Da guerra, pesa, naturalmente.
A Europa acordou? Não creio. As explicações de um céptico
Sempre que há uma crise a Europa anuncia que acordou e que “agora é
que é”. Desta vez o mote é “contra Trump, marchar, marchar”. Por regra nada
acontece pois a UE é mais burocrática do que democrática
JOSÉ MANUEL
FERNANDES Publisher e colunista do Observador
OBSERVADOR, 24 fev. 2026, 00:2425
1Passam hoje, 24 de Fevereiro de 2026,
quatro anos desde a invasão em larga escala da Ucrânia. E em breve passarão 12 anos desde que a
guerra verdadeiramente começou, pois é em 2014 que devemos situar o início da
intervenção directa da Rússia, primeiro na Crimeia, depois no Donbass.
Ontem, 23 de Fevereiro de 2026, os ministros dos Negócios Estrangeiros
da União Europeia reuniram-se em Bruxelas para aprovar o 20º pacote de sanções
a aplicar à Rússia. É um número que diz tudo: quatro anos depois a
UE continua a fingir que pretende fazer aquilo que não fez no primeiro dia,
isto é, ter acompanhado as palavras com actos aprovando medidas sancionatórias
realmente duras e que não necessitassem de ir já neste enésima versão.
E
é um número que, mais do que dizer tudo, nos devia pôr de sobreaviso sobre as
promessas que continuam a ser feitas, na Europa, relativamente ao fim da
dependência dos Estados Unidos. Fica bem nos discursos, casa
pior com a realidade. Até porque, como nessa reunião voltou a acontecer, em momentos decisivos há quase sempre uma
areia na engrenagem que atrapalha, atrasa ou mesmo paralisa as acções que
deviam dar corpo às belas palavras.
2Recordemos alguns episódios
recentes.
Na cimeira de Davos, a
presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, considerou que os actuais choque geopolíticos “podem e
devem” ser uma oportunidade para reforçar a independência europeia,
sublinhou a importância de mudar depressa e de forma permanente e deu como
exemplo de sucesso o acordo do Mercosur. Dias depois esse mesmo
acordo esbarrava no Parlamento Europeu e agora vamos ver o que dirão os
tribunais sobre o seu conteúdo. Mais: se
em Davos Von der Leyen garantiu que agora a Europa iria agir de forma unida e
determinada na frente da Defesa, nomeadamente nos investimentos necessários,
fora de Davos os parceiros europeus desentendiam-se sobre como e onde
desenvolver o novo avião de caça europeu, com alemães para um lado e franceses
para outro.
Já este mês de Fevereiro um
grupo de chefes de Estado e de Governo reuniu-se num castelo na Bélgica para
uma discussão informal sobre como desburocratizar o funcionamento das
instâncias europeias e nacionais, mas não só nessa reunião não estiveram alguns
dos principais líderes – Montenegro
faltou, mas teve como justificação os temporais, o que já não pôde ser invocado
por Pedro Sanchez, que também não compareceu e ainda intrigou –, como na
verdade o que está em cima da mesa é um relatório, o Relatório Draghi,
apresentado há quase ano e meio e ainda sem resultados palpáveis.
Mais recentemente um comentário banal de Giorgia Meloni a propósito do assassinato em França de um jovem nacionalista – que
ela considerou “uma ferida para a Europa inteira” – suscitou
uma reacção sanguínea de Emmanuel Macron, que lhe sugeriu malcriadamente que
“cada um fique em casa e trate das suas ovelhas”. Isto depois de o mesmo Macron ter dito, após a vitória eleitoral de
Meloni, que a França estaria atenta ao que se passasse com as regras
democráticas em… Itália.
3E se isto tem sido o dia a
dia da “unidade” e “determinação” europeias, a verdade
é que nos bastidores ninguém sequer sabe como se financiará a União e as suas
políticas nos próximos anos. A começar por ninguém saber sequer
como se fará para liquidar a dívida comum contraída pela financiar os PRR – uma
dívida justificada em nome do impacto da Covid – e ainda se querer agora
acrescentar responsabilidades e despesas comuns na área da Defesa. Corta-se nos
fundos regionais? Na política agrícola? Lançam-se impostos europeus? É
por aqui que andam alguns debates em Bruxelas, longe, bem longe, das opiniões
públicas europeias.
