Próprias da delicadeza – antes, hipocrisia?
– humanas. As convenções muito podem na
fabricação criativa, de susceptibilidades
geradas pelo desconhecimento prévio – ou antes, pela ousadia que dá o progresso
no conhecimento. “Forte pano encharcado!
– diria a minha mãezinha nos seus protestos educativos de uma virtude oponente.
Quando Helena de Tróia se viu grega
Em nome da
tolerância, andamos a trocar o universalismo pluralista pelos guetos sectários?
As guerras culturais partem imensos ovos, mas por enquanto nada de omeletes.
PAULO NOGUEIRA Escritor e jornalista, autor de
14 livros - o mais recente, “O Cancelamento do Ocidente” (Guerra e Paz, 2024)
OBSERVADOR, 26 fev. 2026, 00:24
Não admira que, como diz o povo, Camões
visse mais com um só olho do que nós com todos três. O autor d’ “Os Lusíadas” é
talvez o mais proeminente influencer contemporâneo. Afinal, 500 anos
atrás já queria ser deixado em paz com a sua guerra – e os guerreiros culturais de hoje são viciados no pacifismo
beligerante. Nós contra eles, como os gregos e os troianos.
“How
Woke Won”, de Joanna Williams, ou
“The End of Woke”, de Christopher Doyle – estará certa a obra pessimista ou a optimista?
Desconfio que a luta continua. Tanto que o
mundo do cinema está a pisar em ovos por causa de uma mulher que nasceu
de um ovo.
No Brasil há telenovelas desde 1960, e por décadas a fio os personagens negros praticamente
reduziam-se à criadagem. Na
canónica “Gabriela”, no estado mais negro do Brasil (a Bahia), eram todos
alvíssimos. No romance de
Jorge Amado a protagonista é mulata, mas a actriz Sonia Braga branqueou-a.
Até na novela histórica com uma
protagonista escrava (“A Escrava
Isaura”), a actriz no papel-título era pálida como um lírio.
Hoje, o panorama fez o pino: na TV
brasileira reinam actores negros nas novelas, nas séries, nos anúncios. Uma justiça poética, ou a tal da reparação?
O
Brasil tem um Ministério da Igualdade Racial, e um Dia da Consciência Negra, que é feriado nacional.
O activismo radical muda tudo do 8
para o 80: da misoginia para a misandria, da homofobia para a heterofobia, do
racismo para o racialismo.
Uma carta aberta de 100
profissionais do cinema torpedeou
a presença de Odessa A’zion, americana de
ascendência judaica, no filme “Deep Cuts”, pois a respectiva personagem
é “metade mexicana”. Odessa preferiu retirar-se da produção, com um compungido
acto de contrição nas redes sociais. Pelo
andar da carruagem, actores judeus só poderão interpretar papéis que venham nos
“Protocolo dos Sábios do Sião” ou nas Leis de Nuremberga.
Consta que a negra queniana-mexicana
Lupita Nyong’o será Helena de Troia no filme de Christopher Nolan, “A Odisseia”
(a partir de 17 de junho). Mais batatadas nas redes sociais. Na “Ilíada” e na “Odisseia”, os primeiros
clássicos da literatura ocidental, Helena tem “uma pele que reluz como leite” e
“cabelos dourados”. Safo, a poetisa do século VI a.C., descreve-a como “loura”.
Idem na tragédia “Helena”, de Eurípedes – ainda que este alegue que quem rumou
a Troia não foi a Helena autêntica, mas um fantasma dela (Eurípedes é formidável, mas não devia beber
em serviço).
Helena é de Esparta, na Lacónia,
cujos habitantes eram tão circunspectos que geraram a palavra “lacónico”. Era filha de Leda e de Zeus, que se
metamorfoseou em cisne para fazer conchinha com aquela mortal (como patinho
feio não tinha hipótese). Por
isso, Helena nasceu de um ovo. Casou-se com o rei Menelau, mas era muita areia
para a camionete dele, que só queria uma esposa-troféu (o ovo era um
Kinder-surpresa). Raptada por Páris (ou fugindo alegremente com o príncipe
troiano), fez os gregos “lançarem ao mar mil navios”.
