sábado, 4 de julho de 2026

Useiros e vezeiros

 

Havia outrora, numa outra escolaridade, um poema que começava assim;

«Preguiça foi à lição

Ler escrever e contar

Deixava a memória em casa

Com preguiça de a levar.»

E assim terminava:

«Preguiça voltou da escola

Fez a cama e se deitou.

Para não mais a fazer

Nunca mais se levantou.»

O texto infra fez-mo recordar, num reforço inglório. Embora reconheça que é pura liberdade poética tal conceito, entre os humanos, seres, afinal, bem dignos de admiração, no BEM como no MAL.

A revolução escondida

A reescrita de meia dúzia de artigos do Código de Trabalho requer aviso prévio e mandato explícito do eleitorado, mas a transformação demográfica do país pode ser decidida nas costas dos eleitores?

RUI RAMOS, Colunista do Observador

OBSERVADOR, 03 jul. 2026, 00:25

(OUTROS TÍTULOS: ONU prevê intensificação rápida do El Niño. Sismos na Venezuela: Vila Velha de Ródão recolhe bens. 16 menores viviam fechados num quarto com fezes humanas. Fim da auto-baixa e impostos. Alemanha aprova pacote laboral. Rússia bombardeia Kiev no "maior ataque" nesta guerra. Japão instala câmaras nas montanhas perante ataques de russos. Foi confirmado a semana passada: em poucos anos, os residentes estrangeiros em Portugal duplicaram. Representam hoje 14% da população. Por isso, o país tem agora quase mais um milhão de habitantes do que em 2021. O que se passa com as nossas estatísticas, nas quais assentam a reflexão e a decisão públicas, que deixaram até há dias escapar uma mudança de tais proporções? Eis a primeira questão.

A segunda é esta: que se passa com a nossa democracia? Porque tudo isto começou em 2017 com a decisão de um governo socialista, amparado na extrema-esquerda, de inventar a “manifestação de interesse”. Nos últimos meses, toda a gente se exaltou muito por a reforma laboral não constar do programa eleitoral do PSD. Pergunto: a multiplicação brusca do número de residentes, através do fim do controle das fronteiras, alguma vez constou dos programas eleitorais do PS, PCP ou BE? A reescrita de alguns parágrafos do Código de Trabalho requer aviso prévio e mandato explícito do eleitorado, mas a transformação demográfica do país e a maior revolução social desde a década de 1960 pode ser decidida nas costas dos eleitores? O povo não deveria ter sido consultado? O que é a democracia, senão o direito de os cidadãos deliberarem sobre grandes opções, como é, por exemplo, adicionar à população mais 1 milhão de estrangeiros, com a pressão correspondente sobre a habitação e os serviços públicos?

Mas decidir o quê?, dizem-nos alguns. Não havia outra opção: a imigração era uma necessidade. Precisava dela a Segurança Social. Precisava dela a economia. Admitamos que sim. O problema então é este: que nos diz essa necessidade sobre a nossa Segurança Social e sobre a nossa economia? Que Segurança Social é essa que, para pagar as pensões, precisa de importar centenas de milhares de estrangeiros todos os anos? Que economia é essa que, para parecer que cresce, tem de receber todos os anos uma massa de trabalhadores pouco qualificados do Terceiro Mundo? O que talvez devêssemos concluir não é que a imigração é indispensável, mas que não temos a Segurança Social e a economia que nos convêm: uma Segurança Social viável, e uma economia capaz de crescer através da inovação e da produtividade. Percebemos assim o que está por detrás da importação caótica de trabalhadores pobres: a recusa das mudanças que poderiam ter tornado sustentável a Segurança Social e estimulado outra economia. O caos migratório é mais um aspecto da falta de reformas.

A irresponsabilidade socialista pode ficar cara. Leia-se o capítulo 2 de Spheres of Justice, de Michael Walzer. Um Estado que não controla as entradas e saídas deixa de ser soberano, mas deixa também de consistir numa comunidade histórica, onde o sentido de um destino nacional comum une gente através das gerações, regiões, classes sociais, ideologias e etnias. Transforma-se num território descaracterizado e de passagem, onde, faltando uma identidade comum, os residentes ocasionais tenderão a arrumar-se em guetos segundo as suas origens, como nas cidades comerciais da antiguidade: quando não existem fronteiras externas, passam a existir fronteiras internas. Ora, territórios sem limites e populações tribalizadas são ambientes mais propícios para impérios autoritários do que para democracias.

