sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"Gosto amargo de infelizes"

 

A definição de “saudade”, segundo Garrett. Parece que igualmente este texto enferma de um sentimento saudosista, ao relembrar normas prescritas a respeito de um ideal de liberdade que o tempo foi pervertendo, inicialmente de caris pessoal, individualista, hoje, nos tempos de Trump,  como norma rígida, estabelecida por quem se sente com poder para se impor no mundo, que assim vai.

 

A GRANDE LIBERDADE AMERICANA

Um liberal sabe que está velho quando percebe que ainda é do tempo em que a liberdade era uma escolha.

ALEXANDRE BORGES Escritor e argumentista

OBSERVADOR, 19 fev. 2026, 00:2237

Nos anos 80 ou 90, era-se livre porque se queria ser livre, porque se queria aderir livremente à democracia, à economia de mercado, às eleições de quatro em quatro ou cinco em cinco anos, à separação de poderes, à imprensa livre e a um McDonald’s na praça principal. Os muros de separação eram construídos, não para não deixar mais ninguém entrar no nosso modelo de vida, mas para não deixar mais ninguém sair. E quando caíam, era por eles mesmos. Por se querer dançar a música que se ouvia do lado de cá.

Nos 20/20, não. A liberdade é agora uma coisa que se deve enfiar goela abaixo. O liberalismo económico, aparentemente, um regime dirigido centralmente a partir do governo, que pretende sufocar com impostos quem não lhe queira vender barato o seu país, que usa o dinheiro público para comprar participações em empresas privadas e lhes dizer o que devem dizer, que tipo de energia devem consumir e que até alvitra qual a receita ideal para a Coca-Cola. Sim, há que encará-lo sem medos: a liberdade americana ou eu – um de nós envelheceu muito mal.

Uma vez mais, a administração moralista que não ia voltar a meter-se na vida dos outros países nem dizer-lhes como viver, meteu-se na vida doutro país para lhe dizer como viver. Depois de tentar anexar o Canadá e a Gronelândia, querer mandar as suas tropas para o México e mudar o nome ao pobre do Golfo, influenciar eleições na Alemanha ou na Hungria, incentivar o Reino Unido à guerra civil, bombardear o Irão, determinar o futuro de Gaza e exigir mil milhões de dólares aos que quiserem entrar no “Conselho da Paz” que vai dividir o bolo, chega agora à porta do segundo maior objectivo que tinha em mente quando derrubou um ditador na Venezuela, mas deixou ficar a ditadura: Cuba – isto é, o grande fétiche da grande América referida no “Make America Great Again”. Uma ideia de América que passa por muito moderna, mas permanece congelada no mundo em que cresceu nos anos 60 ou 70. Um mundo onde ainda não havia alterações climáticas nem a China era uma potência económica, onde tudo funcionava a petróleo e carvão e se bebia em palhinhas de plástico.

Que importa se Cuba vive há décadas mergulhada numa pobreza crónica como só o comunismo pode criar? Na cabeça de Trump e de Rubio, talvez ainda estejam a derrubar Fidel em plena crise dos mísseis. Só assim se pode entender que, em vez de deixar o regime cair de podre, fosse preciso ir lá desligar-lhe a máquina. E assim, secando a torneira do petróleo venezuelano, desviado para os consumidores americanos ou para aqueles a quem o entendam vender, assistimos placidamente ao colapso de uma ilha que, sem energia, já não pode sequer alimentar a única indústria rentável que lhe restava: o turismo. E então, sem dinheiro nem comida, há-de o povo cubano perceber, enfim, como é mau o comunismo e linda a liberdade.

Claro. Já se conseguem ouvir nos recantos em branco desta página os comentários dizendo que foi sempre assim (que esses comentários venham tanto da esquerda como da direita extremas é um sinal dos tempos que nenhum dos lados se preocupa demasiado em notar). Mas não, não foi sempre assim. Primeiro, costumava separar-nos dos modelos totalitários não matar ninguém à fome para o convencer da bondade das nossas ideias. Segundo, costumávamos saber que toda a beleza do capitalismo reside, precisamente, em fazer com que, mesmo incentivando cada um a pensar nos seus interesses, no fim, todos saiam a ganhar. Em último caso, quando tudo o mais falhava (nomeadamente, a racionalidade para definir um plano como deve ser, vide Iraque 2003), os americanos ao menos ainda se davam ao trabalho de fazer uma invasão militar. Nos anos 20/20, não, que isso custa muitos dólares e muitos votos. Nos anos 20/20, não se põem forças armadas em confronto; deixa-se que sejam os civis a sofrer as consequências. Descaradamente.

Mas há algo ainda mais curioso nesta nova concepção de liberdade. É que, antigamente, dávamos liberdade, comprávamos petróleo e ficávamos ambos com os dois – petróleo e liberdade. Agora, não. Agora, dizemos: fiquem lá com a nossa liberdade que nós preferimos o vosso petróleo. Troca directa, como quem troca uma galinha por um cacho de bananas. E quem disser o contrário terá a sua licença confiscada, o seu emprego em risco, o seu financiamento cortado, o seu nome arrastado na lama pelo próprio Presidente, o ICE a intimar as grandes tecnológicas a ceder-lhe as suas informações privadas ou já a entrar-lhe porta adentro.

