O “Timeo
Danaos et dona ferentes”, (pronunciadas por um tal Lacoonte a respeito do
cavalo urdido pelos gregos que os anjinhos dos troianos levaram para dentro das
suas muralhas - mau grado o aviso do tal Lacoonte, sacerdote - de Apolo, leio
na Internet – e por o ser, naturalmente esperto, dono de estudos, mesmo sem
serem em latim – e cavalo esse que foi causa da destruição de Tróia, pois no
seu ventre - digo, do cavalo em madeira, julgo que não discriminada esta - se
escondiam os guerreiros gregos que destruiriam Tróia - dez anos passados desde
o começo da guerra – esta forjada pelo rapto, pelo troiano Páris, da belíssima
Helena esposa de Menelau, rei de Esparta … Desde essas alturas, pois,
comprovado o sentido da frase latina, julgo que lida em algum trecho da Eneida
nos tempos recuados do liceu, como um dos casos das mundanais notícias ainda
que só livrescas – que ganhei admiração pelas capacidades humanas sobretudo
viris, já que as mulheres eram reconhecidamente distinguidas pela sua beleza,
mau grado outras figuras femininas enternecedoras como uma tal Antígona e o seu
amor fraterno, ou mesmo a tal Penélope, espertalhona a urdir a teia – que
desfazia à noite – para evitar comprometer-se com algum dos seus pretendentes,
vinte anos passados sem ver Ulisses, mas conservando-se casta e esperta para
escapar àqueles tais pretendentes, ajudada ainda pelo filho Telémaco que partiu
em busca do pai Ulisses que por essas alturas já devia andar por aqui, por
Lisboa cujo nome deriva do seu… Ulissipone…
Todo este
arrazoado evocativo para confirmar o apreço pelo de PATRÍCIA FERNANDES, de
argumentação e referência que nos estimula e por isso lhe estou grata. Sim, o
homem branco é evoluído qb., e desde sempre inventor de mitos, para explicar o
mundo, mas sempre construindo objectos e artifícios para o elevar – quando não
destruir, segundo conveniências próprias. Sem grandes escrúpulos por vezes,
hoje - e sempre - bem reais e não mitológicos, e a Mulher o acompanha já,
conquistadas as suas competências, não a ferro e fogo, mas com as suas próprias
argúcias e maneirismos. Sim, tudo isto de criatividade é belo, só o não é tanto
da maldade que também se fabrica e que se vai tentando remediar, Homem e Mulher
seres que, afinal, se completam naquilo que é possível e divergem naquilo que é
necessário… para melhor, talvez, se completarem…
A culpa do homem branco
Apesar de parecer atraente, a culpa
do homem branco é perversa: senti-la (e manifestá-la) cria a ilusão de que nos
tornamos moralmente melhor; na prática, estimulamos os piores instintos do ser
humano
PATRÍCIA FERNANDES Professora na
Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 09 fev. 2026, 00:18
1Recontar os mitos
Regressemos a Odisseia. Lembramo-nos com facilidade das aventuras e
provações de Ulisses durante a viagem e, provavelmente, do modo como ele matou
os pretendentes que, em Ítaca, abusavam da hospitalidade, ocupando o seu
palácio enquanto aguardavam a decisão de Penélope. Até nos podemos lembrar
daquele que é considerado o momento mais emotivo do texto: que o seu velho cão foi o único a reconhecê-lo quando chegou a Ítaca
e que esperava o dono para morrer. Mas nunca nos lembramos das
escravas.
Aquelas doze escravas que
terão desonrado Ulisses envolvendo-se com os pretendentes. Essas sobre as quais
Ulisses diz a Telémaco:
“devereis abater as escravas com
as longas espadas, até que a vida as
abandone e se esqueçam dos prazeres de Afrodite, que provaram, deitadas em segredo com os pretendentes.”
Essas que Telémaco, em vez de
matar com a espada, colocou em fila com uma corda à volta do pescoço:
“Espernearam um pouco, mas não durante muito
tempo.”
É sobre esta imagem que Margaret Atwood escreve a sua Odisseia de Penélope. Sobre as escravas que foram
julgadas por Ulisses como se fossem livres de resistir ao poder dos homens.
Como se tivessem outra hipótese. “do céu, trono e rua com donas andaste, teus zelos calmaste nós menos pecados tínhamos do que tu e mal nos julgaste”.
Também nos lembramos com facilidade de Circe como a feiticeira que transforma os homens em porcos, magia que encerra
a condição humana num corpo degradante como um escafandro do qual não conseguem
escapar. E Ulisses aparece, assim, na nossa memória como aquele
que é capaz de dominar a feiticeira e restabelecer a ordem.
Briton Riviere, Circe and the Companions of Ulysses (1871)
Mas quando lemos Madeline Miller, podemos olhar para Circe de outro
modo. Como uma mulher que
vive sozinha numa ilha, onde por vezes atracam barcos cheios de homens
dispostos a deixar claro quem é a parte frágil daquela história. A magia de
Circe aparece, agora, como uma defesa, a única defesa possível de quem é
fisicamente mais fraco. E isso permite-nos compreender melhor Circe. A verdade
é que,
“Quando passava pela pocilga, os seus amigos fitavam-me com
expressões suplicantes. Gemiam e guinchavam, enterrando os focinhos na terra.
Lamentamos muito, lamentamos muito. Lamentam terem sido apanhados, dizia-lhes.
Lamentam terem pensado que eu era fraca, e terem-se enganado.”
Afinal, os mitos foram sempre contados pelos homens.
