JAIME NOGUEIRA PINTO.
Et pour cause.
Mártires de um genocídio esquecido
Em vésperas da visita papal a Espanha, Leão XIV reconheceu como
mártires mais 50 católicos, das dezenas de milhares de crentes assassinados
pelas esquerdas na Guerra Civil
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 07
mai. 2026, 00:25
Aqui há um
mês, os media e os comentadores rejubilaram com a polémica
entre Donald Trump e o papa Leão XIV a propósito da guerra do Irão. O
presidente americano criticou o Papa, dizendo-o “fraco em relação ao crime” e “terrível em política externa”; ora, como é evidente, o Papa não pode abençoar
mísseis, pedindo aos Céus que acertem nos alvos, como o fizeram os pastores
protestantes do Secretário da Defesa norte-americano Pete Hegseth. De
resto, desde o aparecimento das armas nucleares que a Santa Sé se afastou
definitivamente da “guerra justa com vista à paz”, limitando-se à pregação da paz propriamente dita. Não contente com as críticas
ao Papa, Trump,
num dos seus arroubos egocêntricos, fez-se ainda representar como rei
taumaturgo, curando os enfermos.
Convém lembrar que os católicos americanos, tradicionalmente apoiantes dos
Democratas, mudaram de comportamento eleitoral a partir de Nixon e de Reagan e
votaram também por Trump em 2024. São uma fatia
importante do eleitorado (22% dos votantes) e não é bom provocá-los. É
certo que, nas questões de fundo – aborto,
eutanásia, experimentalismo wokista –, Trump e a sua Administração
têm cumprido com as promessas eleitorais e isso ainda é importante; mas estas guerras e guerrilhas deixam marcas. Tanto
que Marco Rubio voou para Roma em “missão de bons ofícios”.
Em Espanha
Leão XIV vai
a Espanha de 6 a 12 de Junho; e no Domingo, 26 de Abril, no seguimento dos seus antecessores João
Paulo II, Bento XVI e Francisco, reconheceu como mártires mais 50 católicos,
das dezenas de milhares de crentes assassinados pelas esquerdas na Guerra Civil
de Espanha. Como tudo o que vai contra a santa ortodoxia da Esquerda, não
era de prever que semelhante reconhecimento gerasse júbilo na comunicação
social e no comentariado ou que encontrasse sequer eco.
Em Espanha, há que
privilegiar, por exemplo, as críticas dos bispos aos acordos entre o Partido
Popular e o Vox para controlar e
restringir a imigração –
essas sim, tomadas de posição correctas e noticiáveis. O facto de o Papa, falando aos
jornalistas no regresso da sua viagem apostólica por África, ter reconhecido
que um Estado tinha “o direito de estabelecer normas nas suas fronteiras”,
sugerindo um meio-caminho entre a franca restrição da imigração e a franca
abertura de portas, estava destinado a não ser sequer nota de rodapé.
E, no entanto, é este meio caminho, entre o critério político do
interesse nacional e do bem comum – a preservação da coesão e da identidade nacional – e
a caridade e o respeito devidos a todos, nomeadamente aos migrantes, como
pessoas, que os católicos terão de encontrar. É uma escolha séria, mas não é
uma escolha fácil, sendo, porém, uma escolha que se impõe e que promete vir a
impor-se – e não só em Espanha mas por quase toda a Europa de matriz cristã.
De qualquer forma, o Papa não poderá
deixar de pronunciar-se sobre a imigração durante a sua visita a Espanha. Outro tema quente é a “ressignificação”,
pelo governo de Espanha, do
Vale dos Caídos (agora redesignado Vale de Cuelgamuros); mas apesar das 26 000 assinaturas da petição dinamizada pela
Fundação de Advogados Cristãos para que Leão XIV visitasse o local – de forma a
garantir ali a permanência dos monges beneditinos e a impedir a remoção do
enorme crucifixo e a profanação da basílica da Santa Cruz, erguida por São João
XXIII, e a sua conversão num “museu ideológico” –, o programa papal em
Madrid não incluirá a polémica visita.
Quando a morte saiu à rua
Os 50 católicos que Leão XIV reconheceu como mártires antes de viajar para
Espanha foram assassinados sob o governo de Luís Companys, da Esquerda
Republicana da Catalunha e da Frente Popular, durante a Guerra Civil de
1936-1939, que acabou com a vitória da coligação das direitas, liderada pelo
general Franco. Fazem parte
de um total de cerca de sete mil sacerdotes e religiosos então assassinados em
Espanha.
