E também diversão, numa análise própria de quem perfeitamente se
apercebe dos ridículos enviesamentos nas ideologias reinantes.
"Mais estúpido que um gajo das
direitas, só um gajo das esquerdas!"
Nestes tempos
de ânimos extremados, vai-se tornando cada vez mais evidente que, afinal, a
estupidez não é um exclusivo da Direita, e pode ser fatal.
JAIME NOGUEIRA PINTO, COLUNISTA DO OBSERVADOR
OBSERVADOR, 27 fev. 2026, 00:2445
Há muitos anos, na Versalhes,
comentando à mesa do café uma frase infeliz de um conhecido direitista da
época, desabafei: “Estes nossos gajos das
direitas são muito estúpidos!” E logo o MANUEL MARIA MÚRIAS, que estava no
grupo: “Jaime Nogueira Pinto, mais
estúpido que um gajo das direitas, só um gajo das esquerdas!”
A estupidez continua a ser,
de facto, uma coisa muito bem distribuída. O que em tempos de ânimos
extremados como os que agora correm – tempos em que parecem ser cada vez mais os que não estão para subtilezas nem para
distinções entre verdade e ficção e já só reagem a mensagens simplistas e a
estímulos fortes – se vai tornando ora cada vez mais caricato, ora cada
vez mais grave. Tão caricato como, recentemente, o enfurecido arremesso de fruta
podre por anti-fascistas ao actor que fazia de fascista na peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”; tão
grave, tão fatalmente grave, como o recente linchamento de Quentin Deranque, a
pontapé, por um grupo com excesso de apego à “beleza de matar fascistas”.
Comecemos pelo arremesso de fruta podre
Aconteceu em Bochum, na
Renânia-Westfália, quando da exibição da peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.
Na peça, de que já aqui falei
por ocasião da sua estreia no “D. Maria”, uma
família do Baleizão tem por tradição raptar e matar um fascista por ano. O discurso
de ódio e os seus emissores devem ser definitivamente sancionados regularmente
e em beleza. Ora
nesta família fictícia, os jovens são iniciados na prática aos 26 anos.
Acontece que a jovem Catarina, mostrando-se pouco consciente em matéria de classe e de antifascismo,
desafia a tradição, recusando-se a matar o fascista que a família, atenta e
carinhosamente, lhe rapta e prepara para o dia da sua iniciação.
Tudo pronto, o fascista já a
jeito, e Catarina hesita; até que, num rebate de consciência, sugere o
impensável – que apesar da maldade e
perversidade intrínseca dos fascistas a prática pode não ser lícita – e
comete a imprudência de o poupar. E quando, no final da peça, o fascista em
questão faz um discurso típico de um fascista do ano de 2028 (ano em que se
desenrola a peça), ou seja, um discurso típico da extrema-direita populista,
racista, homofóbica e xenófoba, cantando vitória e falando dos horrores que vai
fazer, vem a moral da história, que se quer interrogativa: Catarina foi ou não ingénua? Devia ou não
ter quebrado uma tradição tão bela e necessária, poupando o fascista que lhe
calhou em sorte?
Foi durante o discurso incendiário do fascista poupado que alguns
antifascistas alemães, quiçá mais tradicionalistas, galvanizados pelo título da
peça e cegos pela beleza ritual do abate, atacaram com fruta podre o actor que
fazia de fascista; espectadores antifascistas tão pouco subtis e tão estúpidos como,
ao que parece, eram os fascistas portugueses que, depois do 25 de Abril, se
coligaram em “associações
de malfeitores” para disfarçar os seus propósitos maléficos e antidemocráticos.
A acreditar em Mateja Koleznik, a
directora do grupo teatral, o desgraçado do actor em causa, Ole Lagerpush de
seu nome, ficou extremamente “traumatizado com o ataque”, que esperava que
viesse do outro lado, dos “fascistas”, e não “dos que deviam estar do nosso
lado”.
O mundo é um palco: “Hey
fascist, catch!”
“Matar fascistas” foi, para muitos, uma tradição correctiva ou
profilática, uma actividade praticada em várias circunstâncias históricas no
século passado – em Espanha, no Verão e Outono de 1936, ou em Itália, na
Primavera de 1945. Também nos finais da Segunda Guerra Mundial, à medida que
avançavam os exércitos soviéticos, se foram matando fascistas, e as mulheres e
os filhos dos fascistas, não fosse ficar algum para semente.
