terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

As pessoas de qualidade


Para prestarem assistência imediata, nas situações de tragédia inesperada, em que descobrem, criticamente, a falta dela, da assistência. Confesso que não me apercebi da ausência dessas prestações, pois acompanhei essas dores, do conforto do meu assento televisivo. Só me pergunto como procederiam essas pessoas em idêntica situação governativa, além de que suponho que o auxílio irá continuar…

Uma dramática exposição de incompetências 

Da preparação ao apoio às pessoas atingidas pela tempestade, tudo nos mostrou pouca prevenção, organização e ainda menos empatia.

 HELENA GARRIDO,  Colunista

OBSERVADOR, 03 fev. 2026, 00:2290

Numa reportagem televisiva uma pessoa, manifestamente furiosa, resumia bem, um dia depois da tempestade, o que devia ser feito e não foi. Perguntava-se como queria que se usasse as redes sociais se não existiam comunicações, onde estavam os militares, porque não estavam já, depois da tempestade, a instalar tendas de campanha com assistência médica e distribuição de comida quente. Estão a distribuir lonas, dizia, mas para se fazer o quê com uma população envelhecida que não as conseguiria usar. “Só se for para fazer filhoses”, concluía, como que resumindo assim os absurdos que nos foram passando pelos olhos e ouvidos nestes dias de pós-tempestade Kristin. O espírito de solidariedade comunitária foi um pilar fundamental, já que o Estado esteve bastante aquém do que seria de esperar, pelo menos no imediato.

Enquanto as reportagens se centrarem nas visitas de ministros e candidatos aos locais devastados, como Leiria, Coimbra ou Marinha Grande, em vez de nos mostrarem que, de imediato, estavam no terreno não apenas os bombeiros como também os militares, estamos manifestamente a deixar as pessoas a tomarem conta de si. Não se sabe bem porque não foram de imediato convocados os militares. Aparentemente porque não o quis a Protecção Civil – cujo presidente também nos diz agora que não precisamos de pedir ajuda europeia.

Face ao que aconteceu, e ainda continua a acontecer, vale a pena olhar seriamente para os mecanismos de protecção civil que temos e verificar como é que podemos, de facto, apoiar quem precisa logo nas primeiras horas. Não se quer acreditar que a falta de mobilização de todos os meios, para chegar até às aldeias mais isoladas, se fique a dever a desejos de protagonismo, que tendem a resistir à cedência destes pequenos poderes. O presidente da Protecção Civil tem estatuto de sub-secretário de Estado e, por isso, está investido de poder para mobilizar meios. Porque não o fez, tem de ser respondido a seu tempo.

O segundo aspecto destes dias de tempestade está centrada na falta de bom senso e empatia de alguns membros do Governo. Já foi bastante referido o famoso vídeo do ministro Leitão Amaro. Uma comunicação com o país que é assustadora principalmente por ter havido quem, na sua equipa, tenha considerado uma boa ideia brincar aos filmes numa situação destas.

Também o ministro das Defesa Nuno Melo, apesar da sua experiência política, acabou a dar-nos uma mensagem de falta de empatia. Primeiro achou que era boa ideia, perante a tragédia que se abateu sobre as pessoas, algumas delas sem casa, manifestar a sua preocupação com um sargento que fazia anos. A seguir deixar que quem assistiu a tudo aquilo tenha visto os militares a abandonarem tudo, assim que o ministro se foi embora, de acordo com os testemunhos transmitidos pelas televisões.

Depois temos a ministra da Administração Interna a mostrar como uma competente Provedora e antes juíza do Tribunal Constitucional pode dar uma ministra sem capacidade de falar para os cidadãos. O problema de Maria Lúcia Amaral foi não perceber qual o seu papel político. Não comunicou mal nem bem, pura e simplesmente não soube falar para as pessoas.

E esse é o problema de alguns protagonistas políticos: esquecem-se que não estão a falar com o jornalista que está à sua frente, mas sim para as pessoas que, através dos meios de comunicação social, olham para eles à espera de resposta para, nesta circunstância, os problemas graves que enfrentam. Querem, muitas vezes, apenas palavras de conforto, mensagens que revelem a capacidade de se colocarem no lugar do outro.

