Ficarmos na memória dos que nos foram queridos e pensarmos que talvez
os possamos acompanhar na distância. Mesmo se apenas em espírito. Tal como é
bom pensarmos num Deus protector em vida. Querer desaparecer completamente,
significará apenas, talvez, uma indiferençs total pelo mundo, pelos nossos, por
nós. Não parece são, pese embora o humor – talvez sarcasmo - adjacente ao
discurso de ALEXANDRE BORGES. Mas, como afirma a comentadora Maria Helena Oliveira, é “Triste”. De todo o modo,
será tudo temporário. Mas sinto sempre prazer nas recordações dos meus pais, e
de todos os ligados ao meu passado. Enquanto ando por cá, é claro.
Como desaparecer completamente
Queremos apenas desaparecer completamente, porque o sentido de tudo
termina aqui e agora, nesta Terra, aonde não queremos deixar sequer uma pedra
aonde nos chorarem ou vexarem.
ALEXANDRE BORGES Escritor
e argumentista
OBSERVADOR, 12
mar. 2026, 00:201
Tem graça como uns passam a vida a
tentar deixar marca e outros querem, simplesmente, desaparecer sem deixar rasto.
Por estes dias, a Escócia
legalizou a aquamação, também designada hidrólise
alcalina ou, em termos mais populares, “cremação com água”. Sim, a Escócia,
terra de coisas tão antigas e razoavelmente estranhas como o kilt ou a
gaita de foles e de outras maravilhosas como Braveheart ou o whisky turfado,
torna-se assim uma revolucionária, uma empreendedora, nesse negócio tão
clássico dos rituais funerários, vulgo: coisas para fazer depois de morto
neste lindo planeta azul.
Ora, sabendo que água é tema que
não falta nas Highlands e Ilhas Britânicas em geral, a coisa ainda se nos
afigurou como uma ideia bonita, como quem diz, relendo, talvez anglicanamente,
a Bíblia: somos água e com a água nos
iremos. 70% do nosso corpo humano é isso, diz a ciência. E, afinal,
já mestre Bruce Lee recomendava, para efeitos de
defesa pessoal e harmonia ninja: “Sê água”.
Só que não.
Dizem os promotores que a razão é ecológica. Que a aquamação será um método mais “sustentável”, mais “verde”, quando
comparada com as alternativas enterro e cremação, essas banalidades mainstream. E então, suspirámos. Sim, enquanto
uns bombardeiam refinarias e centrais nucleares ou fritam a Terra para
alimentar as suas caricaturas da vizinha em IA, um cidadão, para ir em paz com a consciência, ainda tem de se
preocupar com a quantidade de lixo que faz depois de morto. Irra, Escócia.
Primeiro, recusam a independência; agora isto?
A aquamação, que ainda não está previsto na lei portuguesa, consiste em
colocar o corpo do/da falecido(a) num cilindro metálico pressurizado, com água
aquecida entre 90 a 150 graus centígrados, misturada com uma solução alcalina
forte, tipo hidróxido de potássio. Diz que dura três a quatro horas e que
replica, de forma acelerada, o que acontece naturalmente a um corpo quando
sepultado de modo tradicional, aquele em que se costumava deixar a terra fazer
o trabalho. E se, por acaso, termos como “solução alcalina”, “hidróxido de
potássio” ou “acelerar processos naturais” lhe estiverem a soar muito pouco
verdes, fique a saber que, depois, ainda continuam a restar os ossos. E que terão de ser secos e reduzidos a um
pó fino, parecido com o que resulta da cremação, e que, no fim, é
entregue à família. Ou seja: tanto trabalho para isto.
Não vamos com a água coisa nenhuma; continuamos por aqui, a deixar vestígios. Onde andam o Bruce Lee ou um Dyson, quando
precisamos deles?
Nisto, é claro, uma pessoa
pôs-se a estudar. A grande vantagem
da aquamação, dizem os defensores, é propor uma boa alternativa à cremação
tradicional, que exige uma quantidade brutal de energia para manter os fornos a
temperaturas que podem variar dos 400 aos 1200 graus, e que por isso liberta
uma quantidade absurda de dióxido de carbono (uns milhões de toneladas por ano,
aparentemente). Tudo pelo pormenor de podermos dizer, sem errar muito, que, de
vez em quando, ainda sentimos a presença deste ou daquele fiel defunto por aí.
No ar.
Não são os primeiros a ver
chatices na cremação, os escoceses. Já várias religiões antigas a
proibiram por entenderem que o tempo natural da decomposição do corpo é também
aquele de que a alma precisa para se libertar dele. Com
vantagem para os espíritas, que dizem que só são necessárias 72 horas para que se
dê esse incrível processo de destilação. (E
nisto, voltou a apetecer aquele whisky turfado que deixámos alguns parágrafos
acima.)
Correndo o risco de parecer
antiquado: não será melhor, nesta querela entre ambientalistas e pirómanos, ficar
pelo bom e velho enterro? Com excepção de santos e demónios, que podem
durar décadas ou mesmo séculos, o corpo humano demora um a dez anos a
decompor-se totalmente. Depende da madeira dos caixões e do nível de humidade
dos solos (e nesse capítulo, os escoceses, tal como os açorianos natais do
cronista, prometem fazer o trabalho bem depressa), mas, em princípio, se
fôssemos a enterrar hoje, já cá não restaria nenhum bocadinho de nenhum nós
para ver o fim do processo Marquês. Não há cá mais emissões de dióxido de
carbono e ainda damos de comer à bicharada e às árvores.
O que nos devolve ao problema
inicial: a questão será mesmo ambiental ou representa mais um sintoma
de uma grande transformação cultural, em que passámos do tempo das pirâmides e
dos mausoléus, dos jazigos familiares ou ao menos das belas pedras tumulares
onde pendurar retratos e flores, a outro em que vivemos e morremos sem deixar
rasto? Sem
provas, uma vez apagadas as redes sociais. Queremos apenas
desaparecer completamente, porque o sentido de tudo termina aqui e agora, nesta
Terra, aonde não queremos deixar sequer uma pedra aonde nos chorarem ou vexarem.
É o mesmo mundo e a mesma vida.
Enquanto uns querem ocupar todo o espaço, outros sumir-se entre os pingos da
chuva. Como na Escócia. Como se nunca tivéssemos estado aqui.
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Maria Helena Oliveira:: Triste
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