Motivos justificativos das acções humanas, as vaidades e ambições contando, naturalmente, para estas de que trata o texto de JNP, de potências que se prezam.
Justificação prévia do título de JNP: Armadilha de Tucídides é um conceito das relações
internacionais, popularizado pelo cientista político norte-americano Graham
T. Allison, que
descreve a aparente tendência inexorável à guerra quando uma potência emergente ameaça
substituir uma grande potência, já consolidada como hegemónica, no sistema
internacional. O conceito foi cunhado e é usado principalmente para descrever um
potencial conflito entre os Estados Unidos e a República Popular da China. O termo é baseado em uma citação do
antigo historiador e militar ateniense Tucídides (c. 460 - 400 a.C.), que postulou
que a Guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta, havia sido
causada pela preocupação espartana com o crescimento do poder ateniense,
tornando a guerra inevitável. Thomas Hobbes traduziu Tucídides e elaborou os seus
exemplos de três motivos para a guerra no Leviatã; daí surgiu também o
conceito mais geral de armadilha de conflito conhecido como armadilha
hobbesiana ou dilema de Schelling, que descreve a escalada de agressão
envolvendo cálculo de vantagem de defesa armamentista e ataque preventivo. O conceito foi popularizado também
na teoria dos jogos e pelo psicólogo Steven Pinker
Trump, Xi
e a armadilha de Tucídides
Poderão o sonho chinês e o sonho americano – ou o Grande
Rejuvenescimento da Nação Chinesa de Xi e o Make America Great Again
de Trump –
evitar a Armadilha de Tucídides e “andar de mãos dadas”?
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 21 mai. 2026, 00:25
No fim da visita de Trump à China, e
sem pretender acesso a segredos de Estado, é possível tirar algumas conclusões:
os líderes dos dois grandes poderes mundiais – em economia, capacidade militar,
inovação tecnológica, importância geopolítica – mostraram-se, cada um a
seu modo, relativamente satisfeitos com os resultados da cimeira. Trump, mais efusivamente satisfeito, tratando
Xi por “grande
homem” e “amigo” e falando sobretudo dos negócios conseguidos;
Xi, mais moderadamente satisfeito, pensando sobretudo no reconhecimento
implícito da China como potência equiparável aos Estados Unidos.
Seja como for, apesar da
generosa adjectivação de um e da reserva prudente do outro, os dois
homens têm muito para se entenderem: são ambos realistas, nacionalistas e amantes do poder.
E são ambos autoritários, tanto quanto os respectivos sistemas políticos
permitem – sendo que o de Xi permite muito e o de Trump muito pouco. O número 1 chinês não tem de contar
com opinião pública, eleições ou oposição e foi subordinando o Partido
Comunista e os militares à sua vontade; o número 1 norte-americano tem de
contar com tudo aquilo com que Xi não conta e ainda com o clima hostil dos
media americanos e europeus, onde, aparentemente, a crítica insultuosa ao
actual inquilino da Casa Branca se instituiu como prova de virtude ou até de
admissão à classe.
Política, Negócio e negócios políticos
Trump precisa das terras raras chinesas e a
China depende dos microchips da Nvidia, cujo patrão, Jensen Huang, integrou a
comitiva norte-americana. E se Trump e Washington têm um sério
problema – sair
airosamente da guerra do Irão e restituir a liberdade de circulação ao estreito
de Ormuz, – Xi e Pequim têm outro – Taiwan. Ou seja, uma possível ajuda chinesa
no Irão pode ter como preço uma cedência americana em relação a Taiwan.
Ora o apoio a
Taiwan é talvez o único ponto em que o Congresso norte-americano, radicalmente
dividido, ainda converge. E para o próprio Trump, deixar cair Taiwan seria
também uma inequívoca perda de face.
Xi, que tem cultura clássica (leu muito quando
partilhou a desgraça do pai, na Revolução Cultural), lembrou a Trump
a famosa “Armadilha
de Tucídides”: o risco de guerra quase inevitável entre a potência dominante
e a potência em ascensão que ameaça roubar-lhe a primazia. Aconteceu na Grécia, quando Atenas
cresceu em poder marítimo, Esparta se assustou e rebentou a Guerra do
Peloponeso.
Graham Allison, historiador e politólogo americano,
escreveu em Agosto de 2012 no Financial Times sobre a actual emergência da velha Armadilha
no Pacífico (“The Thucydides’s Trapehas been sprung in
Pacific”): a China era o grande poder em
ascensão que, “dentro de uma década”, ultrapassaria os Estados Unidos,
tornando-se “a maior economia do mundo.”
Ora tal não aconteceu. Segundo o FMI, em
2024, a
economia norte-americana excedeu os 30 triliões, com a economia chinesa a
ficar-se pelos 20 triliões. Desde o último encontro dos dois
líderes, em 2017, apesar de a economia chinesa estar a crescer a uma média
anual que duplica a média de crescimento americana (5,48% versus 2,5%), a disparidade mantém-se;
porque se em Paridade de Poder de Compra as duas economias se
apresentam mais próximas, em Renda Per Capita a diferença continua a ser
abissal: os
americanos somam 94.000 USD e os chineses 15.000.
