A definição de “saudade”, segundo
Garrett. Parece que igualmente este texto enferma de um sentimento saudosista,
ao relembrar normas prescritas a respeito de um ideal de liberdade que o tempo
foi pervertendo, inicialmente de caris pessoal, individualista, hoje, nos
tempos de Trump, como norma rígida,
estabelecida por quem se sente com poder para se impor no mundo, que assim vai.
A GRANDE LIBERDADE AMERICANA
Um liberal sabe que está velho quando percebe que ainda é do tempo
em que a liberdade era uma escolha.
ALEXANDRE BORGES Escritor e
argumentista
OBSERVADOR, 19 fev. 2026, 00:2237
Nos anos 80 ou 90, era-se livre
porque se queria ser livre, porque se queria aderir livremente à
democracia, à economia de mercado, às eleições de quatro em quatro ou cinco em
cinco anos, à separação de poderes, à imprensa livre e a um McDonald’s na praça
principal. Os muros de separação eram construídos, não para não deixar mais ninguém entrar no
nosso modelo de vida, mas para não deixar mais ninguém sair. E quando caíam, era por eles mesmos. Por se
querer dançar a música que se ouvia do lado de cá.
Nos 20/20, não. A
liberdade é agora uma coisa que se deve enfiar goela abaixo. O liberalismo económico, aparentemente,
um regime dirigido centralmente a partir do governo, que pretende sufocar com impostos quem
não lhe queira vender barato o seu país, que usa o dinheiro público para comprar participações em empresas
privadas e lhes dizer o que devem dizer, que tipo de energia devem consumir e
que até alvitra qual a receita ideal para a Coca-Cola. Sim, há que
encará-lo sem medos: a
liberdade americana ou eu – um de nós envelheceu muito mal.
Uma vez mais, a
administração moralista que não ia voltar a meter-se na vida
dos outros países nem dizer-lhes como viver, meteu-se na vida doutro país para
lhe dizer como viver. Depois de
tentar anexar o Canadá e a Gronelândia, querer mandar as suas tropas para o
México e mudar o nome ao pobre do Golfo, influenciar eleições na Alemanha ou na
Hungria, incentivar o Reino Unido à guerra civil, bombardear o Irão, determinar
o futuro de Gaza e exigir mil milhões de dólares aos que quiserem entrar no
“Conselho da Paz” que vai dividir o bolo, chega agora à porta do segundo maior
objectivo que tinha em mente quando derrubou um ditador na Venezuela, mas
deixou ficar a ditadura: Cuba – isto é, o grande fétiche da grande América referida no “Make
America Great Again”. Uma ideia
de América que passa por muito moderna, mas permanece congelada no mundo em que
cresceu nos anos 60 ou 70. Um
mundo onde ainda não havia alterações climáticas nem a China era uma potência
económica, onde tudo funcionava a petróleo e carvão e se bebia em palhinhas de
plástico.
Que importa se Cuba vive há décadas
mergulhada numa pobreza crónica como só o comunismo pode criar? Na cabeça de Trump e de Rubio, talvez ainda estejam a
derrubar Fidel em plena crise dos mísseis. Só assim se pode entender que, em vez de deixar o regime cair de
podre, fosse preciso ir lá desligar-lhe a máquina. E assim,
secando a torneira do petróleo venezuelano, desviado para os consumidores
americanos ou para aqueles a quem o entendam vender, assistimos placidamente ao colapso de uma ilha que, sem energia, já não
pode sequer alimentar a única indústria rentável que lhe restava: o
turismo. E então, sem
dinheiro nem comida, há-de o povo cubano perceber, enfim, como é mau o comunismo e linda a liberdade.
Claro. Já se conseguem ouvir nos recantos em branco desta página os
comentários dizendo que foi sempre assim (que esses comentários venham tanto da
esquerda como da direita extremas é um sinal dos tempos que nenhum dos lados se
preocupa demasiado em notar). Mas não, não foi sempre assim. Primeiro, costumava separar-nos dos
modelos totalitários não matar ninguém à fome para o convencer da bondade das
nossas ideias. Segundo, costumávamos saber que toda a beleza do capitalismo reside,
precisamente, em fazer com que, mesmo incentivando
cada um a pensar nos seus interesses, no fim, todos saiam a ganhar.
Em último caso, quando tudo o mais falhava
(nomeadamente, a racionalidade para definir um plano como deve ser, vide Iraque
2003), os
americanos ao menos ainda se davam ao trabalho de fazer uma invasão militar.
Nos
anos 20/20, não, que isso custa muitos dólares e muitos votos. Nos anos 20/20,
não se põem forças armadas em confronto; deixa-se que sejam os civis a sofrer
as consequências. Descaradamente.
Mas há algo ainda mais curioso nesta
nova concepção de liberdade. É que, antigamente, dávamos liberdade,
comprávamos petróleo e ficávamos ambos com os dois – petróleo e liberdade. Agora,
não. Agora, dizemos: fiquem lá com a nossa liberdade que nós preferimos o vosso
petróleo. Troca directa,
como quem troca uma galinha por um cacho de bananas. E quem
disser o contrário terá a sua licença confiscada, o seu emprego em risco, o seu
financiamento cortado, o seu nome arrastado na lama pelo próprio Presidente, o
ICE a intimar as grandes tecnológicas a ceder-lhe as suas informações privadas
ou já a entrar-lhe porta adentro.
