sexta-feira, 22 de maio de 2026

Há sempre

 

Motivos justificativos das acções humanas, as vaidades e ambições contando, naturalmente, para estas de que trata o texto de JNP, de potências que se prezam.

Justificação prévia do título de JNP: Armadilha de Tucídides é um conceito das relações internacionais, popularizado pelo cientista político norte-americano Graham T. Allison, que descreve a aparente tendência inexorável à guerra quando uma potência emergente ameaça substituir uma grande potência, já consolidada como hegemónica, no sistema internacional. O conceito foi cunhado e é usado principalmente para descrever um potencial conflito entre os Estados Unidos e a República Popular da China. O termo é baseado em uma citação do antigo historiador e militar ateniense Tucídides (c. 460 - 400 a.C.), que postulou que a Guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta, havia sido causada pela preocupação espartana com o crescimento do poder ateniense, tornando a guerra inevitável. Thomas Hobbes traduziu Tucídides e elaborou os seus exemplos de três motivos para a guerra no Leviatã; daí surgiu também o conceito mais geral de armadilha de conflito conhecido como armadilha hobbesiana ou dilema de Schelling, que descreve a escalada de agressão envolvendo cálculo de vantagem de defesa armamentista e ataque preventivo. O conceito foi popularizado também na teoria dos jogos e pelo psicólogo Steven Pinker

Trump, Xi e a armadilha de Tucídides

Poderão o sonho chinês e o sonho americano – ou o Grande Rejuvenescimento da Nação Chinesa de Xi e o Make America Great Again de Trump – evitar a Armadilha de Tucídides e “andar de mãos dadas”?

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 21 mai. 2026, 00:25

No fim da visita de Trump à China, e sem pretender acesso a segredos de Estado, é possível tirar algumas conclusões: os líderes dos dois grandes poderes mundiais – em economia, capacidade militar, inovação tecnológica, importância geopolítica – mostraram-se, cada um a seu modo, relativamente satisfeitos com os resultados da cimeira.  Trump, mais efusivamente satisfeito, tratando Xi por “grande homem” e “amigo” e falando sobretudo dos negócios conseguidos; Xi, mais moderadamente satisfeito, pensando sobretudo no reconhecimento implícito da China como potência equiparável aos Estados Unidos.

Seja como for, apesar da generosa adjectivação de um e da reserva prudente do outro, os dois homens têm muito para se entenderem: são ambos realistas, nacionalistas e amantes do poder. E são ambos autoritários, tanto quanto os respectivos sistemas políticos permitem – sendo que o de Xi permite muito e o de Trump muito pouco. O número 1 chinês não tem de contar com opinião pública, eleições ou oposição e foi subordinando o Partido Comunista e os militares à sua vontade; o número 1 norte-americano tem de contar com tudo aquilo com que Xi não conta e ainda com o clima hostil dos media americanos e europeus, onde, aparentemente, a crítica insultuosa ao actual inquilino da Casa Branca se instituiu como prova de virtude ou até de admissão à classe.

Política, Negócio e negócios políticos

Trump precisa das terras raras chinesas e a China depende dos microchips da Nvidia, cujo patrão, Jensen Huang, integrou a comitiva norte-americana. E se Trump e Washington têm um sério problemasair airosamente da guerra do Irão e restituir a liberdade de circulação ao estreito de Ormuz, – Xi e Pequim têm outroTaiwan. Ou seja, uma possível ajuda chinesa no Irão pode ter como preço uma cedência americana em relação a Taiwan. Ora o apoio a Taiwan é talvez o único ponto em que o Congresso norte-americano, radicalmente dividido, ainda converge. E para o próprio Trump, deixar cair Taiwan seria também uma inequívoca perda de face.

Xi, que tem cultura clássica (leu muito quando partilhou a desgraça do pai, na Revolução Cultural), lembrou a Trump a famosa “Armadilha de Tucídides”: o risco de guerra quase inevitável entre a potência dominante e a potência em ascensão que ameaça roubar-lhe a primazia. Aconteceu na Grécia, quando Atenas cresceu em poder marítimo, Esparta se assustou e rebentou a Guerra do Peloponeso.

Graham Allison, historiador e politólogo americano, escreveu em Agosto de 2012 no Financial Times sobre a actual emergência da velha Armadilha no Pacífico (“The Thucydides’s Trapehas been sprung in Pacific”):  a China era o grande poder em ascensão que, “dentro de uma década”, ultrapassaria os Estados Unidos, tornando-se “a maior economia do mundo.”

Ora tal não aconteceu. Segundo o FMI, em 2024, a economia norte-americana excedeu os 30 triliões, com a economia chinesa a ficar-se pelos 20 triliões. Desde o último encontro dos dois líderes, em 2017, apesar de a economia chinesa estar a crescer a uma média anual que duplica a média de crescimento americana (5,48% versus 2,5%), a disparidade mantém-se; porque se em Paridade de Poder de Compra as duas economias se apresentam mais próximas, em Renda Per Capita a diferença continua a ser abissal: os americanos somam 94.000 USD e os chineses 15.000.

