Do nosso espanto sombrio.
Eles estavam sempre aos gritos". Marine Rousseau
mudou várias vezes de casa antes do abandono dos filhos em Portugal
Vizinha de Marine e do
ex-marido recorda "gritos" e "discussões" constantes do
casal antes da mudança para Colmar. Crianças vão voltar à cidade sob o cuidado
das autoridades francesas.
27 mai. 2026, 20:23
MARTIM ANDRADE (em Troyes, França): TEXTO
Em Troyes, a semana começou
quente e silenciosa. O feriado da segunda-feira de Pentecostes quando se
registaram 32 °C nesta cidade francesa, em plena cúpula de calor, fechou as
lojas da Rue Émile Zola, onde viveu Marine Rousseau. Durante quase uma
década, foi lá que morou com os filhos e o então marido e pai de B. e Z., as
duas crianças encontradas em Monte Novo do Sul. A mulher, agora em
prisão preventiva em Portugal tal como o actual companheiro, não deixou
recordações nos novos moradores e, até no sítio onde trabalhou até 2022, não
passa de uma cara que apareceu nas notícias.
Só na terça-feira é que o
Centre Médico-Psycho-Pédagogique (CMPP) da região de Aube reabriu as suas
portas. Aqui, segundo o seu perfil de LinkedIn, Marine Rousseau acompanhou
várias crianças e adolescentes dos quatro aos 20 anos e organizou “oficinas de
relaxamento” para adolescentes entre os 16 e os 18. Realizou, também,
várias sessões especiais destinadas a menores “com perturbações de
representação espacial e perturbações práxicas”.
Este foi o seu local de
trabalho durante quase oito anos, desde 2014 até 2022. Mas a sua
longa passagem pelo centro de apoio psicológico, que nos dias de hoje até tem
uma nova direcção, não é relembrada. O nome “Marine Rousseau”, que por si só não
suscita reacção às funcionárias, só ganha sentido com a menção do caso. É a mulher que abandonou os filhos em
Portugal.
Marine trabalhou no
Centre Médico-Psycho-Pédagogique (CMPP) da região de Aube durante quase oito
anos
MARTIM ANDRADE/OBSERVADOR
Marine, o marido e os
três filhos viviam perto da Rue Emile Zola, uma das principais ruas comerciais
da cidade de Troyes
MARTIM ANDRADE/OBSERVADOR
Porém, Troyes foi a
cidade onde Marine passou mais tempo desde que saiu da Universidade de
Sorbonne, onde se formou em psicomotricidade a cerca de um quilómetro da
Catedral Notre Dame em Paris. Mal recebeu o diploma, começou a
afastar-se gradualmente da capital francesa. Começou por Villejuif, ainda na Área Metropolitana de Paris,
onde terá nascido o seu primeiro filho B., que é meio-irmão das duas crianças
abandonadas.
A mulher viveu quatro
anos na periferia da capital até se ter mudado durante dois anos para Provins.
Seria a sua última paragem antes de Troyes, onde foi sempre discreta, e onde
se começou a interessar por outra área de estudo.
Os “gritos” constantes e uma saída “abrupta”
Em 2018, quando ainda
estava no CMPP de Troyes, Marine Rousseau passou a envolver-se em mais
iniciativas sobre sexologia e, no ano seguinte e em paralelo com os jovens que
ia recebendo no consultório, já dava também consultas na área da saúde sexual
de forma autónoma.
Marine acabou por
abandonar o Centre Médico-Psycho-Pédagogique e a cidade de Troyes para
tornar-se sexóloga em regime full-time. Ela, o marido e os filhos decidiram
comprar uma casa na aldeia de Saint Phal, a aproximadamente meia hora de carro
de Troyes. Apesar de se situar já fora da “rolha” a que é comparada a
forma da região histórica de Champagne, os tons bege e castanho dos edifícios
mantêm-se e as planícies verdejantes acompanham toda a estrada.
Quase sempre vazio, o
autocarro pára junto à imponente igreja gótica de Saint Phal, uma autêntica
aldeia-dormitório. “As pessoas vão trabalhar para Troyes logo de manhã e só
voltam à noite, para dormir”, relata uma funcionária da autarquia local. O
sol queima e as sombras escasseiam. Em Saint Phal, não há um café, um
restaurante, um supermercado ou até uma esquadra da polícia. É a hora de almoço
e a aldeia está deserta.
