É mais fácil, afinal, do que assumir o controlo da coisa pública. Certo é que Passos Coelho se recusou a “governar” neste novo mandato, como bem lhe pedimos, ansiosos de uma reviravolta necessária a um equilíbrio que nos parecia só ele parecia capaz de estabelecer, num país de brinquedo, mas recusou. Não, não lhe cabe intervir assim, em bla bla bla pouco simpático para com o “corajoso” que o assumiu. Eu acredito em Montenegro, como pessoa honrada e eficaz. Assim o deixem governar.
O antigo
primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, durante a sua apresentação na
Conferência +Ideias no Museu do Oriente, em Lisboa, 28 de fevereiro de 2026.
JOSE SENA GOULAO/LUSA
Ao lado de Ventura, Passos
atacou "políticos postiços que ficam como prostitutos" e atingiu
Montenegro
MARIANA LIMA CUNHA: Texto
Nos ataques mais violentos
que já fez, Passos criticou políticos que não querem "desagradar a
ninguém" e repetiu reparos ao Governo. Ventura ouviu na primeira
fila e juntos criticaram Montenegro.
26 mai. 2026, 21:54
“Por la mañana café”, e à
noite Passos Coelho e Bad Bunny
08:51 Passos
e Ventura unidos por uma palavra que começa por “p”
08:36 Ronaldo
lidera fortunas e as defesas de Abel Ferreira
08:35 Magnífica
Humanidade. O nome da encíclica já diz quase tudo
08:35 Portugal
continental com aviso amarelo devido ao calor
08:29 Jovem
acusado de massacre no Brasil conhece decisão judicial
08:24 A17
cortada num sentido em Cantanhede devido a colisão
08:19 "Ameaça
russa a Kiev é claramente um ato de desespero"
08:19 Mundial.
Panini vai conseguir salvar coleção de cromos?
Não há tréguas para Luís Montenegro. A mais recente
aparição de Pedro Passos Coelho trouxe também os ataques mais violentos que já
fez em público, falando de políticos “postiços” que, numa tentativa de imitarem
os populistas — acusação tantas vezes lançada ao actual primeiro-ministro –,
acabam por ficar como “prostitutos sem carácter”. Mas não foram só as palavras
de Passos, no palanque da apresentação de um livro, que revelaram uma postura
particularmente ácida contra o Governo: quem o ouvia na primeira fila era André Ventura, e foi ao lado de Ventura
que escolheu aparecer para criticar a falta de “ritmo” do Executivo.
A ocasião era a
apresentação do novo livro do constitucionalista Carlos Blanco de Morais,
“Constituição Fluida”, e representava uma oportunidade perfeita para
Ventura aparecer ao lado do homem que tantas vezes apresenta como referência
(chegou a ter uma foto de Passos no seu gabinete). Assim, mal chegou, Ventura
mostrou-se satisfeito com o “ressurgimento” de Passos em eventos públicos e
quis desafiá-lo, em declarações aos jornalistas, a falar “mais” e a dizer de
sua justiça em temas em que pode estar alinhado com o Chega, da revisão
constitucional à polémica no SIRESP.
E Passos não foi de meias
palavras. Desde logo, e apesar de não ter querido falar aos
jornalistas à chegada, um momento simbólico: permitiu que as televisões
filmassem uma curta conversa com o líder do Chega, antes de se sentarem nos
lugares reservados, lado a lado. Sobre os resultados do Governo, numa aparente
referência às expectativas dos eleitores e depois de há meses vir criticando a
falta de reformismo do Executivo, Passos respondeu: “Impacientes, parece-me que
sim. Era bom que as coisas ganhassem um pouco mais de ritmo, porque
a expectativa que as pessoas têm é essa quando fazem escolhas”.
“E as pessoas esperam
desta maioria também no Parlamento, que faça essas mudanças”, respondeu
Ventura, consciente de que Passos já defendeu publicamente que o Governo
deveria ter procurado um entendimento com a direita parlamentar, embora tenha
depois atacado fortemente a proposta do Chega para baixar a idade da reforma.
“Julgo que sim, pelo menos estão prometidas”, respondeu Passos
sobre as tais “mudanças”, antes de se sentar ao lado de André Ventura e da
deputada do Chega Cristina Rodrigues.
Durante a sua intervenção,
uma vez que lhe cabia apresentar o livro, o antigo líder do PSD foi mais longe,
deixando poucas dúvidas sobre o seu alvo. Depois de, nos últimos meses, ter
criticado o Executivo por acreditar que se limita a gerir o dia a dia ou que
não se atreve a fazer as reformas de que o país precisa — e sendo que há
muito tem a convicção de que a estratégia do “não é não” ao Chega é errada
–, Passos foi violento, agora com os políticos que “não querem desagradar a
ninguém” e imitam os populistas (uma crítica que a oposição tantas vezes lança
contra Montenegro, particularmente no que diz respeito a dossiês como a
segurança ou a imigração).
