E sem imaginação, talvez.
Afinal, o passado – político -está sempre presente nas novas
políticas
Nos 250 anos da "Nova Roma"
Lamento informar as mediáticas Cassandras que, 250
anos volvidos, o Congresso e o Supremo, bem como a divisão de poderes,
continuam de saúde nos Estados Unidos do “pior dos césares”
JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do Observador
OBSERVADOR, 09 jul. 2026, 00:25
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Os Founding Fathers da América são aquele núcleo duro
que, à volta de George Washington, pensou e animou a independência e a guerra
da independência contra “o rei Jorge”, dando origem a um original processo
revolucionário que se concluiu na Constituição de 1787. É aí que, pela primeira
vez nos tempos modernos, se legitima e concebe uma representação e delegação de
governo de uma comunidade de cidadãos pela comunidade dos cidadãos.
Estes Pais Fundadores da América eram, na sua maioria,
leitores e admiradores dos clássicos, entendendo aqui por clássicos os autores,
gregos e sobretudo romanos, que escreveram sobre História, Filosofia e Política
e reflectiram sobre o homem na sua relação com a polis e com a civitas. Os Founding Fathers conheceram-nos, leram-nos e
admiraram-nos, e até se aplicaram na imitação de algumas personagens históricas
ou míticas por eles encarnadas, contadas ou criadas.
Nem todos tinham o privilégio de ter uma educação
superior. George Washington, por exemplo, nunca frequentou
a universidade; o pai morreu tinha ele onze anos e a sua formação ficou muito a
dever-se ao seu meio-irmão Lawrence, unido por casamento aos Fairfax. Os
Fairfax tinham raízes aristocráticas escocesas, por ligação a Carlos I, Stuart,
e possuíam grandes propriedades em Westmoreland, na Virginia. Lawrence estudou
em Inglaterra e quando voltou aos Estados Unidos conheceu o meio-irmão George,
catorze anos mais novo, a quem protegeu e tutelou como um pai.
Em 1743, quando Lawrence casou com Anne Fairfax, os
Washington ficaram ligados aos “senhores da terra”; e o jovem George, primeiro
como administrador dos domínios dos Fairfax, depois na carreira militar, foi
crescendo nesse mundo.
Os “cadernos exemplares” de George Washington
George leu e copiou um manual de formação cívica e social
intitulado Rules of Civilty and Decent Behaviour in Company and Conversation.
Era um manual escrito por jesuítas franceses nos finais do século XVI e
traduzido para Inglês, em meados do século XVII, por um tal Francis Hawkins.
Não tendo a cultura clássica dos colégios e da educação
formal, George não deixou de ir fazendo dos heróis romanos os seus
modelos. Ao contrário dos seus
sucessores John Adams (que era um estudioso dos clássicos e um admirador do
republicanismo de Cícero), Thomas Jefferson ou James Madison, o chefe militar e
primeiro presidente norte-americano não sabia Latim nem Grego. Porém, tentava
acompanhar de perto romanos como Catão, o Jovem, que resistira a Júlio César,
ou Quinto Fábio Máximo que, na guerra contra Cartago, optara pela táctica do
desgaste para cansar Aníbal, evitando o confronto directo. E, acima de todos,
olhava como exemplo Cincinato, o ditador e salvador de Roma do século VI A.C.,
que renunciara ao poder e se retirara para o campo, dedicando-se à agricultura.
Mas entre os Founding Fathers e os representantes dos treze
Estados também havia grandes divisões, dentro de um princípio comum de
independência da coroa britânica. O embate mais importante deu-se entre
federalistas e anti-federalistas no Verão de 1787, em Filadélfia.
Federalistas e anti-federalistas
O que estava em cima da mesa eram os Articles of
Confederation and Perpetual Union, aprovados pelo Segundo Congresso Continental
em 15 de Novembro de 1777. Parte dos delegados, entre eles Alexander Hamilton,
James Madison e John Jay, queria ir mais longe: mais do que uma Confederação,
queria uma Federação, uma União de Estados. Opunham-se-lhe os
anti-federalistas, também ilustres – THOMAS JEFFERSON, GEORGE MASON, JAMES
MONROE. GANHARAM OS FEDERALISTAS. Curiosamente, no debate, os autores dos
escritos apologéticos de um e de outro lado – DOS FEDERALIST PAPERS E DOS
ANTI-FEDERALIST PAPERS – usaram pseudónimos romanos. Os federalistas optaram
por PUBLIUS VALERIUS PUBLICOLA E OS ANTI-FEDERALISTAS POR CATÃO E BRUTO.
ARGUMENTANDO CONTRA A DIVISÃO E PELA UNIÃO DOS TREZE ESTADOS,
OS FEDERALISTAS RECORRERAM À DIVISÃO DAS CIDADES GREGAS, QUE LEVARA À
SUBJUGAÇÃO DA GRÉCIA, PRIMEIRO PELOS MACEDÓNIOS E DEPOIS PELOS ROMANOS. AO
CONTRÁRIO, OS ANTI-FEDERALISTAS ILUSTRARAM OS SEUS ARGUMENTOS COM OS TIRANOS
QUE A EXTENSÃO DO TERRITÓRIO DE ROMA, ENGROSSADO PELAS CONQUISTAS, CRIARA E
ALIMENTARA, AMEDRONTANDO OS ADVERSÁRIOS COM “OS PIORES DOS CÉSARES” – CALÍGULA,
NERO E HELIOGÁBALO.
OS FEDERALISTAS QUERIAM A UNIDADE E A UNIÃO DAS 13 COLÓNIAS
NUMA NAÇÃO. HAMILTON, DEPOIS DE REFERIR A “INEQUÍVOCA EXPERIÊNCIA DA INEFICÁCIA
DO EXISTENTE GOVERNO FEDERAL”, LEMBRAVA AO POVO DO ESTADO DE NOVA IORQUE,
CHAMADO A “DELIBERAR SOBRE UMA NOVA CONSTITUIÇÃO PARA OS ESTADOS UNIDOS DA
AMÉRICA”, QUE O QUE ESTAVA EM JOGO ERA “O DESTINO DE UM IMPÉRIO” QUE ERA, “EM
MUITOS ASPECTOS, O MAIS INTERESSANTE DO MUNDO.”
CONTINUA
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