Uma vetusta pequenez no seu espaço europeu, tornou Portugal um país sem
grande dimensão, corajoso e empreendedor que fora outrora, isso tal perdido no
tempo, sendo o hóquei em patins, há uns anos, um desporto que lhe deu também eventual
visibilidade, embora não do mesmo caris mental. De facto, o que mais importaria
era uma saliência cultural que não deixámos de conquistar também, é certo, embora
facilmente por outros ultrapassada, alguns governantes desatentos a esse
respeito. Não é importante a notoriedade, mas o ter-se o cuidado educativo como
prioridade generalizada na formação humana é indispensável, não por vaidade mas
por racionalidade – a expressão “em bicos de pés” perante outros, facilmente
apreendida quando isso falha.
De La Toja à Gulbenkian e até ao mundo
A manutenção da independência face à Espanha, no seio da Europa, ligada
a uma relação especial com Estados de outras civilizações pode ser o novo
desígnio que continue a justificar a nossa existência
ANDRÉ ABRANTES AMARAL Colunista do Observador
OBSERVADOR, 03 mai. 2026, 00:22
No seu discurso perante o
Congresso norte-americano, Carlos III fez menção aos valores democráticos que
os norte-americanos herdaram dos britânicos e que foram aplicados por “rebeldes audaciosos e engenhosos com uma
causa”. Foi aplaudido de pé. Toda a viagem de Carlos
aos EUA
foi uma lição de classe e uma aula viva de como um chefe de Estado se deve
comportar. Num
discurso simpático e elogioso do espírito americano, Carlos puxou dos galões e
fundamentou na tradição britânica a revolução democrática dos EUA. Valores congénitos, logo comuns e para sempre. Irmãos
que podem ter desavenças, mas nunca deixam de ser o que são.
No dia seguinte ao discurso de
Carlos III teve lugar em Lisboa mais uma edição do Fórum La Toja –
Vínculo Atlântico. A quarta em Lisboa. As intenções deste espaço de reflexão e
debate constam do seu manifesto e
visam, em Lisboa e a par do que se faz na ilha de la Toja na Galiza, discutir um caminho europeu comum com o
Atlântico no meio.
O ponto é interessante, quanto mais
não seja porque não é frequente. A herança luso-espanhola é geralmente referida nos seus aspectos
negativos, nomeadamente a escravatura, fruto de uma preponderância da
historiografia anglo-saxónica e holandesa em detrimento da portuguesa e,
essencialmente, da espanhola. A decadência dos povos peninsulares
não se ficou pelo menor desenvolvimento económico, político e social. A
história contada também foi outra. E o peso político que Portugal e Espanha
poderiam tirar dessa outra forma de contar a história perdeu-se.
Mas pode ser recuperado como o
comprovam os debates na última quarta-feira na Gulbenkian. A actual necessidade
de reinventar o espaço atlântico é a mesma que levou à implementação do que
temos hoje após a Segunda Guerra Mundial. Vitoriosos,
EUA e Reino Unido criaram uma ordem mundial liderada pela língua inglesa e os
resultados foram estrondosos. Ainda o são. Mas para que se mantenham
será preciso algo mais e é nesse mais que Portugal e Espanha podem acrescentar
algo. O quê? Acima de tudo, dimensão. O alargamento do vínculo atlântico para o sul abarcaria toda a
América Latina, a África Austral e uma relação especial com um Estado com uma
localização estratégica fundamental que é Cabo
Verde.
Nada disto é fácil, menos ainda
imediato. A aliança atlântica que conhecemos precisou de duas guerras mundiais,
milhões de mortos e feridos, o fim de impérios (na Europa e nas colónais) e o
derrube de monarquias centenárias para que fosse implementado. Nada disto é
fácil, dizia, como também tem muitas especificidades. Uma delas
é a relação entre Portugal e Espanha, que é excelente mas tem a sua história.