Os historiadores do período não têm dúvidas em classificar esta
perseguição, em número de vítimas, como maior do que as terríveis perseguições
aos cristãos dos imperadores de Roma nos primeiros séculos da nossa Era.
Com a subida
ao poder do governo da Frente Popular, em Fevereiro de 1936, declarou-se aberta
a caça à Igreja, logo inaugurada com a morte de sacerdotes e o incêndio
de templos. Até
18 de Julho, foram 17 os párocos e os religiosos assassinados; mas de 19 de
Julho a 1 de Agosto, o número subiu para 861; em Agosto passaram a 2077,
incluindo 10 bispos; e até 14 de Setembro foram 3400. Os restantes foram
assassinados ao longo da Guerra Civil.
No caso
particular da Catalunha, como seria regra nas zonas governadas pela esquerda
espanhola, foi um desenfreado “mata frades”. Houve ali 2437 sacerdotes, monges e freiras, entre os
quais 4 bispos, assassinados, somando quase 1/3 do total de religiosos, além
dos muitos milhares de leigos liquidados; e, claro, foram saqueados e
incendiados centenas de igrejas e conventos.
Os principais
autores dos crimes foram anarquistas e socialistas, organizados, na região catalã,
em cerca de 200 “Comités de Milicias y Patrullas de Control”. Os
dirigentes e militantes da esquerda tinham um plano prioritário de eliminação
da Igreja e não olhavam sequer a opções políticas ou ideológicas: houve
sacerdotes pró-catalães ou até “progressistas” assassinados, como o monsenhor
José Puig Panalaigua, considerado “un cura de izquierdas”. A regra era eliminar os católicos por serem católicos,
independentemente de tudo o resto, quer pendessem mais para as esquerdas quer
mais para as direitas, como a centena e meia de sacerdotes carlistas mortos.
No território catalão havia, em 1936, 2050 paróquias,
4000 igrejas, santuários e capelas e 900 conventos e casas religiosas. No
Norte, mais próximo da fronteira com França, a percentagem de homicídios foi
menor, porque muitos dos visados conseguiram cruzar a fronteira.
Além dos párocos, os
religiosos das ordens monásticas foram muito perseguidos. Em Barcelona, dos
1700 monges e freiras existentes, 425 foram mortos.
Estes crimes
por “ódio à fé” cabem no conceito de genocídio, a saber, “a aniquilação ou
extermínio sistemático e deliberado de um grupo social por motivos raciais,
políticos ou religiosos”. A definição é da Convenção das Nações Unidas de 1948 e
do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (Artigo 6º), que à data
ainda não estavam e vigor, mas que hoje regulam o Direito Internacional Público
nestas matérias.
Mas há
genocídios e genocídios, e deste não convém que se fale.
COMENTÁRIOS (de 35)
João Santos: Muito bem! É por colunistas como JNP que ainda
vale a pena assinar o OBS. Vai uma aposta em como a restante comunicação social
vai ignorar este tema? E mesmo no OBS, em termos noticiosos, lá teremos os
supostos "jornalistas" que se apresentam como especialistas em
assuntos religiosos a fazer as notícias com o enviesamento woke-esquerdista do
costume...
Pertinaz: Saber história é perigoso… chamem o Pacheco Pereira para se pronunciar…
Rui Lima: Bem-haja ao JNP por, neste belo artigo,
recordar um período que hoje é tantas vezes deturpado.
Muitos recorrem à tese de que houve violência extrema de ambos os lados,
embora isso seja verdade, essa formulação pode também esconder parte essencial
do que realmente aconteceu.
Grande parte das vítimas eram religiosos desarmados, padres, freiras,
monges e leigos católicos, mortos simplesmente pela sua identidade religiosa, e
não por qualquer participação militar directa.
Houve execuções, incêndios de igrejas e ataques anticlericais ainda antes
do início formal da guerra.
Manuel Magalhaes: Muito bem, Jaime, é sempre bom e necessário
lembrar a realidade dos factos que as esquerdas fazem tudo para fazer esquecer,
veja-se a cobarde e odienta atitude do nefasto Sanchez com a sua atitude face
ao Vale dos Caídos e onde repousam caídos de ambos os lados, a esquerda é
exactamente isto, um cancro para qualquer sociedade!!!
