quinta-feira, 21 de maio de 2026

Ago, agis, agere

 

Egi, actum.

Marcelo, dez anos depois, ou como "estar na maior"

“Sempre quis fazer diferente dos meus antecessores quando saísse de Belém, já tinha há muito começado a construir uma rede de iniciativas e programas. Não tenho um minuto livre”.

MARIA JOÃO AVILLEZ  Jornalista, colunista do Observador Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 20 mai. 2026, 00:25  56

1Ando entretidíssimo! Não paro um minuto”. O desabafo aterrou há dias sem pré-aviso, passava da meia-noite. Não estranhei: desde o dia 9 de março de 2016 que esperava este momento sabendo que ele não poderia deixar de chegar quando tudo acabasse. Se havia coisa que eu metera na cabeça a partir do minuto em que – sem o meu voto – Marcelo Rebelo de Sousa entrara no Palácio de Belém, estava eu no Brasil, era que nunca me consentiria deitar fora uma amizade tão antiga e bem recheada, com a água do banho presidencial. Talvez tenha conseguido.

2No intervalo ficaram dez anos vividos por ambos entre uma distância claramente assumida da sua parte – nunca fui convidada para ir à Presidência da República – e uma frequente e activa crítica pública com a minha assinatura. Aprendi com Vítor Cunha Rego que “as coisas são o que são”. Foi o caso.

3Eram duas menos vinte da madrugada quando os telemóveis sossegaram e eu reencontrara o Marcelo de sempre. Com quem muito me encontrei e desencontrei, trabalhei, ri, discuti. (E que, inesquecivelmente, foi o autor de um sonoro elogio, quando um dia, após Ricardo Costa ter apresentado um livro meu, o então Presidente da República subiu inesperadamente a um dos palcos da Gulbenkian, evocou com argúcia o livro e foi generosíssimo com a autora.) Mas é dele que se trata e não de derivações sentimentais alheias. E ele “está na maior”.

4Sempre quis fazer diferente dos meus antecessores quando saísse de Belém, já tinha há muito começado a construir uma rede de iniciativas e programas. Não tenho um minuto livre”.

O telefonema daquela noite era a sua resposta nocturna a um email que lhe mandara nessa mesma tarde sugerindo finalmente reencontrarmo-nos, juntando os amigos do costume, o melhor era que me ligasse.

Estou muito realizado. Os portugueses adoram os mortos, para eles são sempre todos formidáveis quando morrem! E então os mortos-vivos como eu, não há palavras como adoram. Acolhem-me, festejam-me… Onde tenho ido, a festa é sempre total, com multidões. Apesar de ter muito que fazer, consegui passar de mil à hora para seiscentos e já não ‘me’ morrem militares nem bombeiros… Cansei-me da política. Sim, política nunca mais!”

5 O ritmo era veloz, o verbo imparável e o “política, nunca maisfora imperativo. Seguiram-se projectos, nomes, calendários, listas, etapas, moradas, lugares, e mil e mil convites, como se ele quisesse certificar-me da sua renúncia ao ar que respira.

Cansaço da política? Uma novidade.

A segunda foi ver o fogoso empenho com que se contou a ele mesmo, nesta nova encarnação. E o detalhe com que o fez: a rede de escolas onde irá ou já foi (“é lá que se decide o futuro”); a sua vontade em estar atento “à educação, à vocação, ao futuro” dos alunos; em pôr o foco na leitura e “na preparação que sobre ela os professores fazem nas aulas”; nos debates que “os estudantes fazem com eles próprios”.

Sim, claro, o Ministério da Educação está ao corrente, algumas bibliotecas também:

 “A juventude dá vida!”, garantia-me ele, cavalgando certezas.

 Faço programas trimestrais das idas às escolas que me convidam, são centenas. Vou diariamente ao meu gabinete, a equipa é pequena, há muito trabalho…  É que estou pelo menos quatro dias por semana em escolas!”

6Continua a contar-se (“não, não são só as escolas que me ocupam, há mais”).

Há: em curso estão já algumas iniciativas de “natureza social”, campo onde se sabe ter tido ininterrupta presença desde a adolescência; e outras ainda, em quatro ou cinco “domínios culturais”, prometendo Marcelo a sua “presença” em fundações, museus, conselhos literários.

Além de recentes idas a concertos, espectáculos, teatros…

“Tenho também ido muito a concertos, espectáculos, vou ao aniversário do Teatro Aberto, já tenho bilhetes para o Diogo Infante, no Trindade…”

Aparentemente, um carrossel onde ele entra incessantemente e do qual só sai para entrar na rodada seguinte. Racionalmente, uma forma de continuar convictamente com atividade pública ao serviço do país. Mesmo que por enquanto de forma algo acelerada.

