Racionalidade do ser humano, no seu
espírito de entreajuda. Mas o vento, lá fora, é aterrador, ouvido de casa,
quanto mais sentido fora dela! Felizmente que os automóveis, hoje, são nossos
bons companheiros, além de outros meios de transporte prestáveis, e,
naturalmente o são os que os transportam. Lembro a minha infância na aldeia, as
telhas das casas que se partiam, deixando entrar a água, os baldes e as panelas
postos no chão da cozinha, por onde a água caía, a sala e os quartos mais eficientemente
resguardados … Mas este uivar do vento assusta, e não seduz, embora traga recordações
suaves de tempos vividos na aldeia...
Ainda a recuperar da Kristin, Alcácer do
Sal assiste às maiores cheias de que há memória, que superam o que era
"expectável"
Mais de 50
pessoas foram retiradas de casa na noite de quarta e botes da Marinha circulam
em missões de patrulhamento. Nas ruas lembram-se fotos e relatos das cheias de 1963, antes das barragens.
OBSERVADOR, 05 fev. 2026, 02:22
Os relatos, as fotografias e a memória das cheias de
1963
A subida inesperada das águas que pode obrigar a realojar
pessoas pela segunda vez
O levantamento porta a porta e as missões de
patrulhamento noite fora
Na rotunda antes da ponte
metálica na baixa de Alcácer do Sal estão estacionados três
barcos. São botes de borracha
disponibilizados pela Marinha para as autoridades circularem na parte baixa da
localidade, completamente inundada, em missões de patrulhamento para retirar
pessoas de casa nestas zonas. Ao final da noite desta quarta-feira,
as autoridades retiraram pelo menos duas famílias, incluindo uma com duas
crianças, cuja operação foi dificultada pela força do caudal do rio Sado.
Porém, ao todo, ao longo desta quarta-feira, foram retiradas mais de 50
pessoas, avançou António Grilo, vereador da proteção Civil da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, ao
Observador. Muitas outras já tinham abandonado as
casas no início da semana, depois dos alertas da autarquia nesse sentido. Mas
o Sado não tomou conta desta localidade apenas na noite de quarta-feira.
Primeiro, o rio transbordou com a tempestade Kristin, alagou o comércio e
encheu as ruas. Ao Observador, na segunda-feira, os moradores
diziam acreditar que “nada poderá ser
pior”.
▲ A água
tomou conta das ruas paralelas ao rio AFP
via Getty Images
Índice
Os relatos,
as fotografias e a memória das cheias de 1963
A subida
inesperada das águas que pode obrigar a realojar pessoas pela segunda vez
O
levantamento porta a porta e as missões de patrulhamento noite fora
Os relatos, as fotografias e a
memória das cheias de 1963
A poucos metros de distância dos
botes da Marinha, Anastácio e José Filipe discutem memórias das cheias.
Anastácio nasceu e cresceu em Lisboa e mudou-se para Alcácer do Sal há 3o anos.
Nesse período, nunca viu nada assim. José
Filipe também nunca viu com os próprios olhos, mas garante que já aconteceu.
“Em 1963 não era nascido, mas vi
as fotografias lá em casa”, relata o natural do concelho de Setúbal.
Outros homens juntam-se à conversa e fazem contas à memória: lembram outros
eventos de cheias, com destaque para umas a meio da década de 1980. Numa terra construída à beira do estuário da Sado,
inundações e cheias não são um tema desconhecido.
No entanto, as cheias desta quarta-feira são, ainda assim, inéditas,
pois são as primeiras grandes cheias do século XXI, depois de a zona baixa da
cidade ter sido reconfigurada, argumentam. O vereador António Grilo destaca
outra diferença. “Há relatos
de nos anos 60 do século passado ter havido aqui uma cheia enorme, mas numa
altura em que as barragens não eram controladas e teoricamente, nesta
altura, devia haver um controlo diferente”, destaca.
Badina tinha 11 anos em 1963.
Nova demais para se lembrar bem dessas
cheias com clareza, mas crescida o suficiente para ter a certeza que a água
chegou mais longe. Numa rua paralela ao rio, debruça-se à janela de
casa. Ficou sem luz pouco antes das 22h desta quarta-feira — como o resto da
rua, já tinha ficado brevemente sem electricidade por volta das 19h — e
aproveita para ver a agitação pouco característica na rua onde mora há 47 anos.
"Começámos
a ter informação não favorável por volta das 7 da manhã, equacionávamos um
cenário muito desfavorável mas não este cenário, [que] é efectivamente muito
acima daquilo que seria expectável."
António
Grilo, vereador da Protecção Civil de Alcácer do Sal
Índice
Os relatos, as fotografias e a memória das cheias de
1963
A subida inesperada das águas que pode obrigar a
realojar pessoas pela segunda vez
O levantamento porta a porta e as missões de
patrulhamento noite fora
Um grupo de pessoas circula com uma carrinha de caixa aberta onde
coloca arcas frigoríficas, que tentam salvar da água que não esperavam que
subisse tanto. Outro grupo coloca lonas e sacos de areia na soleira das portas,
num frenesim animado, apesar da chuva que não pára de cair. Do outro lado da
rua, o lado mais próximo do rio, ouve-se uma pergunta dirigida a Badina: “Acha que chega aí, vizinha?”. Se
chegar, as cheias desta quarta-feira tornam-se as maiores de que há registo
entre os habitantes.