Helena
não era só um belo palminho de cara: manifesta dilacerante pesar pelas mortes
que causou – ao contrário do frívolo e leviano Páris. E é o
arquétipo da beleza feminina ocidental. Hesíodo, em 700 a. C, suspira que a fama dela “estendia-se por toda
a Terra”. Em 1950, a revista “New Scientist” debateu como quantificar a
beleza, e propôs que a medida fosse o milihelen. No Texas, uma empresa
tentacular, a Helen of Troy Ltd., apregoa milihelen nos seus
cosméticos. E Helena era uma pêra doce, como atesta a icónica sobremesa La
Belle Hélène, criada pelo pai da gastronomia francesa, Auguste Escoffier.
A ironia é que essa mulher
apaixonante não tem rosto – obviamente não havia fotos na Antiguidade, embora
já no século VII a.C. proliferassem imagens dela em pedra, argila e bronze.
Helena jamais existiu: é uma personagem e um mito.
Tão-pouco existiram Aquiles ou Ulisses (embora este tenha fundado Lisboa, onde
o fascismo parece que também nunca existiu). Há dúvidas sobre a existência de
Homero – e aliás da própria Troia, até que em 1871 um arqueólogo diletante,
Heinrich Schliemann, encontrou-a na turca Hissarlik (pena que destruiu o que
restava das ruínas, pois continuou a escavar julgando que o buraco era mais em baixo).
Nesta altura do campeonato, quando
a diversidade exige uniformidade e é mainstream e establishment,
já não nos admiramos ao ver actores negros como personagens ou vultos
históricos brancos (Denzel Washington como Macbeth, Jodie Turner-Smith
como a rainha inglesa Ana Bolena). Acho bem: quando um actor imerge
na visceralidade humana de uma história, pormenores superficiais como a
epiderme podem ser irrelevantes. O que
é o trabalho de um actor, senão fingir ser outra pessoa?
Mas o “cast colourblind”, em que a etnia não é decisiva na selecção do
elenco, opera numa só direcção. Actores
negros não devem ser impedidos de interpretar qualquer papel, não importa o
quão historicamente incorrecta isso torne uma produção. Porém, actores brancos
jamais podem encarnar personagens de outra cor, pois incorrem em pecados
capitais como a black face.
O paradigma é o “elenco consciente da
cor”. Em vez de
os papéis serem atribuídos aos actores mais talentosos, independentemente da
cor da pele, os produtores devem priorizar a raça para “desafiar estereótipos”.
Mas os sectários não se reduzem à cor da pele. A multinacional de cosméticos Dove
acusou os maquiadores do actor Brendan Fraser de fat suit, uma espécie de
“apropriação de banhas”. “A Baleia” recebeu o Oscar de melhor maquilhagem, e
Fraser, o de melhor actor. Para a Dove, o filme exigia um actor obeso e não um
vil impostor com enchimentos de 130 quilos.
Hoje, em Hollywood, para um filme ser candidato ao Oscar, no mínimo 30
% dos personagens têm de vir de “grupos minoritários sub-representados”, e o
argumento os deve apaparicar. Caso contrário, pode tirar o cavalinho da chuva.
No seu auge, Hollywood foi criticada por criar personagens que não
existiam na vida real, demasiadamente nobres e/ou atraentes, como Gregory Peck
e Greta Garbo, Jimmy Stewart e Katharine Hepburn. Hoje, a indústria cinematográfica também molda seres
implausíveis, mas no sentido contrário: são menos espertos e decentes que os
nossos amigos e vizinhos – se forem cis, brancos ou cristãos.
O elenco tem que ser “inclusivo”, com
minorias conspícuas, mas em papéis adequados. A série da BBC sobre o romance da insuspeita Sally Rooney, “Normal
People”, foi eviscerada por ter actores negros ou asiáticos como… antagonistas.
