sábado, 28 de fevereiro de 2026

Seriedade


E também diversão, numa análise própria de quem perfeitamente se apercebe dos ridículos enviesamentos nas ideologias reinantes.

"Mais estúpido que um gajo das direitas, só um gajo das esquerdas!"

Nestes tempos de ânimos extremados, vai-se tornando cada vez mais evidente que, afinal, a estupidez não é um exclusivo da Direita, e pode ser fatal.

JAIME NOGUEIRA PINTO, COLUNISTA DO OBSERVADOR

OBSERVADOR, 27 fev. 2026, 00:2445

 

Há muitos anos, na Versalhes, comentando à mesa do café uma frase infeliz de um conhecido direitista da época, desabafei: “Estes nossos gajos das direitas são muito estúpidos!” E logo o MANUEL MARIA MÚRIAS, que estava no grupo: “Jaime Nogueira Pinto, mais estúpido que um gajo das direitas, só um gajo das esquerdas!

A estupidez continua a ser, de facto, uma coisa muito bem distribuída. O que em tempos de ânimos extremados como os que agora correm – tempos em que parecem ser cada vez mais os que não estão para subtilezas nem para distinções entre verdade e ficção e já só reagem a mensagens simplistas e a estímulos fortesse vai tornando ora cada vez mais caricato, ora cada vez mais grave.  Tão caricato como, recentemente, o enfurecido arremesso de fruta podre por anti-fascistas ao actor que fazia de fascista na peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”; tão grave, tão fatalmente grave, como o recente linchamento de Quentin Deranque, a pontapé, por um grupo com excesso de apego à “beleza de matar fascistas”.

Comecemos pelo arremesso de fruta podre

Aconteceu em Bochum, na Renânia-Westfália, quando da exibição da peça Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.

Na peça, de que já aqui falei por ocasião da sua estreia no “D. Maria”, uma família do Baleizão tem por tradição raptar e matar um fascista por ano. O discurso de ódio e os seus emissores devem ser definitivamente sancionados regularmente e em beleza. Ora nesta família fictícia, os jovens são iniciados na prática aos 26 anos. Acontece que a jovem Catarina, mostrando-se pouco consciente em matéria de classe e de antifascismo, desafia a tradição, recusando-se a matar o fascista que a família, atenta e carinhosamente, lhe rapta e prepara para o dia da sua iniciação.

Tudo pronto, o fascista já a jeito, e Catarina hesita; até que, num rebate de consciência, sugere o impensável – que apesar da maldade e perversidade intrínseca dos fascistas a prática pode não ser lícitae comete a imprudência de o poupar. E quando, no final da peça, o fascista em questão faz um discurso típico de um fascista do ano de 2028 (ano em que se desenrola a peça), ou seja, um discurso típico da extrema-direita populista, racista, homofóbica e xenófoba, cantando vitória e falando dos horrores que vai fazer, vem a moral da história, que se quer interrogativa: Catarina foi ou não ingénua? Devia ou não ter quebrado uma tradição tão bela e necessária, poupando o fascista que lhe calhou em sorte?

Foi durante o discurso incendiário do fascista poupado que alguns antifascistas alemães, quiçá mais tradicionalistas, galvanizados pelo título da peça e cegos pela beleza ritual do abate, atacaram com fruta podre o actor que fazia de fascista; espectadores antifascistas tão pouco subtis e tão estúpidos como, ao que parece, eram os fascistas portugueses que, depois do 25 de Abril, se coligaram em “associações de malfeitores” para disfarçar os seus propósitos maléficos e antidemocráticos.

A acreditar em Mateja Koleznik, a directora do grupo teatral, o desgraçado do actor em causa, Ole Lagerpush de seu nome, ficou extremamente “traumatizado com o ataque”, que esperava que viesse do outro lado, dos “fascistas”, e não “dos que deviam estar do nosso lado”.

O mundo é um palco: “Hey fascist, catch!”

“Matar fascistas” foi, para muitos, uma tradição correctiva ou profilática, uma actividade praticada em várias circunstâncias históricas no século passado – em Espanha, no Verão e Outono de 1936, ou em Itália, na Primavera de 1945. Também nos finais da Segunda Guerra Mundial, à medida que avançavam os exércitos soviéticos, se foram matando fascistas, e as mulheres e os filhos dos fascistas, não fosse ficar algum para semente.