S N: Excelente
e oportuna crónica sobre um assunto da maior gravidade aqui tão próximo
graça Dias: Um artigo bem oportuno e que confirma a
forma enviesada como jornalistas,
comentadores e especialistas são selectivos, mas, este Papa Leão
XIV é igualmente selectivo e complacente para com as esquerdas e para com regimes de teocráticos revolucionários na posse de uma
arma nuclear (ou muito próximo de a alcançar), o que representa uma ameaça à
própria sobrevivência das comunidades de países vizinhos.
Aqui chegada, não reconheço a este Papa as capacidades ou pensamento
comparáveis a João Paulo II, que durante o seu papado conseguiu
uma colaboração entre a autoridade moral de Roma e a estratégia global de
Washington, ou seja, com o Presidente Ronald Reagan ( com
quem teve uma forte aliança contra o comunismo
). Mais, deverei relembrar que este Papa também não é Bento XVI, pelo
que deverei relembrar a sua citação em 2006 na cidade de
Regensburg sobre o cristianismo e o islão, em que o Papa Bento XVI relembrou: #
" um diálogo medieval entre o imperador
bizantino Manuel II Paleólogo e um erudito persa sobre cristianismo e islão. Nele, o imperador
criticava o profeta Maomé e
o uso
da violência como
instrumento de propagação da fé. " #
Dado este Papa Leão XVI ser dotado de um pensamento ideológico
peculiar, leva-o a ser ora selectivo ora omisso nas suas observações, daí que,
na sua viagem a Espanha este Papa não vá ao Vale dos Caídos, e não se
pronuncie sobre crimes perpetrados por muçulmanos
contra comunidades católicas, e
um dos casos recentes foram as destruições do patrimônio
religioso na Arménia -- Catedral
da Santíssima Mãe de Deus em Stepanakert e Igreja de São Jacó e muitas outras
outras igrejas da Idade Média.
A selectividade dos órgãos de informação no que concerne a esta visita do
Papa a Espanha, não será diferente das omissões ou selectividade dos alvos
deste Papa.
Felix Gavela: Como disse Lenin, para implantar o socialismo é
preciso dizimar a população, um em cada dez cidadãos tem de morrer para
amedrontar os outros. Ainda
assim o socialismo sobrevive há mais de 50 anos em Portugal, todavia o consumo
de tranquilizantes pelos portugueses é dos mais altos do mundo.
Glorioso SLB: Mas o Sanchez está a conseguir
apagar tudo isso. Que a Ayuso rapidamente chegue ao poder.
Lourenço de Almeida: A
malta prefere falar de Guernica que, ainda por cima, originou o feíssimo quadro
do Picasso!
Ruço Cascais: Se um
dia Leão XIV vier em visita papal a Portugal, também pode reconhecer como
mártires todas as vítimas do PREC e das FP’s 25.
Cisca Impllit: O que a Espanha consegue suportar, e então ,
nos dias de hoje....
António
Costa e Silva: Matar
a eito sempre foi um costume dos comunistas, em Espanha e por toda a parte. Por norma, os nacionalistas fuzilaram
indivíduos, culpados identificados; os socialistas, comunistas e anarquistas
não precisavam identificar pessoas para as fuzilar, fuzilavam todos a eito,
identificados pela sua categoria.
Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!
Coronavirus corona > João Pimentel Ferreira: Então não faz sentido falar do genocídio de
judeus na II Guerra Mundial uma vez que o conceito não existia. É isso?
João Diogo: Mais uma fabulosa aula de história, destes
genocídios , não convêm falar , o que esta dar é a tortura dos ativista
totós da flotilha as mãos de israel, coitadinhos.
Carminda Damiao: Parabéns e obrigada por este excelente artigo.
A Sameiro: O crime é curial se for canhoto-In Natália
Correia -Epístola aos Lamitas
Alberico Lopes: E sempre com muita atenção e respeito que leio
os artigos deste grande historiador! Conhecia, só em parte, as perseguições que
esses criminosos fizeram contra a Igreja e os brutais assassínios que
perpetraram. Mas nunca me passou pela cabeça que tivessem atingido esta
carnificina. Cá em Portugal também houve nos tempos da 1ª. República uma
situação muito parecida com a que é referida, mas, valha-nos ao menos isso, não
atingiu este grau de crueldade. Lembram-se do tal Mata-frades? O Afonso Costa,
socialista, pois então!
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