Por isso ficamos gratos a quem se debruça sobre autores que passaram
também na nossa formação literária, os autos e as farsas vicentinas dando-nos a
conhecer formas literárias e costumes naturalmente inscritas na sua própria
época, as personagens não deixando de possuir traços de carácter afinal de todo
o sempre. Por isso, Gil Vicente, arcaico na forma, não deixa de apresentar na
sua obra características que o imortalizaram, na nossa História Literária.
Plano Nocional de Leitura (XLIV)
É no carácter remoto que está a maravilha única das peças de Gil
Vicente, misturas de entretém, cerimónia religiosa, feira agrícola, charada, e
propaganda.
MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa.
OBSERVADOR15
mar. 2026, 00:211
O problema principal com o
teatro de Gil Vicente (1465? – 1536?) é que praticamente nada do que escreveu é
hoje reconhecível como teatro. Como no caso da música clássica, ou do romance, chamamos teatro a
trezentos e cinquenta anos miraculosos, e, com menos razão, a alguns apêndices
gregos, aqui e ali; foi esse milagre, que começou cinquenta anos
depois de Gil Vicente, que produziu o que para todos os efeitos é hoje
reconhecido como teatro pelas pessoas que vão ao teatro.
Quando quase trinta anos depois
da sua morte, em 1562, se publicaram as obras de Gil Vicente, chamou-se ao
livro simplesmente ‘Compilação’. Foi dividido em “obras de devoção”, “comédias”,
“tragicomédias”, “farsas” e “obras miúdas.” A maioria das peças transcritas no livro tem porém títulos que
sugerem animais pré-históricos: ‘auto,’ ‘pranto,’ ‘romagem,’ ‘monólogo,’
‘diálogo,’ ou ‘exortação.’ São no total quase cinquenta peças,
e terão sido escritas em menos de trinta anos; a média é shakespeariana, mas a
obra não tem nada a ver com Shakespeare.
Das peças de Gil Vicente
haverá menos de dez que são regularmente representadas.
Entre as mais famosas algumas foram
primeiro consideradas obras de devoção. Embora a maior parte do
teatro que ainda se escreve seja também constituído por obras de devoção, as peças de Gil Vicente ocorrem quase só
em festas de liceu, associações recreativas e teatros nacionais.
O que o público retém delas são algumas expressões salazes (“samicas de
caganeira”), e o ritmo enervante da redondilha maior, que faz lembrar um
corridinho do Algarve. Por vezes, como se diz, “saem” em exames.
Ao procurar trazer Gil Vicente para
uma noção reconhecível de teatro, sublinha-se com ansiedade a relevância
política e moral daquilo que escreveu. A Farsa de Inês Pereira anunciaria
costumes incertos e adultério serial. O Auto
da Índia argumentaria contra a expansão
portuguesa e a Índia epónima. E o Auto da Barca do Inferno levantaria
objecções sérias a fidalgos. Mas o esforço para extrair relevância
não é compensado pelos proveitos. A quem interessa ainda a Índia, os
fidalgos e o adultério? Quem, no fundo, terá farelos?
Não é o reconhecimento dos nossos problemas que faz do teatro teatro. O Rei Édipo não é relevante para ninguém, como já não era para o pobre Édipo.
É no carácter
remoto que
está a maravilha única das peças de Gil Vicente. Todas são
sempre em proporções incompreensíveis misturas de entretém, cerimónia
religiosa, feira agrícola, charada, e propaganda.
Naquele tempo as pessoas não iam ao
teatro: não havia bilhetes, arrumadores, encenadores e autarquias; mas no
século V também ninguém ia realmente ver o Rei Édipo. É com Sófocles e não com Shakespeare
que se deve comparar Gil Vicente. Não obstante, como as missas
de requiem nos concertos e os Jogos Olímpicos na
televisão, persistimos em imaginar-lhe relevância; e Gil
Vicente tornou-se por desleixo o pai fundador do teatro português.
COMENTÁRIOS:
Jorge Casaca. Bom dia escrever sobre redondilhas maiores em
redondilhas maiores é muito bom.
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