Não, não são de
valentia, mas de alegre despudor bem-falante, as conquistas dos heróis de hoje.
Não há Rubicão que lhes resista. Negócio é o que parece ser.
O
Chega, e André Ventura, atravessaram o seu Rubicão
A forma como André Ventura
está a sabotar qualquer hipótese de rever a lei laboral mostra que apenas se
rege pelos barómetros de popularidade e que se iludem todos os que falam de
maiorias de direita.
OBSERVADOR, 04 mai. 2026, 00:25
12017, restaurante “O Madeirense”. André Ventura entra e é ovacionado. Umas semanas antes
ele ainda era um ilustre desconhecido que almoçara no mesmo local sem provocar
qualquer reacção. Agora não – agora estávamos na comoção que se seguira às
suas declarações sobre a comunidade cigana enquanto candidato do PSD à câmara
de Loures. E ali, naquele restaurante lisboeta, o jovem político (tinha então
34 anos), interpretou o apoio de forma linear: “se calhar devíamos formar um novo
partido”, desabafou com quem o acompanhava.
Este episódio vale o que vale, mas
para mim é um indicador claro: Ventura
percebeu que dizer aquilo que não podia ser dito mas muita gente pensava era um
passaporte para o sucesso na política – e em eleições. Mais: que acertar naquilo que as pessoas
desejam, mesmo que desejem sem noção da viabilidade dos seus desejos, é a
melhor das receitas para ter sucesso no mercado dos votos. Mais
ainda: este episódio, e a forma como depois Ventura nunca
mais deixou o filão da denúncia dos alegados abusos associados à etnia cigana,
sinalizam a meu ver a natureza profunda do líder do Chega.
Essa natureza não é
a de um ideólogo – é a de um populista, e populista no sentido de dizer aquilo
que muitos querem ouvir, mesmo que irrealista.
Essa natureza que não é também a de alguém estruturalmente de
direita – como muitas vezes se diz, tem dias: os dias em que chega a ser reaccionário e os dias em que
alinha com os partidos mais à esquerda a pedir mais Estado.
2Há duas coisas que tenho dito muitas
vezes sempre que falo de Ventura e do Chega. A primeira é que se o compararmos com os
líderes europeus da chamada direita radical, ele mais facilmente se identifica
com demagogos que cavalgam a primeira causa popular (o melhor exemplo será o de
Salvini, o líder da Lega italiana)
do que com aqueles que possuem um pensamento estruturado e
coerente (e aí lembro-me sempre de Giorgia Meloni).
Infelizmente a amalgamação que é tão
comum nos órgãos de informação não nos ajuda a perceber melhor o personagem e
muito menos a entender a sua agenda e o seu modo de actuação.
A segunda é que, ao contrário de uma daquelas
verdades que podem ser apenas ilusões, não estou nada certo que Ventura esteja
destinado a um dia ser primeiro-ministro ou mesmo que consiga continuar a somar
sucessos eleitorais.
A meu ver os últimos dias têm confirmado estas minhas intuições e
tornado bem evidente outra das ilusões dos dias que vivemos: a de que, de
repente, existe em Portugal uma maioria de direita que só não transforma o país
porque Montenegro é um cobarde e um calculista.
Que Montenegro é um calculista não duvido, até dou de barato
a tema da sua coragem política, aquilo de que discordo mesmo é da ideia de que
temos em Portugal, com tradução parlamentar, o que se convencionou chamar “uma
maioria de direita”, maioria tão sólida e tão grande que até poderia, se
quisesse, mudar a Constituição.
Não sendo eu
daqueles que dividem o mundo, de forma muitas vezes maniqueísta e redutora,
entre “esquerdas” e “direitas”, a
verdade é que essa chave de leitura ajuda-nos a perceber inclinações
políticas – talvez não nos ajude é a perceber o
Chega e André Ventura se abandonarmos o reducionismo das classificações que ao
primeiro TikTok o engavetam logo na extrema-direita.
3Senão vejamos o que se passou nas últimas semanas.
De um lado temos um Governo que, com mais ou menos
habilidade política e sensibilidade negocial, tenta concretizar
uma das poucas reformas na sua agenda, a reforma laboral. Já escrevi
sobre o tema, não me vou repetir, mas não acreditando em “balas de prata” que só por si tornem a nossa
economia mais competitiva, não duvido que muitas das medidas propostas
pela equipa de Maria do Rosário Palma Ramalho vão no bem sentido, são
importantes, diria mesmo urgentes.
Do outro lado temos as oposições inevitáveis das
extremas-esquerdas, CGTP incluída, a oposição
ressabiada do PS (que nesta matéria permanece preso a uma reforma iníqua que
fez com os partidos à sua esquerda) e a oposição
incompetente, cobarde, mas teimosa, da UGT.
No Parlamento haveria, teoricamente, uma maioria capaz de derrotar
estes bloqueios, uma maioria capaz mesmo de chegar aos dois terços do
deputados. Mas só teoricamente porque o Chega, e André Ventura, só para
alguns temas são “de direita”, para menos temas ainda serão “liberais”.
Aquilo que Ventura
nos disse por estas semanas é que só estaria disponível para aprovar a
legislação laboral se, em simultâneo, fosse reduzida a idade da reforma.
Trata-se de uma posição que nada tem a ver com ideologia – tem apenas a ver com populismo, tem apenas a
ver com a natureza profunda de Ventura, alguém cuja bússola é mais depressa o
aplauso à entrada em “O Madeirense” do que qualquer projecto para tornar
Portugal um país melhor.