Por cá – como, sobretudo desde Salazar, passámos a ser um “país de brandos costumes– a restauração democrática em 1974-75 não deu espaço à prática da modalidade, a não ser que se considerem fascistas os “colonos” da África Lusófona.  E mesmo depois do 28 de Setembro de 74 e do 11 de Março de 75, quando umas centenas de “fascistas” locais foram presos pelo COPCON sob a acusação de pertencerem às tais “associações de malfeitores”, os fuzilamentos que existiram foram fuzilamentos simulados.

Foi talvez essa insuficiência nacional da prática da modalidade que levou um dos nossos compatriotas, distinguido no estrangeiro como director do Festival de Avignon, a escrever a peçaCatarina e a Beleza de Matar Fascistas”.

Dá-se, porém, que a vida real está cheia de espectadores tão ou mais estúpidos do que os que, munidos de fruta podre, assistiam à peça do português.  Espectadores paranóicos e pouco subtis, incapazes de interpretar mensagens “interrogativas e complexas” e prontos a entrar em acção para reparar, em beleza, o erro de Catarina.

Vou limitar-me a falar de dois casos, bem recentes e bem públicos: Charles Kirk e Quentin Deranque.

Kirk foi assassinado por um jovem perturbado que se sentiu licenciado para matar, quem sabe seduzido por um difuso conjunto de “mensagens interrogativas e complexas” sobre os odiosos emissores de “discurso de ódio” (um exclusivo da Direita) que ameaçam o mundo, a autodeterminação de género e a democracia.  Na mira da sua arma estava, então, a possibilidade de salvar o mundo e a democracia, silenciando um intelectual cristão conservador, para ele um fascista, ou pior, um missionário do fascismo.  E foi o que fez.  E para o fazer em beleza tinha mandado gravar na bala: “Hey fascist catch!”

Mais recentemente, lembro, em França, o assassinato de um “militante de extrema-direita”, Quentin Deranque, por membros de um grupo de “idealistas de esquerda”, chamado Jovem Guarda.

Quentin tinha 23 anos e era conservador e militante nacionalista; era também um católico baptizado aos 14 anos que fizera a primeira comunhão aos 20; um neófito aplicado que convertera os próprios pais e se dedicava à acção social junto dos sem-abrigo de Lyon, que atendia semanalmente. Pouco importa o que fazia ou deixava de fazer, digamos que, para os devidos efeitos, era fascista.

A 12 de Fevereiro, sete raparigas militantes do grupo feminino de direita Nemésis decidiram protestar numa conferência da deputada europeia da France Insoumise, Rima Hassan, no Instituto de Estudos Políticos de Lyon. Quentin e alguns correligionários deslocaram-se para as proteger dos possíveis ataques dos esquerdistas. Quando eles as atacaram efectivamente e os direitistas tentaram interpor-se, foram agredidos por umas dezenas de militantes da Jeune Garde.

A Jeune Garde, Jovem Guarda, é uma milícia fundada em Lyon, em 2018, por Raphael Arnaut e proibida pelo governo em Junho de 2025. É um desses grupos “antifascistas” violentos, braço activista da France Insoumise do radical de esquerda Mélenchon.

Charlie Kirk foi caricaturado depois de morto como homófobo, racista e neo-nazi. Quentin apareceu nos noticiários do Le Monde pintado como um “activista violento de extrema-direita”.

“A parteira da História”

Para a grande maioria dos intelectuais e comentadores, a eventual violência empenhada da Esquerda é sempre mera reacção à violência congénita dos grupos racistas e neonazis da extrema-direita populista, nacionalista, racista, xenófoba, homofóbica e conservadora.

