Que brinca com as certezas. Provindas estas do excesso de notícias e de
noticiários, por sua vez dependentes dos meios de comunicação de variado
formato e de variado modo interpretativo das realidades, tornando os homens –
as mulheres também, conquanto estas geralmente menos necessitadas – joguetes do
“diz-se”, o Pastor Oliveira Cavaco optando
decididamente pelo parecer próprio…
Todas as notícias são fake
De preferência
com menos horas passadas em frente aos ecrãs da internet e da televisão,
prefiro viver o risco de ser enganado do que adoptar a certeza de que a mim
ninguém me engana.
TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO Pastor
Baptista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 08 fev. 2026, 00:16
Talvez uma virtude da internet seja
fazer-nos desconfiar da televisão. É verdade que a internet está cheia de treta mas proporcionou-nos um
novo milénio em que a televisão perdeu o monopólio da verdade.
Em termos climáticos, aumentam as marés dos fact checks que funcionam em todos
os sentidos: a internet verifica a
televisão e a televisão verifica a internet. Para já não falar nos
jornais, isto no tempo em que o Washington Post tenta sobreviver.
Vivemos em dias de verificações
infinitas porque a informação não pára. Por outro lado, o fenómeno
manifesta-se de modos diferentes dependendo do nosso lugar no globo. Por exemplo, no ano passado Mirian
Goldenberg escrevia na Folha de São Paulo que o Brasil era o segundo país que
no mundo mais tempo gastava online e que era o número um a acreditar em fake
news.
Mas podemos acrescentar outro
ingrediente ainda que também cozinha nesta história de muita informação e
desinformação: a religião. Ainda no exemplo brasileiro, lia-se que os evangélicos eram o grupo que
mais partilhava fake news. Eu,
evangélico português, fiquei ainda mais interessado no tema. Será que é o
Brasil que aumenta a credulidade dos evangélicos ou os evangélicos que aumentam
a credulidade do Brasil?
E Portugal, será mais céptico e, por isso, menos dado a ser enganado
pela televisão ou pela internet ou mesmo por evangélicos? Serei eu
como evangélico um elemento desestabilizador da saudável cautela epistemológica
do meu país? Onde
estão as origens que tornam uns mais crédulos e susceptíveis a serem enganados
pelos caudais furiosos da informação neste milénio? Na geografia, na história,
na religião?
Parece-me razoável reconhecer que os
europeus gostam de se sentir mais cépticos. Está-nos no passado e infiltrou-se no sangue. Recordo a
ideia de Matthew Arnold em “Culture and Anarchy” (de 1869), afirmando que a cultura
europeia enfatizou a consciência moral e o dever que nos chegaram do Judaísmo,
mais do que a percepção estética dos gregos. É como se este se tivesse tornado o continente onde é mais grave não
ter uma noção bem objectiva da realidade. Logo,
acreditar custa mais aqui.
Mas antes que uns se sintam melhores por serem cépticos, recordo também
outro livro, esse sim, eventualmente o mais céptico de sempre. Curiosamente,
faz parte da Bíblia. O livro do Eclesiastes repete várias vezes: “não
há nada de novo debaixo do sol”. Nessa medida, o problema
não é que as news sejam fake. O problema é que o que é fake seja
news. Antes
da invenção da imprensa, o Velho Testamento já sabia que, de certo modo, todas
as novidades são mentirosas.
É como se houvesse uma
maturidade espiritual em sair de um circuito alimentado por novidades. Chega a
ser paradoxal escrever umas coisas destas num jornal, ainda que online. Søren Kierkegaard, o santo patrono dos protestantes
rezingões como eu, acusava a imprensa de ser “o princípio maligno do mundo
moderno”. Não quero terminar numa nota tão negativa:
de preferência com menos horas passadas em frente aos ecrãs da internet e da
televisão, prefiro viver o risco de ser enganado do que adoptar a
certeza de que a mim ninguém me engana.
COMUNICAÇÃO
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