Suor e lágrimas.
Por cá.
Da
Internet:
Dados biográficos de Khamenei::
Ali Hosseini Khamenei (Mexede, 19 de abril de 1939 – Teerã, 28 de fevereiro de 2026) foi o Marja' duodecimano xiita iraniano que serviu como Líder Supremo do Irã, de 1989, quando sucedeu o Aiatolá Khomeini, até à sua morte em 2026. Anteriormente,
também foi presidente do Irã de 1981 a 1989. Khamenei foi o Chefe de Estado há mais tempo no poder no Oriente Médio e o segundo líder com mais
tempo na chefia do Irã no século XX, atrás apenas do Xá Mohammed Reza Pahlavi.
▲Membros da Guarda Revolucionária iraniana com o
retrato de ayatollah Ali Khamenei NurPhoto via Getty Images
Sem Khamenei, Guarda Revolucionária
deve radicalizar regime iraniano. "Pode ficar brutal como a Coreia
do Norte"
No meio da
guerra e após a morte de Khamenei, Guarda Revolucionária deve aproveitar vácuo
de poder e assumir protagonismo. Regime pode ficar mais bélico e militarista,
aumentando repressão interna.
JOSÉ CARLOS
DUARTE: Texto
OBSERVADOR, 01
mar. 2026, 22:1012
ÍNDICE
“Um
sistema mais confrontacional”. Militares podem tomar o poder?
As
consequências internas e externas de um regime mais militarizado
Os
riscos de uma guerra regional no Médio Oriente
A chorar. Na
televisão estatal iraniana controlada pelo regime, os pivôs não conseguiram
controlar as
lágrimas a enquanto liam a notícia da morte Ali Khamenei. Para os
defensores da República Islâmica que encaram agora o ayatollah como
um mártir, a morte do Líder Supremo foi a perda de uma referência. Mas não só.
Nos órgãos de comunicação social afecta à República Islâmica, há juras de vingança e é
transmitida a ideia de que chegou a altura de salvar a face. A principal
oportunidade para isso reflecte-se precisamente na sucessão do mais alto cargo
da nação.
Durante os 37 anos que esteve à frente do Irão, ALI KHAMENEI optou quase sempre pela táctica da “paciência estratégica”. O regime não arredava pé das suas
convicções, mas mantinha uma postura cautelosa na política externa. Por um lado, a República Islâmica
sabia que ficava quase isolada e era alvo de inúmeras sanções internacionais
devido, por exemplo, ao desenvolvimento do programa nuclear. Por outro, as provocações que fazia eram calculadas
ao milímetro e indirectas, não começando guerras que sabia que dificilmente
poderia vencer. O regime
iraniano era um pária que sabia como dissimuladamente acicatar os ânimos dos
adversários geopolíticos. Uma prova disso
foi a rede de proxies que passou a patrocinar no Médio
Oriente, como o Hamas em Gaza, o
Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iémen.
No entanto, as circunstâncias
mudaram com a operação militar conjunta
entre os Estados Unidos da América (EUA) e Israel
iniciada este sábado. Os
iranianos mais conservadores não se podem dar ao luxo de adoptar a tal “paciência estratégica”, podendo não sobreviver à
ofensiva estrangeira. Desta vez, a guerra dá-se em território iraniano e os rivais israelitas e
norte-americanos não escondem que pretendem acabar com o
regime. A morte do Líder Supremo dá força à tese de que o Irão não pode recuar
e tem agora de se impor perante os adversários — e abre espaço para a Guarda Revolucionária, o braço armado
do regime, reforçar ainda mais o seu poder.
Internamente, as
repercussões deverão incidir sobre a sucessão
de Ali Khamenei, em concreto,
na escolha provável de um líder da linha mais dura.
Neste momento, existe um conselho de transição que está a assegurar o poder liderado por
três nomes: o ayatollah Alireza Arafi, o Presidente
Massoud Pezeshkian e o líder do Supremo Tribunal do Irão, Gholam-Hossein
Mohseni-Eje’i. Os
domínios da religião, da política e da justiça estão unidas para traçar o
futuro do país em tempo de guerra. Não será por muito tempo,
ainda assim. Em breve, haverá a nomeação de um novo Líder Supremo, com o
ministro dos Negócios Estrangeiros
iraniano, Abbas Araghchi, a antecipar que pode ser
daqui a “dois dias”.
