Um
susto, estes tempos nossos, de gozo e apatia relativamente ao
mundo a que se sujeita. Por quanto tempo mais?
Não é o fim, mas pode ser o
princípio do fim
No Reino Unido, criticar o Islão pode
agora ser crime. Voltaire teve esta semana a sua maior derrota num país
ocidental. Talvez só Trump o possa salvar
RUI RAMOS Colunista do Observador
OBSERVADOR, 13 mar. 2026, 00:25112
Para muita gente, o que está em causa no
Irão é apenas a presidência de Donald Trump num ano de eleições legislativas
intercalares nos EUA. Os
inimigos de Trump, com esperança, mas também alguns dos seus partidários, com
apreensão, encaram a guerra como um erro fatal. Por isso,
só conseguem ver como os mullahs podem vencer. Por exemplo, prolongando e
alargando a guerra, de maneira a provocar uma crise económica que os eleitores
de Trump não lhe perdoarão.
É
possível que isto aconteça? É. O Irão vive sob uma ditadura
apocalíptica que, como
o Hamas em Gaza, não terá problemas em sujeitar o país a todas
as destruições, à espera que Trump se inquiete com os custos da guerra e
desista, ou que os Democratas, vitoriosos nas eleições de Novembro, o obriguem
a desistir. Mas
tem de ser assim? Não tem. O objectivo dos EUA e de Israel é acabar com o Irão como fonte de ataques de mísseis e
de terroristas. Isso pode ser obtido mudando o
regime, ou privando-o de meios. Não é impossível. A
população iraniana, como se viu em Janeiro, ressente a ditadura de um clero que vê como arabizado. O Irão
está sem defesa aérea, o que tem permitido a americanos e israelitas destruir
os seus recursos militares sistematicamente. Isolou-se, ao atacar os países
vizinhos e bloquear o estreito de Ormuz. Nem
a China e a Rússia impediram que fosse condenado no conselho de segurança da
ONU.
Trump pode perder, mas também pode
ganhar. Porque é que tão pouca gente admite
isso? Por duas razões. Primeiro, porque os
críticos da economia de mercado e da democracia liberal criaram no Ocidente uma
cultura de derrotismo que contrabalança a sua superioridade tecnológica e financeira. Assenta
na ideia de que, por mais recursos que o Ocidente tenha, falta-lhe força moral,
por exercer uma “opressão” capitalista sobre o mundo. Os “oprimidos” estariam destinados a
vencer. Segundo, porque
os políticos ocidentais estão habituados a permitir-se tudo, inclusive usar
derrotas no exterior para marcarem pontos uns contra os outros nas suas lutas
domésticas. Como neste caso: o que interessa é que Trump vá abaixo, e por isso
não importa que os mullahs ganhem.
Importa, sim. Essa nonchalance fazia
sentido quando o Ocidente era tão predominante que nenhum revés podia abalar
esse domínio. Já não é assim. Há outras potências a emergir no mundo. O Ocidente acolheu muitas populações vindas
do exterior, e a sua assimilação depende também da força que for capaz de
demonstrar. Uma vitória do Irão seria aproveitada pelos radicais islâmicos
para assinalar aos muçulmanos no Ocidente
que não têm de se integrar em sociedades afinal decadentes, mas subvertê-las. Foi o que já começaram a conseguir no Reino Unido, ao
obterem, a pretexto da “islamofobia” e portanto só a favor do Islão, uma
potencial proibição da blasfémia. Voltaire
teve esta semana a sua maior derrota num país ocidental. Talvez só Trump o
possa salvar.
A guerra com o Irão vai definir o
resto do século XXI. Uma
vitória dos EUA e de Israel confirmará a supremacia do Ocidente e dos seus
valores, e uma vitória da ditadura clerical iraniana o seu declínio. Pode não ser o fim, mas talvez seja o
princípio do fim. Terá
o Ocidente força moral e histórica para lutar e vencer? É
verdade que a civilização ocidental é apenas uma entre outras civilizações. Não
quer dizer que não devamos defendê-la como aquilo que valorizamos e nos define.
Também é verdade que nenhuma civilização durou sempre, e a das democracias
ocidentais talvez acabe um dia. Não quer dizer que não devamos fazer todos os
esforços para prolongar o que tem sido e ainda é um dos grandes momentos da
humanidade. Temos esse direito – e esse
dever.
IRÃO MÉDIO
ORIENTE MUNDO DONALD
TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA OCIDENTE
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