Não por acaso. Desde a sua fundação que a União
Europeia (inicialmente CEE-Comunidade
Económica Europeia) tem um
objectivo declarado – a progressiva
integração económica –, e um objectivo mal assumido, ou mesmo escondido – o da integração política. No
fundo, o da criação de um estado federal. Não há europeísta que se preze que
não alimente esse sonho ou não prossiga esse desiderato.
Também desde o princípio que esse
caminho conta com a oposição dos povos europeus, que quando chamados a votar em
referendo se desejavam mais integração, por regra chumbaram essas intenções. Fizeram-no
tantas vezes que Angela Merkel declarou abertamente que não
devia haver mais referendos, enquanto nos bastidores se assumiu que não haveria
mais revisões do tratados: o que
fosse necessário fazer teria de ser feito de forma dissimulada ou então com
liberdades interpretativas do significado desses mesmos tratados.
4Este caminho criou um dilema
insolúvel: sem
verdadeira legitimidade democrática, as instâncias europeias avançam ao ritmo
que as opiniões públicas de cada país vão permitindo, pois os governos europeus
sabem que têm de responder perante os seus eleitorados. O
resultado fica algures entre a paralisia e o passo de caracol, com meio mundo a
queixar-se em Bruxelas que é preciso começar a passar por cima da vontade dos
recalcitrantes.
Por outras palavras: a única forma de assumir a existência
deste dilema é assumir também que a União Europeia é uma construção
não-democrática, pelo menos não democrática no sentido substantivo do termo.
Ora isso ninguém assume. O discurso habitual é que a democracia europeia
existe e está de boa saúde porque a eleição do Parlamento Europeu é livre e por
sufrágio universal e no Conselho Europeu têm assento os líderes democráticos
dos 27 estados membro. Formalmente
é verdade, na prática nem por isso.
5Há muito tempo que penso que
dificilmente a Europa algum dia conseguirá cumprir aquele que considero ser o
critério definitivo para saber se um poder é ou não democrático: o podermos
afastar quem nos governa de forma pacífica. “Deseleger” democraticamente é
muito mais importante – e determinante – do que eleger democraticamente, razão
por que não posso deixar de recordar uma célebre conferência que Karl Popper deu
em Lisboa na Gulbenkian, em 1987, a convite de Mário Soares, então Presidente
da República. Como ele na altura explicou, o problema mais importante é “como
deverá ser constituído um Estado de modo a que os maus governantes possam ser
afastados do poder sem violência, sem derramamento de sangue?” (texto
integral aqui)
Ora não existe uma boa
resposta na União Europeia para esta questão.
Primeiro, porque nem no momento em
que elegem os deputados europeus, nem quando escolhem os seus governantes
nacionais, os europeus o fazem tendo como objectivo “mudar o governo europeu”. Pior: isso só muito indirectamente poderá mesmo resultar das suas escolhas
eleitorais, até porque a estrutura de poder da União Europeia não foi feita
para mudar de políticas quando tal é exigido pelos eleitores.
De facto muito dificilmente poderiam
os eleitores deitar abaixo um “governo” europeu já que os equilíbrios estabelecidos entre
os Estados no processo de construção europeia não criaram momentos em que isso
realmente possa acontecer (basta pensar na forma como é escolhida e
constituída a Comissão Europeia e como fracassaram mesmo as mais tímidas
tentativas de relacionar a sua composição com o resultado de uma eleição
europeia).
Finalmente é bom não esquecer
que a construção europeia não seguiu o
caminho normal da construção das democracias, que sempre procuraram regular
projectos diferentes e rivais de sociedade, antes
correspondeu a um processo destinado a conciliar interesses de Estados, um
processo mais diplomático (no sentido de implicar conciliação e harmonia) do
que político (no sentido que damos à política, que é o do confronto
entre propostas de governo rivais).