Este não é um argumento contra a imigração, o pluralismo, ou a hospitalidade, mas contra a conjugação entre o caos migratório e o projecto woke de criminalizar e eliminar as identidades nacionais no Ocidente. Foi nesse caminho que nos meteu o poder socialista. E até à semana passada, esperou que a falta de informação nos impedisse de ter a certeza sobre o que se passava.

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IMIGRAÇÃO     MUNDO

Fernando ce: 100% de acordo. Não reconheço o meu país . E, mais do que isso , deram cabo do SNS, ao impor pelo menos mais de 800.000 utentes , colocando desafios quer em termos de consultas, cirurgias e medicamentos ( muitos vieram de países onde os caríssimos medicamentos inovadores não existem). Isto paga a folga na segurança social? Alguém me consultou deste descalabro? E que agora venham exigir uma “vida justa” - a que muitos nacionais não têm acesso - por parte de pessoas que vieram de países onde lutavam pela sobrevivência?

Francisco Almeida: Rui Ramos é mais um que toca ao de leve numa questão sobre a qual me interrogo desde que foram publicados os números do INE. Será que na direcção do INE há elementos vinculados ao PS que tenham impedido por 4 ou 5 anos a divulgação dos números da imigração? Se não é isso, porquê só agora?

GateKeeper: Top 10. Só porque os nrs e as %s peçam por defeito, está crónica não fica nos top 05. A verdadeira dimensão deste crime sócio - económico é muito maior, mais vasta e grave do que isso. Os meus netos é que vão amargar com as consequências desta hecatombe "tugalêsa".

Hugo Silva: Quando o outro trouxe este assunto à liça, há sensivelmente 3/4 anos, quem não tem memória curta, lembra-se bem como foi tratado e adjectivado. Na altura, não existiu uma alminha que não tivesse apelidado o outro, de racista, xenófobo etc.... O PSD, está incluído nesse lote de traidoras, convém não esquecer.  Mais uma vez, ficou demonstrado que o outro tinha razão, o que acontece muitas vezes, para azia daqueles que o detestam só porque sim.

David Pinheiro: Bravo! Perguntas certeiras, sem resposta, claro. E coragem de as fazer em público. Vale a assinatura.  PS: Apenas discordo de que este experimento social tenha sido feito nas "Costas" do povo. Foi à descarada (bastava andar pelas ruas) e teve direito a maioria absoluta. Temos o que merecemos.

Henrique Necho: Muito bom

Pedro Belo > Américo Silva: Quem é que fazia isso antes dos imigrantes? Afinal Portugal não existia antes de 2017, éramos um sonho

Paul C. Rosado: Esqueceu-se de referir outro aspecto:  O PS matou a democracia em Portugal. Que legitimidade há nos próximos resultados eleitorais, se o PS comprou centenas de milhares de votos para a esquerda, dando em troca a nossa nacionalidade? É que, na prática, foi mesmo isto que aconteceu! De quantos votos já beneficia, se grande parte dos imigrantes dos PALOPs, por exemplo, já podem votar ao fim de dois anos? Obviamente que irão votar em quem lhes dá a "mama".  Julgados por traição ainda seria pouco!

Rui Lima: Os países hoje na Europa e as suas administrações  são incapazes de responder quantos  chegam, todos os anos,  quem são o  que fazem O maior desastre para o futuro da nossa civilização acontece nas costas do povo, vamos ter o regresso da pobreza em grande escala hoje as barracas e tendas são aos milhares junto de bairros onde se vivia tranquilamente em França e em outros países . Paris em zonas como La Chapelle, Stalingrad, Saint-Denis …e junto ao anel viário de Paris. As autoridades francesas desmantelam regularmente estes acampamentos, mas novos acabam por surgir noutros locais.

observador censurado: "(...) Representam hoje 14% da população. (...)" Salvo melhor opinião, é falso:

1. Número de residentes em 2011: 10.542.398;

2. Saldo natural (número de nascimentos - número de mortos) nos últimos 15 anos: cerca de menos meio milhão de pessoas;

 3. Emigração nos últimos 15 anos: pelo menos 1 milhão.

 Conclusão 1: Sem as pessoas "descamisadas" do Brasil, Paquistão, India, Bengladesh, norte de África, a população portuguesa seria, no máximo, 9 milhões de pessoas

Facto: INE diz que há 6 meses havia cerca de 11.5 milhões de pessoas a viver em Portugal.

Conclusão 2: O número de imigrantes é 11.5 milhões - 9 milhões, isto é, pelo menos, 2.5 milhões. Como o número do INE pecará por defeito, o número de imigrantes "descamisados" será, pelo menos, 3 milhões.

José B Dias: Excelente reflexão ... e muitas outras ao género poderiam ser feitas!

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