sábado, 25 de julho de 2026

Políticas interesseiras

 

As de cada novo proponente a um comando. Sempre, está visto.

90 anos depois da Guerra de Espanha

Com um frente-populismo socialmente moderado e entre escândalos de corrupção, em Madrid, a divisão nasce hoje sobretudo dos separatismos necessários para fazer maiorias.

JAIME NOGUEIRA PINTO , Colunista do Observador

OBSERVADOR, 23 jul. 2026, 00:25

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A Guerra Civil de Espanha começou há 90 anos.  Foi no dia 18 de Julho, ou, mais precisamente, no dia 17, em Melilla, no Marrocos espanhol, precipitada por um evento fortuito e inesperado que até teve por protagonista um compatriota nosso, sargento do Tercio.

Por cá, na efeméride, confundiu-se o fundador e chefe da Falange, JOSÉ ANTÓNIO PRIMO DE RIVERA, com o pai, o general MIGUEL PRIMO DE RIVERA.  E chamou-se ditador a JOSÉ ANTÓNIO, que não ditou coisa nenhuma, até porque esteve preso desde Março e foi fuzilado em Alicante em 20 de Novembro de 1936.

Mas já se sabe que, tanto na inteligência artificial como na estupidez natural, a ideologia e a paixão partidária cegam, e em todas as histórias, e notoriamente nestas da Guerra de Espanha, há “maus” muito maus – as direitase “bons” muito bons – as esquerdas.  E, claro, há, de um lado, violência admissível, romântica, compreensível, e, do outro, violência inadmissível, desumana, crua, produto de pura maldade.

Na Guerra Civil de Espanha, a violência começou por ser da “romântica e compreensível”; e começou bem antes do levantamento militar de 18 de Julho, quando as esquerdas, logo a seguir à hoje discutível e discutida vitória eleitoral de Fevereiro-Março de 1936, começaram a ocupar “latifúndios”, a queimar igrejas e a matar padres.

ALIANÇAS RADICAIS

Ora, na versão “correcta”, a violência generosa, humanitária e progressista da Esquerda acordou o tradicional egoísmo puramente malévolo das resistências à Direita.

A unidade da Esquerda resultava de uma convergência de forças políticas várias – um grande partido socialista radicalizado, os também numerosos anarquistas, um pequeno, mas disciplinado partido comunista, separatistas catalães e bascos e republicanos burgueses de esquerda.

Na Direita, havia igualmente uma colecção de tendências e movimentos: católicos da CEDA, monárquicos, divididos entre carlistas tradicionalistas (com o forte feudo de Navarra) e borbónicos liberais; e falangistas, nacional-sindicalistas que encarnavam o que de mais próximo havia do fascismo italianoembora Mussolini e a Itália tivessem uma relação privilegiada com os carlistas, e não com os falangistas. E, claro, o núcleo militar conspiratório, a funcionar há algum tempo, também com diversas sensibilidades e facções.

A revolta falhada de Sanjurjo, em 1932, levara o general para o exílio em Portugal. OS CONSPIRADORES MAIS ACTIVOS ESTAVAM LIGADOS AOS “AFRICANOS”, OS OFICIAIS QUE TINHAM FEITO SERVIÇO MILITAR ACTIVO NAS CAMPANHAS DE MARROCOS, ATÉ À PACIFICAÇÃO EM 1926, NO TEMPO DO CONSULADO DE MIGUEL PRIMO DE RIVERA. O principal organizador da conspiração era o general EMILIO MOLA Y VIDAL, que fora director da inteligência militar e era um patriota conservador.

Assim, entre Fevereiro e Julho de 1936, reuniam-se as condições em Espanha para uma guerra civil de baixa intensidade, em que as milícias radicais de ambos os bandos se enfrentavam e se liquidavam mutuamente. Foi neste quadro que, NA NOITE DE 13 DE JULHO, em MADRID, um grupo de milicianos socialistas e guardas de assalto foi a casa do líder parlamentar da Renovación Española, José Calvo Sotelo, na Calle Velásquez, 89, e o raptou e assassinou. Era a modalidade do “paseo”, depois muito praticada pelos frente-populistas.

