domingo, 1 de fevereiro de 2026

Net antiga


Justificando antiga “NOVA”, que se pretende universal, como rede salvadora. Sem grande poder, ao que parece, sobre as “redes” que há por aí…

A Boa Nova e as Fake News

Há dois mil anos, já Jesus de Nazaré profeticamente chamava a atenção para os perigos da desinformação, nomeadamente por via da rede, ou seja, da net.

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA - COLUNISTA

OBSERVADOR, 31 jan. 2026, 00:1610

O Evangelho é, literalmente, a boa nova da nossa salvação. A redenção é, em primeiro lugar, um facto, um acontecimento histórico em virtude do qual se possibilitou ao ser humano a remissão dos seus pecados, nomeadamente o original, mancha que a toda a descendência do primeiro casal humano afectou, com a singular excepção de Maria e do seu divino filho, Jesus. A salvação que, em termos negativos, significa a remissão do pecado e da pena por ele devida, positivamente expressa a participação “da natureza divina”.

Se, em termos reais, a redenção é um facto histórico que, pela sua própria virtude, redime e santifica, ou seja, opera a salvação, em termos informativos a redenção é uma notícia, a boa nova. O Evangelho anuncia o desígnio divino de restaurar a natureza humana decaída, elevando-a mais além do que fora o seu estado primitivo. Essa restauração e sublimação da condição humana não se realiza de forma universal e automática, o que violaria a liberdade e dignidade humanas, mas pela consciente e livre participação de cada pessoa no mistério da salvação. Por isso, como dizia Santo Agostinho, “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”.

O ser humano não se pode salvar a si próprio, como o doente também não se cura a si mesmo, mas pode impedir que esse propósito divino seja eficaz na sua vida. Por isso, o homem, que não é capaz da sua salvação, é, contudo, responsável pela sua eterna condenação, porque a mesma só pode acontecer quando é consciente e livremente rejeitada a vontade de Deus nosso Salvador, o qual quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” .

Enquanto notícia, o Evangelho não é apenas uma palavra de esperança transmitida à humanidade, mas alguém que é “caminho, verdade e vida” (Jo 14, 6). Jesus Cristo é a Palavra definitiva do Pai (Hb 1, 1-4), o Verbo encarnado (Jo 1, 14), a senha que permite o acesso ao Céu, a palavra-passe para a eternidade, a passagem, ou páscoa, para a glória de Deus. Uma boa nova, decerto, mas que tem de ser conhecida e assumida, não apenas como verdade abstracta, mas realidade vivida: não é cristão aquele que apenas acredita intelectualmente que Jesus Cristo é o filho de Deus encarnado, nem aquele que, com o seu coração, o ama, mas quem o segue, ou seja, se identifica com os seus ensinamentos e se empenha por viver de acordo com o seu exemplo.

No anúncio feito aos pastores de Belém, manifestou-se claramente que o Evangelho é notíciaNão temais, porque vos anuncio uma boa nova, que será de grande alegria para todo o povo: Nasceu-vos hoje, na cidade de David, o Salvador, que é o Cristo, o Senhor (Lc 2, 9-11).. Aqueles homens são confrontados com uma realidade que os transcende e que não podiam sequer imaginar, mas para a qual são convocados como primeiras testemunhas O nascimento do Salvador supera a expectativa humana e chama a todos os seres humanos para que recebam a prometida graça da nossa redenção. Deus não se impõe ao homem, apenas lhe oferece a possibilidade da salvação, que só será efectiva pela livre cooperação humana.

A mesma notícia que causou aos magos uma grandíssima alegria (Mt 2, 10), provocou o ódio homicida de Herodes que, temendo que o prometido Messias o destronasse, mandou matar todas as crianças recém-nascidas em Belém de Judá (Mt 2, 16-18). Na disparidade destas reacções, de júbilo e graça nuns, mas de ódio e morte noutros, estão representadas as possíveis respostas humanas à proposta divina da redenção.

Para diluir a sua responsabilidade na rejeição da graça salvífica, o homem que não quer aderir ao plano da sua salvação procura desacreditar a mensagem de que é destinatário. Assim aconteceu, por certo, em relação à ressurreição de Jesus: não obstante a evidência do facto, como inquestionável era também a realidade da sua prévia morte, houve quem resistisse a crer nessa boa notícia, precisamente para não ter de aceitar a sua inevitável consequência, ou seja, o reconhecimento da divindade de Jesus de Nazaré.

A este propósito, Mateus refere as circunstâncias em que surgem umas das mais antigas fake news: “Foram à cidade alguns dos guardas, e noticiaram aos príncipes dos sacerdotes tudo o que tinha sucedido. Tendo-se eles congregado com os anciãos, depois de tomarem conselho, deram uma grande soma de dinheiro aos soldados, dizendo-lhes: ‘Dizei: Os seus discípulos vieram de noite e, enquanto nós estávamos a dormir, o roubaram.’ Se chegar isto aos ouvidos do governador, nós o aplacaremos e estareis seguros. Eles, recebido o dinheiro, fizeram como lhes tinha sido dito. E esta voz divulgou-se entre os judeus e dura até ao dia de hoje. (Mt 28, 11-15).  Pelos vistos, já então havia quem se deixasse subornar para divulgar boatos que nada tinham a ver com a realidade, mas que eram, segundo a perspectiva farisaica, o politicamente correcto

Santo Agostinho, com a argúcia que lhe era própria, prova a hipocrisia inerente àquela mentira esfarrapada: “Astúcia miserável! Apresentas testemunhas adormecidas?! Verdadeiramente estás a dormir tu mesmo, ao imaginar semelhante explicação! (Enarrationes in Psalmos, 63, 15). A verdade é coerente, mas a falsidade tem, como se costuma dizer, a perna curta e, portanto, não vai longe, pois é inevitável que se manifeste a sua inconsistência lógica. A razão está sempre do lado da fé, enquanto que, para não crer em Deus, é precisa uma boa dose de irracionalidade e, até, de credulidade. Como dizia Dostoievski, os russos são pessoas de tanta fé que, alguns, até são ateus! Com efeito, é precisa muita mais fé para ser ateu e crer que o mundo deve a sua existência ao acaso, ou ao nada, do que para acreditar que é efeito de um ser omnisciente e omnipotente, ou seja, Deus.

Ante a contradição dos relatos e comentários jornalísticos, já que os há para todos os gostos e feitios, aos católicos pede-se reflexão e discernimento, isto é, um saudável espírito crítico. Há já dois mil anos, Jesus de Nazaré profeticamente antecipava os perigos da desinformação, nomeadamente por via da net: O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede (em inglês, net) lançada ao mar, que colhe toda a casta de peixes. Quando está cheia, os pescadores tiram-na para fora e, sentados, na praia, escolhem os bons para cestos e deitam fora os maus. Será assim no fim do mundo, virão os anjos e separarão os maus do meio dos justos. (Mt 13, 47-49).

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COMENTÁRIOS (de 10)

S N: Mais uma excelente e tão cristalina crónica do autor sobre um tema tão complexo e fundamental. A milhas de distância de tantos outros textos e discursos habituais.

 

 

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