7 Percebo, porém, que não quer que nada disto, nenhum programa, compromisso, ou calendário, tenha intervalo ou sofra interrupção. Trata-se de um leque de iniciativas pensadas e pré-preparadas com tempo e minúcia que passaram hoje a ofício substituto – e em full-time – deste (ex?)político.

Haverá porventura quem olhe para este súbito novo emprego de tempo e de vida como um “salva-vidas” da solidão, do súbito vazio; da desilusão; do reencontro dificílimo com a vida “normal” e dessa trivialidade quotidiana da vida fora dos palácios quando se acabou de sair deles.

Ou – pergunto a mim mesma – esta nova forma de vida será antes do mais o colete salva-vidas que não o deixará afogar-se nessa fininha, indizível melancolia do que poderia ter sido e não foi?*

8 E há a Igreja, claro. Fidelidade maior, inteira e intacta até hoje. Uma omnipresença que nunca conheceu quebra ou hesitação. O país viu o seu então Presidente escolher o Vaticano como destino da sua primeira visita oficial e ir a Roma nas vésperas de sair de Belém. Viu-o saber onde ir ou onde estar sempre que se tratava da Igreja e da representação ao mais alto nível do Estado português. E convicto e firme na sua atenção ao universo católico. A Igreja percebeu desde o primeiro minuto estar diante de um “católico proactivo com quem poderia contar – como me recordaria um dia alguém. E o Vaticano, também o percebeu: basta lembrar que o Papa Francisco veio a Portugal, duas vezes (2017/2023) nos mandatos presidenciais de Marcelo e que a relação entre ambas as instituições sempre foi séria e harmoniosa

Foi assim sem sombra de surpresa que ouvi o relato – como sempre veloz, neste telefonema sui generis – do almoço que o novo Núncio Apostólico, o espanhol D. Andrés Carrascosa Coso, rodeado da hierarquia religiosa portuguesa, ofereceu neste último abril ao ex-Presidente da República. (O anfitrião, amigo pessoal do Papa Leão XIV, renunciou aliás a sua vontade de, como previsto, se reformar este ano para aceitar o insistente convite do Papa para se mudar para Lisboa e ocupar a Nunciatura.)

“O Núncio é genial, inteligentíssimo”, entusiasmou-se Marcelo. E num fôlego:

“Convidou todos os cardeais, bispos e arcebispos, nem todos puderam ir mas estavam muitos, o ambiente do almoço foi excelente. Aproveitei para lhes deixar um alerta para esta ‘volta’ política e religiosa que está a ocorrer com os jovens entre nós e disse-lhes que não a podiam perder. Até insisti: olhem que esta onda não voltará…”

9Eram já quase duas da manhã quando consegui a muito (muito) custo, que Marcelo ouvisse uma pergunta minha (nunca se pode deixar de perguntar). Era sobre o seu sucessor, e quem não perguntaria?

Ah “têm falado muito”. Mais ao telefone que presencialmente, mas também já se viram algumas vezes: “Tem-lhe corrido tudo muito bem. Ainda não cometeu um só erro desde que está em Belém”.

Não? Nem a colocação da UGT como fiel da balança na negociação da Lei laboral? Nem as trapalhadas que irão certamente enredar o Pacto para Saúde? “Não”.

Taxativo: “Essas coisas foram ditas na campanha e não na Presidência da República. Em todas as campanhas eleitorais há o afã do falar, do dizer, cai-se sempre no “overacting”.

Marcelo dixit.

10Quando percebi que com a mesmíssima velocidade com que falara durante uma hora e meia, poderia também, dado o adiantado da hora, desligar velozmente o telemóvel, quis saber quando é que o carrossel pararia: “É até eu aguentar fisicamente… Mas assim também não penso em mais nada.”

Tal e qual: “não pensar em mais nada” (o carrossel não pode parar?). Então – ainda sugeri – e quando nos vemos, todos juntos? “Deixa passar algum tempo”.

Também ficou tudo nesta resposta.

PS: A propósito deste reencontro telefónico de longa duração, poderia ter-me ocorrido um balanço dos últimos dez anos que ele assinou – e encenou – em Belém. Nem me pareceu o momento, nem a circunstância. Talvez um dia. Mas o que aqui contei – e obviamente não contei tudo o que ouvi – foi intencional: dar a conhecer o silencioso trabalho que o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa anda a fazer pelo país. Serviço público. Desenvolvido com propósito, uma energia empenhada e um imenso – indisfarçável – gosto. Não duvidei que tinha de ser contado.

