sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Já Camões o descrevera:


Um daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando  - aplicável, de facto, hoje, a outros receptores, mas nos tempos actuais, de críticos bem instalados e conhecedores dos vícios – das virtudes também – genéricos, um desses com serventia para uma chefia da nação também se pode incluir entre os tais, pese embora  os diversos tipos de escrúpulos em o aceitar. Defeitos e qualidades, eis o que não falta a ninguém. Houvera outros concorrentes e outros dados surgiriam. Que sabemos nós? Dos dois candidatos – um, dos estardalhaços provocantes, outro, da seriedade – intencional? – qual interessa escolher? Que Deus nos valha, sempre, pobrezinhos que somos! Mas há mais quem nos possa valer… Por essa Europa fora, habituados que estamos, Virgem Santíssima!…

Virtudes ou regras?

Afinal, a pátria não é um enorme colégio interno, nem a democracia um passeio de virtudes; é um sistema de regras.

MARGARIDA BENTES PENEDO Arquitecta e deputada municipal

05 fev. 2026, 00:1620

Se, em lugar de eleitores e votos, o Presidente da República fosse escolhido pelos analistas dos jornais e televisões, ganhava “a decência” – contra a indecência, claro; ganhava “a democracia” – contra o risco de brutalidade e ditadura; ganhava “o coração” e “o humanismo” – contra o gelo da ambição racional. Tais proclamações fazem lembrar os romancistas de baixa qualidade que descrevem “a noite escura”, ou “o Inverno frio”, sem perceberem que não é notícia. A luz da noite só tem interesse literário se for clara, e o dia de Inverno se for quente. Dispensamos que os próceres do mundo mediático declarem a preferência deles pela virtude e a rejeição do vício. Proponho o seguinte: partamos do princípio de que todos queremos o melhor para o país, somos adultos e os candidatos à chefia do Estado devem ser escolhidos por critérios políticos. Afinal, a pátria não é um enorme colégio interno, nem a democracia um passeio de virtudes; é um sistema de regras.

Da mesma maneira, o Estado não é um tutor moral; é uma garantia de condições para a vida comum. E se não escolhemos um candidato pelas virtudes proclamadas, temos liberdade para escolher o critério político; a função presidencial assenta em limites constitucionais, em tradições e numa visão pessoal, que não tem de caber num fato exclusivamente protocolar. Cada Presidente pode escolher, como orientação geral do mandato ou em cada circunstância, o grau e o modo de intervir na vida pública. Essa intervenção não é arbitrária; ela depende da interpretação política do mandato constitucional. O Presidente da República não é um pai da nação. Ninguém espera que a eduque.

Se não é para educar a nação e se rejeitarmos olhar para os cidadãos como menores tutelados, qual é o propósito dos juízos morais? Se “a decência” de um país depende de um único indivíduo, então o próprio acto eleitoral perde sentido. Eis uma parte da irracionalidade que leva os analistas a diminuir os cidadãos e a desviar o debate do que verdadeiramente importa: o exercício do cargo. Dos limites constitucionais à tradição democrática, o tempo tornou legítimo o entendimento interventivo da Presidência. Como, de resto, confirmam as práticas dos anteriores titulares: todos os presidentes influenciaram a governação; basta ler as memórias deles ou os jornais da época.

André Ventura anunciou e explicou, durante a campanha, a maneira como entende o cargo. A intervenção que ele propõe tem a força desse compromisso prévio: não é dissimulada, escondida do público, praticada entre as intrigas dos corredores; é uma intervenção franca e aberta ao país. Tem a direcção política própria de quem olhou, interpretou, compreendeu e concluiu. Um pacto de responsabilidade que uma eleição pessoal e directa reforça com a claridade dos números. Aparentemente, André Ventura confia no escrutínio democrático ao ponto de submeter à aprovação do país as intenções mais discutíveis. É mais do que estamos habituados a esperar de um Presidente da República.