Foi o assassínio deste homem que liderava a direita nacional-conservadora que decidiu chefes militares ainda hesitantes, como o general Francisco Franco, comandante-geral das Canárias, a avançar para a rebelião.

A partir de 18 de Julho, os militares tentaram a sorte nas várias cidades importantes de Espanha: Madrid, Barcelona, Valência, Sevilha, Santander, Valladolid, Burgos, Pamplona. Em Madrid e em Barcelona o golpe falhou, também porque a Guarda Civil apoiou o governo, bem como a maioria dos generais e altos comandos. Assim, a revolta foi esmagada em Madrid, em Barcelona, em Valência e em Santander; mas triunfou na Corunha, em Valladolid, em Sevilha, em Marrocos e nas Canárias.

De um modo geral, pode dizer-se que o triunfo ou derrota do movimento rebelde dependeram da afinidade existente com as populações civis. Em zonas rurais, como a Galiza, Navarra ou Castela, onde o catolicismo e o conservadorismo eram dominantes, ganharam as direitas. Em grandes cidades, como MADRID e BARCELONA, com populações industrializadas e sindicalizadas, mobilizáveis pelos dirigentes da esquerda laboral, as direitas civis e militares perderam. E quem perde paga, isto é, na retaguarda, os perdedores foram encostados à parede.

A guerra dos mortos

Durante muitos anos, o número de mortos na Guerra Civil Espanhola foi fixado em um milhão. Era um número que convinha a vencidos e vencedores: uns exaltavam o peso e o sacrifício da derrota e da opressão, outros engrandeciam a vitória.

Em 1977, um historiador militar, Ramón Salas Larrazábal, no seu livro Perdas de la Guerra, fazia a revisão – e a redução –  do mítico “milhão de mortos”. Hoje, o número total de mortos nos mil dias da guerra (entre 18-7-1936 e 1-4-1939), fixado pelos estudiosos por comparação entre o número de mortos habitual e os números da guerra, é de 330.000. Desses, cerca de 220.000 morreram em combate e 110.000 foram executados na rectaguarda. Segundo Martin Rubio (Paz, piedad, perdón y verdade: la represión en la guerra civil, una sínteses definitiva, 1997; Los mitos de la repressión en la guerra civil, 2005), os rebeldes militares executaram entre 47.000 e 48.000 pessoas durante a Guerra Civil; e quanto à repressão exercida pelos vencedores no pós-guerra, Miguel Platón, em La represión de la posguerra, situa entre 15.000 a 20.000 o número de dirigentes e militantes esquerdistas julgados e condenados por “delitos de sangue”. Quanto aos direitistas executados nas zonas governamentais, Martin Rubio estima que tenham sido entre 57.000 e 59.000.

Assim, não há uma grande diferença entre as vítimas de um e outro lado, cujo total andará pelos 110.000, isto é, um terço das baixas mortais totais, e  bem longe do número de mortos na guerra civil entre Vermelhos e Brancos, na Rússia, entre 1918 e 1922.

INTERNACIONALIZAÇÃO IDEOLÓGICA

À partida, a FRENTE POPULAR ocupava mais território e tinha, nesse território, com as grandes cidades, mais população do que os “nacionais” de FRANCO (16 milhões vs 9 milhões).

Era um conflito marcadamente ideológico, como ficaria claro com a intervenção dos estrangeiros. Ou seja, sendo, essencialmente, uma guerra entre espanhóis, os contingentes estrangeiros foram decisivos no início – italianos e alemães para o transporte do grosso das tropas de Franco de Marrocos para a península; as Brigadas Internacionais para defender Madrid, quando Franco ali chegou no Outono de 1936, depois de uma fulgurante campanha a partir de Sevilha e Badajoz.

No Verão de 1936, MUSSOLINI e HITLER enviaram meios para os “nacionais” – sobretudo para que as tropas de Marrocos atravessarem o estreito de Gibraltar, já que a revolta dos marinheiros da República que tinham matado os oficiais e tomado conta dos navios desequilibrara a arma naval contra a Direita. Além dessa facilitação de transporte, Mussolini mandou para Espanha o Corpo de Truppe Voluntarie e Hitler a Legião Condor.

