Os nacionalismos recolocam uma questão: que configuração teria a Europa
se os nacionalismos, as identidades etnolinguísticas e as memórias territoriais
históricas recuperassem centralidade política?
VICENTE FERREIRA DA SILVA, Investigador do Centro de
Investigação em Ciência Política da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 13 jul. 2026, 00:20
As mais lidas
1 Mácron: prontos para "derramar sangue" pela
liberdade
2 Próxima presidência rotativa da CPLP ainda sem
consenso
3 Polícia inglesa não vê motivo político na morte de
deputada
4 Coreia do Sul com alerta de calor extremo pela
primeira vez
5 Mais de um terço de França em alerta vermelho devido a
calor
6 Incêndio em Almería está controlado e fez 13 vítimas
mortais
NOTA PRÉVIA: o mapa “Fragmentação da Europa (nacionalismos e identidades
etnolinguísticas)” não pretende antecipar o futuro do continente nem propor
qualquer agenda política.
Participei no Contra-corrente sobre imigração. As
perguntas do José Manuel Fernandes, Helena Garrido e João Miguel Santos foram interessantíssimas e durante a
conversa referi que os nacionalismos e as identidades etnolinguísticas
facilmente poderiam fragmentar a Europa em mais de 200 Estados.
Este artigo é a primeira parte de uma reflexão sobre o
tema. O mapa tem como critério a máxima fragmentação historicamente
justificável, ou seja, cada povo etnolinguístico, cada antigo reino, ducado,
principado, marca, cantão ou região histórica com identidade própria.
1 Como foi construído o mapa
Ao longo dos séculos, a Europa conheceu sucessivas
vagas de afirmação nacional, regional e cultural. Muitas das fronteiras actuais
são recentes, resultando de processos de centralização, unificação ou
redefinição territorial ocorridos sobretudo entre os séculos XVII e XX. Contudo, sob a superfície dos Estados
contemporâneos subsistem comunidades que preservam línguas próprias, tradições
seculares e identidades anteriores à consolidação dos Estados-nação modernos.
É precisamente a partir dessa realidade que o mapa se
constrói. Ilustra um cenário hipotético em que essas identidades recuperam
protagonismo e reivindicam formas de soberania ou autodeterminação. O resultado
é uma Europa profundamente fragmentada: de cerca de cinquenta Estados
reconhecidos internacionalmente para um mosaico com mais de trezentas entidades
políticas.
A primeira observação é óbvia: isto é um regresso ao passado. Uma transformação desta magnitude
representa uma ruptura com o modelo do Estado-nação, consolidado entre os
séculos XVII e XIX, aproximando-se da complexidade política da Europa medieval
e moderna, quando o poder se distribuía por reinos, ducados, principados,
cidades livres, bispados e múltiplos territórios autónomos. Nessa época, as fronteiras políticas
raramente coincidiam com fronteiras linguísticas ou culturais. Identidades
sobrepunham-se e a soberania era frequentemente negociada, partilhada ou
fragmentada. O
Sacro Império Romano-Germânico poderá ser o exemplo paradigmático, mas a
Península Itálica, os Países Baixos, os Balcãs e grande parte da Europa Central
e Oriental exibiram modelos semelhantes.
Este mapa hipotético estende o princípio a todo o
continente europeu, articulando‑o com a compreensão moderna das identidades nacionais e etnolinguísticas. Antigos reinos – Castela, Leão, Navarra, Borgonha – coexistem com identidades contemporâneas como Catalunha, Flandres, Tirol
do Sul, Silésia ou Gagaúzia. Paralelamente, povos menos numerosos
– frísios, sórbios, arromenos, ladinos, sámis, cassubianos, russinos, pomaks,
entre muitos outros – surgem reconhecidos como comunidades políticas distintas.
2 O princípio da autodeterminação
Ora, uma organização desta natureza corresponderia, de
forma mais rigorosa do que o actual mapa político europeu, ao princípio da
autodeterminação dos povos. Comunidades que preservaram a sua língua, tradições
e memória histórica disporiam de instituições próprias e exerceriam soberania
plena. A preservação cultural seria reforçada, as línguas minoritárias
ganhariam protecção e muitas identidades regionais adquiririam uma visibilidade
política inédita.
3 As consequências da fragmentação
Mas uma fragmentação desta escala teria consequências
profundas. Sucintamente, faço quatro referências:
Desafios políticos – A existência de centenas de
Estados soberanos exigiria uma rede diplomática vastíssima, com tratados,
acordos fronteiriços e mecanismos permanentes de cooperação. Cada nova
fronteira seria um potencial foco de disputa, sobretudo em regiões onde diferentes
comunidades reivindicam os mesmos territórios ou coexistem de forma
entrelaçada.
Desafios económicos – Sistemas aduaneiros, regimes
fiscais, moedas, infraestruturas, redes energéticas e corredores de transporte
tornar‑se‑iam mais complexos. Muitos destes novos Estados teriam
populações reduzidas e recursos limitados, tornando‑se dependentes de cooperação regional para garantir viabilidade
económica. A
livre circulação
de pessoas e bens seria mais difícil, mesmo que estruturas supranacionais – como uma União Europeia ampliada – tentassem mitigar parte desses obstáculos.