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COMENTÁRIOS (de 24):

José B Dias: Proponho o seguinte: partamos do princípio de que todos queremos o melhor para o país, somos adultos e os candidatos à chefia do Estado devem ser escolhidos por critérios políticos. Afinal, a pátria não é um enorme colégio interno, nem a democracia um passeio de virtudes; é um sistema de regras. E eu secundo esta proposta!               ana rita: O mais perigoso não é o assumido, mas o dissimulado que veste a máscara da moderação enquanto corrói a sociedade por dentro. Proponho o seguinte: partamos do princípio de que todos queremos o melhor para o país, somos adultos e os candidatos à chefia do Estado devem ser escolhidos por critérios políticos. Afinal, a pátria não é um enorme colégio interno, nem, a democracia,  um passeio de virtudes; é um sistema de regras. E eu secundo esta proposta!                     ana rita: O mais perigoso não é o assumido, mas o dissimulado que veste a máscara da moderação enquanto corrói a sociedade por dentro.   SDC Cruz: Cara Margarida Bentes Penedo, a sua crónica esta excepcional! Gostei particularmente da crítica à infantilização da democracia. Ao rejeitar a ideia do Presidente como “pai da nação” ou educador moral, defende uma concepção adulta do regime democrático: cidadãos responsáveis, escolhas políticas claras e escrutináveis, e um Estado que garante regras, não almas puras e singelas. Essa abordagem é refrescante num espaço público saturado de slogans edificantes e alarmismos vazios.  Mas a sua crónica ganha ainda mais força ao sublinhar que a intervenção presidencial não é um desvio, mas uma tradição legitimada pela prática democrática. Ao recordar que todos os Presidentes influenciaram a governação, desmonta-se a hipocrisia selectiva com que se condena hoje aquilo que ontem foi aceite — ou mesmo celebrado.  Por fim, o seu último parágrafo devia ser afixado à entrada de todas as redacções, a começar, aqui, no Observador. Reconhecer a clareza política de André Ventura, independentemente do juízo que se faça sobre ela, é um exercício de honestidade intelectual pouco comum. Valorizar a frontalidade, o compromisso assumido perante os eleitores e a submissão explícita ao escrutínio democrático é defender a democracia como ela deve ser: um confronto aberto de visões, não um concurso de boas intenções proclamadas.                      Maria Cordes: AV foi diabolizado até à quinta casa pelo sistema, pela comunicação social, amparada pelo sistema, e pelos decanos do sistema. Nada que não fosse esperado, embora a romaria dos últimos dias, possa ser encarada para um futuro study case. O seu programa é disruptivo. Os privilégios de uma casta, ou bolha seriam desmantelados. Verdade. Mas na base do fracasso está a incompetência. Quando surge um cv, abismamos, universidades de vão de escada, e cursos de papel e lápis, madrassas, isto não vai a lado nenhum. É o que temos e não há milagres. A faceta histriónica, também não lhe facilita a vida. Mas que razão, não lhe falta, é verdade. O rei vai nu, para mal dos nossos pecados.                   victor guerra: Mas a nova União Nacional, de interesses e confortos instalados, prefere a continuidade ...instalada                   Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!                      Joana S. Cardoso > Américo Silva: Atenção, que ninguém se engane : a eutanásia não é uma "morte assistida", é uma morte  PROVOCADA.                    Rosa Graça: Muito bem.                  Mario Figueiredo: Pois. Conversa da treta. Moralismos há dos dois lados. Deixe-se de lamúrias! O Chega não gosta de frouxos. Não fosse o André Ventura o campeão dos coitados contra as elites maldosas, o representante dos portugueses de bem, a vítima das más intenções dos outros e o grande paladino da decência.                       graça Dias: Caríssima Margarida Bentes Penedo:   Um artigo de excelência.  O subtítulo deste texto  com um pensamento analítico atento e bem estruturado, diz tudo sobre as muitas fragilidades e vícios instituídos na nossa democracia. Obrigada                   Paulo Almeida: Excelente texto a tocar no íntimo do acto eleitoral. Infelizmente muitos não reflectem sobre isto e preferem juntar-se à tribo dos "democratas" e dos "decentes". Ninguém quer ficar rotulado como mauzinho, mas a sociedade está cheia deles.                 