Na política externa, as consequências
podem ser mais graves. O Irão pode sentir que não há mais nada a perder e lançar ataques contra os
países vizinhos e aliados dos Estados Unidos, como já está a acontecer. Em declarações à Al Jazeera, Hassan
Ahmadian, professor
de política iraniana na Universidade de Teerão, aponta para o fim da “paciência
estratégica” e o início da “política de terra queimada”: “A decisão foi
tomada. Se atacado, o Irão vai queimar tudo”.
▲ Ali
Khamenei defendeu uma política de "paciência estratégica" Anadolu via Getty Images
ÍNDICE
“Um sistema mais confrontacional”.
Militares podem tomar o poder?
As consequências internas e externas
de um regime mais militarizado
Os riscos de uma guerra regional no
Médio Oriente
“Um
sistema mais confrontacional”. Militares podem tomar o poder?
Antes de morrer este sábado, aos 86 anos,
Ali
Khamenei preparou
durante meses a sucessão, de modo a que o regime sobreviva mesmo sem a sua
presença. O objectivo
era que ficasse tudo a postos para a República Islâmica manter a coesão e
organização, assente nos ensinamentos dos clérigos xiitas e no militarismo. Em
junho de 2025, a Guerra dos Doze Dias contra Israel já tinha levado o Líder Supremo a
acelerar os preparativos para um futuro sem ele.
Mais do que a religião, o regime sabe
que, neste momento, a força militar e policial é mais necessária do que
nunca. O
país enfrenta uma guerra e, nas ruas, existe a possibilidade de milhares de
iranianos insatisfeitos com a República Islâmica.
Como tal, a Guarda
Revolucionária iraniana, o braço armado e principal sustentáculo
da República Islâmica, deverá desempenhar um papel muito importante
durante a transição de poder. Esse protagonismo deverá estender-se
à forma como influencia a sucessão de Ali Khamenei.
Existe mesmo a possibilidade de a Guarda Revolucionária assumir o poder no futuro sem Ali Khamenei. Num artigo escrito para o think
tank Atlantic Center, o analista Jonathan Panikoff conjectura que
o Irão se pode converter num estado
controlado pelos militares que poderão apresentar o nome do novo Líder Supremo
como um “símbolo para milhões de iranianos conservadores”, mas com o
poder “concentrado” nos guardas da Revolução.
▲ Apoiantes
do regime reúnem-se para prestar homenagem a Ali Khamenei Getty Images
ÍNDICE
“Um sistema mais confrontacional”.
Militares podem tomar o poder?
As consequências internas e externas
de um regime mais militarizado
Os riscos de uma guerra regional no
Médio Oriente
Assim, a Guarda Revolucionária pode transformar o papel de Líder Supremo
numa “figura decorativa”, principalmente durante a operação militar
israelo-americana. Em declarações à France24, Ellie Geranmayeh, membro do think
tank European Council on Foreign Relations, alerta para esse risco e
acrescenta: “No caso de os Estados Unidos
e Israel se focarem num colapso completo do regime, haverá um sistema
muito mais
confrontacional, em
comparação com a tímida e calculista República Islâmica de Ali Khamenei”
As perspectivas, por agora, são
que Israel e os Estados Unidos provavelmente vão redobrar a ofensiva. Ainda
este domingo, o
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, adiantou que deu ordens para
continuar o conflito contra o Irão. “As nossas forças estão a avançar no coração de Teerão com
intensidade crescente e isso só se intensificará mais nos próximos dias”,
afirmou. Os Estados Unidos sugeriram também que haverá uma intensificação
dos ataques aéreos.
Para Telavive e Washington, a possibilidade de serem eleitas
figuras militaristas de uma linha mais dura para cargos de destaque
dificilmente os apanha desprevenidos. De acordo com um relatório da CIA de
há duas semanas a que a agência Reuters teve
acesso, as secretas norte-americanas apontaram que o cenário
mais provável, no caso da morte de Ali Khamenei, seria a tomada de lugares de
topo do regime por quadros pertencentes
à Guarda Revolucionária.
"No caso de os Estados Unidos e
Israel se focarem num colapso completo do regime, haverá um sistema muito mais
confrontacional, em comparação com a tímida e calculista República Islâmica." Membro do think tank European Council
on Foreign Relations, Ellie Geranmayeh Índice
ÍNDICE
“Um sistema mais confrontacional”.
Militares podem tomar o poder?
As consequências internas e externas
de um regime mais militarizado
Os riscos de uma guerra regional no
Médio Oriente
Nesta lógica, o Irão passaria a
ser um Estado fortemente militarizado. À Al Jazeera, o
especialista e jornalista Liqaa Maki apresenta um
prisma mais religioso, citando uma frase que terá sido dita pelo profeta Maomé: “O crente não é picado duas vezes pelo
mesmo mal”. “Mas o Irão foi picado duas vezes”,
complementa o analista, numa referência à Guerra
dos Doze Dias em junho (e também aos ataques norte-americanos a três locais onde o Irão desenvolveu o
programa nuclear) e à ofensiva
recente chamada “Fúria Épica”.