“O
que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o descobrimento, nem a
conquista, nem a formação de nações ultramarinas: foi o ter resistido a Castela. O ter
mantido, através de sangue e fogo, o princípio de independência dos territórios
periféricos.” É com esta citação de Agostinho da
Silva que José Medeiros Ferreira inicia o seu pequeno livro, escrito em 1989,
sobre as relações entre Portugal e Espanha, “Um Século de Problemas – As relações luso-espanholas da União Ibérica à
Comunidade Europeia”. Medeiros Ferreira
disserta depois sobre uma série de episódios em que, desde 1864, a união com Espanha foi ponderada ou em
que a independência do nosso país esteve em risco de se perder, mesmo que a
maioria da população não se tivesse apercebido disso. É
preciso não esquecer que a unificação da Alemanha e da Itália acabaram por ter
alguma influência nas conclusões que alguns tiraram sobre o futuro da Península
Ibérica: por
que não nos juntamos nós também, portugueses e espanhóis? Por que
razão não se unem Portugal e Espanha numa grande união ibérica que constitua
outro novo motor da Europa? Tanta força teve essa discussão que
só depois da Segunda Guerra Mundial a Espanha colocou de parte qualquer
possibilidade em anexar Portugal.
Actualmente tudo isso é passado. Mesmo assim, foi curioso reparar no debate na Gulbenkian entre
Mariano Rajoy e Paulo Portas, sobre os desafios políticos da Europa, que o antigo presidente do
governo espanhol deu maior ênfase à necessidade de uma política externa comum
europeia enquanto o ex-governante português se focou na política de defesa. E a razão
é muito simples: a defesa de Portugal integrada na europeia (com o Reino Unido
e, para nós portugueses obrigatoriamente com os EUA) implica assegurar a
independência do nosso país. Já o
mesmo não podemos dizer relativamente a uma política externa comum europeia que
significaria a subalternização da relação especial que Portugal tem com o
Brasil e África em detrimento da visão espanhola.
É de mencionar que o próprio ministro
dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, tocou nesse ponto quando distinguiu a posição da Espanha da de Portugal. A primeira como potência europeia que procura apoio
Atlântico (Franco
considerou isso mesmo nas conversações que teve com Hitler como forma de ter algum peso no Eixo), enquanto
o nosso é um país essencialmente atlântico e com pouco peso europeu. E isso não
é de agora.
Ou seja, e regressando ao
princípio, Portugal e Espanha devem fazer com os seus parceiros transatlânticos
o que Carlos III fez nos EUA: salientar pontes que sustentem um futuro comum em
benefício de todos. Mas isso também requer da nossa parte um
cuidado acrescido para não pormos em causa o grande feito que é o de
continuarmos a existir contra todas as probabilidades. No século XV Portugal descobriu no Atlântico o garante
da sua independência. Enquanto navegávamos sozinhos não houve
problemas. A partir do século XVII, quando as grandes potências seguiram as
nossas rotas marítimas, o truque encontrado para não sermos engolidos pelos
problemas dos outros foi a neutralidade. Neutrais, neste canto da Europa não nos envolvíamos em
guerras que não nos diziam respeito. Essa neutralidade deixou de ser
possível depois de 1945 porque o mundo se tornou mais global e se dividiu em
dois blocos. Foi
só após o 25 de Abril com o fim do império e, de forma mais assumida, com o fim
da Guerra Fria que Portugal pôde assumir uma estratégia de multilateralidade. Actualmente, e num momento em que se
constrói um novo equilíbrio, o espaço talvez seja o de uma multilateralidade
estratégica de quem está num bloco, mas tem ligações especiais (e não
necessariamente militares) com outros estados de outros blocos. O tal princípio
de independência dos territórios periféricos. A manutenção
da nossa independência face à Espanha, no seio da Europa, e ligada a uma
relação especial, profunda e de diálogo com outros estados de outras
civilizações bem pode ser o novo desígnio que continue a justificar a nossa
existência. E que nos permita continuar o nosso maior feito que é ser quem somos.
COMENTÁRIOS (de 8)
Antonio Sennfelt: Basta olhar a Espanha do Sr. Sanchez para reiterar que de Espanha nem
bom vento nem bom casamento!