Outro erro comum é gastarem o tempo a falar de procedimentos. Nestas alturas é preciso ser directo e dizer exactamente o que é que se está a fazer – de preferência ser em “burocratês”- e o que as pessoas podem ou devem fazer, em vez de se usar linguagem cifrada ou descrever os caminhos dos papéis que circulam na tecnocracia.

Por mais que se queira dizer o contrário, o Estado não esteve à altura do que lhe era exigido, quer do ponto de vista operacional como na perspetiva de transmitir confiança e ânimo aos nossos concidadãos afectados por esta tragédia. Ser político não é ser burocrata, é saber liderar quando há momentos difíceis.

Temos depois a E-Redes e as empresas de comunicações. Na electricidade fica claro que a muita comunicação e estratégia sobre a sustentabilidade ambiental está focada nos aspectos que podem ser lucrativos, mas não deram resistência ao sistema. Parece existir manifestamente falta de investimento que torne a rede resistente às mudanças climáticas que bem conhecem. O mesmo se aplica às telecomunicações. A rede eléctrica e de telecomunicações tem de olhar para si para ser mais resistente nestas tempestades que, sabem bem, serão cada vez mais frequentes. Claro que se compreende que vai levar tempo a recuperar a rede eléctrica – aparentemente só em finais de Fevereiro – perante a destruição que existiu. O que não se pode admitir é que tenha existido toda esta destruição.

Talvez desta vez comecemos a perceber que temos de investir mais na adaptação aos eventos climáticos extremos, que todos os estudos nos dizem que vamos enfrentar, reduzindo a prioridade que tem sido dada à descarbonização, por via da electrificação com energias renováveis, solar e eólica. Vê-se e aliás, como já tínhamos visto com o apagão, como o cem por cento elétrico nas nossas casas é um erro.

E talvez desta vez também as autarquias – e o próprio Governo – percebam que têm de ter equipas competentes, que nem tudo pode ser “jobs for the boys”. E que precisamos de levar mais a sério a preparação para eventos climáticos extremos, fazendo exercícios de simulação nas comunidades.

Como disse a ministra da Administração Interna, estamos a aprender. O problema é que parece que nunca mais aprendemos apesar de, nos anos recentes, termos enfrentado várias calamidades. Da preparação para a tempestade até ao apoio rápido às comunidades atingidas, passando pela incapacidade de falar com empatia, o que vimos foi um desfilar de incompetências variadas. Que nos leva a pensar que temos de nos preparar para estarmos entregues a nós próprios e à solidariedade das comunidades.

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COMENTÁRIOS (de 90)