Para os dirigentes do regime, a máxima é que é necessário redobrar os
cuidados depois do que muitos dentro da Guarda Revolucionária vêem como uma
humilhação por não a terem conseguido evitar: a morte do Líder Supremo. Mas se a “cabeça” da serpente — representada por Ali Khamenei — pode ter sido cortada, ainda ficou o “corpo”, refere Liqa a Maki. Ora, o que restou é um potente arsenal que é
suficiente para tornar o Irão num estado extremamente
militarizado em que a dissidência interna é dizimada.
No pior dos cenários, o
jornalista e analista político iraniano Karim Sadjadpour aponta
que o regime pode ficar paranóico e
obcecado com os inimigos internos. “Internamente, o regime pode ficar
intacto e tornar-se tão brutal como a Coreia do Norte — e ainda mais brutal do
que se tornou nas semanas mais recentes com a morte de milhares de iranianos” nos protestos de janeiro de
2026, diz o especialista, numa entrevista à revista
Foreign Affairs.
"Internamente,
o regime pode ficar intacto e tornar-se tão brutal como a Coreia do Norte — e
ainda mais brutal do que se tornou nas semanas mais recentes com a morte de
milhares de iranianos." Especialista e jornalista Liqaa Maki
Índice
“Um sistema mais confrontacional”.
Militares podem tomar o poder?
As consequências internas e externas
de um regime mais militarizado
Os riscos de uma guerra regional no
Médio Oriente
As consequências internas e externas de um regime mais
militarizado
A face do regime deverá ficar
mais militar, ainda que vá depender de como os Estados Unidos vão influenciar a
sucessão de Ali Khamenei e se serão capazes de convencer altos dirigentes a
colaborar. Em
princípio, a República Islâmica
manter-se-á uma teocracia, mas com uma
componente mais militarista. “A
insegurança tende a beneficiar as forças de segurança, porque, durante vazios
de poder, os homens que mobilizam a violência é que prevalecem”, afirma
Karim Sadjadpour.
É
precisamente isso que está a acontecer no Irão, se bem que o vácuo no cargo de
Líder Supremo se espera que seja muito breve e haja um conselho de transição em
funções. De
qualquer forma, com um regime provavelmente mais militarista e a tentar
sobreviver a uma guerra, a táctica da “paciência estratégica” promovida por Ali
Khamenei parece ter chegado ao fim. “O Irão aprendeu uma lição dura em junho de 2025 durante a guerra [contra Israel]: a contenção é interpretada como fraqueza“, expõe Hassan Ahmadian, professor na Universidade de Teerão.
Durante uma transição de
poder, sob o risco de colapsar, o regime não pode demonstrar fraqueza. Tem de demonstrar combatividade não só
perante os rivais, como também diante dos críticos internos. Este
sábado, milhares de pessoas já celebraram a morte de Ali
Khamenei nas ruas. Os
norte-americanos e israelitas esperam também que a população iraniana que se
manifestou no início de janeiro se
mobilize para derrubar a República Islâmica.
Desde o exílio nos Estados
Unidos, o príncipe herdeiro do último Xá da Pérsia tem tentado mobilizar à
distância a oposição ao regime. Para a Guarda Revolucionária, Reza Pahlavi é uma figura indesejável por tudo o que
corporiza: o passado antes da Revolução e o facto de ser um símbolo de
esperança para muitos monárquicos e descrentes no rumo da República Islâmica. Durante uma situação de vazio de poder, a voz do filho do antigo monarca é indesejável,
principalmente a dos seus apoiantes.
Com os Estados Unidos e Israel a incentivarem protestos e com uma voz activa
no exílio, o regime iraniano deve apertar a malha nos próximos tempos aos
dissidentes. À Deustche Welle, Sara Kermanian, professora de Relações Internacionais
na Universidade de Sussex, lembra que a República Islâmica está a “lutar
pela sobrevivência política enquanto sistema não democrático”.
Não havendo contrapoderes no
país, o regime iraniano está “menos sujeito à pressão doméstica no que
toca às perdas humanas e financeiras”, continua Sara
Kermanian. Para sobreviver sem mazelas e de modo a
manter a mesma estrutura, a República Islâmica terá de evitar “lutas pelo poder internas”. E isso
deverá envolver violência e repressão.