“Quando, com medo do
populismo, o político do mainstream lhe veste a casaca para evitar que o
populismo chegue com o voto ao palácio, e resolve então ser mais populista do
que o populista, achando ele – não sendo verdadeiramente populista – para
evitar que o verdadeiro lá chegue, normalmente a História mostra que a coisa
não funciona”, começou por avisar Passos, com Ventura — o tal
político que Montenegro é acusado de imitar, para tentar estancar o crescimento
do Chega — na primeira fila.
“O que é autêntico e
genuíno sempre se manifesta de forma muito mais eficaz do que o que é postiço.
E então o postiço fica sem nada: fica sem integridade, fica como um prostituto
sem carácter, sem reduto de pensamento, simplesmente vendido ao aplauso que o
momento lhe possa fornecer”, atirou. “A mesma multidão que o aplaude o
condena passado muito pouco tempo quando o futuro, que não é desejado, chega”.
Para Passos, a ideia de não
desagradar a ninguém — uma “maldição” que tomou conta tanto do espaço político
europeu como português — é uma coisa “virtualmente impossível”, pelo menos
durante muito tempo. E um verdadeiro líder deve contrariá-la, fazendo algo que
o “distinga dos outros”.
E disse mais: voltou à
referência a eleições, depois de em fevereiro ter defendido que, se as
oposições se tornarem forças de bloqueio, esse é “um ponto importante para
[o Governo] se dirigir ao eleitorado e para pedir mais força para as
concretizar”. Agora, como antes, não está a sugerir que deve haver
eleições antecipadas, garantiu. Mas reforçou: “Até se podem perder as eleições,
não é verdade? Mas às vezes há coisas mais importantes do que uma eleição.
Claro que todas as eleições são importantes, porque a democracia vive
grandemente dessa forma. E a forma da eleição é crítica para o funcionamento da
democracia. Agora, o desfecho de uma eleição não é a coisa mais
importante no mundo.”
Por isso, contra os
políticos que acredita que se limitam a agarrar o poder e a gerir depois o dia
a dia, focados na própria sobrevivência, disparou: “Há pessoas que não se importam de
perder a defender aquilo em que acreditam. E o mundo vive disso. O mundo não
vive daqueles que só querem ganhar com as ideias dos outros. (…) Às
vezes é preciso contrariar a corrente e deixar as pessoas escolherem”. Em
democracia, defendeu, os eleitores devem conhecer “verdadeiras alternativas”
para decidirem em liberdade. “Só é possível escolher quando há coragem de
apresentar as alternativas. Se estivermos todos à espera da mesma decisão,
nenhum é digno do futuro que nascerá”.
(O presidente do Chega,
André Ventura (D), cumprimenta o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho,
durante o lançamento do livro "A Constituição Fluida", no
auditório da Faculdade de Direito de Lisboa, 26 de maio de 2026. MANUEL DE ALMEIDA/LUSA)
Passos criticou imigração “excessiva”
Antes, numa intervenção
que durou cerca de 50 minutos, Passos tinha começado por referir as reservas
que teve na altura dos primeiros alargamentos da União Europeia, falando do
clima de optimismo que já existia na altura — e lembrando que já na altura
defendia que “não devemos apenas confiar que as coisas correrão, é preciso
pensar sobre elas”. Ponte
para uma primeira crítica ao estado da arte, ou da política, em Portugal: “E,
embora exista muito vício no nosso país de considerar velhos do Restelo, todos
aqueles que olham para as coisas e não se encantam apenas com o que de bom pode
acontecer, mas que se preocupam também com algumas consequências que podem ser
menos desejadas”.
Depois, analisando as mudanças que o mundo e a Europa
atravessam desde então, o antigo líder do PSD referiu-se aos movimentos identitários que
emergiram, o “empobrecimento relativo” da Europa e a “insatisfação
larvar” que se sente agora no velho continente. Falou das “ansiedades e apreensões” do mundo actual,
da evolução
tecnológica — incluindo o nível de “substituição” em várias
profissões que esta vai implicar — e de como esta leva a uma perda de autoridade no Estado, dos
partidos e uma “inversão dos princípios de autoridade” na sociedade.