De qualquer forma, no encontro de Pequim, Xi não hesitou em avançar com a Armadilha de Tucídides:

Podem a China e os Estados Unidos ultrapassar a Armadilha de Tucídides e estabelecer um novo paradigma de relações entre grandes poderes?”

E para reforçar a erudita questão e cativar o interlocutor, o líder chinês acrescentava um brinde ao brinde do banquete:

“Os povos da China e dos Estados Unidos são ambos grandes povos. O Grande Rejuvenescimento da Nação Chinesa e o Make América Great Again podem andar de mãos dadas.”

O nó do problema

Para Allison – que, confesso, não me convenceu com alguns exemplos de conflitos passados que sustentariam a sua tese da “inevitabilidade da guerra” (desde que há armas atómicas, a potência incumbente e a potência emergente deixaram, racionalmente, de se confrontar em guerra directa) –, ambos os interlocutores podem sair por cima da cimeira: Xi, com a China a ganhar o estatuto de principal parceiro ou rival da América; Trump na expectativa da tal mala cheia de bons negócios para as empresas americanas.

Porém, as questões políticas prementes, o Irão e Taiwan, parecem ter ficado a hibernar na ambiguidade diplomática. Segundo o The Straits Times de Singapura (em Fire and Water: Xi warns Taiwan issue could rupture China-US Ties), Xi não podia ter sido mais claro em relação a Taiwan, aconselhando Trump a ter o maior cuidado, sob pena de enveredar por um caminho perigoso capaz de os levar ao conflito. E apesar de o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ter vindo depois desdramatizar o aviso de Xi dizendo que a China se tinha limitado a repetir a deixa do costume a que os norte-americanos sempre respondiam reiterando a mesma posição, para depois seguirem para outros assuntos –, a verdade é que, desta vez, Xi foi mais categórico. E convém não esquecer que Trump, no regresso da China, foi avisando Taiwan para não falar em independência.

Pelo sonho é que vamos

Xi nunca se afastou do reconhecimento de um mundo multipolar, em que, além dos Estados Unidos e da China, há outros poderes importantes, como a Rússia de Putin e a Índia de Modi, e poderes médios, como a Turquia, a Arábia Saudita, o Japão, a Alemanha, Israel.  No entanto, com Trump, cedeu ao sonho de um mundo bipolar, com um eixo em Washington e outro em Pequim.  Segundo o presidente chinês, ele e Trump tinham concordado em criar uma relação construtiva e estrategicamente estável” entre os dois grandes poderes, que deviam ser “mais parceiros do que rivais”.

Lembre-se que Xi alterou profundamente o sistema de direcção colegial que vinha de Deng Xiao Ping, definiu o regime a que preside como “socialismo com características chinesas para uma Nova Era” e juntou-lhe um sonho, “o Sonho Chinês do Rejuvenescimento Nacional”. Foi este novo sonho chinês que ali estendeu a mão ao sonho americano de Trump, para partirem rumo ao pôr do sol, não em duelo, mas numa “relação construtiva e estrategicamente estável.”

É claro que todo este mundo de sonho aterra num mundo real seriamente abalado e prejudicado pela guerra do Irão e as suas consequências económico-financeiras.

Trump, que é menos errático do que parece, já percebeu o erro em que incorreu e quer sair dele, mas não de qualquer maneira. Até porque, além da hostilidade persistente da Esquerda, conta agora também com a crítica, nas suas hostes, dos conservadores mais realistas.

A sondagem publicada no New York Times de segunda-feira, 18 de Maio, é eloquente: 64% dos inquiridos considera a guerra com o Irão um erro de Trump, incluindo 22% dos republicanos. E só um terço do total dos inquiridos aprova a sua gestão da economia, a preocupação primeira dos eleitores, bem como a política do Presidente no conflito Israel-Palestina.

É certo que o New York Times não gosta de Trump e que sondagens são sondagens, mas a realidade não há-de estar muito longe disto. E já não falta muito para Novembro.