Filipe Afonso: Um parceiro como a Espanha que não cumpre os
acordos que tem connosco e não nos devolve território que sempre foi nosso
(Olivença) não me parece muito fiável.... Mas claro que também aqui
os nossos governantes têm culpa quando não se impõem.
Joaquim Ribeiro: O mundo está cheio de nações e povos históricos que não se conseguem
organizar como Estados independentes e soberanos. A independência, no concerto
das nações organizadas sob a forma de Estados soberanos, é o bem mais valioso,
mas também o mais difícil de ser conservado. A liberdade e a independência
de um Povo, de qualquer um, está sempre em risco. Portugal, como nação
histórica com quase mil anos, não deve a sua posição de povo livre e soberano a
este ou àquele país em particular : em cada período histórico e a cada crise,
conseguiu manter-se livre e aceite no concerto das nações soberanas, fazendo
pactos de conveniência e guerras, quando foi necessário. Quase sempre,
avaliou e decidiu sobre a pressão das conjunturas e quando a conjugação das
circunstâncias a colocava perante problemas existenciais. A posição geográfica
é um factor importante , de enquadramento, mas o que determina as alianças e as
guerras, é a VONTADE de
permanecer como povo livre e soberano. Não somos continentais ou
marítimos; não estamos no centro ou na periferia ; não somos “ingleses”, ou
“franceses” ou “alemães “ : existiremos enquanto tivermos essa vontade e o
concerto das nações soberanas o permitir. Evitar, a cada conjuntura,
o resultado nefasto de sermos privados da liberdade é o desígnio maior que deve
orientar acção política na arena internacional.
victor guerra: Um erro não se ter estabelecido o país
Ibéria. Seria uma potência europeia e com força na América Latina
Pedro Abreu > victor guerra: A Ibéria não existe. Se existisse não seria
mais que o espelho do que é hoje Espanha. Um país colado com cuspo, cheio de
nacionalismos e prestes a desintegrar-se continuamente. Somos portugueses há
900 anos e provámos muitas e muitas vezes que soubemos trilhar o nosso caminho,
fazer a nossa História e lutar pela nossa Independência. Por tudo isso e
pelos milhares que deram o sangue pela existência de Portugal, devemos honrar a
sua memória e continuar o seu legado.
João Floriano: A situação tradicionalmente dita periférica,
pode funcionar muito bem a nosso favor, desde que haja coragem para
construir novas pontes, para além de mantermos as habituais com os nossos
aliados do costume. É um facto que os nossos amigos atlânticos, sobretudo
Estados Unidos e Reino Unido não atravessam um momento particularmente
brilhante e sobretudo Trump suscita-nos muitas dúvidas. Mas não será por isso
que vamos destruir essas pontes como Sánchez muito erradamente está a
querer fazer. Precisamos todos da NATO, mas em novos moldes e sem dependências
dos interesses dos Estados Unidos.
Ricardo Pinheiro Alves: "A partir do século XVII, quando
as grandes potências seguiram as nossas rotas marítimas, o truque encontrado
para não sermos engolidos pelos problemas dos outros foi a neutralidade." A nossa independência nunca se deveu à
neutralidade. Deveu-se sempre à
aliança com os britânicos. Eles foram sempre, desde a conquista de Lisboa até
às invasões francesas, o garante da nossa independência. E essa independência nunca esteve em
causa, nem com o ultimato britânico, uma vez que não queriam invadir Portugal. E
mesmo a neutralidade da segunda guerra mundial foi consentida pelos aliados.
João Floriano > Ricardo Pinheiro Alves: Estou de acordo com o seu comentário. A
coroa portuguesa esteve ligada à espanhola de 1580 a 1640. Durante esse
período sofremos ataques em África, Ásia e sobretudo no Brasil devido à guerra
que parte da Europa protestante mantinha com a Espanha católica imperial. O
Recife é uma cidade muito particular no Brasil devido à presença holandesa.
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