Estes textos de PATRÍCIA
FERNANDES, ricos de referência mitológica, que tanto fez – nos faz ainda – deliciarmo-nos
com tais referências, que vieram dos tempos, como prova do legado humano de
justificação do mundo.
O
legado do Ocidente
Nestas décadas e com os excessos do estado social, fomo-nos
esquecendo de que o papel do Estado dificilmente se justifica com financiamento
de restaurantes ou promoção de projectos políticos duvidosos.
PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola
de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 02 fev. 2026, 00:173
1As paixões dos homens
Talvez tenha sido Hollywood a
fazer-nos perder o sentido mais antigo da palavra paixão. Associada hoje a amor e
felicidade
(como se a finalidade da vida fosse estar em constante estado de paixão), estar
apaixonado significa, na verdade, estar em sofrimento. Do
latim passio (-onis), paixão
significa a acção de sofrer ou suportar (e daí falarmos da Paixão de Cristo), contendo também a ideia de estarmos sujeitos aos
desejos do corpo e de nos tornarmos, nessa medida, incapazes de tomar decisões
calmas e reflectidas.
É esse sentido da palavra que encontramos na Ilíada e na Odisseia sobre as paixões que subjugam tanto os
homens como os deuses. A primeira começa com a palavra “cólera” (a de Aquiles); a segunda com a palavra “homem” (Odisseu ou Ulisses) que
se encontra na condição de sofredor. Aquiles, sujeito à cólera, atrai a si o terrível sofrimento pela morte de Pátroclo e a sua própria morte; Odisseu, sujeitando-se tantas vezes a paixões e curiosidades, atrai um
caminho de provações.
E que paixões são essas que movem os
homens e os deuses e fazem mover a história? O
anseio de glória e reconhecimento, claro; mas também o ciúme, a
inveja, o ressentimento, a ofensa; e a paixão que quase sempre é
despertada por todas as outras: o desejo de vingança. É o desejo de
vingança que move os gregos contra os troianos, para
vingar o rapto de Helena. É o
desejo de vingança que move Aquiles
contra Heitor.
E é o medo da vingança que move Neoptólemo, filho de Aquiles, contra o pequeno Escamândrio, ou Astíanax, filho de Heitor e Andrómeda.
De acordo com o código moral da
altura, caberia a Astíanax
vingar a morte de seu pai e é por isso que, de acordo com a versão mais
popular, Neoptólemo atira a criança
das muralhas de Troia: estava, preventivamente, a defender a sua vida. E é de acordo com a convenção de que os filhos devem
vingar a morte dos pais que Orestes, filho de Agamémnon e Clitemnestra,
regressa a Micenas para matar Egisto e a própria mãe:
“Mataste quem não devias: sofre agora
o que não devias sofrer.”
2As Erínias
Apesar de motivados pela mesma
paixão de vingança, o crime de Clitemnestra (de
que falámos aqui) e os crimes de Orestes não apresentam a mesma gravidade. O segundo é um crime contra o próprio sangue e é essa particularidade que desperta a
fúria das Erínias, e que Apolo descreve deste modo:
“velhas
filhas do mundo primitivo, de quem não se aproximam deuses, homens ou feras. Nasceram
para o mal, visto que habitam as trevas do mal e o Tártaro subterrâneo, detestadas pelos homens e pelos deuses do
Olimpo.”
Representadas, por regra, como três mulheres negras e aladas com
serpentes enroscadas nas cabeças (Alecto, Megera e Tisífone), não são, certamente, as figuras mais
populares e charmosas da mitologia grega. Afinal, nasceram do solo ensopado com o sangue de Urano, mutilado
pelo filho Cronos, pai de Zeus, e como criaturas ctónicas são anteriores aos deuses do
Olimpo e por isso não subjugadas a eles.
Mas desempenham um papel fundamental
de protectoras da ordem do mundo contra todo o tipo de excessos que ponham em
causa a ordem religiosa e cívica da sociedade grega. Personificando a vingança, perseguem e enlouquecem
aqueles que cometem crimes, em especial contra o próprio sangue. E não é, por
isso, surpreendente que tenham surgido a Orestes, atormentando-o
pela morte da mãe.
William-Adolphe Bouguereau, Orestes Pursued by the Furies (1862)
Ésquilo,
na sua Oresteia, como Orestes recebeu de Apolo a profecia de que
deveria vingar a morte do pai, o castigo das Erínias desafiaria a ordem de um
dos deuses do Olimpo. A Oresteia seria,
assim, sobre Justiça, mas em particular sobre a oposição
entre os deuses antigos (da velha ordem) e os novos deuses (do Olimpo), conflito que seria vencido pelos últimos, numa espécie
de continuação do trabalho dos heróis gregos que foram eliminando os seres
monstruosos e tornando o mundo mais seguro para Zeus e para os homens.