Sim, deve ser por estarmos velhos que este novo modelo de
liberdade parece não só ignóbil, como incrivelmente estúpido. Que, em
vez de esperar que um péssimo regime político-económico caia por ele, se vá lá
criar mais mártires pró-comunismo e anti-americanismo. Que um
dos efeitos mais imediatos desta crise vá ser juntar à porta da fronteira
americana mais uns milhões de refugiados. E enquanto afastamos os países aliados e criamos o absurdo histórico
de deixar à China o papel de última
esperança no livre mercado concorrencial, apertamos mais o pé no pescoço
de uma população até que ela suplique por liberdade. Liberdade à Trump. Liberdade à força.
Resta a um liberal à antiga confiar
que, no fim, o capitalismo vence sempre. Que
o suicídio do soft power americano o conduzirá a um isolamento económico que
forçará a retirada de campo dos sonhos monopolistas mais húmidos do MAGA. Que os
cubanos ficarão efectivamente mais livres, mas só os que sobreviverem. E rezar
ao bom Deus de Rubio para que, um dia, a China não se lembre de nos cortar a
luz até nos convertermos à maravilha do seu modelo político-económico.
Até
à vitória por submissão, sempre.
LIBERDADES SOCIEDADE GEOPOLÍTICA MUNDO LIBERALISMO POLÍTICA
ECONÓMICA MACROECONOMIA ECONOMIA
COMENTÁRIOS:
Luis Silva: Não me lembro deste camarada estar revoltado com
o governo americano anterior. José
Paulo Castro: O autor nem percebe que está a defender a liberdade de
ter um McDonald's na praça e a defender um regime de 60+ anos que nunca
permitiria tal. E atira a culpa para quem quer acabar com esse regime,
confundindo-o com o povo. Cuba precisa de petróleo? Tem-no ali ao lado, nos
EUA. Só precisa de deixar de ser um pólo avançado da geopolítica de potências
ideológicas e libertar o seu povo, deixá-lo votar, libertar presos políticos,
etc. José Paulo
Castro: A
liberdade tem um custo. Sempre teve. Que os americanos já não estejam dispostos a
arcar com esse custo para proteger a dos outros, é uma liberdade deles. A
dívida crónica dos EUA tem de desaparecer. Se não gosta da actual situação,
pode sempre refugiar-se na liberdade dos russos, na dos chineses ou na dos
árabes. Ou a da UE, onde mandam uns não eleitos, sem poder para o que apregoam.
São as alternativas. A de Cuba também era possível mas só com quem pague a
conta, como todas. Vasco R: Apoiante de comunas. Nada mais a dizer.
ana rita: Anti americanismo primário +TDS = esta triste crónica. Prova:
Com Obama e Biden tudo se passou da mesma forma que com Trump e só agora é que
está tudo mal. Conclusão. A cegueira ideológica rejeita a realidade. Francisco
Almeida: Este
autor, o regime cubano e Marcelo, cuja primeira viagem ao estrangeiro foi a
Cuba, para mim é tudo a mesma m... Antonio
Mendes Lopes: Um
militante anti Trump e anti USA que aproveita o jornal para vender a sua
"pescada". Deve ler "Porque se enganam os
intelectuais"! António
Pimentel: Eu,
tal como o autor, também lamento profundamente o fim do regime comunista
cubano. Como é que agora vamos poder mostrar ao mundo as maravilhas do
comunismo?
Miguel
Macedo: Este
cronista é péssimo! Inqualificável e enviesado! Era melhor se fosse para o
expresso ou outro pravda qualquer! Lily Lu: God bless America, caro Alexandre. O resto
são ilusões. Helena L. “… um
dos efeitos mais imediatos desta crise vá ser juntar à porta da fronteira
americana mais uns milhões de refugiados.” Mas que curioso. Vão fugir para o
malvado opressor, esse castrador da Liberdade? Tristão: É um artigo notável, porque toca num ponto
essencial sobre
o qual tenho pensado muitas vezes. Imaginemos Portugal privado da
possibilidade de importar energia, petróleo, gás, electricidade. Em pouco
tempo, o país entraria em colapso. Não por falência da democracia, mas
porque sem energia tudo colapsa: a
economia, os serviços públicos, a produção alimentar, a própria vida quotidiana. Seria justo concluirmos que assim a
democracia não funciona? Não funciona, como não funciona qualquer regime, seja
democrático, autoritário, ditatorial ou autocrático. O caso de
Cuba é elucidativo. O
comunismo é, sem dúvida, uma tragédia política, económica e humana. Mas mesmo
abstraindo dessa realidade, um país que não consegue importar aquilo de que
depende vitalmente, como o petróleo, entra inevitavelmente em colapso. O
resultado é miséria, sofrimento generalizado e, no limite, fome. Milhões de pessoas a pagar com a vida
decisões políticas e constrangimentos geopolíticos que não controlam. E isso,
independentemente das ideologias em disputa, não se faz a ninguém.
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