terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Arte


Ou artifício na instituição dos direitos próprios e repúdio dos alheios, segundo os pontos de vista de quem pode tê-los… ou julga poder… num mundo tantas vezes vão… Mas parece  haver demasiado pessimismo nas conclusões… No fundo, cada um governa-se como pode… Como o deixam?

Good Cops e Bad Cops, de Davos a Munique

O problema está em quem define conceitos que permitem justificar tudo, da censura nas redes sociais à proibição de partidos, da invalidação de direitos humanos de sempre à imposição de novos direitos.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 21 fev. 2026,

Depois da tempestade, a bonança. Não falo de Portugal, de Leiria ou de Coimbra, mas de Munique, no rescaldo de Davos.

 Trump, conhece bem a velha técnica do good cop, bad cop; ou mais precisamente, do bad cop, good cop, sendo que o bad cop é, geralmente, ele mesmo. Talvez por isso em Davos tenha tratado de assustar toda a gente com a pretensão da Gronelândia, deixando os bilionários e os políticos do globalismo chocadíssimos.

Eu próprio, que, pelas melhores e piores razões, não me incluo em nenhuma dessas duas categorias, fiquei, não direi chocado, mas intrigado: depois de os dinamarqueses e “os europeus” se disponibilizarem de forma institucional e protocolar a garantir o que Trump queria – a segurança do hemisfério Norte, face a russos e chineses –, para quê aquela insistência? Para ficar como o presidente que acrescentou mais de 2.170.000 km2 aos territórios da União? Bem sei que é uma velha aspiração americana, mas “América para os americanos” não deixa de soar a reivindicação imperialista, agressiva, ilícita, longe do charme libertador e poético que a mesma pretensão ganha noutros continentes: Ásia para os asiáticos”, “África para os africanos”..

Mas, mais uma vez, o bad cop recuou na ameaça de “invasão”, e pudemos (os de Davos e eu …) respirar de alívio.

Munique, o segundo Acto

Agora, em Munique, entre 13 e 15 de Fevereiro, foi o segundo acto da peça transatlântica. Onde, há um ano, o vice-presidente e vice-bad cop J. D. Vance tinha chocado os líderes “europeus” – dizendo-lhes algumas verdades sobre o modo como estavam a abandonar, ou até a trair, os valores de que se reclamavam, policiando a expressão de ideias e princípios, difamando os líderes das oposições, instrumentalizando o poder judicial para bloquear decisões populares, dizendo-lhes, enfim, que o maior perigo para a liberdade e para a paz vinha deles – entrava em cena o good cop Marco Rubio.

Marco Rubio, o católico nacional-conservador cubano-americano, o senador da Flórida, o “little Marco” que Trump destratou e cilindrou em 2016 (tal como a outros candidatos republicanos da Direita), o mesmo Marco que, mostrando fairplay e, sobretudo, sentido político, depois o apoiou em 2024 e agora integra lealmente a Administração Trump, foi o grande protagonista deste segundo acto em Munique.

O discurso de Rubio é importante. tem substância política de valores e princípios… e tem o tom certo: É que Rubio diz mais ou menos a mesma coisa que o bad cop Vance tinha dito no primeiro acto, mas, com é próprio dos good cops, fá-lo de forma mais empática e inclusiva:

“We are part of one civilization, […] bound by centuries of shared history, Christian faith, culture, heritage, language, ancestry, and the sacrifices our forefathers made together […] We are connected spiritually and we are connected culturally. We want Europe to be strong. We believe that Europe must survive.”

Mas depois de amaciar a audiência com os valores partilhados pela comunidade atlântica, o good-cop não deixa de ir ao “coração das trevas”, ao centro nevrálgico dos “nossos problemas comuns”, decorrentes, sobretudo da ilusão do “fim da História”.

O “fim da História”, um tema hegeliano popularizado por Francis Fukuyama, primeiro na revista The National Interest,no Verão de 1989, depois no livro The End of History and The last Man, em 1992. Na euforia do fim da Guerra Fria e do desmantelamento da URSS, base do comunismo internacional, Fukuyama defendia que, depois da derrota dos fascismos, em 1945, e do comunismo, em 1991, a democracia liberal não tinha alternativas ou rivais no mundo. A comparação com Hegel vinha do facto de o filósofo de Iena, na Fenomenologia do Espírito, falar da História como o terreno em que a Razão progredia na consciência pessoal e colectiva e o “Espírito do Mundose desenvolvia em sucessivos confrontos dialécticos. Noutras obras, como as Leituras da História da Filosofia, Hegel descrevia as vicissitudes por que passava o “espírito absolutodoespírito do mundo”, até ao apogeu da conquista da consciência e da liberdade absolutas, conformes à Razão Universal.

O termo das guerras napoleónicas e a monarquia constitucional, seria, para Hegel, o “fim da História” do seu tempo, mas o filósofo estava consciente dos novos problemas, como por exemplo a emergência da pobreza” e a “injustiçaque ela “infligia”. E também percebia que não havia pretor que decidisse, que resolvesse, em paz, pelo Direito, as tempestades nas relações entre Estados”.

Assim,não havendo um pretor que decidisse os conflitos de interesse entre os Estados” só havia uma conclusão a tirar sobre o “direito internacional” – a sua negação. E perante os primeiros sinais da idade industrial (Hegel morreria em 1831) formulava algumas reservas ao “fim da História”.

No livro de 1992, Fukuyama acrescentava ao “Fim da História” “O último homem”. Não contente em glosar Hegel, ia ainda buscar outro filósofo decisivo do pensamento ocidental, Friedrich Nietzsche. Em “Assim falava Zaratrustra”, o “último homem” era o reverso e o oposto do “Superhomem”. Para Nietzsche, era o homem-tipo da Europa decadente, o consumidor apático, sem ideais, sem paixões, sem grandeza, sem espiritualidade, sem valores, o homem do “rebanho sem pastor”, “o mais desprezível dos humanos”.

Ora Fukuyama e os neo-conservadores partiam do princípio de que a democracia liberal era o futuro e, no pós-Guerra Fria, os neocons dedicaram-se a exportá-la, recorrendo à guerra onde era preciso. O que acabou mal, muito malno Médio-Oriente e nos Balcãs, do Iraque ao Afeganistão, da Sérvia ao Kosovo.

Rubio  falou disso e foi dizendo que a euforia desse triunfo tinha levado os Estados Unidos e a Europa à perigosa ilusão de que “todas as nações seriam democracias liberais”, de que os laços das trocas e do comércio substituiriam as identidades nacionais, de que uma “ordem global de regraspoderia substituir o interesse nacional, e de que viveríamos num mundo sem fronteiras, onde todos seriam cidadãos do globo:

“This was a foolish idea that ignored both human nature and over 5,000 years of recorded human history, and it has cost us dearly.”

Em consequência, os Estados-Unidos e a Europa tinham-se desindustrializado, procurando mão-de-obra barata fora de portas ou abrindo fronteiras à imigração descontrolada, como se o mundo não passasse de um grande mercado. A América estava preparada para reverter esse ciclo; só, se preciso fosse, ou acompanhada: “While we are prepared, if necessary, to do this alone, it is our preference and it is our hope to do this together with you, our friends here in Europe. For the United States and Europe, we belong together.

 “A Europa” contra-ataca

Rubio foi ovacionado de pé, mas as respostas europeias foram defensivas… e elucidativas. Na abertura da conferência, o chanceler Merz fez questão de voltar ao ano anterior para rebater as acusações de Vance, explicando à América que na Europa só não havia liberdade de expressão quando estavam em causa a dignidade humana e as leis fundamentais; só então, onde as palavras ditas iam “contra a dignidade humana e as leis fundamentais”, a liberdade de expressão acabava

O problema está em quem determina o que vai “contra a dignidade humana e as leis fundamentais”; em quem amplia ou restringe, define ou redefine conceitos à sombra dos quais se pode justificar tudo, da censura nas redes sociais à proibição de partidos políticos, da invalidação de direitos humanos de sempre à imposição de novos direitos humanos.

Outra intervenção esclarecedora foi, no Domingo 15, último dia da conferência, a de Kaja Kallas, a Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Segurança, que explicou ao povo e aos americanos que a Europa actual não era decadente nem marcada pela cultura woke.

Kallas, que pertence a uma família politicamente importante – o pai foi primeiro-ministro da Estónia e o avô um dos fundadores do país –, pronunciou-se contra a ideia de decadência europeia, contestando as críticas de Vance e Rubio e reafirmando que a Europa não estava subordinada ao wokismo nem numa fase de “apagamento civilizacional”.

Talvez Kallas se referisse ao sentido de realidade e de vitalidade civilizacional que, por exemplo, a resolução aprovada pelo Parlamento Europeu na quinta-feira, véspera da conferência, denotava. É que a recomendação da União Europeia, aprovada por 340 votos contra 141, tocava numa amplificação de direitos particularmente revigorante: o pleno reconhecimento das mulheres trans como mulheres”, no âmbito (…da usurpação?) dos direitos das mulheres. Uma emenda – a Alteração 12 –, apresentada pelos deputados do grupo Conservadores e Reformistas Europeus, que queria acrescentar ao texto queapenas as mulheres biológicas podiam engravidar era vencida por 233 votos contra 200 e 107 abstenções, o que também mostrava a recusa em agredir a “dignidade humana e os direitos fundamentais” por que se pautava “a Europa” e o seu foco e empenho em encarar de frente a realidade – biológica ou outra.

A SEXTA COLUNA      HISTÓRIA      CULTURA      OCIDENTE      MUNDO      EUROPA

COMENTÁRIOS (de 37)

Rui Lima: Estou com medo que vamos voltar à censura mas muito mais violenta  onde as opiniões  vão ser  enquadradas como crime, no âmbito das chamadas leis contra o discurso de ódio descriminação… Hoje li um artigo num jornal onde são formuladas estas questões, transcrevo esta parte :

-”A transformação do dissidente ideológico em delinquente abre um novo caminho para a perseguição jurídico-política? O que acontecerá com aquele que defendeu a tese da incompatibilidade entre certas civilizações e o Ocidente ? E aquele que lembra que tal cultura predispõe à violência contra as mulheres, ou defenderá que nem todas as culturas favorecem tanto o sucesso individual e que todas as desigualdades estatísticas não seriam o resultado de um sistema discriminatório?  Que destino será reservado para aquele que assimilar o Islão e o IslamismoTambém será necessário condenar aquele que afirma que a Europa é vítima de um processo de "grande substituição"? O que fazer, também, com aqueles que teimam em ver uma ligação entre imigração e insegurança?”                      

 Paulo Luis da Silva: A realidade impõe-se sempre. Ou a compreendemos e tomamos decisões sensatas ou batemos de frente, de forma brutal e dolorosa. A Europa passou por duas grandes guerras no século passado. Aprendemos alguma coisa com a História recente?  O que Marco Rubio fez foi apenas constatar a realidade. Os europeus continuam a urinar contra o vento. Isto não caminha para tempos melhores. No nosso retângulo a realidade não é diferente. Enquanto a maioria dos portugueses não perceberem que temos de mudar de rumo vamos continuar a cavar o buraco onde já estamos há mais de duas décadas.           Tim do A: Excelente texto. A Europa continua a não querer aceitar a realidade e a ignorar a ciência. A Europa voltou à idade média. E a UE tornou-se a República Soviética da Europa        Maria Emília Santos: Marco Rubio acha que devemos voltar às nossas raízes cristãs e tem toda a razão, pois foi com o cristianismo que a civilização se tornou mais saudável, mais harmoniosa, mais humana e pacífica! A Civilização Cristã Europeia foi invejada por muitos povos, todos sabemos disso, o que levou os poderosos inimigos da Paz, a maquinarem no seu interior a maneira de a destruírem!  A soberba é o grande inimigo da humanidadeJesus Cristo veio ensinar a maneira de nos amarmos uns aos outros em vez de nos agredirmos, e, para isso necessitamos de viver unidos a Ele e pedir a Sua ajuda! Neste Tempo Litúrgico da Quaresma em que a Igreja nos convida a parar e olhar para dentro de nós, nos arrependermos nos nossos maus caminhos, partilharmos os nossos bens com quem não tem, jejuarmos um pouco e rezarmos mais e com mais fervor, seria óptimo se a CS de Portugal fizesse alguma referência a este período tão especial e de tanto valor espiritual para a sociedade! Lamentavelmente, nem uma palavra! Se fosse o Ramadan que nada tem a ver connosco, todas as televisões abriam os telejornais com essa notícia! Eles, os poderosos querem dominar os portugueses e para isso, proíbem que nos grandes meios de comunicação se fale  da FÉ CATÓLICA, ou põe-na em último lugar! Querem transformar as nossas consciências, substituindo a Verdadeira Fé pela idolatria muçulmana! Não conseguirão! "As portas do inferno não prevalecerão contra ela".            Maria Aguiar: Excelente. É dramático para a Europa, numa deriva progressiva…                    João Diogo: Excelente como sempre , é um prazer ler as crónicas de Jaime Nogueira Pinto.             Tim do A > Rui Lima: Excelente comentário. Caminhamos para uma grande ditadura de pensamento patrocinada pela UE e pelos centrões europeus. Mas enquanto não proibirem os partidos de reacção do povo,  há esperança de liberdade.                        Komorebi Hi: Nem mais. A realidade foi um balde de água fria que não atingiu, ao que parece, pelo raciocínio lento os que aplaudiram de pé pelo estilo, nem repararam no conteúdo, só depois veio o contra-ataque da forma habitual, defesa do multiculturalismo e do wokismo, lá em Davos pelo discurso de Kallas e Cª e no PE pelo Centrão da Neo-República de Weimar.                  José B Dias > Rui Lima: E, de facto, tal é já uma triste realidade em algumas latitudes onde antes imperou a democracia, a tolerância e a liberdade de opinião e da sua expressão pública.               