Orgulhos rácicos de quem manda,
pode e talvez queira.
Uma longa e tensa história
A China central, a Rússia marginal, ambas perigosas
Analisamos a crescente
assimetria das relações entre China e Rússia, e o facto de que também Putin não
conseguiu o que mais queria em Pequim. E apontamos as consequências para a
geopolítica global.
BRUNO CARDOSO REIS, Historiador e especialista
em segurança internacional
OBSERVADOR, 23 mai. 2026, 00:22
A relação da Rússia com a
China é longa, como é longa a fronteira de mais de 4000 km entre
ambos os países, mas não tem sido fácil. Os primeiros choques vieram
logo nos primeiros contactos, em meados do século XVII, quando a expansão imperial russa na Sibéria
começou a ameaçar a Manchúria. Os imperadores Qing, que tinham
derrubado a dinastia Ming, em décadas de guerras em torno de 1644, eram
manchus, e
fizeram questão de travar a expansão russa na sua região de origem.
O resultado foi o tratado
de Nerchinsk, em 1689. Foi o primeiro tratado
em que a China lidou com outra potência em termos de igualdade,
pondo de lado o sistema de Estados tributários que adoptara como
potência hegemónica na Ásia Oriental. (Quando as elites chinesas,
hoje, se queixam de tratados desiguais esquecem, convenientemente, os
séculos em que o próprio império chinês os impôs aos seus vizinhos mais fracos.)
Curiosamente, um dos
principais membros da delegação chinesa, muito elogiado pelo
imperador Kangxi (1661-1722) por ter ajudado a ultrapassar um impasse negocial,
foi um
jesuíta português, Tomás Pereira, residente em Pequim,
onde tinha acesso directo ao imperador, que dominava o latim, em que o tratado
foi negociado, bem como o mandarim e o manchu.
Embora a Rússia se apresente, hoje, como parte do Sul
Global, foi
a potência imperialista mais agressiva na exploração da relativa fraqueza
chinesa no século XIX. A Rússia aproveitou para anexar mais de 600.000 km2 de
território chinês, em 1858. Vladivostoque, a capital do Extremo Oriente russo
foi fundada em 1860, no que tinha sido, até aí, território chinês.
Estaline, a
partir de 1945, apoiou militarmente os comunistas de Mao Zedong, mas resistiu durante
anos a abdicar dos privilégios que tinha herdado do Império Russo no norte da
China. A morte
de Estaline e a denúncia do estalinismo e do culto do líder
pela nova liderança soviética ainda aumentou mais as tensões com Mao, levando
à ruptura sino-soviética, culminando numa brutal guerra fronteiriça, em 1969.
Nessa altura, o Kremlin chegou a ameaçar a China com armas nucleares, como
agora faz regularmente com a Ucrânia e os seus aliados.
Termos
e condições | Pinto Lopes Viagens
Tudo isso explica a reaproximação pragmática da China
aos EUA, que
espantou o mundo, em 1972, mas fazia grande sentido geoestratégico. Nixon tinha alguns defeitos, mas
confundir os seus preconceitos com a realidade política global não era um deles.
A China também culpou
Moscovo, na era Gorbatchev, por encorajar os protestos massivos da juventude
chinesa a favor da democracia, em Tiananmen, em 1989. Só com Putin, a partir do acordo de
parceria de 2001, começou uma reaproximação. Ela tem-se
consolidado com
base em interesses convergentes em defender ditaduras. Nesse jogo Putin apostou no modelo
tradicional de conquistar território, exportar matérias-primas e investir em
armas.
A China deu
prioridade a modernizar as Forças Armadas – em particular da marinha, chave da projecção
global de poder – mas também a liderar no investimento e no comércio externo, na
inovação tecnológica e na produção industrial e de matérias-primas críticas.
É evidente quem está a ter mais sucesso.
Uma ordem global multipolar para enganar tolos
Esta foi a visão para a política global do comunicado
conjunto sino-russo. É evidentemente propaganda enganosa
que usa uma retórica de promoção da “democratização” da ordem internacional
para legitimar as ambições de ambos como grandes potências, em nome de uma
suposta defesa do Sul Global. A prova? A China obriga a Rússia a fazer negócios a preços
ruinosos porque Moscovo não tem mercados alternativos. Putin
queria fechar, nesta visita, o negócio para um novo gasoduto – Energia da Sibéria II –, e
isso não foi possível porque Xi quer espremer o preço e evitar o erro dos europeus
de depender
demasiado apenas de um fornecedor. A Rússia não é uma grande potência
global, mas uma potência regional perigosa, mas com uma economia do tamanho da
Itália, e com dificuldade em manter aliados voluntários – até a Arménia
decidiu afastar-se. A China sabe isso e trata a Rússia em
conformidade, e está a marimbar-se para a ordem multipolar. Pequim tem como prioridade, isso sim,
competir com os EUA, em todas as dimensões do poder. E é um parceiro
económico indispensável para muitos países – até para os EUA, como vimos com a guerra das terras raras –
apesar de um pragmatismo por vezes a roçar o predatório. Os líderes chineses e russos não têm
nenhum interesse em tornar a política internacional mais igualitária ou
democrática, mesmo que tentem passar uma imagem de defensores dos fracos e de
opositores do imperialismo, mas só se for ocidental.