À ESQUERDA, OS APOIOS VIRIAM DA UNIÃO SOVIÉTICA DE ESTALINE QUE, PELA INTERNACIONAL COMUNISTA, ACCIONOU AS BRIGADAS INTERNACIONAIS QUE SALVARAM MADRID NO OUTONO DE 36. O MÉXICO ANTI-CLERICAL DO PARTIDO REVOLUCIONÁRIO INSTITUCIONAL TAMBÉM APOIOU MADRID.

O PORTUGAL DE SALAZAR APOIOU FRANCO, QUANDO GRANDE PARTE DOS OPOSICIONISTAS AO ESTADO NOVO, EUFÓRICOS COM A VITÓRIA DA FRENTE POPULAR, SE JUNTARAM EM ESPANHA. O atentado contra Salazar do anarquista Emídio Santana, em 4 de Julho de 1937, terá sido uma encomenda do governo espanhol. O Reino Unido e a França foram pela “não intervenção”.

O APOIO PORTUGUÊS A FRANCO FOI SOBRETUDO DIPLOMÁTICO E ECONÓMICO, JÁ QUE, COMO DEMONSTROU JOSÉ LUÍS ANDRADE (PORTUGAL AND THE SPANISH WAR (1936-1939): NOT WANTING TO FALL SHORT AND NOT BEING ABLE TO GO FURTHER, VOL.III, KDP, 2023), O NÚMERO DOS “VIRIATOS” TEM SIDO TRADICIONALMENTE EXAGERADO. ALGUNS DOS PORTUGUESES QUE LUTARAM EM ESPANHA FIZERAM-NO, PARADOXALMENTE, DO LADO CONTRÁRIO ÀS SUAS CONVICÇÕES, JÁ QUE ERAM REFUGIADOS POLÍTICOS ANTI-DITADURA MILITAR QUE FUGIRAM PARA ESPANHA E SE ALISTARAM NA LEGIÃO. E NA LEGIÃO COMBATERAM.

A Guerra de Espanha reflectia a radicalidade ideológica da Europa de então – o frente-populismo antifascista adoptado por Estaline e a III Internacional depois da vitória hitleriana na Alemanha em 1933 – e também de uma Espanha com grandes contrastes sociais e reivindicações separatistas.

Hoje, noventa anos passados, com um frente-populismo socialmente moderado e grandes escândalos de corrupção, o radicalismo ideológico fascismo-comunismo desapareceu. Nos anos 1960-1970, o franquismo criou uma classe média que domina socialmente a Espanha, diluindo os abismos sociais de 1936. O PROBLEMA E A DIVISÃO HOJE NASCEM SOBRETUDO DOS SEPARATISMOS VASCO E CATALÃO, QUE CRESCERAM DEPOIS DA TRANSIÇÃO PARA A MONARQUIA PARLAMENTAR E QUE ACABAM POR SER NECESSÁRIOS, EM MADRID, PARA FAZER MAIORIAS.

ESPANHA       EUROPA       MUNDO

COMENTÁRIOS (de 2º):

…90 anos depois da Guerra de Espanha_: Há um parágrafo que destaco, no meio de uma "aula" de história objectiva e m90 anos depois da Guerra de Espanhauito interessante. : " MAS JÁ SE SABE QUE, TANTO NA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO NA ESTUPIDEZ NATURAL, A IDEOLOGIA E A PAIXÃO PARTIDÁRIA CEGAM, E EM TODAS AS HISTÓRIAS, E NOTORIAMENTE NESTAS DA GUERRA DE ESPANHA, HÁ “MAUS” MUITO MAUS – AS DIREITAS – E “BONS” MUITO BONS – AS ESQUERDAS.  E, CLARO, HÁ, DE UM LADO, VIOLÊNCIA ADMISSÍVEL, ROMÂNTICA, COMPREENSÍVEL, E, DO OUTRO, VIOLÊNCIA INADMISSÍVEL, DESUMANA, CRUA, PRODUTO DE PURA MALDADE. "  Como habitualmente, os textos de Jaime Nogueira Pinto são escritos de uma forma objetiva e inteligente, apresentado a sua visão, suportada por factos  ...  e não por "achismos", como, infelizmente, vai sendo cada vez mais habitual.