Enquanto lá viveu e como os seus então vizinhos, Marine
continuava a trabalhar em Troyes, onde os filhos estavam inscritos na creche e
na escola. A sexóloga dava consultas online, mas também tinha um
consultório na cidade. “Não estiveram cá muito tempo e nunca passaram
aqui pela Câmara”, conta a funcionária da autarquia, que nunca se
cruzou com Marine na aldeia.
O OBSERVADOR sabe que Marine terá saído da casa número cinco da Rue
des Cannes, em Saint Phal, com os filhos no verão de 2025. Passado
quase um ano, na moradia exibe-se um cartaz a anunciar que foi vendida mas não
há sinais dos novos inquilinos: o relvado frente à casa continua abandonado.
Os vizinhos não sabem quem
comprou a casa, mas entre eles, há quem recorde uma passagem “instável” de
Marine pela aldeia. “Tentei falar várias vezes com ela, mas nunca me
deu conversa”, conta uma vizinha ao Observador. E uma noite, o
marido teve que “intervir numa discussão” entre a sexóloga e o pai dos dois
filhos.
“O meu marido teve de ir lá
às 21h, porque eles não paravam de gritar e de certeza que as crianças
precisavam de dormir. Estavam sempre aos gritos”, recorda. Quando o pai das
crianças saiu de casa, a vizinha relata que Marine “proibiu” várias vezes
o ex-marido de ver os filhos. Foi Marine que ficou com a guarda total das duas
crianças, B. e Z., após o divórcio. Ao pai só foram permitidas “visitas
limitadas e supervisionadas”, decisão de que entretanto recorreu, de acordo com
o procurador de Colmar.
Segundo o relato da vizinha de
Marine, a sexóloga
abandonou a moradia número cinco “abruptamente” em direção a Colmar e
encarregou o pai do transporte dos seus pertences de Troyes até à cidade na
região de Alsácia.
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A casa onde Marine Rousseau, o marido e os três filhos viveram em Saint Phal
MARTIM ANDRADE/OBSERVADOR
Crianças abandonadas vão regressar a Colmar e ficar ao
cuidado dos serviços de apoio social
Marine e os filhos chegaram a Colmar no verão de 2025
e, menos de um ano depois, a mulher e Marc Ballabriga começaram a viagem num
Opel cinzento que culminaria na sua detenção em Portugal. Só
depois é que a cara de Marine deixou de ser uma incógnita e passou a ser
facilmente identificada como a da “mãe que abandonou os filhos” entre Alcácer
do Sal e a Comporta. No dia 11 de maio, o pai de B. e Z. participou o
desaparecimento das crianças e da ex-mulher às autoridades em Colmar, onde a
ausência dos meninos também foi notada nas escolas que frequentavam.
As crianças foram abandonadas numa mata próxima da Nacional
253, salvas pelo padeiro Alexandre Quintas, e Marine Rousseau e Marc Ballabriga
foram detidos pela GNR dois dias depois, em Fátima. Após duas noites no hospital, B. e Z.
passaram a última semana ao cuidado de uma família de acolhimento, enquanto a
mãe e o padrasto estão em prisão preventiva. Esta terça-feira, o juiz-presidente
do Tribunal Judicial da Comarca de Setúbal confirmou que os dois menores iriam
ser repatriados.
“Este regresso ao país da sua residência habitual vai
ser articulado e executado entre as autoridades portuguesas e francesas
competentes com vista a garantir o mínimo prejuízo para o superior interesse
destas crianças, esgotando-se assim, com a sua execução, a intervenção das
autoridades judiciárias portuguesas”, informou ANTÓNIO JOSÉ
FIALHO num comunicado emitido esta terça-feira.
Foram as autoridades judiciárias francesas que tomaram
a decisão de colocar B. e Z. aos cuidados dos serviços de apoio social de
Colmar, enquanto “procedem à avaliação de familiares ou terceiros com vista a
aferir as condições destes para acolher as crianças, considerando a situação da
mãe e o regime de visitas supervisionado e controlado do pai”. Assim,
mais de duas semanas após terem entrado em Portugal de carro através da
fronteira com Espanha em Miranda do Douro, os menores irão regressar ao local
onde viveram durante os últimos meses, sem a mãe.
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