sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Um estratega eficiente


Trump. Até, também, também aliado nosso.

Venezuela: o pós-Maduro e o interesse português

A reconstrução está em marcha. Infraestruturas, energia, serviços básicos e indústria exigem investimento e capacidade técnica. Portugal deve posicionar as suas empresas na linha da frente.

RUI VILAR Candidato a Vice-Presidente do Sport Lisboa e Benfica na lista B de Martim Mayer; Sócio do Benfica; Deputado à AR na XV Legislatura

OBSERVADOR, 11 fev. 2026, 00:181

 

No dia 3 de janeiro acordamos surpreendidos por uma operação militar cirúrgica em Caracas. Bombardeamentos estratégicos antecederam o anúncio de Donald Trump sobre a captura de Nicolás Maduro, confirmado pouco depois, pela sempre necessária nestes momentos, imagem do ex-presidente a bordo de um helicóptero americano. Nas primeiras horas a população manteve-se em casa, receosa de uma guerra civil. Surgiram algumas pequenas manifestações pró-Maduro, mas tudo permaneceu em suspenso à espera da conferência de imprensa anunciada por Trump para a tarde. Nesse discurso, o Presidente americano classificou a operação como “extraordinária” e anunciou que os Estados-Unidos assumiriam temporariamente o controlo da Venezuela para garantir uma transição “justa, correcta e equilibrada”. Falou ainda da entrada de empresas petrolíferas norte-americanas para reconstruir o sector e deixou claro que um segundo ataque não estava excluído. Sobre Delcy Rodríguez, foi directo: a sua permanência garantiria continuidade institucional e evitaria um vazio de poder, e que, caso esta não seguisse o rumo esperado, pagaria um preço elevado. Trump falou num segundo ataque preparado. Por outro lado, María Corina Machado foi afastada por “falta de apoio interno”. A mensagem era clara, Delcy Rodríguez assumia-se como a testa-de-ferro de Trump na Venezuela. As medidas tomadas nos dias seguintes, desde os acordos petrolíferos, à libertação de presos políticos, como a reabertura da embaixada americana em Caracas, provaram que estava a cumprir rigorosamente o “caderno de encargos” escrito por Washington.

Nos dias seguintes, assistimos a uma profusão de notícias e de análises, onde muitos ficaram com a impressão de que o objectivo principal dos americanos seria simplesmente “roubar” o petróleo venezuelano. Importa sublinhar que a realidade é diferente, os Estados Unidos procuram comprá-lo, através das empresas petrolíferas, e controlar o processo, garantindo que os recursos energéticos do país entram num quadro de gestão e investimento alinhado com os seus interesses estratégicos. No fundo, os americanos vão controlar o dinheiro do petróleo, sendo que as primeiras receitas não vão para Caracas, mas sim para contas nos Estados Unidos. O dinheiro será libertado apenas para os fins aprovados (pagamento de dívida, importação de alimentos/medicamentos e custos operacionais e de segurança da operação). É isso o “vamos ficar com o petróleo” de Trump, que serviu para sinalizar aos mercados que a intervenção era fundamentalmente para ficar com a maior reserva de petróleo do Mundo.

Para o leitor ter uma ideia, nos tempos de Chávez, a Venezuela produzia mais de 3,5 milhões de barris por dia, comprados em grande parte pelos Estados Unidos. Com Maduro, a produção caiu para cerca de 1 milhão de barris, grande parte vendida à China. É aqui que reside o interesse principal da actual manobra americana. O objectivo não é apenas controlar e comprar a produção venezuelana, afastando Pequim, mas também permitir que o país invista na recuperação e modernização do seu sector petrolífero, com vista a voltar aos níveis de produção dos tempos de Chávez e, se possível, superá-los. Os EUA mantêm assim uma base de operações na América do Sul, a “custo zero” para o tesouro americano, afastando rivais – China, Rússia – e ganhando uma moeda de troca para negociar com países como a Turquia e a Índia. Não se trata propriamente de um roubo, mas de controlo através da compra. Esse dinheiro servirá também para melhorar as condições de vida, reconstruir infraestruturas e permitir ao Estado venezuelano começar a pagar dívidas a empresas estrangeiras, muitas delas europeias, muitas delas portuguesas

E Portugal?

A comunidade portuguesa reagiu com a cautela exigida pelo momento. Da parte do Estado, a resposta foi positiva: o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Secretário de Estado das Comunidades asseguraram desde a primeira hora contactos permanentes e acompanhamento da segurança dos milhares de portugueses no país. Exemplo disso é que já existem presos políticos portugueses libertados. Esse trabalho continua a ser feito e merece reconhecimento. Mas a pergunta que se deve seguir é a seguinte: o que pode Portugal fazer mais? A resposta passa por explorar a oportunidade criada por esta nova fase. Até porque existem empresas portuguesas com dívidas avultadas por receber do Estado venezuelano. É essencial interceder junto das autoridades venezuelanas e dos interlocutores americanos para que parte das receitas do petróleo seja canalizada para o pagamento dessas verbas, injectando milhões de euros directamente na economia portuguesa.

Paralelamente, a reconstrução do país já está em marcha. Infraestruturas, energia, serviços básicos e indústria exigirão investimento e capacidade técnica. Portugal deve posicionar as suas empresas para estarem na linha da frente desse processo. Algumas já o estão a fazer, assinando acordos com os governos venezuelano e americano, com aprovação da OFAC, para participarem nesses projectos. A acrescentar, importa lembrar que existem contractos vigentes, mas que se encontram parados, que urgem ser restabelecidos.

Num contexto internacional cada vez mais instável, isto não é apenas uma questão de política externa ou de solidariedade com a comunidade emigrante. É também uma questão de interesse nacional. Saber proteger os nossos, mas também agir com pragmatismo quando surgem oportunidades. A Venezuela entrou numa nova fase. Cabe a Portugal decidir se a observa à distância ou se nela participa de forma activa e estratégica.

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COMENTÁRIO:

Ricardo Ferreira: Gosto especialmente da descrição do autor do artigo "sócio do Benfica". Isto realmente tornou-se um café...

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