A
subida inesperada das águas que pode obrigar a realojar pessoas pela segunda
vez.
Na verdade, Beatriz, a voz que
interpelou Badina, não é sua vizinha. A jovem de 21 anos está alojada num hotel
na mesma rua com o marido, a cunhada e o sobrinho pequeno depois de a sua casa,
do outro lado da Avenida dos Aviadores, ter ficado inundada. Mas a família já está no hotel há mais
tempo. Saíram de casa há quase uma semana, depois de as autoridades terem
deixado os primeiros apelos à evacuação das zonas baixas e têm regressado a
casa regularmente para retirar alguns bens.
A última vez que foi a casa foi na quarta-feira, por volta das 14h. “A água estava pelos joelhos”, mas conseguiu
salvar a maior parte dos bens e até o animal de estimação da família,
relata ao OBSERVADOR. No mesmo hotel
estão pelo menos outras duas famílias realojadas com quem tem falado. Uma delas
não teve a mesma sorte e perdeu quase tudo nas cheias, tal como aconteceu com a
maior parte dos estabelecimentos comerciais na zona. Em poucos
dias, foram criadas angariações de fundos para ajudar estes negócios, os
primeiros a sofrer com as cheias, partilha Beatriz, impressionada com a
solidariedade.
Agora, teme que o rio a obrigue a
mudar-se uma segunda vez. “Temos um guarda-chuva lá atrás que utilizamos como
referência e dá para ver a água a subir”, explica. Caso as autoridades
aconselhem os moradores a abandonar a rua, Beatriz irá para casa dos avós.
António Grilo admite que essa é uma possibilidade. Para aqueles que não
tiverem casas de familiares ou amigos onde ficar, a autarquia organizou o seu
acolhimento no edifício da Santa Casa da Misericórdia de Alcácer do Sal,
detalha.
▲ Há
quase uma semana que a Avenida dos Aviadores está tomada pelo Sado RUI
MINDERICO/LUSA
Índice
Os relatos, as fotografias e a memória das cheias de
1963
A subida inesperada das águas que pode obrigar a
realojar pessoas pela segunda vez
O levantamento porta a porta e as missões de
patrulhamento noite fora
“Começámos
a ter informação não favorável por volta das 7 da manhã, equacionávamos um
cenário muito desfavorável mas não este cenário, [que] é efectivamente
muito acima daquilo que seria expectável“, relata. Apesar de a noite
desta quarta-feira ter sido de maré vazia, a água não recuou. Pelo contrário, a
chuva foi de tal forma intensa que a água continuou a subir ao longo dessas
horas.
O levantamento porta a porta e
as missões de patrulhamento noite fora
A bordo do bote seguem alguns
bombeiros, membros da protecção civil, da Marinha e funcionários dos serviços
de acção social da Câmara Municipal. Seguem também três adultos e duas
crianças, que contactaram as autoridades a pedir ajuda para sair de casa. Quase
a chegar a “terra”, o barco fica preso na corrente. Várias pessoas que
esperavam na margem entram na água, quase até à cintura, para ajuda os
tripulantes na recta final do percurso.
O vaivém de barcos
repetiu-se toda a noite, em missões de patrulhamento pelas ruas — mesmo que os
barcos regressem sem mais pessoas a bordo do que quando partiram. “Estamos a tentar tirar pessoas, que nos
solicitam que sejam retiradas das suas casas, uma vez que optaram por ficar
inicialmente. Nós tínhamos aqui uma referência, porque fizemos um levantamento
porta a porta com todos os nossos técnicos, avisámos as pessoas,
solicitámos que, se pudessem, fossem para a casa de familiares”,
elaborou.
Beatriz foi uma das pessoas que
respondeu ao primeiro apelo feito pelas autoridades e saiu de casa ainda antes
de a água lhe bater à porta. E elogia o trabalho que tem sido feito, do
contacto directo com a população e da prevenção às actualizações frequentes e
aos pontos de situação feitos nas redes sociais. Os elogios fazem eco pelas ruas da
freguesia de Santiago, a freguesia “mais afectada” pelas cheias,
segundo o presidente da junta, Duarte Dimas.
“Nunca
houve um executivo como este”, elogia Badina, que acrescenta que a
presença constante das autoridades a reconforta e a acalma.
Porém, mesmo esta presença e a solidariedade que despontou entre os salacianos,
não é suficiente para resolver todos os problemas. Ao fundo da rua, a água impede o acesso às duas únicas farmácias da
localidade. Para obter medicação, é preciso sair de Alcácer do Sal, entrar na
autoestrada e ir a Grândola, uma viagem de cerca de 20 minutos para cada lado —
os restantes acessos entre as duas localidades estão intransitáveis. O trajecto
é mais desafiante para aqueles que precisam de medicações urgentes.
Além das farmácias, também as escolas
do conselho não irão abrir portas até à próxima semana. Ainda
assim, uma outra preocupação ocupa mais espaço aos políticos locais ouvidos
pelo Observador: “As populações
isoladas e envelhecidas” nas aldeias à volta de Alcácer do Sal. “Algumas localidades já estão isoladas e
temos estado a fazer um acompanhamento telefónico com entidades que estão no
local”, afirma ANTÓNIO GRILO.
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