sexta-feira, 10 de julho de 2026

Sem desgaste

 


E sem imaginação, talvez.

Afinal, o passado – político -está sempre presente nas novas políticas

Nos 250 anos da "Nova Roma"

Lamento informar as mediáticas Cassandras que, 250 anos volvidos, o Congresso e o Supremo, bem como a divisão de poderes, continuam de saúde nos Estados Unidos do “pior dos césares

JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do Observador

OBSERVADOR, 09 jul. 2026, 00:25

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Os Founding Fathers da América são aquele núcleo duro que, à volta de George Washington, pensou e animou a independência e a guerra da independência contra “o rei Jorge”, dando origem a um original processo revolucionário que se concluiu na Constituição de 1787. É aí que, pela primeira vez nos tempos modernos, se legitima e concebe uma representação e delegação de governo de uma comunidade de cidadãos pela comunidade dos cidadãos.

Estes Pais Fundadores da América eram, na sua maioria, leitores e admiradores dos clássicos, entendendo aqui por clássicos os autores, gregos e sobretudo romanos, que escreveram sobre História, Filosofia e Política e reflectiram sobre o homem na sua relação com a polis e com a civitas. Os Founding Fathers conheceram-nos, leram-nos e admiraram-nos, e até se aplicaram na imitação de algumas personagens históricas ou míticas por eles encarnadas, contadas ou criadas.

Nem todos tinham o privilégio de ter uma educação superior. George Washington, por exemplo, nunca frequentou a universidade; o pai morreu tinha ele onze anos e a sua formação ficou muito a dever-se ao seu meio-irmão Lawrence, unido por casamento aos Fairfax. Os Fairfax tinham raízes aristocráticas escocesas, por ligação a Carlos I, Stuart, e possuíam grandes propriedades em Westmoreland, na Virginia. Lawrence estudou em Inglaterra e quando voltou aos Estados Unidos conheceu o meio-irmão George, catorze anos mais novo, a quem protegeu e tutelou como um pai.

Em 1743, quando Lawrence casou com Anne Fairfax, os Washington ficaram ligados aos “senhores da terra”; e o jovem George, primeiro como administrador dos domínios dos Fairfax, depois na carreira militar, foi crescendo nesse mundo.

Os “cadernos exemplares” de George Washington

George leu e copiou um manual de formação cívica e social intitulado Rules of Civilty and Decent Behaviour in Company and Conversation. Era um manual escrito por jesuítas franceses nos finais do século XVI e traduzido para Inglês, em meados do século XVII, por um tal Francis Hawkins.

Não tendo a cultura clássica dos colégios e da educação formal, George não deixou de ir fazendo dos heróis romanos os seus modelos.  Ao contrário dos seus sucessores John Adams (que era um estudioso dos clássicos e um admirador do republicanismo de Cícero), Thomas Jefferson ou James Madison, o chefe militar e primeiro presidente norte-americano não sabia Latim nem Grego. Porém, tentava acompanhar de perto romanos como Catão, o Jovem, que resistira a Júlio César, ou Quinto Fábio Máximo que, na guerra contra Cartago, optara pela táctica do desgaste para cansar Aníbal, evitando o confronto directo. E, acima de todos, olhava como exemplo Cincinato, o ditador e salvador de Roma do século VI A.C., que renunciara ao poder e se retirara para o campo, dedicando-se à agricultura.

Mas entre os Founding Fathers e os representantes dos treze Estados também havia grandes divisões, dentro de um princípio comum de independência da coroa britânica. O embate mais importante deu-se entre federalistas e anti-federalistas no Verão de 1787, em Filadélfia.

Federalistas e anti-federalistas

O que estava em cima da mesa eram os Articles of Confederation and Perpetual Union, aprovados pelo Segundo Congresso Continental em 15 de Novembro de 1777. Parte dos delegados, entre eles Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, queria ir mais longe: mais do que uma Confederação, queria uma Federação, uma União de Estados. Opunham-se-lhe os anti-federalistas, também ilustres – THOMAS JEFFERSON, GEORGE MASON, JAMES MONROE. GANHARAM OS FEDERALISTAS. Curiosamente, no debate, os autores dos escritos apologéticos de um e de outro lado – DOS FEDERALIST PAPERS E DOS ANTI-FEDERALIST PAPERS – usaram pseudónimos romanos. Os federalistas optaram por PUBLIUS VALERIUS PUBLICOLA E OS ANTI-FEDERALISTAS POR CATÃO E BRUTO.

ARGUMENTANDO CONTRA A DIVISÃO E PELA UNIÃO DOS TREZE ESTADOS, OS FEDERALISTAS RECORRERAM À DIVISÃO DAS CIDADES GREGAS, QUE LEVARA À SUBJUGAÇÃO DA GRÉCIA, PRIMEIRO PELOS MACEDÓNIOS E DEPOIS PELOS ROMANOS. AO CONTRÁRIO, OS ANTI-FEDERALISTAS ILUSTRARAM OS SEUS ARGUMENTOS COM OS TIRANOS QUE A EXTENSÃO DO TERRITÓRIO DE ROMA, ENGROSSADO PELAS CONQUISTAS, CRIARA E ALIMENTARA, AMEDRONTANDO OS ADVERSÁRIOS COM “OS PIORES DOS CÉSARES” – CALÍGULA, NERO E HELIOGÁBALO.

OS FEDERALISTAS QUERIAM A UNIDADE E A UNIÃO DAS 13 COLÓNIAS NUMA NAÇÃO. HAMILTON, DEPOIS DE REFERIR A “INEQUÍVOCA EXPERIÊNCIA DA INEFICÁCIA DO EXISTENTE GOVERNO FEDERAL”, LEMBRAVA AO POVO DO ESTADO DE NOVA IORQUE, CHAMADO A “DELIBERAR SOBRE UMA NOVA CONSTITUIÇÃO PARA OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA”, QUE O QUE ESTAVA EM JOGO ERA “O DESTINO DE UM IMPÉRIO” QUE ERA, “EM MUITOS ASPECTOS, O MAIS INTERESSANTE DO MUNDO.”

CONTINUA

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