Além disso, existem as
guerras “perturbadoras” em que a Europa se vê envolvida. E uma modernidade
“fluida de dissolução social” e de valores, ligada, para Passos, aos
problemas identitários e também da migração — outro tema de que já
falou em público e que já levou o líder do Chega a considerar-se alinhado
com o homem que liderava o PSD quando o próprio Ventura era ainda militante e
candidato autárquico.
A migração, insistiu Passos, nos
Estados Unidos e na Europa, é “excessiva, sentida como excessiva por quase
todas as pessoas”, que ficam “assustadas”. E — numa
concessão ao Governo de Montenegro — sentenciou: “Ainda bem que, por
cá, as coisas, pelo menos, se travaram, vamos ver se se resolvem, acho que
ainda estamos longe disso. Mas pelo menos [foram] travadas. Ao ritmo em que as
coisas estavam a progredir, qualquer dia, estaríamos, com certeza, a falar não
do povo português, nem da cultura portuguesa, nem de coisa nenhuma, estaríamos
a falar de outra coisa qualquer. Isso acontece na história, aconteceu na
história, mas nunca aconteceu pacificamente”.
Sobre este tema, Passos
continuou: não lhe parece que fosse boa ideia “deixar correr as coisas
como estavam a correr”; e, na Europa, esse “deslaçamento” já está a
acontecer. “Não
conseguimos viver sem os imigrantes, mas também não conseguimos viver com a
quantidade de imigrantes que não se aculturam, que não se integram, que não
estão disponíveis para se identificar com aquilo que nós podemos chamar de
idealização do nosso destino comum, que é feita na base de uma História que nós
trazemos connosco”, disse Passos, assegurando que até pela
composição da sua família “seria o último a fazer considerações de natureza
racista“.
Na mesma intervenção, teve
ainda tempo de referir que o SNS está a “rebentar pelas costuras” e que a
Segurança Social vai “engordando” mas a “factura” vai aparecer mais tarde
— e que tudo isso tem
também a ver com as entradas “descontroladas” de imigrantes em Portugal.
E quis avisar que por cá chegou às universidades ou à opinião e “um pouco por
todo o lado” uma auto-censura e uma sensação “irrespirável” de medo de se
dizer o que se pensa.
Passos sobre imigração: "Ainda bem
que, por cá, as coisas, pelo menos, se travaram, vamos ver se se resolvem, acho
que ainda estamos longe disso. Mas pelo menos [foram] travadas. Ao ritmo em que
as coisas estavam a progressar, qualquer dia, estaríamos, com certeza, a falar
não do povo português, nem da cultura portuguesa, nem de coisa nenhuma,
estaríamos a falar de outra coisa qualquer".
mais →
Na apresentação de um livro
sobre a Constituição, Passos usou a conversa com Ventura para contar ao
público que este lhe tinha perguntado sobre se o texto incluía alguma coisa
sobre uma possível mudança na Lei Fundamental. O Chega tem insistindo nisso e
já entregou um projecto, mas o PSD só está disponível para iniciar o processo
no próximo ano.
E Passos aproveitou para
deixar a ideia e o desejo de que “esta liquefação de valores, de identidades, não
venha progressivamente, de forma submissiva, a tornar inevitável a sua
consagração em princípios constitucionais, direitos constitucionais novos,
demasiado fluidos, que têm pouco de ver com a nossa cultura e com aquilo que
somos. Nessa medida, vejo aqui uma proposta, portanto, preventiva. (…) Ela deve
ter uma expressão política concreta. Quando nós achamos que alguma coisa está
em risco, devemos fazer qualquer coisa para o prevenir”.
Antes de entrar, Ventura
tinha desvalorizado as divergências entre ambos sobre a descida da idade da
reforma — que Ventura coloca como condição para aprovar a reforma laboral do
Governo, e da qual Passos discorda — e preferido falar das “proximidades”
entre os dois. “Talvez
seja uma boa oportunidade hoje de se falar da revisão constitucional. Hoje era
um bom dia para dizer se concorda ou não”, atirou, referindo as
propostas do Chega para alterar a Lei Fundamental de forma a mudar o modelo
económico que ali se prevê, estabelecer claramente a hipótese da perda da
nacionalidade ou permitir uma reforma da Justiça.
“Perante o projecto que
apresentámos com estas coisas concretas penso que Passos concordaria, mas não
vou vinculá-lo”, defendeu. Passos não lhe fez a vontade, uma vez que não quis
quis falar em concreto da revisão constitucional, mas no fim da sua intervenção
foi possível ouvir Ventura, apanhado pelas televisões, agradecer ao
antigo líder do PSD: “Gostei muito de o ouvir!” Luís Montenegro dificilmente
terá gostado tanto.
POLÍTICA PEDRO PASSOS COELHO
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