Que também li, em tempos, que me impressionou, sim, por me fazer viver vidas distantes do meu viver banal de trabalhos e emoções sem história, e que a crónica do Sacerdote JOÃO BASTO veio relembrar, com os dados do seu saber e sensibilidade. São um prazer, estas breves sínteses analíticas, que nos fazem recordar leituras passadas no prazer delas, e dessas visualizações de mundos trazidos de outras distâncias que permitem a proximidade, mesmo imaginária, desses espaços e gentes. Daí, a importância do verbo “visualizar”, pela recriação dos escritores.
Complicar a Europa
Falar numa língua “estrangeira” permite dizer o que, noutra, soaria
excessivo, pesado ou comprometido. O amor, parece sugerir Mann, precisa de
distância para poder existir.
P. JOÃO BASTO, Sacerdote,
membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo
OBSERVADOR, 06 fev. 2026, 00:17
Há
momentos na literatura em que uma simples troca de palavras faz mais pela
compreensão da Europa do que tratados inteiros. Um
desses momentos encontra-se em A
Montanha Mágica, de THOMAS MANN, no célebre diálogo entre Hans Castorp e Clawdia Chauchat, iniciado
de forma quase banal – um pedido de lápis — e transformado num dos encontros
amorosos mais singulares do século XX. Duas semanas após o Fórum
Económico Internacional, decorrido em Davos, vale
a pena revistar outras paisagens que a mesma Davos já consentiu, ainda que no
plano da literatura.
Ora, em A Montanha Mágica,
o que está em jogo não é apenas o nascimento de um amor tardio, hesitante e
imperfeito. Mann usa o diálogo como laboratório
cultural. Quando Hans e Clawdia abandonam progressivamente o
alemão e passam a falar francês, algo mais profundo acontece: a língua da identidade, da disciplina e da introspecção
cede lugar à língua do desvio, da ironia e da sedução. Falar numa língua “estrangeira” permite
dizer o que, noutra, soaria excessivo, pesado ou comprometido. O amor,
parece sugerir Mann, precisa de distância para poder existir.
Este gesto formal, que leva o próprio
autor a escrever numa língua que não domina plenamente, é tudo menos decorativo. Ao deslocar o diálogo amoroso para um
território linguístico instável, Mann suspende certezas culturais e
psicológicas. O resultado é um
discurso amoroso que não se fecha, que oscila entre o sonho, o jogo e a
reflexão. Um parler sans
parler, como o próprio Hans o
define, onde a intimidade nasce precisamente da imperfeição.
Mas o eros,
em Mann, nunca é apenas privado. O
diálogo, em francês, entre um jovem alemão e uma mulher russa funciona também
como ironia política. As
identidades nacionais — tão rígidas, tão carregadas de destino no início do
século XX — tornam-se móveis, quase caricaturais. O desejo introduz
um “sadio desarranjo” nos esquemas culturais e geopolíticos, incluindo naqueles
que o próprio Mann havia defendido anos antes. O amor,
aqui, corrói fronteiras.
Esta lógica atravessa toda a obra tardia do escritor. Muitas vezes
acusado de trabalhar mais por “recorte e colagem” do que por invenção, Mann
revela nesses romances uma modernidade subtil: a
consciência de que toda a narrativa é construção, artifício, diálogo com textos
anteriores. (Que
seria, afinal, de Shakespeare ou Camões sem tudo isso?).
No
caso de A Montanha Mágica, no fim, Clawdia parte. O amor não se cumpre.
Fica apenas o lembrete: “Não se
esqueça de me devolver o lápis.” Mas esse objecto mínimo encerra tudo: a escrita, o desejo, a distância, a ironia. Em Thomas Mann, o amor não resolve —
complica. E é nessa complicação, elegante e inquieta, que reside
a sua duradoura modernidade.
LITERATURA CULTURA EUROPA MUNDO LÍNGUA
DA INTERNET:
Síntese de A MONTANHA MÁGICA:
«Tal
como em A Morte em Veneza, o protagonista de A Montanha Mágica empreende
uma viagem que acaba por o levar para fora do espaço e do tempo da existência
burguesa. Não por acaso, contrariando planos anteriores em que o romance abria
com a explanação da biografia de Hans, depois remetida para o segundo capítulo,
o primeiro capítulo centra-se na viagem e no primeiro momento de confronto com
o mundo fechado do
sanatório, o início do longo
percurso de iniciação que irá constituir o fulcro da narrativa. O herói do
romance, como surge repetidamente sublinhado, nada tem de excepcional, pelo
contrário, a própria mediania da personagem constitui uma forma de acentuar
de que modo ela representa paradigmaticamente a normalidade social. O fulcro do romance, está, justamente, no facto de
essa normalidade ser totalmente posta à prova e problematizada nos seus
fundamentos pelo confronto com o microcosmo do sanatório.»
Nenhum comentário:
Postar um comentário