▲ Parada militar da Guarda
Revolucionária em 2024 ABEDIN
TAHERKENAREH/EPA
Índice
“Um
sistema mais confrontacional”. Militares podem tomar o poder?
As
consequências internas e externas de um regime mais militarizado
Os
riscos de uma guerra regional no Médio Oriente
Na mesma linha, o analista Jonathan Panikoff corrobora que um regime
militarista seria uma “ameaça regional e doméstica”,
adoptando estratégias ainda “mais radicais na busca pela consolidação do poder”
e focado na finalidade de que “nenhum outro actor interno” possa assumir o
poder.
Os
riscos de uma guerra regional no Médio Oriente
Fora de fronteiras, Jonathan Panikoff
admite que um regime controlado pela
Guarda Revolucionária até poderia mostrar alguma “flexibilidade com os Estados
Unidos” com dois objectivos em mente: “Ganhar o apoio da população iraniana”
tentando obter um “impulso económico através do alívio de
sanções”. O
Presidente norte-americano já indicou que a nova liderança iraniana deseja
dialogar com a Casa Branca e Donald Trump concordou com essa ideia.
Outro cenário que se levanta é o prolongamento de uma guerra regional no Médio Oriente. Num
regime militarista que se quer impor, o Irão poderá continuar a atacar as bases
militares norte-americanas em países como o Qatar, o Kuwait, o Bahrain e os
Emirados Árabes Unidos. “Defender-nos-emos, custe o que custar, e não imporemos
limites à defesa e à protecção do nosso povo. Ninguém nos pode dizer que não
temos o direito de nos defendermos”, declarou, este domingo, Abbas Araghchi.
“Defender-nos-emos, custe o que custar, e não
imporemos limites à defesa e à proteção do nosso povo. Ninguém nos pode dizer
que não temos o direito de nos defendermos." Ministro dos Negócios Estrangeiros
iraniano, Abbas Araghchi
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“Um
sistema mais confrontacional”. Militares podem tomar o poder?
As
consequências internas e externas de um regime mais militarizado
Os
riscos de uma guerra regional no Médio Oriente
Israel manter-se-ia como um dos
principais alvos nessa lógica de guerra regional. Ideologicamente, é encarado
pelo regime como o principal inimigo e um regime mais militarista não vai mudar
isso, já que a operação militar também foi desencadeada pelas Forças de Defesa
israelitas. Porém, os principais alvos seriam os países do Golfo Pérsico, acredita o jornalista
Karim Sadjadpour.“Há um perigo de uma guerra regional em que o Irão tenta
destruir [os países] do Golfo e pode atacar infraestruturas petrolíferas para
aumentar o preço do petróleo. Israel também está mais bem equipado para se
defender por causa do seu poderio militar e devido à distância face ao Irão. Os
países do Golfo são mais vulneráveis”, prossegue o mesmo especialista. A
“paciência estratégica” de atacar indiretamente os inimigos parece ter chegado
ao fim este sábado. A tática já tinha sido questionada em junho durante a
Guerra dos Doze Dias, mas a morte do Líder Supremo é uma nova fase para a
República Islâmica, onde não há agora uma voz como a de Ali Khamenei a
determinar uma estratégia. Tudo leva a crer que será uma época mais repressiva
e bélica, mas não ainda é claro quanto tempo vai durar — e se o plano
israelo-americano vai impedir que essa tendência vingue.
IRÃO MÉDIO
ORIENTE MUNDO ISRAEL ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA
COMENTÁRIOS (de 8)
Eduardo Mãos de Tesoura > Bruno
Dias Ferreira: Já
mataram mais de um milhão nos últimos 40 anos. E depois esses guardas
revolucionários serão exterminados, mais as suas famílias. Um verdadeiro oceano
de sangue. E milhares de mesquitas e madraças serão incendiadas e arrasadas por
todo o Irão. O Islão poderá desaparecer para sempre do Irão, tal será a fúria
dos iranianos contra os ayatollahs e mullahs. Nem o túmulo de Khomeini
escapará: será reduzido a cinzas. Paulo Valente: Será impressão minha ou este artigo parece um
manifesto de apoio ao regime sanguinário do Irão?! Eduardo Mãos de Tesoura: Se a dita Guarda Revolucionária radicalizar o
Irão, os bombardeamentos pelos EUA e por Israel serão ainda mais devastadores.
E esses guardas serão mortos aos milhares. Será um massacre nunca visto. Bruno
Dias Ferreira: Sim,
agora é que existe o perigo de matarem 30 mil pessoas em uma ou duas semanas Lily Lu: Disparate completo.
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