Trump. Até, também, também aliado nosso.
Venezuela: o pós-Maduro e o interesse
português
A reconstrução está em marcha.
Infraestruturas, energia, serviços básicos e indústria exigem investimento e
capacidade técnica. Portugal deve posicionar as suas empresas na linha da
frente.
RUI VILAR Candidato a Vice-Presidente do
Sport Lisboa e Benfica na lista B de Martim Mayer; Sócio do Benfica; Deputado à AR
na XV Legislatura
OBSERVADOR, 11 fev. 2026, 00:181
No dia 3 de janeiro acordamos
surpreendidos por uma operação militar cirúrgica em Caracas. Bombardeamentos estratégicos antecederam o anúncio de
Donald Trump sobre a captura de Nicolás Maduro, confirmado pouco depois, pela
sempre necessária nestes momentos, imagem do ex-presidente a bordo de um
helicóptero americano. Nas primeiras horas a população manteve-se em
casa, receosa de uma guerra civil. Surgiram
algumas pequenas manifestações pró-Maduro, mas tudo permaneceu em suspenso à
espera da conferência de imprensa anunciada por Trump para a tarde. Nesse
discurso, o Presidente americano classificou a operação como “extraordinária” e
anunciou que os Estados-Unidos assumiriam temporariamente o controlo da
Venezuela para garantir uma transição “justa, correcta e equilibrada”. Falou ainda da entrada de empresas petrolíferas
norte-americanas para reconstruir o sector e deixou claro que um
segundo ataque não estava excluído. Sobre Delcy Rodríguez, foi directo:
a sua permanência garantiria continuidade institucional e evitaria um vazio
de poder, e que, caso esta não seguisse o rumo esperado, pagaria um preço
elevado. Trump
falou num segundo ataque preparado. Por outro lado, María Corina Machado foi
afastada por “falta de apoio interno”. A mensagem era clara, Delcy Rodríguez assumia-se como a testa-de-ferro de
Trump na Venezuela. As medidas tomadas nos dias seguintes, desde os
acordos petrolíferos, à libertação de presos políticos, como a reabertura da
embaixada americana em Caracas, provaram que estava a cumprir rigorosamente o
“caderno de encargos” escrito por Washington.
Nos
dias seguintes, assistimos a uma profusão de notícias e de análises, onde
muitos ficaram com a impressão de que o objectivo principal dos americanos
seria simplesmente “roubar” o petróleo venezuelano. Importa sublinhar
que a realidade é diferente, os Estados Unidos procuram comprá-lo, através das
empresas petrolíferas, e controlar o processo, garantindo que os recursos
energéticos do país entram num quadro de gestão e investimento alinhado com os
seus interesses estratégicos. No fundo,
os americanos vão controlar o dinheiro do petróleo, sendo que as primeiras receitas não vão para Caracas,
mas sim para contas nos Estados Unidos. O
dinheiro será libertado apenas para os fins aprovados (pagamento de dívida,
importação de alimentos/medicamentos e custos operacionais e de segurança da
operação). É isso o “vamos ficar com o petróleo” de
Trump, que serviu para sinalizar aos mercados que a intervenção era fundamentalmente para ficar com a maior reserva de
petróleo do Mundo.
Para o leitor ter uma ideia, nos
tempos de Chávez, a Venezuela produzia mais de 3,5 milhões de barris por dia,
comprados em grande parte pelos Estados Unidos. Com Maduro, a produção caiu para cerca de 1 milhão de
barris, grande parte vendida à China. É aqui que reside o interesse
principal da actual manobra americana. O
objectivo não é apenas controlar e comprar a produção venezuelana, afastando
Pequim, mas também permitir que o país invista na recuperação e modernização do
seu sector petrolífero, com vista a voltar aos níveis de produção dos tempos de
Chávez e, se possível, superá-los. Os
EUA mantêm assim uma base de operações na América do Sul, a “custo zero” para o
tesouro americano, afastando rivais – China,
Rússia – e ganhando uma moeda de troca para negociar com países
como a Turquia e
a Índia. Não se trata propriamente de um roubo, mas de controlo
através da compra. Esse
dinheiro servirá também para melhorar as condições de vida, reconstruir
infraestruturas e permitir ao Estado venezuelano começar a pagar dívidas a
empresas estrangeiras, muitas delas europeias, muitas delas portuguesas…
E Portugal?
A comunidade portuguesa reagiu com a
cautela exigida pelo momento. Da parte do Estado, a resposta foi positiva:
o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o
Secretário de Estado das Comunidades asseguraram desde a primeira hora
contactos permanentes e acompanhamento da segurança dos milhares de portugueses
no país. Exemplo disso é que já existem presos políticos portugueses libertados. Esse trabalho continua a ser feito e merece
reconhecimento. Mas a
pergunta que se deve seguir é a seguinte: o que pode Portugal fazer mais? A
resposta passa por explorar a oportunidade criada por esta nova fase. Até porque existem empresas portuguesas com dívidas
avultadas por receber do Estado venezuelano. É
essencial interceder junto das autoridades venezuelanas e dos interlocutores
americanos para que parte das receitas do petróleo seja canalizada para o
pagamento dessas verbas, injectando milhões de euros directamente na economia
portuguesa.
Paralelamente, a reconstrução do país
já está em marcha. Infraestruturas,
energia, serviços básicos e indústria exigirão investimento e capacidade
técnica. Portugal deve posicionar as suas empresas para estarem na linha da
frente desse processo. Algumas já
o estão a fazer, assinando acordos com os governos venezuelano e americano, com
aprovação da OFAC, para participarem nesses projectos. A acrescentar, importa
lembrar que existem contractos vigentes, mas que se encontram parados, que
urgem ser restabelecidos.
Num contexto internacional cada vez
mais instável, isto não é apenas uma questão de política externa ou de
solidariedade com a comunidade emigrante. É também uma questão de interesse
nacional. Saber proteger os nossos, mas também agir com pragmatismo quando
surgem oportunidades. A Venezuela entrou numa nova fase. Cabe a Portugal
decidir se a observa à distância ou se nela participa de forma activa e
estratégica.
VENEZUELA MUNDO EMPRESAS ECONOMIA
COMENTÁRIO:
Ricardo Ferreira: Gosto especialmente da descrição do autor do artigo
"sócio do Benfica". Isto realmente tornou-se um café...
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