De qualquer forma, no
encontro de Pequim, Xi não hesitou em avançar com a Armadilha de Tucídides:
“Podem a China e os Estados
Unidos ultrapassar a Armadilha de Tucídides e estabelecer um novo paradigma de
relações entre grandes poderes?”
E para reforçar a erudita
questão e cativar o interlocutor, o líder chinês acrescentava um brinde ao
brinde do banquete:
“Os povos da China e dos Estados Unidos são ambos grandes
povos. O Grande Rejuvenescimento da Nação Chinesa e o Make América Great
Again podem andar de mãos dadas.”
O nó do problema
Para Allison – que, confesso,
não me convenceu com alguns exemplos de conflitos passados que sustentariam a
sua tese da “inevitabilidade
da guerra” (desde que há armas atómicas, a potência incumbente e a potência emergente
deixaram, racionalmente, de se confrontar em guerra directa) –,
ambos os interlocutores podem sair por cima da cimeira: Xi, com a China a ganhar o
estatuto de principal parceiro ou rival da América; Trump na expectativa da tal
mala cheia de bons negócios para as empresas americanas.
Porém,
as questões
políticas prementes, o Irão e Taiwan, parecem ter ficado a hibernar na ambiguidade diplomática.
Segundo o The Straits Times de Singapura (em
“Fire and Water: Xi warns Taiwan issue could
rupture China-US Ties”), Xi não podia ter sido mais claro em relação a Taiwan, aconselhando Trump a ter o maior cuidado, sob pena de
enveredar por um “caminho perigoso” capaz de os levar ao conflito.
E apesar de o secretário de
Estado norte-americano, Marco Rubio, ter vindo depois desdramatizar o aviso de Xi – dizendo que a China se
tinha limitado a repetir a deixa do costume a que os norte-americanos sempre
respondiam reiterando a mesma posição, para depois seguirem para outros
assuntos –, a verdade é que, desta vez, Xi foi mais categórico.
E convém não esquecer que Trump, no regresso da China, foi avisando Taiwan para não falar em
independência.
Pelo sonho é que vamos
Xi nunca se afastou do reconhecimento de um mundo
multipolar, em que, além dos Estados Unidos e da China, há outros poderes
importantes, como a Rússia de Putin e a Índia de Modi, e poderes médios, como a Turquia, a Arábia Saudita, o Japão, a
Alemanha, Israel. No entanto, com Trump, cedeu ao sonho
de um mundo bipolar, com um eixo em Washington e outro em Pequim. Segundo o presidente chinês, ele e Trump
tinham concordado em criar uma “relação construtiva e estrategicamente
estável” entre os dois grandes poderes, que deviam ser “mais parceiros
do que rivais”.
Lembre-se que Xi alterou profundamente
o sistema de direcção colegial que vinha de Deng Xiao Ping, definiu
o regime a que preside como “socialismo com características chinesas para uma Nova Era”
e juntou-lhe um sonho, “o
Sonho Chinês do Rejuvenescimento Nacional”. Foi este novo sonho chinês que ali
estendeu a mão ao sonho americano de Trump, para partirem rumo ao pôr do sol,
não em duelo, mas numa “relação construtiva e estrategicamente estável.”
É claro que todo este mundo de sonho aterra num mundo
real seriamente
abalado e prejudicado pela guerra do Irão e as suas consequências
económico-financeiras.
Trump, que é menos errático
do que parece, já percebeu o erro em que incorreu e quer sair dele, mas não de
qualquer maneira. Até porque, além da hostilidade persistente da Esquerda, conta agora
também com a crítica, nas suas hostes, dos conservadores mais realistas.
A sondagem publicada no New
York Times de segunda-feira, 18 de Maio, é eloquente: 64% dos inquiridos considera
a guerra com o Irão um erro de Trump, incluindo 22% dos
republicanos. E só um terço do total dos inquiridos aprova a sua gestão da
economia, a preocupação primeira dos eleitores, bem como a política do
Presidente no conflito Israel-Palestina.
É certo que o New York
Times não gosta de Trump e que sondagens são sondagens, mas a realidade não
há-de estar muito longe disto. E já não falta muito para Novembro.
Receba um alerta sempre que
Jaime Nogueira Pinto publique um novo artigo.