O facto de, historicamente, a Esquerda, no poder ou fora dele, nunca ter hesitado em usar a violência, ou não é referido ou é sempre atribuído à sua proverbial “sede de justiça” e “ânsia por um mundo melhor”: desde o Terror na Revolução Francesa, em que o progresso e a trilogia revolucionária justificaram e santificaram milhares de guilhotinados, de afogados, e o quase genocídio da Vendeia, às matanças, aos campos de concentração e à torturas de milhões de homens e mulheres na Rússia de Lenine e Estaline, na China de Mao, nas repúblicas populares da Europa Oriental, no Camboja de Pol Pot.

No século XIX, Marx e Engels não deixariam de exaltar a violência como “parteira da História”, e Sartre, no prefácio a Les Damnés de la Terre, de Franz Fanon, também não hesitaria em louvar a beleza do abate e da supressão e a sua utilidade para pôr fim à miséria de opressores e oprimidos: “Abattre un Européen c’est faire d’une pierre deux coups, supprimer en même temps un oppresseur et un opprimé.”

Evitando, farisaicamente, falar com esta frontalidade, a actual esquerda radical, com a cumplicidade de outras esquerdas e mesmo de algumas franjas do centrão, continua a proceder, sem escrúpulos, à fascistização, que é como quem diz à desumanização, dos adversários.

A direita e as direitas são sempre autoritárias, iliberais e fascistas, e têm ainda o hábito fatal de estarem sempre a “emitir discurso de ódio”…podem ser estúpidas: não percebem que isso é estar mesmo a pedir a fruta podre, a bala mortal, o linchamento de grupo de algum jovem idealista e desejoso de justiça mais sensível à beleza de matar fascistas e menos capaz de compreender a complexidade e a subtileza das mensagens interrogativas?

Extrema Esquerda       Política

COMENTÁRIOS:

José B Dias: Já todos percebemos que discurso de ódio é coisa de sentido único ... nas "canhotas" apenas existem sentidos figurados e metáforas inteligentes!              Miguel Seabra: Mas os “fascistas” não são apenas atacados com balas, fruta podre ou espancamentos. São também despedidos do seu emprego, censurados, cancelados boicotados e escorraçados das universidades como o Jaime Nogueira Pinto já sentiu na pele. Verdadeiramente estúpidos  são aqueles que não só permitem isto como apoiam directa ou indirectamente: “a direita de quem a esquerda gosta”.                    Fernando ce: Por isso me afirmo desde 1976, aos 19 anos de idade, como um homem de Direita. Tido como estúpido e proto-fascista, pela “elite caviar”, bem-pensante e bem na vida. É a vida.         Tim do A: Longo, mas excelente artigo. E ainda querem (a AD e a extrema esquerda, na qual incluo o PS) fazer crer que o perigo vem da direita.  E o discurso de ódio só se aplica quando é contra a esquerda. Quando vem da esquerda não conta. A lei só se aplica à diteita. Isso é  totalitarismo do pior. Ainda dizem que somos um pais democrático. Este novo ministro da administração interna é mais um radical de esquerda a juntar-se à ministra da cultura, que podia ser do BE. A AD é o PS2 ou o BE2. Agora até já é inimiga de Passos Coelho porque este não é de esquerda.  Os antifascistas são os novos nazis.           Maria Nunes. Excelente artigo. JNP, um dos melhores cronistas do Observador.              Paulo Silva: É o Teatro e a plateia do absurdo... Seria burlesco se não fosse trágico. Ainda recordo discussões aqui acerca da peça escrita pelo antifa Rodrigues, e de uma entrevista que deu ao Observador onde afiançava que não ia fazer dela um apelo ao discurso de ódio nem à violência, apesar do título já trazer todos os ingredientes para o efeito. Chamei na altura a atenção para a literalidade em que os espíritos mais fracos poderiam cair. O tempo veio dar-me razão... O anti-fascismo foi capciosamente elevado a sinal de virtude, mas não é... A emotividade, a arbitrariedade, a prepotência, a violência, atributos que são apontados aos fascismos, não são um exclusivo dessa ideologia. Outras ideologias os perfilham e o mais curioso é que os antifas também...       Jose Carmo: Fantástico artigo.                Manuel Lourenço: O Chicão devia fazer parte dos espectadores do teatro.        Jose Carmo > Américo Silva: Obrigado por servir de demonstração da tese de JNP.          Paulo Silva > Manuel Lourenço: O Chicão era a fruta arremessada...                António Costa e Silva: Como JNP escreve, a estupidez está de facto muito bem distribuída. Mas os estúpidos da direita tiveram a sorte, ou o azar, de acertar no lado menos torto. Quando temos estúpidos da esquerda com peças publicitadas e destacadas em toda a comunicação com o título "Catarina e a beleza de matar fascistas", outros a apelar (senão a promover) "a morte do homem branco", podemos lembrar-nos que em Portugal, estúpidos juízes e juízas de esquerda condenaram a 3 anos de prisão efectiva um estúpido da direita por escrever que "se deviam violar mulheres de esquerda". Ou que estão presos (por ordem do novo ministro da administração interna?) outros 4 ou 5 da direita, porque tinham 3 pressões de ar, 4 canivetes, 2 corta-unhas e um saca-rolhas.              Carlos F. Marques: Excelente. Os Mélenchon's desta vida andam a semear ventos...               Rui Lima: A presente crónica revela erudição e ironia ao confrontar a estupidez da violência política , só alguém como JNP poderia tê-la escrito. Para restabelecer o equilíbrio depois da peça Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, teremos talvez Jacinto e a Beleza de Matar Comunistas. Acredito que este título desta nova peça  eventual, também deixará a imprensa maravilhada.          Paradigmas Há Muitos! > José B Dias: E quando a coisa se torna mesmo indefensável concedem que usaram um nadinha de hipérbole ou no limite que se deixaram levar pela emoção. E todos os "decentes" fingem que acreditam!            Nuno Chambel Lima: Muito obrigado pelo seu artigo. O enviesamento mediático dos casos Quentin e Kirk é pan-europeu. Ouço a Deutschlandfunk ou a Bayerischer Rundfunk de manhã. Não há imparcialidade.             Alfredo Vieira: O Socialismo (e variantes) é uma doença MORAL.                 Hugo Vieira > João Proença: Não há contrassenso nenhum. A direta é estúpida porque permite e engole a estupidez da esquerda. Tendo a concordar no contexto de Portugal e na generalidade da Europa. Já não concordo tanto no contexto dos EUA.                    Tim do A > Manuel Lourenço: O Chicão é outro que pactua com a esquerda.                 Cisca Impllit: Uma peça que perpétua o rapto daquela mãe  aos seus filhos. A filha já  disse que não  queria ter nada a ver com a politica, que ate o corpo e da memória dela se apropriam                  graça Dias: Um artigo fascinante e apropriadamente sublinhado pelo sarcasmo elegante de JNP. Parabéns.            Victor Goncalves > Tim do A: Isto acontece porque os esquerdoidos conseguiram controlar a narrativa a seu favor, diabolizando tudo o que está à sua direita, controlando a Academia, a cultura e a CS. Vocês vêem o PS2 a reverter alguma coisa woke do tempo do Costa? Não porque é tudo a mesma mer,@da. O Fukuyama  tem de sair do lar de terceira idade para reformular o seu " fim da história". Ao final a luta ainda não terminou.                Antonio Rodrigues: Faço aqui um apelo aos responsáveis do Observador. Aos vossos jornalistas, estagiários e a quem escreve, ou simplesmente faz 'copy/paste' das notícias da Lusa, deve ser dado a ler este artigo.                 Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!                Maria Alva: Muito bem 👏🎯👍                unknown unknown: Muito bem                  José Paulo Castro: Os 'gajos' das esquerdas, depois de matarem os outros, começam a matar-se entre eles. É só ver a história desses movimentos quando chegam ao poder. O que interessa é justificarem-se. O resto, fazem.             maria santos: violência faz parte do modo de vida das Esquerdas. Lembrando tempos próximos. Foi assim na 1ª República, foi assim em Espanha nos anos do governo das Esquerdas que antecedeu a Guerra Civil e também com a ETA nas Vascongadas. Foi assim no nosso tempo com o Processo Revolucionário em Curso/PREC e os assassinos das FP25Abril amnistiados por Mário Soares presidente e uma condecorada por Jorge Sampaio presidente. Temos memória, temos História e temos tempo.                 Vitor Batista > Hugo Vieira: MAInada!

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