Sim, deve ser por estarmos velhos que este novo modelo de liberdade parece não só ignóbil, como incrivelmente estúpido. Que, em vez de esperar que um péssimo regime político-económico caia por ele, se vá lá criar mais mártires pró-comunismo e anti-americanismo. Que um dos efeitos mais imediatos desta crise vá ser juntar à porta da fronteira americana mais uns milhões de refugiados. E enquanto afastamos os países aliados e criamos o absurdo histórico de deixar à China o papel de última esperança no livre mercado concorrencial, apertamos mais o pé no pescoço de uma população até que ela suplique por liberdade. Liberdade à Trump. Liberdade à força.

Resta a um liberal à antiga confiar que, no fim, o capitalismo vence sempre. Que o suicídio do soft power americano o conduzirá a um isolamento económico que forçará a retirada de campo dos sonhos monopolistas mais húmidos do MAGA. Que os cubanos ficarão efectivamente mais livres, mas só os que sobreviverem. E rezar ao bom Deus de Rubio para que, um dia, a China não se lembre de nos cortar a luz até nos convertermos à maravilha do seu modelo político-económico.

Até à vitória por submissão, sempre.

LIBERDADES      SOCIEDADE      GEOPOLÍTICA      MUNDO       LIBERALISMO      POLÍTICA ECONÓMICA      MACROECONOMIA       ECONOMIA

COMENTÁRIOS:

Luis Silva: Não me lembro deste camarada estar revoltado com o governo americano anterior.                     José Paulo Castro: O autor nem percebe que está a defender a liberdade de ter um McDonald's na praça e a defender um regime de 60+ anos que nunca permitiria tal. E atira a culpa para quem quer acabar com esse regime, confundindo-o com o povo. Cuba precisa de petróleo? Tem-no ali ao lado, nos EUA. Só precisa de deixar de ser um pólo avançado da geopolítica de potências ideológicas e libertar o seu povo, deixá-lo votar, libertar presos políticos, etc.                      José Paulo Castro: A liberdade tem um custo. Sempre teve. Que os americanos já não estejam dispostos a arcar com esse custo para proteger a dos outros, é uma liberdade deles. A dívida crónica dos EUA tem de desaparecer. Se não gosta da actual situação, pode sempre refugiar-se na liberdade dos russos, na dos chineses ou na dos árabes. Ou a da UE, onde mandam uns não eleitos, sem poder para o que apregoam. São as alternativas. A de Cuba também era possível mas só com quem pague a conta, como todas.             Vasco R: Apoiante de comunas. Nada mais a dizer.                     ana rita: Anti americanismo primário +TDS = esta triste crónica. Prova: Com Obama e Biden tudo se passou da mesma forma que com Trump e só agora é que está tudo mal. Conclusão. A cegueira ideológica rejeita a realidade.                 Francisco Almeida: Este autor, o regime cubano e Marcelo, cuja primeira viagem ao estrangeiro foi a Cuba, para mim é tudo a mesma m...                   Antonio Mendes Lopes: Um militante anti Trump e anti USA que aproveita o jornal para vender a sua "pescada". Deve ler "Porque se enganam os intelectuais"!                     António Pimentel: Eu, tal como o autor, também lamento profundamente o fim do regime comunista cubano. Como é que agora vamos poder mostrar ao mundo as maravilhas do comunismo?                     Miguel Macedo: Este cronista é péssimo! Inqualificável e enviesado! Era melhor se fosse para o expresso ou outro pravda qualquer!                  Lily Lu: God bless America, caro Alexandre. O resto são ilusões.           Helena L.  “… um dos efeitos mais imediatos desta crise vá ser juntar à porta da fronteira americana mais uns milhões de refugiados.” Mas que curioso. Vão fugir para o malvado opressor, esse castrador da Liberdade?                  Tristão: É um artigo notável, porque toca num ponto essencial sobre o qual tenho pensado muitas vezes. Imaginemos Portugal privado da possibilidade de importar energia, petróleo, gás, electricidade. Em pouco tempo, o país entraria em colapso. Não por falência da democracia, mas porque sem energia tudo colapsa: a economia, os serviços públicos, a produção alimentar, a própria vida quotidiana. Seria justo concluirmos que assim a democracia não funciona? Não funciona, como não funciona qualquer regime, seja democrático, autoritário, ditatorial ou autocrático. O caso de Cuba é elucidativo. O comunismo é, sem dúvida, uma tragédia política, económica e humana. Mas mesmo abstraindo dessa realidade, um país que não consegue importar aquilo de que depende vitalmente, como o petróleo, entra inevitavelmente em colapso. O resultado é miséria, sofrimento generalizado e, no limite, fome. Milhões de pessoas a pagar com a vida decisões políticas e constrangimentos geopolíticos que não controlam. E isso, independentemente das ideologias em disputa, não se faz a ninguém.

 

Nenhum comentário: