Vamos vivendo e envelhecendo, suponho que de igual forma em que dantes
vivíamos, cada um segundo o seu parecer, resultado da sua própria educação,
sendo esta imprescindível para que se vão executando as opções da vida, com o
entusiasmo ou a apatia inerentes a cada um. É certo que não sei bem o que seja
a tal inteligência artificial que assim bate à porta dos nossos egoísmos, mas
desejo que essa tal não transforme os homens em seres apáticos e puramente
narcísicos que considerem poeticamente – puerilmente, se tomado à letra (com
perdão para o grande poeta João de Deus, que o escreveu – que
A vida é o dia de hoje
A vida é ai que mal soa
A vida é sombra que foge
A vida é nuvem que voa
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai
A vida dura um momento
Mais leve que o pensamento
A vida é folha que cai.
….
A vida o vento a levou…
Dentro das diferenças que especificam os humanos, o certo é que muito de comum os guia, e a procriação
e a necessidade de sobrevivência os moverá sempre – com maior ou menor ambição ou entusiasmo. Julgo que o homem não vai
querer destituir-se da sua própria inteligência para se instalar comodamente nessa
tal “inteligência artificial”, assustadora no que significa de dispensadora da
inteligência natural? Não julgo possível tal morte à vida.
Um mundo novo que nos bate à porta
A forma como se fala, com excitação, da inteligência artificial acrescenta às grades do silêncio que nos apertam um mundo onde a produtividade se tornará ainda maior, com menos custos e menos pessoas.
EDUARDO SÁ, Psicólogo
OBSERVADOR, 08 fev. 2026, 17:252
Não, não são os adolescentes que são agitados e hiperactivos e que têm
saltos de humor que, por vezes, fazem com que pareçam bipolares. Que são ora
irritáveis ora impulsivos. Ou desatentos, alheios em relação a quase tudo o que
se passa fora do seu pequeno mundo ou tolhidos entre défices de atenção e
dificuldades de concentração. Centrados
neles próprios ou, mesmo, egoístas e narcísicos. Que procrastinam ou que parecem ter dentro de si uma imensa falta de
compromisso. Que se centram nos resultados mesmo que muito pouco neles
represente aprendizagem ou sabedoria. Essas características que, amiúde,
lhes atribuímos caracterizam-nos a nós! Que vivemos entre a
necessidade de cumprir objectivos e de aumentarmos — mais e mais e mais — a
produtividade, como se mais lucro fosse maior crescimento, mais autonomia e
melhor qualidade de vida. Sem
tempo para termos com ela uma relação de entusiasmo ou uma paz deliciosa como
se cada dia fosse um fim de semana. Hipotecando
relações, sonhos e esperança. Renunciando à vida em função dos objectivos que
nos pespegam à frente para que outros ganhem sempre mais com os nossos
sacrifícios. E criando todos os obstáculos e mais alguns para que
nunca nos perguntemos até que ponto a nossa vida se faz em direcção à
prosperidade. Ou se mais trabalho nos trará mais liberdade.
A forma como se estrutura o trabalho e se organiza a economia contribui
para uma ordem social e para uma ideia de progresso que nos transformam em
mercadorias e nos fazem mal. Por mais que pareça um slogan, ter e ser
podem desequilibrar-se, mutuamente. Quanto mais entrarmos, de forma febril, na volúpia dos aumentos de
produtividade que nos impõem, mais engolidos somos por uma engrenagem que
enaltece o silêncio, o esforço e o cansaço. E mais a nossa mente se
deixa industrializar, como se perdesse autonomia e singularidade e se tornasse
numa pequena peça duma engrenagem que, obviamente, serve para que a sua
utilidade para pensar pareça supérflua. Mais
o conforto parece aconchegar-se na distracção. Mais se elogia o controlo e a
calma, como se as pessoas fossem tanto mais fortes quanto mais indiferentes se
tornassem. Ou como se aquilo a
que, perversamente, se chama saúde mental fosse uma forma de domesticar — para,
depois, se recusar — o que se sente e tudo o mais que se imagina, como se o
futuro saudável da mente humana fosse o vazio.
Acresce que a forma como,
hoje, se fala, com excitação, da inteligência
artificial acrescenta
às grades do silêncio que nos apertam um mundo onde a produtividade se tornará
ainda maior, com menos custos e menos pessoas, e onde a necessidade de pensar
vai sendo substituída por recursos digitais que, supostamente, pensam por nós (enquanto
vamos ficando, aos bocadinhos, mais estúpidos). E que parecem eleger como desperdícios o conflito e o contraditório que
trazem luz ao nosso pensamento.
Às vezes, parece que fomos
todos educados para o medo. E para sermos pequeninos. Submissos
e obedientes. Mais
competentes para repetir do que para interpelar, perguntar ou duvidar.
Dantes, porque os pais e a escola supunham que o medo seria amigo da educação.
Agora, quando os pais acham que os seus filhos podem ser quase tudo, porque o
medo de não estarem à altura dos seus sonhos, o reconhecimento de não serem tão
bons como todos imaginam, ou a forma como crescem num mundo que não lhes
permite a autonomia antes dos 30, enquanto os deixa cercados de crises — demográfica, económica, da segurança social, do
ambiente e dos valores humanos — e controlados por
algoritmos e pela corrupção da boa educação, acaba por fazer o resto. Esquecendo-se quem nos quer pequeninos
que a insubmissão humana faz com que o mundo pule, se reinvente e avance.
O desafio (enorme!) que
temos em mãos será, não perdendo nada do bom que conquistámos, inventar um
mundo muito mais amigo das pessoas. É pouco — é, mesmo, muito pouco — que a intervenção cívica que a ordem social em que vivemos nos solicita —
mais centrada no consumo e no mercado do que nos recursos humanos ou na
transformação e na mudança, como se tanta gente que tem os mesmos
comportamentos da mesma maneira não pudesse estar democraticamente equivocada
— se resuma à forma como pagamos o Estado e lhe damos o nosso voto,
enquanto a nossa voz se cala. Como podem as pessoas, vivendo no medo, ser
atentas e empáticas? Como pode a prosperidade existir à margem dos valores da
humanidade? Como se pode viver desafogado numa vertigem, permanente, de
burnout? Como podem as pessoas estar
cada vez mais perto da solidão e, ao mesmo tempo, ser mais felizes, fazendo da
consciência com que pensam vistas largas? Por mais que não pareça, quanto mais
nos apertam mais nos libertam. Sendo assim, talvez estejamos mais
perto dum mundo novo que nos bate à porta.
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