Por cá – como, sobretudo
desde Salazar, passámos a ser um “país de brandos costumes” – a restauração democrática em 1974-75
não deu espaço à prática da modalidade, a não ser que se considerem fascistas
os “colonos” da África Lusófona. E
mesmo depois do 28 de Setembro de 74 e do 11 de Março de 75, quando umas
centenas de “fascistas” locais foram presos pelo COPCON sob a acusação de
pertencerem às tais “associações de malfeitores”, os fuzilamentos que existiram
foram fuzilamentos simulados.
Foi talvez essa insuficiência nacional da prática da modalidade que
levou um dos nossos compatriotas, distinguido no estrangeiro como director do
Festival de Avignon, a escrever a peça “Catarina e a
Beleza de Matar Fascistas”.
Dá-se, porém, que a vida real
está cheia de espectadores tão ou mais estúpidos do que os que, munidos de
fruta podre, assistiam à peça do português. Espectadores paranóicos e
pouco subtis, incapazes de interpretar mensagens “interrogativas e complexas” e
prontos a entrar em acção para reparar, em beleza, o erro de Catarina.
Vou limitar-me a falar de dois
casos, bem recentes e bem públicos: Charles Kirk e Quentin
Deranque.
Kirk foi assassinado por um
jovem perturbado que se sentiu licenciado para matar, quem sabe seduzido por um
difuso conjunto de “mensagens interrogativas e complexas” sobre os odiosos
emissores de “discurso de ódio” (um exclusivo da Direita) que ameaçam o mundo, a autodeterminação de género e a democracia.
Na mira da sua arma estava, então, a possibilidade de salvar o mundo e
a democracia, silenciando um intelectual cristão conservador, para ele um
fascista, ou pior, um missionário do fascismo. E foi o que fez. E
para o fazer em beleza tinha mandado gravar na bala: “Hey fascist catch!”
Mais recentemente, lembro, em França, o assassinato de um “militante de
extrema-direita”, Quentin Deranque, por membros de um grupo de “idealistas de
esquerda”, chamado Jovem Guarda.
Quentin tinha 23 anos e era
conservador e militante nacionalista; era também um católico baptizado aos 14 anos que fizera a
primeira comunhão aos 20; um neófito
aplicado que convertera os próprios pais e se dedicava à acção social junto dos
sem-abrigo de Lyon, que atendia semanalmente. Pouco importa o que fazia ou
deixava de fazer, digamos que, para os devidos efeitos, era fascista.
A 12 de Fevereiro, sete raparigas militantes do grupo feminino de
direita Nemésis decidiram protestar numa conferência da deputada europeia da
France Insoumise, Rima Hassan, no Instituto de Estudos Políticos de Lyon.
Quentin e alguns correligionários deslocaram-se para as proteger dos possíveis
ataques dos esquerdistas. Quando eles as atacaram efectivamente e os
direitistas tentaram interpor-se, foram agredidos por umas dezenas de
militantes da Jeune Garde.
A Jeune Garde, Jovem Guarda, é uma
milícia fundada em Lyon, em 2018, por Raphael Arnaut e proibida pelo governo em
Junho de 2025. É
um desses grupos “antifascistas” violentos, braço activista da France Insoumise
do radical de esquerda Mélenchon.
Charlie Kirk foi caricaturado depois de morto como homófobo, racista e
neo-nazi. Quentin apareceu nos noticiários do Le Monde pintado como um “activista violento de
extrema-direita”.
“A parteira da História”
Para a grande maioria dos
intelectuais e comentadores, a
eventual violência empenhada da Esquerda é sempre mera reacção à violência
congénita dos grupos racistas e neonazis da extrema-direita populista,
nacionalista, racista, xenófoba, homofóbica e conservadora.