Marcelo Rebelo de Sousa Presidente da República Política

COMENTÁRIOS

Manuel Lourenço: Um verdadeiro palhaço narcisista com quem espero nunca me cruzar.

António Soares: Ele "está na maior", já o país está um esgoto a céu aberto, tanta a excreta expelida pelos governos de Costa com a colaboração e apoio, por vezes entusiástico, do catavento Marcelo...

Paulo Almeida: Serviço público devia ter feito quando ocupava a posição de PR. Não o fez. Este texto é ridículo, transborda egocentrismo das 2 personagens.

Carlos Jerónimo: O eco da peçonha…

victor guerra: Que cheiro a naftalina

João Das Regras: Uma pessoa que não sabe sair de cena, não consegue abandonar o palco e quer ser adorado e por isso a escolha das escolas com os miúdos que pedem muitas Selfies e não fazem perguntas difíceis como a vergonha do caso das gémeas ou o filho metido nos prejuízos de milhões que a Santa Casa teve no Brasil, a vergonha das Reparações que ninguém pediu ou mesmo as constantes humilhações nos PALOPS ou no Brasil que aceitava porque que os Portugueses eram sempre culpados de qualquer coisa. Só me enganou na primeira vez, tenho será de respeito pela personagem.

Ricardo Ribeiro: Crónicas de uma bolha lisboeta/cascalense...

Pedro D.: Deve sentir uma angústia imensa o narciso mor quando não é o centro das atenções!! A figura pública mais patética de sempre em Portugal! Uma fraude política inventada pela igualmente patética comunicação social que continua radiante a dar-lhe gás!

Oscar gomes: Marcelo é uma fraude.... Um psiquiatra minimamente competente descreveria facilmente a sua patologia

João Floriano > João Das Regras: Subscrevo integralmente. De facto os miúdos não fazem perguntas embaraçosas.

João Floriano: Pois que fique na maior e ande entretidíssimo, mas bem longe dos portugueses. Marcelo não deixa saudades. mas o seu sucessor tão pouco as irá deixar.

João Diogo: Pois, está  claro , ele o homem das selfies está na maior , infelizmente o país não pode dizer o mesmo, após a passagem deste senhor que deu cobertura ao pior governo de sempre do Costa , igual só do Sócrates.

Manuel Magalhaes: Maria João, este personagem não me interessa… beijinho!

António Lamas: O que a MJA descreve confirma o que toda gente pensa da personagem. Um doente com o Síndrome de Peter Pan.  Ainda não cresceu e por isso mesmo ainda não constituiu família. A que existe foi um parêntesis.  Se tivesse esposa, de certeza que lhe diria, que às duas da manhã não é hora para se telefonar à ninguém.  Continua após a saída de Belém a provocar-me vergonha alheia como português

Maria Melo: “…vou ir…”? O que é isto? IREI, não? Depois de ler o artigo, até fiquei sem ar… Não sei como será falar com esta personagem. Eu não conseguiria!  É mais do mesmo… o deslumbre do Ego.

Tim do A: Marcelo, o presidente marxista woke.

Alberico Lopes: Maria João: Se pretende que ainda tenha alguma consideração por si, por favor não fale mais sobre este abencerragem

Oscar gomes > João Das Regras: Marcelo é um adulto com comportamento infantilizado e narcisista---

João Floriano > Ricardo Ribeiro: Nem mais!

João Floriano > Alberico Lopes: Eu subscrevo. Maria João Avillez escolheu fazer parte da tal bolha, de que tanto se fala. O agora tão falado virtue signalling não é exclusivo das esquerdas. Mesmo à direita há muitos adeptos.

graça Dias > João Das Regras: Subscrevo na integra. Mais, esta sua nova actividade traduz-se em doutrinação marxista Woke.

João Das Regras > P Ferreiro: Era recebido como todos são em África, são arregimentadas crianças para agitar bandeirinhas e grupos de dança tribal que são avós para fazer a festa, o resto são curiosos. Davam-lhe a rua e depois nos discursos humilhavam os portugueses porque afinal nós somos os culpados de 50 anos depois viverem atolados em corrupção e guerras quase tribais. Pois, já não engana ninguém

Oscar gomes > Alberico Lopes: Cheira muito a tia, não cheira?

Paulo Barreto: Grande Maria Joao! Apesar da idade, continua arguta e muito acutilante....

 

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