Carlos Chaves: Cara Helena Garrido, durante o período da pandemia o Costa, o Cabrita e Marta, geriram muito melhor a situação não foi? Porque é que não nos traz aqui os números da mortalidade muito acima da média Europeia, da liderança mundial de número de mortos/per capita, do descalabro no acesso aos cuidados de saúde com milhares de consultas externas, e diagnósticos que nunca foram feitosTenha respeito pelas famílias que perderam os seus ente queridos nesta situação!! Podemos dizer o mesmo nos incêndios de Pedrogão Grande! Apesar de cada vida ter um valor inestimável, nesta situação o número de vítimas não tem felizmente comparação, com o que se passou durante a Covid e mesmo durante os incêndios de 2017 (vítimas que morreram por falta de coordenação/preparação e políticas erradas).  Dito isto, não estou aqui a defender este actual governo socialista, esta gente só sabe dizer que vai tirar ilações (como diz e bem o Alberto Gonçalves), na próxima catástrofe repetem o mantra e continua tudo na mesma! Conclusão, isto tem de mudar, continuar a apostar nos mesmos à espera de resultados diferentes, todos sabemos qual será o resultado!                   Maria Gomes: Isto faz parte da tão prezada estabilidade em que vivemos!              António Soares: Esta catástrofe não se compara à farsa do Covid. Nesta desgraça,  não basta fechar as pessoas em casa, sequestrar idosos nos Lares e proibir visitas de familiares, nem sequer obrigar ao uso de máscaras  nas fuças.  Comparar esta tragédia com o Covid é o mesmo que comparar o cu das calças com o dito cujo. Além do mais o governo do habilidoso  limitou-se a plagiar o que se via lá por fora. Mais uma vez HG a deixar falar a sua faceta,  não assumida, mas descaradamente socialista. Quando milhares de postes de electricidade e centenas de linhas são destruídos num ápice, não se pode resolver o problema com uma encomenda de electricidade em pó à China. Parece que a Helena já se esqueceu da história dos ventiladores comprados à China que nem sequer funcionavam e do puro abandono à má sorte, de milhares de idosos nos Lares de terceira idade. Tenha alguma decência,  já que vergonha não demonstra possuir.                  Joao Cadete: És uma tontinha sem noção dos da magnitude dos estragos e do que custa normalizar tudo... como é possível estar em todos os lados? Vocês jornaleiros são do mais rasteiro que há...              Filipe Paes de Vasconcellos: Pergunta: Será que o Observador se está a tornar num pasquim?                 Tristão: Isto é o clássico debate a posteriori, muito confortável, pouco útil e quase sempre cheio de generalidades. À segunda-feira toda a gente é engenheiro, gestor de risco e estratega nacional. Somos um país de especialistas instantâneos. Acontece uma desgraça e, de repente, brotam peritos como cogumelos depois da chuva…  E entretanto voltamos a ter paz na saúde… curioso 🙂                  Lily Lu: A empatia é o último dos problemas. A competência é o cerne da questão.             Pedro Campos: Este artigo é um rol de generalidades e banalidades de uma "treinadora de bancada"!!!!!!                  Manuel Ferreira21: Não se preocupem, no verão não vai faltar dinheiro nas autarquias para concertos (Toy, Ágata, Carreiras, Deslandes, Zé Amaro, etc) e os foguetes. E como o dinheiro não tem cheiro pode ser com o que sobrar da calamidade. Já estou sem paciência, para este país a brincar.                Alexandre Barreira: Pois. Cara Helena, Só uma "singela" pergunta: O que faria a senhora.....no lugar do governo.....?                 Mário Rocha: É admirável verificar que existe tanta competência nos media, sem nunca terem provado nada das suas capacidades, além de fazerem comentários e artigos com base em reportagens que são pouco mais do que a exploração de emoções e dramas. Até sugerem que era possível antes da tempestade chegar, saber quais seriam os estragos, para logo de manhã estarem todos os meios nos locais prontos a resolver todos os problemas, mesmo com estradas cortadas, mas talvez seja isto a tal empatia.                 Cisca Impllit: A quanto obrigas manter  o lugar no Obs.   Manda quem pode, sujeita-se quem precisa.                  António Soares: Que saudades dos tempos em que Temido e Graça Freitas  comunicavam de forma brilhante, nas suas milhentas conferências de imprensa, em que de manhã diziam uma coisa, à  tarde coisa diferente e à noite o seu contrário... Quanto à actual ministra temos de reconhecer que é a única política sem pinga de populismo e demagogia e que até facilita e muito, a vida à oposição  com as dicas que lhe dá para atacar ao governo, ao dizer que está em aprendizagem e que não sabe o que falhou...               Manuel Magalhaes: Portugal é um país de medíocres e será bom não esquecer que não é só culpa deste governo que só está lá há dois anos, o PS esteve lá oito e nada fez que se visse, mas agora uns patetas continuam a querer lá pôr outro e esse temos a certeza que de nada servirá… país trágico!!!                 Graciete Madeira: Dramatizar e dizer mal é o que está a dar para os cronistas confortavelmente atalados às suas secretárias. Se  fossem eles a tratar já estava tudo feito..             Sr Leão; "Dramática" exposição ??? Oh, Helena Garrido !!! Temos então que o jornalista autor do artigo introduz logo de entrada um comentário apologético ao seu próprio artigo ??? Quem se julga a Senhora Jornalista? E de caminho deixe que lhe pergunte se não acha importante - fundamental, mesmo – respeitar rigorosamente, quase religiosamente, aquilo a que antigamente se chamava deontologia profissional?

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