José B Dias: O Escudo Europeu da Democracia centra-se em três prioridades: protecção da integridade do espaço informativo, consolidação das instituições democráticas e dos processos eleitorais (incluindo uma comunicação social independente e uma sociedade civil dinâmica) e reforço da resiliência da sociedade e da participação cívica. Aqui numa outra crónica um pouco mais abaixo... a máquina está em movimento e a liberdade vai sendo lentamente estrangulada por quem falaciosamente clama defendê-la! Mas é tudo para o nosso bem ... 🤥                      José B Dias: E é isto que vamos tendo perante o desinteresse de muitos e o apoio de muitos outros ... e um dia será tarde para emendar a mão e resgatar a realidade das garras das narrativas de que é tudo para a nossa protecção e que, aplanada a curva, vai ficar tudo bem!               António Costa e Silva: A inteligência do pensamento e da análise é tão evidente nos artigos de Jaime Nogueira Pinto,  que pode ser escrita em português de gente, simples e claro.              Graciete Madeira: Excelente crónica.                   Nuno Abreu: Muito bom.                      Carlos F. Marques: Excelente.               Komorebi Hi: Assim era no tempo de Lenine ou Staline, assim é na nova república soviética da UE, onde como descreveu Soljenitsin, no seu "Arquipélago Gulag", os aplausos valiam pelo tempo e onde o vizinho do lado esperava que o outro parasse de aplaudir, o que dependia do estado físico de cada um, depois de infindáveis minutos.          Alex Carvalho > Américo Silva: 2 d 1984                   Américo Silva: A história chega de mansinho sem se fazer anunciar, o estatuto do homem deteriora-se e o da mulher afirma-se, qualquer relação heterossexual pode ser transformada em crime, talvez o futuro da humanidade seja igual ao das abelhas: fêmeas parem fêmeas e um ou outro macho que as fecunde.                          Alex Carvalho: Excelente!!            Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre !                        Komorebi Hi: Interessante como funciona a censura soviética do Observador, separando comentários consegui publicar o que queriam censurar sobre a UE, o novo Estado da Califórnia na UE.            Fernando ce: Muito bem.                      A Sameiro: Excelente!!!                         Luis Silva > Manuel Gonçalves: Qual foi a boa administração que os EUA tiveram?                       João Bilé Serra > Paulo Luis da Silva: Duas décadas? Cinco décadas?                     José Paulo Castro > Jorge Pereira: Um espelho bom, esse aí...                       maria santos: Mulheres trans, mulheres biológicas ... Esta gente está completamente estúpida. Viva a Hélade, o Afonso Henriques, o Condestável D. Nuno, os Bragança da Restauração, o Povo Português, nós Todos ... Temos memória, temos História e temos raça.         Francisco Almeida: Um final brilhante, uma segunda parte muito boa, uma primeira parte de que parcialmente discordo. A Gronelândia é essencial para a defesa dos EUA pois, aberta a rota do Árctico, submarinos russos e chineses podem aproximar-se da costa americana. A única defesa avançada anti submarina que os EUA têm actualmente é a presença de aviões P-8A Poseidon, estacionados na base RAF Lossiemouth, em Moray, Norte da Escócia. Acontece que o 2º partido escocês, que pode facilmente ganhar as próximas eleições, tem no seu programa a revogação da autorização da presença americana, aliás facilmente apoiada pela população com o argumento que isso torna Moray um alvo nuclear. É esse risco político, que os americanos querem eliminar na Gronelândia e, com os seus antecedentes e pouca imaginação, apenas viram a solução de comprar a Gronelândia e fazer os gronelandeses americanos. Mark Rutte, numa reunião que ambos, Rutte e Trump consideraram muito satisfatória, terá lembrado que a Gronelândia não é Europa mas é NATO e que as garantias que a Dinamarca não pode garantir após a independência, podiam ser substituídas por um acordo que concedesse o estatuto de extraterritorialidade às bases a instalar, não ficando claro se houve algum acordo em que essas bases ou algumas delas, fiquem sob responsabilidade da NATO e não directamente dos EUA.  Foi por isso que Trump "recuou" porque poderia haver alternativa assegurando o que estava disposto a obter, nem que fosse pela força, como disse (Trump deve ser avaliado pelo que faz e, sempre que possível, sem ouvir o que diz). Ainda é cedo para saber o que e como vai decorrer mas estou absolutamente convicto que Trump ou quem o seguir na presidência, não vai abrir mão de uma solução na Gronelândia que satisfaça com segurança política, os interesses de segurança americanos.               João Diogo > Paulo Luis da Silva: Excelente análise.

 

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