quarta-feira, 20 de maio de 2026

Um pensamento


Que nos parece bem ponderado e justo, este de Helena Garrido, sobre a manipulação actual das políticas de Trump, numa América que sempre significou poderio apetecível e amigável, antes de Trump, pensamento que Trump vaidosamente amesquinhou…

A América, afinal, era um mito?

Durante décadas parte de nós olhou para os Estados Unidos como uma referência na regulação da vida política e económica. Terá sido uma ilusão?

HELENA GARRIDO Colunista

OBSERVADOR, 19 mai. 2026, 00:25

A 2 de Abril de 2025 o presidente dos Estados Unidos anunciou aquilo que designou como “Liberation Day”, com uma lista de tarifas sobre praticamente todos os países do mundo. Os mercados bolsistas afundaram, como seria de prever. A 9 de Abril, logo pela manhã, Trump escreve na sua rede Truth Social, em maiúsculas, que esta é uma altura óptima para comprar. E cerca de quatro horas depois anuncia a pausa nas tarifas, com excepção para a China, provocando valorizações bolsistas históricas. Com apostas prévias à comunicação de que o mercado iria subir, apesar de ter estado em queda nos últimos dias.

Este é um de muitos casos em que se suspeita do uso de informação privilegiada nas decisões de investimento bolsista e um dos que está mais documentado. Há cartas de senadores democratas a pedirem informações e uma investigação à entidade de supervisão dos mercados a Securities and Exchange Commission (SEC), sem sucesso.

A BBC fez recentemente um levantamento de vários casos, com os mais recentes a incidirem no mercado do petróleo, na sequência da guerra com o Irão. Um deles é de 9 de Março de 2026. Cerca de 47 minutos antes de se saber que Trump tinha dito, à CBS News, que a guerra com o Irão estava praticamente concluída, assiste-se a uma subida acentuada de apostas de que o preço do petróleo iria cair, como caiu.

Esta semana ficámos igualmente a saber que Donald Trump fez transações bolsistas de centenas de milhões de euros com algumas das maiores empresas norte-americanas, entre elas a Tesla, Nvidia, Apple, Meta ou Boeing. A notícia é dada pelo Financial Times na sequência da divulgação obrigatória desses dados. Boa parte dos presidentes dessas empresas acompanharam o presidente dos Estados Unidos na visita à China. O argumento oficial é que os investimentos do Presidente são realizados por uma empresa independente.

Juntemos a isso o avião que Donald Trump aceitou do Qatar ou ainda o que tentou fazer ao presidente da Reserva Federal Cerome Powell, com a ameaça de o processar, e temos um quadro que não reconhecemos como sendo a América à qual estávamos habituados. Para não falar, obviamente, de tudo aquilo a que temos assistido nas relações da administração Trump com a Europa. E que passou inclusivamente pela ameaça de anexação da Groenlândia.

O que causa a maior das perplexidades neste resumo de acontecimentos é que a América como a conhecíamos deixou de ser capaz de garantir que as regras se cumprem. Quem estudou por livros de economia de professores norte-americanos, e seguiu as últimas décadas da vida económica e financeira do outro lado do Atlântico, via um país em que as instituições políticas e económicas conseguiam garantir o respeito pelas regras concorrenciais de mercado, gerir com a regulação as falhas de mercado e eram implacáveis com quem violava as normas. A terra das oportunidades tinha regras.

É verdade que começaram a existir sinais de alguma diluição dessa ideia da América com a crise financeira de 2008. Mas, talvez ingenuamente, parecia que a própria América estava a encontrar um antídoto para salvar o capitalismo de si próprio através dos princípios ESG – Ambientais, Sociais e de Governação – aplicados à gestão. Por esta via tenta-se, ou tem-se tentado, que as empresas sejam menos extractivas e mais equitativas. Mas muitas empresas aproveitaram a desvalorização, que a administração Trump fez destes objectivos, para se afastarem deles, sem perceberem que precisam de ser salvas da sua ganância.

Todos estes casos só são possíveis pelo aparente colapso dos pesos e contra-pesos que tanto apreciávamos na Democracia na América. Nos exemplos concretos sobre os mercados bolsistas e do petróleo, a ausência de acção dos reguladores reflecte a fragilização da SEC e de várias outras instituições que são supostas avançar para investigações em casos de suspeitas de corrupção. O famoso DOGE (Department of Government Efficiency) dirigido por Elon Musk teve um importante papel nesta fragilização das instituições.

O que se está a passar desafia-nos a pensar no que se está a passar com a América. Porque nada pode acontecer numa democracia sem que o povo deixe que isso aconteça. E o povo, dos mais modestos às elites, está a permitir, nem que seja por omissão, que tudo isto aconteça. Vimos como foi fácil controlar, por exemplo, a academia, universidades de referência em todo o mundo. Diríamos certamente que estaria louco aquele que, num exercício de previsão, nos dissesse que alguns destes acontecimentos iriam ocorrer nos Estados Unidos sem nenhuma reacção. Mas é isso que está a acontecer.

A América como a conhecemos não foi uma ilusão. Mas o que se está a passar mostra bem como as instituições democráticas podem ser frágeis e como, quando elas deixam de funcionar, todos acabam amedrontados e a pensar mais no seu ganha-pão dos que nos seus valores. Há uma degradação moral generalizada, seja por acção ou omissão, e o desesperante é que não podemos ter a arrogância de culpar quem se protege. No fim de tudo estão os sinais, que a História já nos mostrou noutros casos, que apontam para um tempo de decadência.

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA      MUNDO

COMENTÁRIOS (de 66)

Luis Oliveira: Nenhum destes cronistas-jornalistas portugueses viveu na América, mas todos eles asseguram que sabem mais da América que os próprios americanos ! E mais: juram saber o que é melhor para os americanos.