O facto de, historicamente, a
Esquerda, no poder ou fora dele, nunca ter hesitado em usar a violência, ou não
é referido ou é sempre atribuído à sua proverbial “sede de justiça” e “ânsia
por um mundo melhor”: desde o Terror na Revolução Francesa, em que o progresso
e a trilogia revolucionária justificaram e santificaram milhares de
guilhotinados, de afogados, e o quase genocídio da Vendeia, às matanças, aos
campos de concentração e à torturas de milhões de homens e mulheres na Rússia
de Lenine e Estaline, na China de Mao, nas repúblicas populares da Europa
Oriental, no Camboja de Pol Pot.
No século XIX, Marx e
Engels
não deixariam de exaltar a violência como “parteira da História”, e
Sartre, no
prefácio a Les
Damnés de la Terre, de Franz Fanon, também
não hesitaria em louvar a beleza do abate e da supressão e a sua utilidade para
pôr fim à miséria de opressores e oprimidos: “Abattre un Européen c’est faire d’une pierre deux coups, supprimer
en même temps un oppresseur et un opprimé.”
Evitando, farisaicamente, falar com
esta frontalidade, a actual esquerda radical, com a cumplicidade de outras
esquerdas e mesmo de algumas franjas do centrão, continua a proceder, sem
escrúpulos, à fascistização, que é como quem diz à desumanização, dos
adversários.
A direita e as direitas
são sempre autoritárias, iliberais e fascistas, e têm ainda o hábito fatal de
estarem sempre a “emitir discurso de ódio”… Só podem ser estúpidas:
não percebem que isso é estar mesmo a pedir a fruta podre, a bala mortal, o
linchamento de grupo de algum jovem idealista e desejoso de justiça mais
sensível à beleza de matar fascistas e menos capaz de compreender a
complexidade e a subtileza das mensagens interrogativas?
COMENTÁRIOS:
José B Dias: Já todos percebemos
que discurso de ódio é coisa de sentido único ... nas "canhotas"
apenas existem sentidos figurados e metáforas inteligentes! Miguel Seabra: Mas os
“fascistas” não são apenas atacados com balas, fruta podre ou espancamentos.
São também despedidos do seu emprego, censurados, cancelados boicotados e
escorraçados das universidades como o Jaime Nogueira Pinto já sentiu na pele.
Verdadeiramente estúpidos são aqueles que não só permitem isto como
apoiam directa ou indirectamente: “a direita de quem a esquerda gosta”.
Fernando ce: Por isso me afirmo desde 1976, aos 19 anos de
idade, como um homem de Direita. Tido como estúpido e proto-fascista, pela
“elite caviar”, bem-pensante e bem na vida. É a vida. Tim do A:
Longo,
mas excelente artigo. E ainda querem (a AD e a extrema esquerda, na qual
incluo o PS) fazer crer que o perigo vem da direita. E o discurso de ódio só se aplica quando é contra a
esquerda. Quando vem da esquerda não conta. A lei só se aplica à diteita. Isso
é totalitarismo do pior. Ainda dizem que somos um pais democrático. Este novo ministro da administração interna é mais um
radical de esquerda a juntar-se à ministra da cultura, que podia ser do BE. A
AD é o PS2 ou o BE2. Agora até já é inimiga de Passos Coelho porque este não é
de esquerda. Os antifascistas são
os novos nazis. Maria Nunes. Excelente artigo. JNP, um dos melhores
cronistas do Observador. Paulo Silva: É o Teatro e a plateia do absurdo... Seria
burlesco se não fosse trágico. Ainda recordo discussões aqui acerca da peça
escrita pelo antifa Rodrigues, e de uma entrevista que deu ao Observador onde
afiançava que não ia fazer dela um apelo ao discurso de ódio nem à violência,
apesar do título já trazer todos os ingredientes para o efeito. Chamei na altura
a atenção para a literalidade em que os espíritos mais fracos poderiam cair. O
tempo veio dar-me razão... O anti-fascismo foi capciosamente elevado a sinal
de virtude, mas não é... A emotividade, a arbitrariedade, a prepotência, a
violência, atributos que são apontados aos fascismos, não são um exclusivo
dessa ideologia. Outras ideologias os perfilham e o mais curioso é que os
antifas também... Jose Carmo: Fantástico artigo. Manuel Lourenço: O Chicão devia fazer parte dos espectadores do