AMÉRICA MUNDO
COMENTÁRIOS:
Francisco Almeida: Na realidade nada
sabemos sobre o encontro. Apenas sabemos o que disseram depois e, obviamente,
cada um disse o que lhe convém. Xi confirmou-se como interlocutor válido para
os EUA e, ao receber Putín dois dias depois, passou a imagem de que o futuro do
mundo se resolve na China. As duas questões curiais Taiwan e Irão não parecem
ter solução. Se a China invadir ou bloquear Taiwan o Japão desencadeia a
guerra, Seria uma repetição do Irão em que a primeira ministra do Japão
substituía Netanyahu. No Irão os americanos estão a gastar demasiado (um
Patriot de milhões de dólares para interceptar um Fattah de centenas de milhar
e o custo de substituição do AWAC destruído anda na ordem dos 2,8 mil milhões)
e Trump está cada vez mais pressionado pela opinião pública interna o que o
Irão percebeu muito bem e usa a táctica negocial de oferecer alguma coisa mas
nunca o essencial. É, como sempre foi, uma maneira de ganhar tempo. Diria que
Trump está a perder nos dois tabuleiros. Mas é absolutamente revoltante, ver a
"inteligentsia" europeia a regozijar-se com isso. victor guerra: A "armadilha
"já foi herdada por Trump . Durante as administrações anteriores,
a China tomou conta do mundo, da geo-politica do Oriente ao estatuto
de "fábrica do mundo". Agora, até recebeu a rendição da
indústria automóvel europeia. As "rotas da seda" ainda não
estão em força, mas os chineses dominam os grandes investimentos em África.
Como estamos a falar de potências nucleares, ninguém quer arriscar, então
sorrisos e salamaleques . E a China não tem o "incómodo" de eleições
e mudanças no poder. Era mais simples no tempo de Atenas e Esparta. Francisco Ramos: Parece
que a solução aprovada pela opinião pública, em geral, teria sido deixar o Irão
à solta, acabar de montar um cordão do aço à volta dos países do golfo, com a
desculpa de que o objectivo era Israel, e claro quando os países do golfo
acordassem do sono estariam a ser abocanhados pelo Irão, com uma mãozinha da
China e da Rússia. Manuel Lisboa: Por partes: primeiro, económica e
militarmente os EUA são, clara e inequivocamente, muito superiores à China e
essa indiscutível e natural ascendência depende pouco ou nada de quem é o seu
presidente da república, assentando na sociedade alicerçada em valores liberais
e no sistema político baseado no estado de direito; segundo, a China
continua a ser o que sempre foi um império mais ou menos dinástico, cujo
progresso hoje em dia continua a depender da exploração de mão de obra ainda
bastante barata em comparação com o ocidente e da utilização de tecnologia de
origem ocidental, designadamente norte-americana - um pouco à
semelhança do Japão, sobretudo das décadas de sessenta e setenta do século XX,
porém os japoneses conseguiram, em parte graças à relativamente breve ocupação
norte-americana após a II Guerra Mundial, conciliar o desenvolvimento económico
com o passado e instituições de cariz demoliberal; e, portanto, por
mais que o monolitismo secular chinês (o regime comunista contribui
de maneira decisiva para acentuar essa tradição) tente, nunca conseguirá igualar os EUA, apesar da disparatada
incompetência da actual administração central de Washington. Estas
três constatações não implicam, óbvio, que governos norte-americanos não
estejam atentos e sempre activos a defender os seus interesses globais e
regionais. Aliás, como todas as potências mundiais sempre fizeram. Ora aí encontra-se o
busílis habitual da diplomacia dos EUA e também do uso das suas extraordinárias
e únicas à escala mundial capacidades militares: conciliar a estratégia e o tacticismo.
Esse é, por exemplo, o dilema do conflito da actualidade contra o Irão, como
o foi, por exemplo, no Afeganistão e no Iraque. Estrategicamente essas
guerras representaram decisões políticas e diplomáticas correctas e
militarmente, numa primeira fase, os seus objectivos foram alcançados de
maneira eficiente e até brilhante; contudo, houve evidente falta de
capacidade táctica e imaginação para conseguir estabilizar esses países ou
regiões. Depois, o preço exorbitante dessas operações tornou-se numa
inevitabilidade e numa sociedade aberta os meios de informação precisam de
vender e captar audiências, tornando perante a opinião pública qualquer contratempo,
deslize ou mesmo desastre em erro, fracasso ou hecatombe. E nos casos referidos
houve tudo isso e talvez mais. Neste domínio as observações de Jaime Nogueira
Pinto são bem pertinentes. Concluindo, a
China é sem qualquer dúvida potência mundial muito importante. A Rússia
arruinada deixou de ser facto relevante para passar a ser apenas perniciosa e
perigosa. O peso dos estados europeus será forte, enquanto a NATO se
mantiver e projectar coesão quanto baste, até porque se demonstram
impraticáveis os ditirâmbicos projectos de forças armadas europeias autónomas,
começando pela simples razão que os governos não querem gastar o dinheiro
necessário para as criar e, principalmente, manter. Todavia, sublinhe-se, os
EUA são ainda a única potência mundial incontornável e em qualquer região do
planeta, independentemente de comportamentos irascíveis, obtusos, erráticos e
cómicos do chefe da sua administração central. Lamentavelmente, há quase setenta
anos que os EUA não têm nenhum dirigente do calibre e qualidades únicas de
George Marshall; e Kissinger também já morreu.
Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!
Paulo Mariano: Obrigado. Muito bom.
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