Sandra Almeida > SDC Cruz: Se me permite, excelente comentário!       TM C: Certíssima. Vamos ver o Presidente que o povo vai escolher no domingo.                José Costa-Deitado: Texto certíssimo, lúcido, adulto e, sobretudo, politicamente honesto. Margarida Bentes Penedo desmonta com elegância essa velha tentação paternalista do comentariado: tratar a democracia como um internato moral e os eleitores como menores a precisar de lições de “decência”. A ideia é simples e profundamente democrática: o Estado não é um tutor moral, o Presidente não é um pai da Nação e as eleições não são concursos de boas maneiras. Escolhem-se projectos, leituras constitucionais e modos de exercer o cargo — não virtudes proclamadas em horário nobre. Gostando-se ou não dele, André Ventura teve o mérito raro de dizer ao que vinha e de submeter as suas intenções ao escrutínio directo dos cidadãos. Isso chama-se política. O resto é moralismo confortável — e profundamente antidemocrático. Proponho o seguinte: partamos do princípio de que todos queremos o melhor para o país, somos adultos e os candidatos à chefia do Estado devem ser escolhidos por critérios políticos. Afinal, a pátria não é um enorme colégio interno, nem a democracia um passeio de virtudes; é um sistema de regras. E eu secundo esta proposta                   ana rita: O mais perigoso não é o assumido, mas o dissimulado que veste a máscara da moderação enquanto corrói a sociedade por dentro.        Maria Cordes: AV foi diabolizado até à quinta casa pelo sistema, pela comunicação social, amparada pelo sistema, e pelos decanos do sistema. Nada que não fosse esperado, embora a romaria dos últimos dias, possa ser encarada para um futuro study case. O seu programa é disruptivo. Os privilégios de uma casta, ou bolha seriam desmantelados. Verdade. Mas na base do fracasso está a incompetência. Quando surge um cv, abismamos, universidades de vão de escada, e cursos de papel e lápis, madrassas, isto não vai a lado nenhum. É o que temos e não há milagres. A faceta histriónica, também não lhe facilita a vida. Mas que razão, não lhe falta, é verdade. O rei vai nu, para mal dos nossos pecados. ...  SDC Cruz: Cara Margarida Bentes Penedo, a sua crónica está excepcional! Gostei particularmente da crítica à infantilização da democracia. Ao rejeitar a ideia do Presidente como “pai da nação” ou educador moral, defende uma concepção adulta do regime democrático: cidadãos responsáveis, escolhas políticas claras e escrutináveis, e um Estado que garante regras, não almas puras e singelas. Essa abordagem é refrescante num espaço público saturado de slogans edificantes e alarmismos vMas a sua crónica ganha ainda mais força ao sublinhar que a intervenção presidencial não é um desvio, mas uma tradição legitimada pela prática democrática. Ao recordar que todos os Presidentes influenciaram a governação, desmonta-se a hipocrisia selectiva com que se condena hoje aquilo que ontem foi aceite — ou mesmo celebrado.  Por fim, o seu último parágrafo devia ser afixado à entrada de todas as redacções, a começar, aqui, no Observador. Reconhecer a clareza política de André Ventura, independentemente do juízo que se faça sobre ela, é um exercício de honestidade intelectual pouco comum. Valorizar a frontalidade, o compromisso assumido perante os eleitores e a submissão explícita ao escrutínio democrático é defender a democracia como ela deve ser: um confronto aberto de visões, não um concurso de boas intenções proclamadas….                      victor guerra: Mas a nova União Nacional, de interesses e confortos instalados, prefere a continuidade ...instalada                     Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!                 Rosa Graça: Muito bem.                     Mario Figueiredo: Pois. Conversa da treta. Moralismos há dos dois lados. Deixe-se de lamúrias! O Chega não gosta de frouxos. Não fosse o André Ventura o campeão dos coitados contra as elites maldosas, o representante dos portugueses de bem, a vitima das más intenções dos outros e o grande paladino da decência.                        Joana S. Cardoso > Américo Silva: Atenção, que ninguém se engane : a eutanásia não é uma "morte assistida", é uma morte  PROVOCADA.         TM C: Certíssima. Vamos ver que o povo vai escolher Presidente no domingo.

 

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