teatro. Jose Carmo > Américo Silva: Obrigado por servir de demonstração da tese de
JNP. Paulo Silva > Manuel Lourenço: O Chicão era a fruta arremessada... António Costa e Silva: Como JNP escreve, a estupidez está de facto
muito bem distribuída. Mas os estúpidos da direita tiveram a sorte, ou
o azar, de acertar no lado menos torto. Quando temos estúpidos da esquerda com peças
publicitadas e destacadas em toda a comunicação com o título "Catarina e a
beleza de matar fascistas", outros a apelar (senão a promover) "a
morte do homem branco", podemos lembrar-nos que em Portugal, estúpidos
juízes e juízas de esquerda condenaram a 3 anos de prisão efectiva um estúpido
da direita por escrever que "se deviam violar mulheres de esquerda". Ou que estão presos (por ordem do novo ministro
da administração interna?) outros 4 ou 5 da direita, porque tinham 3 pressões
de ar, 4 canivetes, 2 corta-unhas e um saca-rolhas. Carlos F. Marques: Excelente. Os Mélenchon's desta vida andam a
semear ventos... Rui
Lima: A
presente crónica revela erudição e ironia ao confrontar a estupidez da
violência política , só alguém como JNP poderia tê-la escrito. Para restabelecer o equilíbrio depois da peça
Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, teremos talvez Jacinto e a Beleza de
Matar Comunistas. Acredito
que este título desta nova peça eventual, também deixará a imprensa
maravilhada. Paradigmas
Há Muitos! > José B Dias: E quando a coisa se torna mesmo indefensável
concedem que usaram um nadinha de hipérbole ou no limite que se deixaram levar
pela emoção. E todos os "decentes" fingem que acreditam! Nuno Chambel Lima: Muito obrigado pelo seu artigo. O enviesamento
mediático dos casos Quentin e Kirk é pan-europeu. Ouço a Deutschlandfunk ou a
Bayerischer Rundfunk de manhã. Não há imparcialidade. Alfredo Vieira: O Socialismo (e variantes) é uma doença MORAL. Hugo Vieira > João Proença: Não há contrassenso nenhum. A direta é
estúpida porque permite e engole a estupidez da esquerda. Tendo a concordar no
contexto de Portugal e na generalidade da Europa. Já não concordo tanto no
contexto dos EUA.
Tim do A > Manuel Lourenço: O Chicão é outro que pactua com a esquerda. Cisca Impllit: Uma peça que perpétua o rapto daquela
mãe aos seus filhos. A filha já disse que não queria ter nada
a ver com a politica, que ate o corpo e da memória dela se apropriam graça Dias: Um artigo fascinante e apropriadamente
sublinhado pelo sarcasmo elegante de JNP. Parabéns. Victor Goncalves > Tim do A: Isto acontece porque os esquerdoidos
conseguiram controlar a narrativa a seu favor, diabolizando tudo o que está à
sua direita, controlando a Academia, a cultura e a CS. Vocês vêem o PS2 a
reverter alguma coisa woke do tempo do Costa? Não porque é tudo a mesma
mer,@da. O Fukuyama tem de sair do lar de terceira idade para reformular
o seu " fim da história". Ao final a luta ainda não terminou. Antonio Rodrigues: Faço
aqui um apelo aos responsáveis do Observador. Aos vossos jornalistas,
estagiários e a quem escreve, ou simplesmente faz 'copy/paste' das notícias da
Lusa, deve ser dado a ler este artigo. Miguel
Macedo: Muito bem! Como sempre! Maria
Alva: Muito bem 👏🎯👍 unknown
unknown: Muito
bem
José Paulo Castro: Os 'gajos' das esquerdas, depois de matarem os outros, começam a
matar-se entre eles. É só ver a história desses movimentos quando
chegam ao poder. O que interessa é justificarem-se. O resto, fazem. maria
santos: A violência faz parte do modo de vida das Esquerdas. Lembrando tempos próximos. Foi assim na 1ª República, foi assim em Espanha nos anos do
governo das Esquerdas que antecedeu a Guerra Civil e também com a ETA nas Vascongadas. Foi
assim no nosso tempo com o Processo Revolucionário em Curso/PREC e os assassinos das FP25Abril amnistiados
por Mário Soares presidente e uma condecorada por Jorge Sampaio presidente. Temos memória, temos História e temos tempo. Vitor Batista > Hugo Vieira: MAInada!
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