Justificando
antiga “NOVA”, que se pretende universal, como rede salvadora. Sem grande
poder, ao que parece, sobre as “redes”
que há por aí…
A Boa Nova e as Fake News
Há dois mil anos, já Jesus de Nazaré
profeticamente chamava a atenção para os perigos da desinformação, nomeadamente
por via da rede, ou seja, da net.
P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA - COLUNISTA
OBSERVADOR, 31 jan. 2026, 00:1610
O Evangelho é, literalmente, a boa
nova da nossa salvação. A redenção é, em primeiro lugar, um
facto, um acontecimento histórico em virtude do qual se possibilitou ao ser
humano a remissão dos seus pecados, nomeadamente o original, mancha que a toda
a descendência do primeiro casal humano afectou, com a singular excepção de
Maria e do seu divino filho, Jesus. A salvação que, em termos negativos, significa a remissão
do pecado e da pena por ele devida, positivamente expressa a participação “da natureza divina”.
Se, em termos reais, a redenção é um facto histórico que, pela
sua própria virtude, redime e santifica, ou seja, opera a
salvação, em termos informativos a redenção
é uma notícia, a boa nova. O Evangelho anuncia o desígnio
divino de restaurar a natureza humana decaída, elevando-a mais além do
que fora o seu estado primitivo. Essa
restauração e sublimação da condição humana não se realiza de forma universal e
automática, o que violaria a liberdade e dignidade humanas, mas pela consciente
e livre participação de cada pessoa no mistério da salvação. Por isso, como dizia
Santo Agostinho, “Deus,
que te criou sem ti, não te salvará sem ti”.
O ser humano
não se pode salvar a si próprio, como o doente também não se cura a si mesmo,
mas pode impedir que esse propósito divino seja eficaz na sua vida. Por isso, o
homem, que não é capaz da sua salvação, é, contudo, responsável pela sua eterna
condenação, porque a mesma só pode acontecer quando é consciente e livremente
rejeitada a vontade “de Deus
nosso Salvador, o qual quer que todos os homens se salvem e cheguem ao
conhecimento da verdade” .
Enquanto
notícia, o Evangelho não é apenas uma palavra de esperança
transmitida à humanidade, mas alguém que é “caminho, verdade e vida” (Jo 14, 6). Jesus
Cristo é a Palavra definitiva do Pai (Hb 1, 1-4), o Verbo encarnado (Jo 1, 14), a senha que permite o acesso ao Céu, a palavra-passe para a
eternidade, a passagem, ou páscoa, para a glória de Deus. Uma boa nova,
decerto, mas que tem de ser conhecida e assumida, não apenas como verdade
abstracta, mas realidade vivida: não é cristão aquele que apenas acredita
intelectualmente que Jesus Cristo é o filho de Deus encarnado, nem aquele que,
com o seu coração, o ama, mas quem o segue, ou seja, se identifica com os seus
ensinamentos e se empenha por viver de acordo com o seu exemplo.
No
anúncio feito aos pastores de Belém, manifestou-se claramente que o Evangelho é
notícia: “Não temais, porque vos anuncio uma boa nova,
que será de grande alegria para todo o povo: Nasceu-vos hoje, na cidade de
David, o Salvador, que é o Cristo, o Senhor” (Lc
2, 9-11).. Aqueles homens são
confrontados com uma realidade que os transcende e que não podiam sequer
imaginar, mas para a qual são convocados como primeiras testemunhas O nascimento do Salvador supera a
expectativa humana e chama a todos os seres humanos para que recebam a
prometida graça da nossa redenção. Deus não se impõe ao homem,
apenas lhe oferece a possibilidade da salvação, que só será efectiva pela livre
cooperação humana.
A
mesma notícia que causou aos magos uma “grandíssima alegria” (Mt 2, 10), provocou o ódio homicida de
Herodes que, temendo que o prometido Messias o destronasse, mandou matar todas
as crianças recém-nascidas em Belém de Judá (Mt 2, 16-18). Na disparidade destas reacções, de júbilo e graça
nuns, mas de ódio e morte noutros, estão representadas as possíveis respostas
humanas à proposta divina da redenção.
Para
diluir a sua responsabilidade na rejeição da graça salvífica, o homem que não quer aderir ao plano da sua salvação procura desacreditar a
mensagem de que é destinatário. Assim aconteceu, por certo, em relação à
ressurreição de Jesus: não obstante a
evidência do facto, como inquestionável era também a realidade da sua prévia
morte, houve quem resistisse a
crer nessa boa notícia, precisamente para não ter de aceitar a sua inevitável
consequência, ou seja, o reconhecimento da divindade de Jesus de Nazaré.
A este
propósito, Mateus refere as circunstâncias
em que surgem umas das mais antigas fake news: “Foram
à cidade alguns dos guardas, e noticiaram aos príncipes dos sacerdotes tudo o
que tinha sucedido. Tendo-se eles congregado com os anciãos, depois de tomarem
conselho, deram uma grande soma de dinheiro aos soldados, dizendo-lhes: ‘Dizei: Os seus discípulos vieram de noite
e, enquanto nós estávamos a dormir, o roubaram.’ Se chegar isto aos ouvidos do governador, nós o aplacaremos e estareis
seguros. Eles, recebido o dinheiro, fizeram como lhes tinha sido dito. E
esta voz divulgou-se entre os judeus e dura até ao dia de hoje.” (Mt 28, 11-15). Pelos vistos, já então
havia quem se deixasse subornar para divulgar boatos que nada tinham a ver com
a realidade, mas que eram, segundo a perspectiva farisaica, o politicamente
correcto …
Santo
Agostinho, com a argúcia que
lhe era própria, prova a hipocrisia inerente àquela mentira esfarrapada: “Astúcia
miserável! Apresentas testemunhas adormecidas?! Verdadeiramente estás a dormir
tu mesmo, ao imaginar semelhante explicação!” (Enarrationes
in Psalmos, 63, 15). A verdade é coerente, mas a falsidade
tem, como se costuma dizer, a perna curta e, portanto, não vai longe, pois é
inevitável que se manifeste a sua inconsistência lógica. A razão está sempre do lado da fé,
enquanto que, para não crer em Deus, é precisa uma boa dose de irracionalidade
e, até, de credulidade. Como
dizia Dostoievski, os russos são pessoas de tanta fé que, alguns, até são ateus!
Com efeito, é precisa muita mais fé para ser ateu e crer que o mundo deve a
sua existência ao acaso, ou ao nada, do que para acreditar que é efeito de um
ser omnisciente e omnipotente, ou seja, Deus.
Ante a
contradição dos relatos e comentários jornalísticos, já que os há para todos os
gostos e feitios, aos católicos
pede-se reflexão e discernimento, isto é, um saudável espírito crítico. Há
já dois mil anos, Jesus de Nazaré profeticamente antecipava os perigos da
desinformação, nomeadamente por via da net: “O reino dos céus é ainda semelhante a uma
rede (em inglês, net)
lançada ao mar, que colhe toda a casta de peixes. Quando está cheia, os pescadores tiram-na
para fora e, sentados, na praia, escolhem os bons para cestos e deitam fora os
maus. Será assim no fim do mundo, virão os anjos e separarão os maus do meio
dos justos.” (Mt 13, 47-49).
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TECNOLOGIA
COMENTÁRIOS (de 10)
S N: Mais uma excelente e tão cristalina crónica do
autor sobre um tema tão complexo e fundamental. A
milhas de distância de tantos outros textos e discursos habituais.
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