Desafios de segurança – Estados pequenos possuem
capacidades militares limitadas e dependeriam de alianças defensivas.
Disputas territoriais, tensões entre minorias e maior competição por recursos
estratégicos poderiam intensificar‑se, sobretudo onde fronteiras históricas, étnicas e linguísticas não coincidem.
A questão da identidade – O mapa evidencia que a
identidade europeia é múltipla, sobreposta e dinâmica. Em muitas regiões
coexistem identidades locais, regionais, nacionais e europeias. Transformar
cada uma delas num Estado soberano implicaria simplificar uma realidade
intrinsecamente complexa. A Europa sempre foi um espaço onde línguas se
distribuem em contínuos dialectais, culturas atravessam fronteiras e lealdades
históricas se transformam. A busca de Estados etnolinguisticamente homogéneos confrontar‑se‑ia inevitavelmente com ambiguidades
difíceis, e até impossíveis, de resolver.
Paradoxalmente, o mapa revela simultaneamente a
riqueza e os limites do princípio nacionalista: mostra a extraordinária
diversidade cultural da Europa, mas também os desafios de organizar a vida
política exclusivamente em torno da identidade etnolinguística. Um ressurgimento simultâneo de
nacionalismos e identidades territoriais produziria uma Europa mais
fragmentada, mais complexa e mais difícil de governar – sobretudo sem
mecanismos eficazes de cooperação supranacional.
4 Porque é que esta reflexão importa hoje?
Neste ponto, reafirmando que o mapa é apenas um
convite à reflexão histórica e geopolítica e que não pretende prever o futuro,
mas explorar as consequências de uma intensificação das reivindicações
nacionalistas num continente cuja diversidade sempre foi estrutural, recordando
o delicado equilíbrio entre diversidade cultural, autodeterminação,
estabilidade política e integração europeia, reitero as ideias que expressei
neste artigo: Sobre o valor da reciprocidade.
Uma das tensões centrais da Europa contemporânea – e
que se tornaria ainda mais visível numa Europa fragmentada em múltiplos Estados
etnolinguísticos – resulta da promoção dos valores fundamentais da UE sem a
explicação adequada do seu significado e do contexto histórico que lhes dá
forma.
Esta
realidade tem contribuído para convulsões culturais, polarização social e
crescimento de populismos identitários, tanto à esquerda como à direita. Estes movimentos exploram receios
difusos, radicalizam o discurso e procuram ganhos eleitorais através da
amplificação das ansiedades culturais.
5 Reciprocidade, integração e Estado de Direito
A diversidade cultural não elimina a necessidade de
respeitar as leis e a cultura dos países anfitriões. Quem procura refúgio ou
imigra para um país europeu tem a responsabilidade de se integrar tanto quanto
possível: aprender a língua, escolarizar os filhos localmente, procurar emprego
e respeitar as comunidades que o acolhem. Isto não implica abandonar a
cultura ou a religião de origem, mas exige reciprocidade, i.e., o mesmo
respeito que é dado deve ser retribuído.
A reciprocidade é, aliás, um dos pilares invisíveis da
convivência europeia. Ela reforça o respeito mútuo entre povos e culturas e
sustenta a confiança entre Estados e Governos. Quando este princípio é ignorado,
surgem percepções de desequilíbrio que não devem ser negligenciadas, antes
discutidas abertamente pelas instituições europeias. Especialmente pela
Comissão Europeia, que tem a responsabilidade de liderar o debate e promover
esclarecimento público.
E a separação entre Estado e religião, um dos
fundamentos da cultura ocidental, tem de ser referida. A Europa é tolerante e respeita todas
as religiões, mas exige o mesmo respeito pelos seus valores e pelo seu modo de
vida. Qualquer
prática, religiosa ou secular, que viole a lei deve ser proibida no espaço
público. Este princípio não é hostilidade nem
intolerância; é a defesa da ordem democrática, numa linha próxima do paradoxo
da tolerância de Popper.
Os líderes políticos europeus devem ser lembrados da
importância da reciprocidade, tanto nas relações internacionais como na
convivência cultural interna. Ajudar quem chega é um imperativo moral, mas essa
ajuda não dispensa o cumprimento das leis do país anfitrião. Respeito implica retribuição. Quem
não estiver disposto a respeitar o modo de vida europeu é livre de regressar ao
seu país de origem.
6Conclusão
Integradas no quadro mais amplo da diversidade
europeia e, por maioria de razão, no cenário hipotético de fragmentação
etnolinguística, penso que estas ideias revelam um ponto essencial: a Europa só
conseguirá preservar a sua identidade plural se conseguir equilibrar
acolhimento, integração e reciprocidade.
Desse modo, evitará tanto o fechamento identitário
como o relativismo e reconstrucionismo cultural que ignora as bases da sua
própria civilização.
EUROPA MUNDO MIGRAÇÕES
Nenhum comentário:
Postar um comentário