oito a onze sujeitos
contaminados. Em termos de potencial pandémico é, diria um estadista
internacional, poucochinho. E o entusiasmo com que de seguida os “media” se voltaram para os
episódios de norovírus evaporou-se no momento em que constataram que a
designação corrente dos efeitos do norovírus é gastroenterite
(há designações ainda
mais correntes, mas a benefício do bom gosto evitarei transcrevê-las). Ora,
ao que sei por erudição e não por experiência, a gastroenterite faz
praticamente parte do pacote básico de cruzeiro que se preze, um “extra” que as
respectivas companhias oferecem graciosamente a par dos espaços limitados, o ar
em circuito fechado e as refeições partilhadas. Ou seja, estas historietas
padecem de uma trivialidade confrangedora.
Felizmente, nem tudo são más notícias ou, para ser exacto, nem
tudo são não-notícias. Se os “media” fazem questão de informar acerca
de pandemias em alto mar, podem aproveitar o lanço e dedicar redobrada
atenção a um drama autêntico que ocorre a bordo de um cruzeiro peculiar. Falo,
naturalmente, da “flotilha” que finge rumar ao Médio Oriente de modo a libertar
(risos prolongados) Gaza. Não é essa: é outra. De facto, é para aí a vigésima
“flotilha” a fingir que vai libertar Gaza. E claro que a banalização, somada à ausência da
“nossa” Mariana Mortágua, explica o diminuto investimento das televisões
portuguesas na empreitada. Porém, se a ideia é “cobrir” barcaças cheias de
gente doente, os noticiários têm ali um maná.
É também preciso reconhecer
que há diferenças. Nos
cruzeiros tradicionais, os turistas pagam a viagem, em regime de pensão
completa com maleitas incluídas e álcool à parte; nas
“flotilhas” para Gaza, os turistas viajam de borla, bebem de borla e alguns são
pagos para espalhar propaganda do Hamas. Nos cruzeiros tradicionais, a regra é uma só
embarcação; nas “flotilhas” seguem dezenas, que se vão
dispersando à medida que atracam em portos festivos e, após noitada valente,
passageiros e tripulação esquecem-se onde estacionaram aquilo. Nos cruzeiros tradicionais,
as pessoas tendem a contrair vírus sortidos depois de iniciada a jornada;
nas “flotilhas” as pessoas já entram infectadas, com um vírus único.
E as diferenças não terminam aqui. Nos cruzeiros tradicionais,
os sintomas das enfermidades vão das perturbações digestivas a, nas situações
graves e raras, edemas pulmonares e arritmias; nas
“flotilhas”, a doença é mental e manifesta-se através da formação de grupinhos
estridentes que repetem de maneira convulsa slogans alusivos à “Palestina
livre”, ao “genocídio” e aos malefícios do “sionismo”. Nos cruzeiros tradicionais, os
eventuais acamados recebem cuidados médicos; nas “flotilhas”, os
destrambelhados são invariavelmente interceptados pelas autoridades israelitas
e usam o breve período de detenção para inventar torturas que nunca sofreram.
E há mais. Nos cruzeiros tradicionais, a
esmagadora maioria dos infortúnios desaparece em poucos dias; nas “flotilhas”, não há esperança
para os pacientes – nem paciência. Em suma, nos cruzeiros
tradicionais corre-se o risco de contrair um agente patogénico;
nas “flotilhas” os agentes patogénicos são os próprios hospedeiros. Os
hospedeiros, o capitão, o cozinheiro, o responsável pela gestão da canábis, o
moço que toca batuques, os restantes “activistas”, etc.
Mas a grande diferença é a impossibilidade de conter a
propagação. O
vírus do “palestinianismo”, ou do anti-semitismo se preferirem o nome técnico,
não se circunscreve a barquinhos ou qualquer meio de transporte. Anda por aí à
solta, nas manifestações de rua, nos estúdios de televisão e nas redacções dos
jornais, no parlamento, nas universidades e nas escolas, nas sedes de partidos
extremistas e às vezes no discurso de estadistas, no remanso dos lares. É antigo como o tempo, traiçoeiro
como as sombras. É um parasita imune à medicação e à decência. E as suas
maiores vítimas não são os que o apanham: somos todos nós.
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