José Tomás > JAP: Portugal já vai em mais de 880 anos e os nossos "valores morais, éticos e humanos" deram maiorias absolutas ao José Sócrates e ao António Costa.

GateKeeper: A ignorância voluntária é um mal menor.  As dicas purulentas e o maldizer substantivo são piores do que a ignorância. A inveja da velha é decrépita Europa perante uns USofA juvenis, com pouco mais do que 225 anos de História, é uma triste lenga-lenga feita de amarga e virulenta inveja.

victor guerra: O avião do Catar foi oferta, para substituição Air Force One, não é do Trump. Mais rigor e menos excitação esquerdista. Se não gosta, come menos.

João Floriano > JAP: Veja o estado em que está a Europa com nacionalidades tão antigas como  a nossa.

António Soares: Já a velha Europa é uma realidade a galope com pressa de se submeter ao islamismo!

Hugo Silva > JAP: Mais um comuna.... O Expresso e Público esperam por ti

José Paulo Castro: Ou seja, mais um manual de tácticas para derrotar Trump na secretaria, continuando sem entender a razão de as alternativas terem sido rejeitadas nas urnas, quer em primárias, quer em eleições nacionais. Pois eu acho que essa América que quer mandar nos bastidores, nos pequenos golpes institucionais e no condicionamento dos partidos, essa América é que é um mito. Você diz que era a das regras? Ok... veja de novo a realidade.

José Paulo Castro > Ruço Cascais: Se você acha que um republicano não-MAGA tem hipóteses de substituir Trump, então não está a ver bem a coisa. E se acha que um democrata consegue chegar a presidente depois de alienar a matilha woke, também não está a ver bem a coisa. Ou seja, as suas esperanças estão colocadas em duas não-exequibilidades.

João Floriano: A quem não reparou ou passou despercebida, sugiro a leitura da crónica de Pedro Caetano de 17 de maio: «Lucrar em vez de delirar contra os EUA». É inegável que Trump vê tudo através da lente do «business» e isso não é bom. Uma potência que aspira a ser a maior do mundo, tem de ter uma perspectiva muito mais abrangente de valores e ética, sobretudo quando do outro lado estão os chineses.

Ruço Cascais: Até TU Helena Garrido confundes Trump com os Estados Unidos. Trump é o resultado de uma circunstância política, assim como o nosso José Seguro. Trump não representa o sentimento maioritário dos americanos muito menos as suas instituições. Trump é um velho jarreta com os pés para a cova que nesta recente visita à China evidenciou a imagem de um homem cansado, derrotado e envelhecido.  A imagem de Trump mexe com os americanos assim como mexeu com os portugueses a hiperatividade de Marcelo que já ninguém podia ver à frente. Ver um homem derrotado ao lado de Xi deixa os americanos desiludidos. Quem vier depois de Trump, quem substituir Trump - e isso é garantido - será uma pessoa diferente com ideias diferentes e que vai transmitir uma imagem diferente dos Estados Unidos na política interna e externa. Se for um democrata tem que deixar o wokismo na arrecadação para evitar que apareçam mais Trumps. Se for um republicano fora do movimento MAGA tem que reconstruir as relações com os democratas, reforçar a importância das instituições políticas e reconstruir as relações diplomáticas com os aliados históricos dos Estados Unidos.  Os Estados Unidos que já foram à Lua, que inventaram este novo mundo digital, que querem construir uma base lunar e que querem chegar a Marte, não acha que vão conseguir livrar-se de Trump e dos trumpistas?  Claro que vão. Se não for este ano, vai ser dentro de dois anos nas eleições para a presidência. Há tempo suficiente para aparecerem bons candidatos, quiçá um novo JFK.

m s: A América não era e não é um mito, independentemente de quem a governe, é mesmo real. E tanto assim é, que o mundo e todo um viveiro de cronistas e comentadores giram à sua volta como as abelhas em busca de mel.

Por8175: A ignorância e a incompetência desta sujeita são sintomas claros de TDS aguda! Devia tratar-se com umas visitas ao Serviços Nacional de Saúde. Tinham a vantagem de não lhe deixar tempo para escrever...

Francisco Almeida: Experimentei fazer um exercício simples: aplicar a Portugal os defeitos que Helena Garrido aponta aos EUA de Trump. Foi esclarecedor. Só senti alguma dificuldade em encontrar paralelos com informação privilegiada porque Portugal tem um mercado bolsista anémico. Mas logo me lembrei do "flop" do NAL na Ota, com elementos da família Soares a aí comprarem terrenos. Parece que se pode concluir que Trump, é mais hábil mas a equivalência ética é sólida.

victor guerra > Manuel Gonçalves: Nada como um "carneiro de ouro"

João Diogo: Uma crónica ao nível da cronista, um autêntico zero, a Europa sim é uma potência de bluffs sucessivos.

klaus muller > m s: ... e adorariam lá viver.

Paulo Salvador: um caso grave de TDS.

Ricardo: Corrupção aberta. O grande trunfo de Trump ao longo da vida foi este: não tem vergonha nenhuma. Desde a cripto moeda $TRUMP até à manipulação bolsista, não há limites, especialmente neste segundo mandato. Ele acha que os seus apoiantes não se incomodam e que ao Chefe permitem tudo. Até agora, parece ser o caso, mas a corda, tanto estica, que um dia…

Helena L: Retive esta frase: "Vimos como foi fácil controlar, por exemplo, a academia, universidades de referência em todo o mundo." Deve referir-se aos Democratas woke. Esta cronista tanto dá no cravo como na ferradura, mas mais no cravo.

Isabel Gomes: American dream é real.

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