segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Um prazer sempre


Estes textos de PATRÍCIA FERNANDES, ricos de referência mitológica, que tanto fez – nos faz ainda – deliciarmo-nos com tais referências, que vieram dos tempos, como prova do legado humano de justificação do mundo.

O legado do Ocidente

Nestas décadas e com os excessos do estado social, fomo-nos esquecendo de que o papel do Estado dificilmente se justifica com financiamento de restaurantes ou promoção de projectos políticos duvidosos.

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 02 fev. 2026, 00:173

1As paixões dos homens

Talvez tenha sido Hollywood a fazer-nos perder o sentido mais antigo da palavra paixão. Associada hoje a amor e felicidade (como se a finalidade da vida fosse estar em constante estado de paixão), estar apaixonado significa, na verdade, estar em sofrimento. Do latim passio (-onis), paixão significa a acção de sofrer ou suportar (e daí falarmos da Paixão de Cristo), contendo também a ideia de estarmos sujeitos aos desejos do corpo e de nos tornarmos, nessa medida, incapazes de tomar decisões calmas e reflectidas.

É esse sentido da palavra que encontramos na Ilíada e na Odisseia sobre as paixões que subjugam tanto os homens como os deuses. A primeira começa com a palavracólera” (a de Aquiles); a segunda com a palavra “homem” (Odisseu ou Ulisses) que se encontra na condição de sofredor. Aquiles, sujeito à cólera, atrai a si o terrível sofrimento pela morte de Pátroclo e a sua própria morte; Odisseu, sujeitando-se tantas vezes a paixões e curiosidades, atrai um caminho de provações.

E que paixões são essas que movem os homens e os deuses e fazem mover a história? O anseio de glória e reconhecimento, claro; mas também o ciúme, a inveja, o ressentimento, a ofensa; e a paixão que quase sempre é despertada por todas as outras: o desejo de vingança. É o desejo de vingança que move os gregos contra os troianos, para vingar o rapto de Helena. É o desejo de vingança que move Aquiles contra Heitor. E é o medo da vingança que move Neoptólemo, filho de Aquiles, contra o pequeno Escamândrio, ou Astíanax, filho de Heitor e Andrómeda.

De acordo com o código moral da altura, caberia a Astíanax vingar a morte de seu pai e é por isso que, de acordo com a versão mais popular, Neoptólemo atira a criança das muralhas de Troia: estava, preventivamente, a defender a sua vida. E é de acordo com a convenção de que os filhos devem vingar a morte dos pais que Orestes, filho de Agamémnon e Clitemnestra, regressa a Micenas para matar Egisto e a própria mãe:

“Mataste quem não devias: sofre agora o que não devias sofrer.”

2As Erínias

Apesar de motivados pela mesma paixão de vingança, o crime de Clitemnestra (de que falámos aqui) e os crimes de Orestes não apresentam a mesma gravidade. O segundo é um crime contra o próprio sangue e é essa particularidade que desperta a fúria das Erínias, e que Apolo descreve deste modo:

“velhas filhas do mundo primitivo, de quem não se aproximam deuses, homens ou feras. Nasceram para o mal, visto que habitam as trevas do mal e o Tártaro subterrâneo, detestadas pelos homens e pelos deuses do Olimpo.”

Representadas, por regra, como três mulheres negras e aladas com serpentes enroscadas nas cabeças (Alecto, Megera e Tisífone), não são, certamente, as figuras mais populares e charmosas da mitologia grega. Afinal, nasceram do solo ensopado com o sangue de Urano, mutilado pelo filho Cronos, pai de Zeus, e como criaturas ctónicas são anteriores aos deuses do Olimpo e por isso não subjugadas a eles.

Mas desempenham um papel fundamental de protectoras da ordem do mundo contra todo o tipo de excessos que ponham em causa a ordem religiosa e cívica da sociedade grega. Personificando a vingança, perseguem e enlouquecem aqueles que cometem crimes, em especial contra o próprio sangue. E não é, por isso, surpreendente que tenham surgido a Orestes, atormentando-o pela morte da mãe.

William-Adolphe Bouguereau, Orestes Pursued by the Furies (1862)

Ésquilo, na sua Oresteia,   como Orestes recebeu de Apolo a profecia de que deveria vingar a morte do pai, o castigo das Erínias desafiaria a ordem de um dos deuses do Olimpo. A Oresteia seria, assim, sobre Justiça, mas em particular sobre a oposição entre os deuses antigos (da velha ordem) e os novos deuses (do Olimpo), conflito que seria vencido pelos últimos, numa espécie de continuação do trabalho dos heróis gregos que foram eliminando os seres monstruosos e tornando o mundo mais seguro para Zeus e para os homens.