4Olhando para os documentos programáticos do Chega a actual
posição de Ventura não faz sentido e muito menos é coerente.
Primeiro, porque o
Chega se diz liberal, e cito do seu programa: “O ideal da mão invisível, de Adam
Smith (1759/1776), representa a defesa do mercado livre de ideias tão
fundamental à autorregulação da sociedade, quanto o mercado livre de bens e
serviços é fundamental à autorregulação da economia”. Eu sei que o programa é de 2021, mas ainda é o oficial, que
eu saiba.
Depois porque, consultando o seu programa eleitoral de 2025 (ou
seja, o mais recente), não encontramos qualquer referência à necessidade de baixar a idade da reforma. Fala-se
disso a propósito de algumas categorias profissionais (bombeiros, por exemplo),
refere-se isso como bónus para as mulheres que tiverem mais filhos, mas nunca o tema é abordado como uma medida
transversal.
O que André Ventura está a fazer é simples: está a definir uma fasquia
intransponível por qualquer governo responsável. Não vou
discutir aqui o tema em detalhe, mas a sustentabilidade do nosso sistema de
Segurança Social nunca suportaria uma medida como a agora defendida pela Chega.
Do ponto de vista orçamental e social, tal medida seria tão irresponsável como
os desvarios socráticos que nos levaram à bancarrota, com a agravante de ser
ainda mais difícil de corrigir no futuro.
O que André Ventura
parece pretender é também transparente: nunca deixar de ser
oposição, mesmo quando pode ser solução.
5Na última semana a prestação do líder do Chega no
debate parlamentar com o primeiro-ministro só confirma esta análise, pois
apenas fez coro com todos os que, à esquerda, pediram mais Estado, mais gasto
público, mais subsídios, mais irresponsabilidade orçamental, sempre naquela
óptica de que se podem oferecer milhões (baixando o IVA da alimentação, por
exemplo) cortando tostões (acabando com alguns abusos nos subsídios pagos pelo
Estado).
O caminho escolhido por Ventura – mais Estado, mais
leis iliberais – não converge em momento nenhum com o caminho necessário
a uma agenda reformista. Pelo contrário: converge sim com a desgraçada
tradição do autoritarismo corporativista, alinha também com a agenda bloqueadora
das esquerdas contemporâneas, essas esquerdas que se entrincheiram em cada tema
clamando sempre contra os
“retrocessos civilizacionais” quando são elas que estão presas no passado.
O caminho escolhido por Ventura, e que não sei se algum dia
deixará de ser o dele, é um caminho que apenas parece seguir aquilo que mais
facilmente pode receber um sonoro aplauso à mesa do café ou muitos likes nas
redes sociais.
Por outras palavras – Ventura não é de direita nem representa a direita com que sonham alguns
articulistas. Ventura é apenas um político extremamente habilidoso, alguém com
uma enorme sensibilidade para sentir o ar do tempo, um tribuno talentoso mas
que em nenhum momento deu sinais de estar preparado para apoiar medidas que não
passem por dar mais dinheiro, já, a toda a gente (menos aos ciganos e aos
indostânicos).
6Quando, em
49 a.C., um general chamado Júlio César decidiu cruzar, com as suas tropas, o Rubicão, no norte de
Itália, violando as convenções que regiam a República, sabia que estava a
desafiar o Senado e a que a guerra civil seria inevitável. “Alea iacta est” (a
sorte foi lançada) terá então dito, e no início parecia que nada o deteria, pois venceu os exércitos que se
lhe saíram ao caminho e tornou-se ditador. Parecia imparável – até que foi
assassinado, cinco anos depois.
Agora, ao torpedear qualquer acordo “à direita” para reformar a
legislação laboral, e ao fazê-lo desenterrando reivindicações da ultra-esquerda
(a idade da reforma), André Ventura cruzou o seu próprio Rubicão.
No curto prazo pode estar a enfraquecer a governação de Luís
Montenegro, no médio prazo está a condenar qualquer hipótese de “a direita”
funcionar em Portugal como agente de reformas e de progresso. É por isso que o seu populismo é
também um populismo de curto prazo e vistas curtas.
ANDRÉ VENTURA PARTIDO CHEGA POLÍTICA
COMENTÁRIOS (de 105)
Álvaro Venâncio: Excelente crónica de JMF, com a qual concordo
plenamente. Infelizmente
para o país que necessita de enormes reformas, sobretudo muito menos Estado,
André Ventura não chega onde era preciso chegar.
Miguel Seabra: Depois de prometer pensão mínima igual ao
ordenado mínimo, André Ventura exige redução da idade da reforma. Votei no
Chega e no AV por gratidão e admiração pela sua coragem de enfrentar e
desmascarar o socialismo. O povo nas eleições votou na mudança e renegou o
socialismo. Critiquei Montenegro pelo “não é não” que na prática significava
não à mudança e mais do mesmo. Agora vejo AV na cegueira de caçar mais votos a
promover tudo a todos, nem o Costa se atreveu a tanto. O AV
socialista/populista poderá ter mais votos, o meu não terá mais. Que
desilusão….
Glorioso SLB: Existe um partido q é conservador nos costumes
e liberal na economia. Chama-se CDS. Mas a comunicação social smp o perseguiu.
Têm agora este belo Chega como resultado.
(CONTINUA)
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