No entanto, a obra-prima de Ésquilo
vai para além disso. Ela explica os fundamentos da nossa civilização, e Atena
será fundamental para esse momento.
O legado de Orestes
Comecemos com uma breve nota
biográfica sobre Atena. Ela nasce directamente da cabeça de Zeus (as
razões para tal não cabem aqui), que
pede a Hefesto, no momento do nascimento, que lhe abra a
cabeça com um machado: da fenda surge Atena, já adulta e
armada, soltando um terrível grito de guerra. É, nessa medida, não só a deusa da guerra, mas sobretudo a deusa da sabedoria e da razão. É a deusa argumentativa por
excelência, aquela que prefere a discussão racional em detrimento da violência
das paixões.
Por essa razão, quando Orestes procura Atena como
suplicante e a deusa Atena ouve os argumentos das partes – de um lado, as Fúrias que querem castigar o matricida; do
outro, Apolo que profetizou a
vingança do filho de Agamémnon –, a deusa terá dito a Zeus
(sugere Stephen
Fry):
“Não
terá chegado o tempo? (…) Tempo de deixar os mortais resolverem os seus
problemas. À
parte outras considerações, vê como eles… bem, vê como se reproduzem. De início, eram poucos, e isso permitia-nos prestar atenção a cada
um deles. Conseguíamos submetê-los às nossas leis e à nossa vontade. Mas agora
são tantos. Constroem as suas cidades e praticam o comércio entre eles. Repara
naquilo em que a minha Atenas se transformou. (…) Não estou
a sugerir que [Orestes] fique impune, pai. Estou a sugerir que seja julgado.”
Talvez seja este o culminar
da separação que já invoquei num outro texto: o momento em que os deuses do Olimpo
se afastam dos homens e deixam de intervir no mundo, até se perderem nas brumas
da memória.
O local que Atena escolhe para o
julgamento de Orestes (templo dedicado a Ares) ficará O momento marcante seria este em que entregam o poder e o direito de
fazer justiça usando um
tribunal, onde as partes podem apresentar os seus
argumentos e os juízes deliberar com imparcialidade. O conhecido Areópago, uma instituição ateniense tão antiga que
precedeu o regime democrático e continuou para além dele, como se comprova pelo
facto de São Paulo ter lá falado aos atenienses na sua passagem por
Atenas (Atos 17). Foi, nessa medida, continuamente
invocado como espaço de liberdade de expressão (pensemos na obra
de John Milton).
Devemos a Ésquilo, ao
destacar o papel da sua cidade na criação de uma instituição divinamente
inspirada, ter tornado evidente o legado do Ocidente: a
instituição de um tribunal como o início da ordem da Polis pode ser assim
entendida como o início da passagem do Mythos para o Logos, que
culminará com o nascimento da Filosofia, e que se caracteriza pela convenção
humana de abandonar as paixões que perpetuam a violência e criar instituições
racionais. A
história de Orestes e do Areópago é um legado dos gregos, a quem muito devemos,
claro, mas é fundamentalmente um legado do Ocidente. Convém não o esquecer.
É também esta herança de racionalidade e justiça imparcial
que o filósofo John Locke recupera com o seu contratualismo no século XVII. A
legitimidade do Estado estaria directamente ligada à segurança pública e à
estabilidade jurídica, oferecendo instituições de mediação que substituíssem a justiça “pelas próprias mãos”. Mas, ao
longo das últimas décadas e com os
excessos do estado social, fomo-nos esquecendo de que o papel do Estado dificilmente se justifica com o financiamento de
restaurantes ou a promoção de projectos políticos duvidosos. A sua
função primeira é a de garantir paz e segurança, mas também a de garantir
resposta em caso de calamidade: se o Estado não serve para isso, serve para
quê?
OCIDENTE MUNDO ESTADO POLÍTICA
COMENTÁRIOS
Ana Luís da Silva: Excelente o último
parágrafo! Garantir paz e segurança e intervir de forma eficaz em caso da
calamidade seria a primacial razão de ser do Estado como aqui bem sublinha Patrícia Fernandes… mas foi enterrada
sob a conveniência de uma classe política rendida a outros objectivos, dos
ideais de uma Esquerda desconstrutiva, aos interesses particulares dos do
seu feudo.
Rui Lima: Os Estados ocidentais,
presos a um Estado social orientado para a caça ao voto, esquecem muitas vezes
a sua missão essencial, garantir a liberdade individual para que cada
cidadão possa prosperar. A Suécia foi pioneira
nessa visão. No século XVIII, Anders Chydenius defendeu a liberdade de comércio e de
iniciativa individual, mostrando que a riqueza colectiva nasce da liberdade,
não do controlo estatal. A missão do Estado
deve ser simples, defender os cidadãos e as suas liberdades, não
substituir a responsabilidade individual nem interferir excessivamente na vida
dos outros.
Maria Helena Oliveira: Brilhante como sempre.
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