Os actores de cor podem desempenhar
qualquer papel, desde que o personagem exale virtudes edificantes por todos os
poros. Já os actores brancos
devem limitar-se a personagens brancos – ou a vilões ignóbeis (sobretudo se
forem pais: aí serão ou abusadores, ou ausentes ou uns bananas, substituindo o
mordomo como o proverbial criminoso).
Esse reducionismo degrada o teatro e
o cinema enquanto arte, e é paternalista com as pessoas de cor, agora meros
apêndices parasitários dos seus nichos identitários. O tema narrativo tem uma única premissa: o racismo (ou
o sexismo, etc.). Resultado: maniqueísmo bisonho, com todos os bons de um lado
e os maus do outro – e sempre os mesmos. Previsibilidade = tédio.
Em 2023, a negra Adele Jones
protagonizou “Queen Cleopatra”, na Netflix. O próprio governo egípcio emitiu um
protesto, acusando a série de falsificação, invocando as estátuas e
baixos-relevos da rainha do século I a.C. A Cleópatra histórica era de linhagem helénica, descendente de
Ptolomeu, um dos generais de Alexandre, o Grande. Há precedentes: no livro
“Stolen Legacy”, George James afirma que Platão e Aristóteles gamaram a
filosofia grega aos egípcios.
Em
“Branca de Neve”, a protagonista é interpretada por Rachel Zegler, de
ascendência colombiana. A princesa chama-se assim não porque era opressivamente
branca, mas só porque nasceu durante um nevão. O Príncipe Encantado, que no original dos irmãos Grimm
ressuscitava a donzela com um beijo, foi riscado do mapa. Não precisamos cá de machos para nada, muito
menos de um aristocrata provavelmente stalker e fã da cultura da
violação. A pergunta da madrasta ao espelho mágico (“Existe alguém mais bela do
que eu?”) não escapou da faxina orwelliana: «Espelho,
espelho meu, existe alguém mais justa do que eu?» Claro: para uma mulher empoderada, só o que
conta é a beleza interior. O filme foi um fiasco homérico, com uma bilheteira
mais pequena do que os sete anões.
Helena, naturalmente, também era helénica. Se não existiu historicamente, não quer dizer que não exista como
tradição, ou a quinta-essência de um valor cultural. Existem
legitimamente as culturas negra, amarela, vermelha – todas com as suas
ancestralidades reverentemente reconhecidas, e ainda bem. Mas a
cultura branca (ou a sua caricatura, e não a que criou a democracia e a
liberdade de expressão) vai sendo desconstruída e cancelada – e pelos
ocidentais, naquilo a que Roger Scruton chamou “oikofobia”, ou o ódio a si
próprio.
Hoje
não há quase nada que alguém não possa dizer impunemente sobre os brancos enquanto
brancos, incluindo implicar que o mundo talvez fosse mais catita sem eles.
Felizmente,
já lá vai o legado dos homens brancos mortos (mais conhecido como o nosso passado comum). Para o activismo woke,
a coisa mais importante numa pessoa é a sua raça ou género – com o que os
supremacistas brancos e os misóginos concordam plenamente. Nada
contra Lupita, que é bonita e talentosa (Oscar de melhor actriz secundária em
2014). Mas e se um realizador atribuisse,
digamos, a Brad Pitt o papel de Malcolm X? Não caíam o Carmo e a Trindade?
Homero é o criador da literatura
grega, e a cultura grega – a par da romana e da judaica – é um dos pilares da
civilização ocidental. Como disse o afro-americano Thomas Sowell: “O multiculturalismo é o processo no qual pode
elogiar-se qualquer cultura no mundo, excepto a ocidental – e não pode
culpar-se nenhuma cultura no mundo, excepto a cultura ocidental.”
Só que todos perdermos com mais este bater no ceguinho (consta que Homero
era cego) – os excluídos, mas também os incluídos. Como
se o cavalo de Troia mudasse de cavalo para burro.
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