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AMÉRICA       MUNDO

COMENTÁRIOS:

Francisco Almeida: Na realidade nada sabemos sobre o encontro. Apenas sabemos o que disseram depois e, obviamente, cada um disse o que lhe convém. Xi confirmou-se como interlocutor válido para os EUA e, ao receber Putín dois dias depois, passou a imagem de que o futuro do mundo se resolve na China. As duas questões curiais Taiwan e Irão não parecem ter solução. Se a China invadir ou bloquear Taiwan o Japão desencadeia a guerra, Seria uma repetição do Irão em que a primeira ministra do Japão substituía Netanyahu. No Irão os americanos estão a gastar demasiado (um Patriot de milhões de dólares para interceptar um Fattah de centenas de milhar e o custo de substituição do AWAC destruído anda na ordem dos 2,8 mil milhões) e Trump está cada vez mais pressionado pela opinião pública interna o que o Irão percebeu muito bem e usa a táctica negocial de oferecer alguma coisa mas nunca o essencial. É, como sempre foi, uma maneira de ganhar tempo. Diria que Trump está a perder nos dois tabuleiros. Mas é absolutamente revoltante, ver a "inteligentsia" europeia a regozijar-se com isso.                        victor guerra: A "armadilha "já foi herdada por Trump . Durante as administrações anteriores, a China tomou conta do mundo, da geo-politica do Oriente ao estatuto de "fábrica do mundo". Agora, até recebeu a rendição da indústria automóvel europeia. As "rotas da seda" ainda não estão em força, mas os chineses dominam os grandes investimentos em África. Como estamos a falar de potências nucleares, ninguém quer arriscar, então sorrisos e salamaleques . E a China não tem o "incómodo" de eleições e mudanças no poder. Era mais simples no tempo de Atenas e Esparta.                                Francisco Ramos: Parece que a solução aprovada pela opinião pública, em geral, teria sido deixar o Irão à solta, acabar de montar um cordão do aço à volta dos países do golfo, com a desculpa de que o objectivo era Israel, e claro quando os países do golfo acordassem do sono estariam a ser abocanhados pelo Irão, com uma mãozinha da China e da Rússia.                             Manuel Lisboa: Por partes: primeiro, económica e militarmente os EUA são, clara e inequivocamente, muito superiores à China e essa indiscutível e natural ascendência depende pouco ou nada de quem é o seu presidente da república, assentando na sociedade alicerçada em valores liberais e no sistema político baseado no estado de direito; segundo, a China continua a ser o que sempre foi um império mais ou menos dinástico, cujo progresso hoje em dia continua a depender da exploração de mão de obra ainda bastante barata em comparação com o ocidente e da utilização de tecnologia de origem ocidental, designadamente norte-americana - um pouco à semelhança do Japão, sobretudo das décadas de sessenta e setenta do século XX, porém os japoneses conseguiram, em parte graças à relativamente breve ocupação norte-americana após a II Guerra Mundial, conciliar o desenvolvimento económico com o passado e instituições de cariz demoliberal; e, portanto, por mais que o monolitismo secular chinês (o regime comunista contribui de maneira decisiva para acentuar essa tradição) tente,  nunca conseguirá igualar os EUA, apesar da disparatada incompetência da actual administração central de Washington. Estas três constatações não implicam, óbvio, que governos norte-americanos não estejam atentos e sempre activos a defender os seus interesses globais e regionais. Aliás, como todas as potências mundiais sempre fizeram. Ora aí encontra-se o busílis habitual da diplomacia dos EUA e também do uso das suas extraordinárias e únicas à escala mundial capacidades militares: conciliar a estratégia e o tacticismo. Esse é, por exemplo, o dilema do conflito da actualidade contra o Irão, como o foi, por exemplo, no Afeganistão e no Iraque. Estrategicamente essas guerras representaram decisões políticas e diplomáticas correctas e militarmente, numa primeira fase, os seus objectivos foram alcançados de maneira eficiente e até brilhante; contudo, houve evidente falta de capacidade táctica e imaginação para conseguir estabilizar esses países ou regiões. Depois, o preço exorbitante dessas operações tornou-se numa inevitabilidade e numa sociedade aberta os meios de informação precisam de vender e captar audiências, tornando perante a opinião pública qualquer contratempo, deslize ou mesmo desastre em erro, fracasso ou hecatombe. E nos casos referidos houve tudo isso e talvez mais. Neste domínio as observações de Jaime Nogueira Pinto são bem pertinentes.  Concluindo, a China é sem qualquer dúvida potência mundial muito importante. A Rússia arruinada deixou de ser facto relevante para passar a ser apenas perniciosa e perigosa. O peso dos estados europeus será forte, enquanto a NATO se mantiver e projectar coesão quanto baste, até porque se demonstram impraticáveis os ditirâmbicos projectos de forças armadas europeias autónomas, começando pela simples razão que os governos não querem gastar o dinheiro necessário para as criar e, principalmente, manter. Todavia, sublinhe-se, os EUA são ainda a única potência mundial incontornável e em qualquer região do planeta, independentemente de comportamentos irascíveis, obtusos, erráticos e cómicos do chefe da sua administração central. Lamentavelmente, há quase setenta anos que os EUA não têm nenhum dirigente do calibre e qualidades únicas de George Marshall; e Kissinger também já morreu.

Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!

Paulo Mariano: Obrigado. Muito bom.

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