De pensamento.
Como desfazer uma vitória
Não, o activismo LGBT não defende os homossexuais.
Prejudica-os. Desde logo porque os impede de dar à sexualidade a dimensão que
eles escolherem. E que pode ser nenhuma.
MARGARIDA BENTES PENEDO, Arquitecta e deputada municipal
OBSERVADOR, 02 jul. 2026, 00:21
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Ainda o mês de Junho e toda a agitação LGBT que os grupos de
activistas impuseram à parte civilizada do mundo. Cinquenta e sete anos depois
de Stonewall, o desapontamento. Seria útil voltar a ouvir os líderes da época,
cuja maior aspiração ultrapassava as leis e os desfiles, e rejeitava o
confronto em torno da homossexualidade. Eles não queriam ser definidos por ela.
Pediam à sociedade uma coisa mais simples e ambiciosa para os padrões dos anos
seguintes: No fundo, a liberdade de viver uma certa vida
interior sem ter de abdicar das outras liberdades. Em larga medida,
conseguiram. Essa chegou a ser a maior vitória dos homossexuais: deixarem de
ser vistos, acima de tudo, como homossexuais.
A sociedade prestava àquele ponto específico cada vez menos atenção. As
velhinhas viúvas adoravam Goucha e o marido de Goucha. A pouco e pouco, a
convivência quotidiana estava a banalizar a orientação sexual. Até que
apareceram os activistas para negar e desfazer esta vitória.
O activismo LGBT fez pelos homossexuais aquilo que a
sociedade nunca se atreveu a fazer abertamente, ou seja, negar-lhes uma
personalidade própria. Para que o activismo se mantenha incómodo, é
absolutamente indispensável colocar a orientação sexual no centro da
identidade. Quem, além dos próprios activistas, gosta de ser reduzido à imagem
de um palhaço que usa maquilhagem de circo e desfila em biquíni de látex
avenida abaixo na caixa de uma camionete? Nunca a sociedade atribuiu aos
homossexuais um estereótipo tão confrontacional. A representação pública da
homossexualidade desceu ao grau mais pornográfico pelas mãos daqueles que se
dizem seus defensores.
Não admira que a mistura entre homossexualidade e
transexualidade seja cada dia mais agressiva e absurda. O activismo LGBT obriga
pessoas muito diferentes a subscrever a mesma caracterização, e a
reconhecerem-se numa única identidade política. Promovidos pelos partidos da
esquerda – e respeitados pela direita do regime –, os activistas instalaram-se
nas escolas, redes sociais, e meios ligados à medicina, com o propósito de
pressionar adolescentes a mudar de sexo assim que a adolescência expressa os
primeiros sinais de homossexualidade ou confusão. Todo o movimento LGBT se
transformou numa espécie de tribunal dos sentimentos políticos certos, um
sistema de invalidação que hostiliza os próprios homossexuais assim que eles se
recusam a desempenhar o papel. Execraram Peter Thiel e Caitlyn Jenner. Para que
alguém seja digno de apreço LGBT já não basta submeter-se ao absurdo da sigla.
Tem de marchar pelo “progresso”.
O preconceito alimenta-se de estereótipos, e quanto mais
esses estereótipos se afastam do senso comum mais eles servem a perpetuação do
activismo no poder. No dia em que acabasse o preconceito, a sociedade chegaria
à conclusão de que aquelas boas almas activistas eram dispensáveis. Por isso
elas mesmas se encarregam de multiplicar preconceitos e aprofundar os que
restam de outros tempos. Não, o activismo LGBT não defende os homossexuais.
Prejudica-os. Desde logo porque os impede de dar à sexualidade a dimensão que
eles escolherem. E que pode ser nenhuma.
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um novo artigo.
LGBTQ Direitos Humanos Sociedade
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