A República Popular da China governa um território com
mais de 9 milhões de km2, com mais de 50 grupos étnicos numa população total de
1,4 mil milhões de pessoas. Pode, por isso, ser vista como um velho império continental
disfarçado de Estado-nação. O próprio nome do país remete para a
centralidade do seu passado imperial. Em chinês a expressão Zhōngguó – 中国 –
traduz-se por “Reino
do Meio”, mas também pode ser traduzida como o “Império Central”. A ambição de “renovar” esse estatuto
de grande potência, dominante na Ásia Oriental durante mais de 2000 anos, é a
prioridade declarada de Xi Jinping, o actual imperador vermelho.
A quantidade de
líderes estrangeiros que têm visitado Pequim no último ano é impressionante – a
Asia Society, baseada nos EUA, fez as contas. A conclusão é que Xi viaja menos e
são cada vez mais líderes estrangeiros a ir visitá-lo. Em 2025 foram 50 visitas aos EUA e 75
à China. Terá alguma coisa a ver com o tratamento que Trump dispensou, por
exemplo, a Zelensky ou Ramaphosa? A proximidade dos encontros de Putin
e de Trump e de Xi tornou ainda mais visível esta crescente centralidade da
Cidade Proibida na geopolítica global. O discurso oficial chinês
apresenta explicitamente estas visitas como a consagração do regresso da China ao
seu estatuto como grande potência. E, ao contrário do
passado, a
China não precisa de fazer grandes concessões para ter o privilégio de uma
visita presidencial norte-americana. E se muitos têm insistido, com
razão, que Trump não conseguiu grande coisa como resultado desta visita,
vale a pena sublinhar que Putin também não conseguiu o que mais desejava, como
vimos.
Não sou fã do Partido-Estado chinês
Devo deixá-lo claro. Infelizmente, há cada vez mais
pessoas tão consumidas pela cegueira ideológica que são incapazes de distinguir
a análise de factos e a manifestação de preferências políticas. Quem quiser perceber como funciona o
Mundo, tem de abandonar o conforto das grandes certezas alinhadas com os seus
preconceitos, como tenho deixado claro aqui, em previsões
muitas vezes confirmadas.
Não tinha nenhuma simpatia pela guerra de agressão
russa contra a Ucrânia quando escrevi que era uma possibilidade bem real tendo
em conta os meios militares mobilizados por Putin, em 2022. Não tinha simpatia por Trump, com
o seu isolacionismo nativista e sultanismo político, quando, no verão de 2024,
apontei para a sua reeleição como o resultado mais provável das eleições de
novembro, bem como para as suas intenções de rever radicalmente a política
externa dos EUA. Quando aponto para o facto de que o principal balanço das recentes
cimeiras de Xi com Trump e com Putin é confirmar a crescente centralidade
global do imperador comunista, não o faço por simpatia pessoal por Xi
ou por favorecer o modelo de governação chinês. Faço-o porque ignorar factos é inútil
e perigoso. Para resistir a esta tendência o Ocidente teria de mostrar que ainda
existe e resiste, reforçando a sua coesão e melhorando a eficácia da sua
economia e da sua diplomacia. Com uns EUA mais isolacionistas e estrategicamente mais caóticos isso
será mais difícil.
CHINA MUNDO
RÚSSIA GEOPOLÍTICA
COMENTÁRIOS:
Francisco Almeida: Para além da mesquinha
autodefesa e autopromoção pessoal, Bruno Cardoso Reis nada consegue explicar de novo. Reino do Meio ou Império Central, tanto
faz. O que importa é o significado, que tem séculos e
resistiu a dinastias e regimes. A China situa-se entre o Céu e a Terra e está destinada a
governar a barbárie inferior. É curiosa a estatística,
50 visitas a Washington e 75 a Pequim, mas bastaram duas. Trump e Putin separados por
dois dias, transmitiram a imagem de que os negócios do mundo, resolvem-se em Pequim.
É uma imagem fortíssima porque "em política o que parece, é" também é válida em
política internacional.
manuel rodrigues: Gosto de ouvir o BCR,
independentemente de concordar ou não com ele. Vivemos de novo a
época dos impérios. Os
europeus, entretidos com a reengenharia social, os movimentos das maiúsculas,
as bandeiras do orgulho, a amamentação, o consumismo como droga,.... Cuidem-se!
Ruço Cascais: Já andava ligeiramente
preocupado se seria apenas eu que vejo a China como uma ditadura cínica,
sinuosa e que não interessa nem ao menino Jesus. Ainda ontem vi uma notícia
aqui no Observador sobre um romance premiado de um escritor chinês que foi
censurado na China. A notícia dizia assim:
"Primeiro romance em
chinês premiado por Prémio Booker "não é publicável" na China. Combinação
de temas — uma relação lésbica, uma protagonista japonesa, o passado
colonial sem ser retratado como trauma, além da própria identidade taiwanesa
— torna o livro "não publicável" na China."
Relação lésbica: corta
Protagonista japonês: corta
Pergunto ao Bruno Cardoso
Reis se já alguma vez assistiu ou viu o funeral de um chinês em Portugal, ou se
algum português alguma vez foi convidado para alguma cerimónia na comunidade
chinesa como um casamento ou aniversário? A resposta é não. E sabe porque é não? Porque
os chineses não se misturam. Não perceber a China pode ser um erro muito maior
do que não ter percebido Putin.
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