No entanto, a obra-prima de Ésquilo vai para além disso. Ela explica os fundamentos da nossa civilização, e Atena será fundamental para esse momento.

O legado de Orestes

Comecemos com uma breve nota biográfica sobre Atena. Ela nasce directamente da cabeça de Zeus (as razões para tal não cabem aqui), que pede a Hefesto, no momento do nascimento, que lhe abra a cabeça com um machado: da fenda surge Atena, já adulta e armada, soltando um terrível grito de guerra. É, nessa medida, não só a deusa da guerra, mas sobretudo a deusa da sabedoria e da razão. É a deusa argumentativa por excelência, aquela que prefere a discussão racional em detrimento da violência das paixões.

Por essa razão, quando Orestes procura Atena como suplicante e a deusa Atena ouve os argumentos das partes – de um lado, as Fúrias que querem castigar o matricida; do outro, Apolo que profetizou a vingança do filho de Agamémnon –, a deusa terá dito a Zeus (sugere Stephen Fry):

 “Não terá chegado o tempo? (…) Tempo de deixar os mortais resolverem os seus problemas. À parte outras considerações, vê como eles… bem, vê como se reproduzem. De início, eram poucos, e isso permitia-nos prestar atenção a cada um deles. Conseguíamos submetê-los às nossas leis e à nossa vontade. Mas agora são tantos. Constroem as suas cidades e praticam o comércio entre eles. Repara naquilo em que a minha Atenas se transformou. (…) Não estou a sugerir que [Orestes] fique impune, pai. Estou a sugerir que seja julgado.”

Talvez seja este o culminar da separação que já invoquei num outro texto: o momento em que os deuses do Olimpo se afastam dos homens e deixam de intervir no mundo, até se perderem nas brumas da memória.

O local que Atena escolhe para o julgamento de Orestes (templo dedicado a Ares) ficará O momento marcante seria este em que entregam o poder e o direito de fazer justiça usando um tribunal, onde as partes podem apresentar os seus argumentos e os juízes deliberar com imparcialidade. O conhecido Areópago, uma instituição ateniense tão antiga que precedeu o regime democrático e continuou para além dele, como se comprova pelo facto de São Paulo ter lá falado aos atenienses na sua passagem por Atenas (Atos 17). Foi, nessa medida, continuamente invocado como espaço de liberdade de expressão (pensemos na obra de John Milton).

Devemos a Ésquilo, ao destacar o papel da sua cidade na criação de uma instituição divinamente inspirada, ter tornado evidente o legado do Ocidente: a instituição de um tribunal como o início da ordem da Polis pode ser assim entendida como o início da passagem do Mythos para o Logos, que culminará com o nascimento da Filosofia, e que se caracteriza pela convenção humana de abandonar as paixões que perpetuam a violência e criar instituições racionais. A história de Orestes e do Areópago é um legado dos gregos, a quem muito devemos, claro, mas é fundamentalmente um legado do Ocidente. Convém não o esquecer.

É também esta herança de racionalidade e justiça imparcial que o filósofo John Locke recupera com o seu contratualismo no século XVII. A legitimidade do Estado estaria directamente ligada à segurança pública e à estabilidade jurídica, oferecendo instituições de mediação que substituíssem a justiça “pelas próprias mãos”. Mas, ao longo das últimas décadas e com os excessos do estado social, fomo-nos esquecendo de que o papel do Estado dificilmente se justifica com o financiamento de restaurantes ou a promoção de projectos políticos duvidosos. A sua função primeira é a de garantir paz e segurança, mas também a de garantir resposta em caso de calamidade: se o Estado não serve para isso, serve para quê?

OCIDENTE       MUNDO       ESTADO       POLÍTICA

COMENTÁRIOS

Ana Luís da Silva: Excelente o último parágrafo! Garantir paz e segurança e intervir de forma eficaz em caso da calamidade seria a primacial razão de ser do Estado como aqui bem sublinha Patrícia Fernandes… mas foi enterrada sob a conveniência de uma classe política rendida a outros objectivos, dos ideais de uma Esquerda desconstrutiva, aos interesses particulares  dos do seu feudo.

Rui Lima: Os Estados ocidentais, presos a um Estado social orientado para a caça ao voto, esquecem muitas vezes a sua missão essencial, garantir a liberdade individual para que cada cidadão possa prosperar. A Suécia foi pioneira nessa visão. No século XVIII, Anders Chydenius defendeu a liberdade de comércio e de iniciativa individual, mostrando que a riqueza colectiva nasce da liberdade, não do controlo estatal. A missão do Estado deve ser simples,  defender os cidadãos e as suas liberdades, não substituir a responsabilidade individual nem interferir excessivamente na vida dos outros.

Maria Helena Oliveira: Brilhante como sempre.

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