2A culpa como arquétipo
Não é por isso surpreendente que
o universo da literatura mitológica tenha sido invadido, nos últimos anos, por autoras mulheres que escrevem a partir da perspectiva
de Briseida, Clitemnestra, Ariadne, Medusa, Electra, Circe, Penélope. São
perspectivas distintas sobre as mesmas histórias que enriquecem o caleidoscópio
pelo qual vemos o mundo, mas que não devem servir para promover aquilo que
Bradley Campbell e Jason Manning designaram como “cultura de vitimização”.
De acordo com esta forma de
pensar, que apresenta a realidade como uma luta permanente entre opressores e
oprimidos, “a
vítima” adquire, por si só, um valor moral – simplesmente por ser percepcionada
como “oprimida”. Os incentivos sociais tornam-se evidentes: todos
aqueles que puderem, de alguma forma, reivindicar “o lugar de vítima” adquirem
um valor especial e moralmente melhor, pelo que a multiplicação da
“vitimização” se torna inevitável.
Este
mecanismo perverso tem vindo a ser estudado nos últimos anos e é
particularmente incentivado pela dinâmica das redes sociais. Mas
o fenómeno conexo mais curioso é o modo como tantos homens interiorizaram, e
tão facilmente, “a culpa do
homem branco”.
É a lógica identitária em funcionamento:
assumimos a nossa pertença a um determinado grupo (i.e., aos homens brancos),
passando a decorrer dessa assunção uma culpa colectiva (i.e., independente dos
nossos actos individuais) por possíveis
injustiças passadas (i.é., sobre as quais não temos qualquer responsabilidade).
Analiticamente, este raciocínio parece absurdo. Porque tem sido, então, tão eficaz?
Por um lado, os estudos mais recentes de psicologia evolutiva ajudariam
a explicar por que razão a culpa desempenha um papel tão importante em termos
sociais: se evoluímos para nos tornarmos seres
morais, a culpa serviria para promover comportamentos socialmente exigidos.
Outros levantam a hipótese de a
eficácia resultar da cultura cristã que dá forma ao Ocidente: a culpa seria uma espécie de arquétipo
cultural que facilitaria o desencadear do argumento identitário.
A verdade é que o sentimento de culpa acompanha muitos fenómenos da vida
humana – mesmo sem existir uma relação causal lógica.
Pensemos no muito conhecido livro de Elisabeth
Kübler-Ross, Sobre a Morte e Morrer, que
nos ensina que o sentimento de culpa é um dos sentimentos mais comuns entre os
familiares daqueles que morrem de cancro (i.e., que morrem de uma doença em que não há… culpados). A
mente humana é, de facto, uma coisa estranha – tal como é enigmática a culpa do homem branco. Mas os
seus efeitos são muito mais perversos.
3A culpa do homem branco
Lembrei-me da força deste
mecanismo depois de ouvir o maestro Martim
Sousa Tavares repetir de modo fastidioso nos últimos
episódios do seu Encontro com
a Beleza como as mulheres tinham sido
prejudicadas no passado (não
me interpretem mal: o meu coração ainda dói pelo fim do programa). É realmente surpreendente como, mesmo
quando não fizeram nada de errado, tantos homens se sentem movidos por um
sentimento de culpa que os leva ao desconforto com o seu “lugar de privilégio”
e, consequentemente, a sentirem necessidade de assumir publicamente algum tipo
de punição social.
A sinalização de virtude, que nos
últimos anos invadiu o espaço público, visa cumprir precisamente essa função: se reconhecermos publicamente a nossa
condição de privilégio poderíamos redimir a nossa culpa. E seria por
essa razão que as pessoas se sentem tão bem quando “sinalizam virtude”:
sentem-se menos culpados.
Mas será este comportamento
socialmente vantajoso? Vale realmente a pena entrar na toca do coelho do
argumento identitário? Ou, por outras palavras, a culpa do homem branco torna o
mundo realmente melhor?
Arrisco, em três pontos, uma resposta negativa.
Por um lado, a culpa do homem branco incentiva os “oprimidos” a adoptar
uma atitude de permanente vitimização, que os leva a interpretar todos os
insucessos como resultado de “injustiça” ou “discriminação”, sem considerar a
possibilidade de erros pessoais, fragilidades próprias ou mera casualidade. A
consequência é sermos levados a entrar numa espiral de ressentimento que
perpetua os problemas em vez de sermos incentivados a realizar o processo de
aperfeiçoamento pessoal de que todos precisamos.
Por outro lado, a culpa do homem
branco leva os homens a adoptar um comportamento de
condescendência e paternalismo que, ao contrário do desejado, menoriza as
outras identidades – como
se as mulheres e os negros fossem coitadinhos com necessidade de um salvador.
Em sentido contrário, é possível falar
sobre mulheres autoras sem cair no discurso da vitimização e menorização.
Por fim, a
narrativa identitária – com
todo aquele vocabulário atraente do “género”, do “Sul Global”, do “privilégio”,
da “opressão”, da “vitimização” – tem efeitos socialmente destrutivos:
por um lado, activa o lado mais
tribal do nosso cérebro, encerrando-nos em identidades, o que dificulta o
pensamento universalista; por outro lado, impõem-nos uma visão do
mundo que é de luta permanente entre essas identidades, o que impossibilita a
cooperação social. Ao invés de resolver o problema, a narrativa
identitária agrava-o.
Apesar de parecer atraente, a culpa
do homem branco é perversa: senti-la
(e manifestá-la) cria a ilusão de que nos tornamos moralmente melhor; na
prática, estimulamos os piores instintos do ser humano. No final, as
ferramentas que o velho liberalismo moral nos deixou acabam por se revelar
muito mais úteis.
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