João Diogo: Excelente artigo, mais uma lição de história brilhante.

Helena Lopez: Brilhante. Sugiro uma continuação do excelente artigo.

João Floriano: Leio sempre com muito interesse tudo o que tem  a ver com a Guerra Civil de Espanha. Sendo a minha família tanto do lado materno como paterno de um vila no Alto Alentejo, perto da fronteira, Castelo de Vide na vizinhança de Badajoz, Cáceres e Valência de Alcântara, falava-se muito da guerra  e dos que fugiam, sobretudo da Legião Estrangeira. O meu avô contava que quando aparecia algum era corrido com o aviso: «Renipatagent!». Que quer isto dizer? «Rien! Pas d'argent!». E o desertor seguia o seu caminho com os miúdos a correr e a atirar pedras e tinha sorte se lhe dessem um pão para o caminho. Sobre o conflito, julgo que do lado das esquerdas, os anarquistas contribuíram e muito para  a divisão do lado republicano. O atentado no casamento de Afonso XIII com Vitória Eugénia em 1906 é obra de anarquistas, assim como o assassinato de Canalejas em 1912. Participando na guerra, os anarquistas não se distinguiram pela disciplina que foi necessária quando os combates substituíram as marchas libertadoras em que se matavam autoridades locais, simpatizantes da Falange, o que até podia nem ser verdade e claro os padres e as freiras. Noventa anos após a guerra, à beira de fazer um século, a Espanha ainda tem feridas abertas e muitas divisões que são devidamente exploradas pelos socialistas actualmente no governo e que se aguentam com o apoio de separatistas bascos e catalães. Em Portugal não deixam o Salazar repousar em paz; em Espanha é o Franco que não tem sossego. Muito conveniente para agitar o papão do fascismo.

_: Esclarecedor, e de leitura obrigatória para os “antifascistas tugas”.

SDC Cruz: Caro Jaime Nogueira Pinto, a excelente aula de História sobre a Guerra Civil de Espanha é mais uma crónica que vou guardar em lugar de destaque. Tenho pena de, em algumas vezes, por força da disponibilidade (ou falta dela), não poder comentar as suas aulas em tempo útil. Mas, permita-me um sugestão que muito provavelmente já foi aferida neste espaço e que reforço: publique as suas crónicas de "Aulas de História" em livro. Sempre fui um apaixonado pela História e serei o primeiro da fila para o comprar. Obrigado e até para a semana.

Sr Leão: Só espero que o Jaime Nogueira Pinto continue durante muitos anos a ilustrar este jornal com a sua erudição.

Rodrigo Lourenço: Belo artigo, sobre uma época com muitas semelhanças com a que vivemos agora. Os primeiros parágrafos são esclarecedores: a principal consequência da polarização política é forçar convivências pouco saudáveis, como entre católicos moderados e falangistas, do lado Nacional, e entre moderados de esquerda, anarquistas e comunistas, do lado Republicano. As guerras internas do lado Republicano foram em si uma gerra civil, com muitos mortos e batalhas. Ganhou quem soube unir-se mais. Gostaria de ler aqui uma série de textos sobre este conflito tão marcante; fica a sugestão. 

Maria Nunes: Excelente artigo. Obrigada.

Jorge Barbosa: Excelente artigo. Muito obrigado ao Jaime Nogueira Pinto, pela sua licão de História, livre de agendas inconfessáveis, e muito obrigado, também, ao OBSERVADOR pela qualidade do serviço público que sustenta, livre de agendas inconfessáveis

Manuel Magalhaes: Muito bom, Jaime, sempre muito interessante e pedagógico!!!

Henrique Pinto: Obrigado pela aula. Falou da guerra dos mortos. Só um que fosse já teria sido um desastre mas um milhão sempre foi difícil de digerir. Finalmente parece haver quem queira repor números com maior rigor. Não sei porquê lembrei-me dos seis milhões do holocausto.

 

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