6Não surpreende pois que uma União
Europeia que assim foi sendo constituída acabasse sempre por se centrar mais em
temas económicos – aqueles onde o interesse comum é mais evidente e aqueles onde a própria tradição nos diz que é mais
fácil fazer acordos – do que em temas puramente políticos. Não
foi por acaso que a Comunidade Europeia de Defesa, criada em 1952 e que devia
coordenar as forças armadas de toda a Europa, morreu antes de
nascer, morta pelo parlamento francês. Em contrapartida em 1957 seria
possível criar a Comunidade Económica Europeia, que alargou as competências do
primeiro embrião de livre circulação de mercadorias, a Comunidade Europeia do
Carvão e do Aço. Achou-se então, e acha-se hoje, que atrás da economia viria a política – esqueceu-se
então, e esquece-se hoje, que para haver política e democracia não chega ter
bons acordos de comércio e um espaço de livre circulação de pessoas e bens.
É por tudo isto que só posso olhar
com cepticismo para as promessas grandiloquentes que as lideranças europeias
estão sempre a fazer e que criam mais desilusão do que acção. A
política continua a ser feita nos Estados, e nesses Estados os políticos sabem
que muitas vezes a sua única defesa face a eleitores zangados é reivindicarem
de volta poderes que transferiram para Bruxelas – ou então bloquear tudo, uma
especialidade que está longe de ser um exclusivo de figuras como Viktor Orbán.
É também este meu cepticismo que
me leva a desconfiar mesmo do optimismo daqueles que acham que, com Trump, a
Europa tem por fim o estímulo necessário para se unir e agir. É caso para
perguntar: e não tinha tido já com Putin? E será que se uniu e agiu como devia
ter feito?
Estes quatro anos que passaram
desde essa trágica madrugada de 24 de Fevereiro de 2022 falam por si – a Europa
é o que é, e ser-se assim é pouco. Resta-nos a consolação de ser melhor do que
nada.
GUERRA NA UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA MUNDO UNIÃO EUROPEIA
COMENTÁRIOS
RUI
LIMA: Um
pequeno país pode parar a Europa e aqui estou com devido receio: a
ditadura da maioria e a paralisia. Não há
saída, mas temos o homem que, na minha opinião, mais fez pela Europa até
hoje - foi Donald Trump deu a unidade que ela não tinha e o ódio aos USA é
combustível para alguns países. Receio que, quando ele deixar a
cena política, a Europa possa sentir-se perdida sem rumo sem inimigo... Era tão
boa a ideia de uma Europa unida, mas temo que, no futuro, possa terminar sob
uma forma de um grande califado.
Miguel Macedo: Esta UE destruiu de forma irreversível a Europa! É sinistra!
Manuel Lisboa: É, sem dúvida, verdade quanto à Europa
"Resta-nos a consolação de ser melhor que nada". Mas sabe a pouco. E
essa constatação torna-se ainda mais gritantemente trágico-cómica se se pensar
que só em deputados o Parlamento Europeu dispõe de 720 eleitos e duas
sedes (Bruxelas e Estrasburgo) e, globalmente, a União Europeia tem mais de
50.000 funcionários permanentes. Some-se também o número de elementos que cada
país destaca para as missões em Bruxelas, aos quais se devem juntar todos
aqueles que, cada semana, vão e vêm entre os 27 países e a capital belga, onde
ficam, pelo menos, dois a três dias. Mais, não há, certamente, dia em que um
ministro, acompanhado pelo respectivo séquito de assessores ou adjuntos, de
cada um dos Estados membros não esteja em reuniões em diferentes edifícios
europeus na cidade sede ou noutros espalhados por outras localidades europeias.
Recorde-se também as bombásticas cimeiras (como a de ontem) que se
caracterizam por resultados inversamente proporcionais às expectativas criadas
pelos ensurdecedores noticiários. Aliás, os chefes dos governos após essas
ocasiões, supostamente importantes e tantas vezes apresentadas como decisivas,
parecem menos líderes políticos com mandatos nacionais e mais habilidosos
directores-gerais a expor, burocraticamente, as razões para tão magros
resultados e ausências de consensos.
Essa realidade europeia, pesada e descoroçoada, revelam demasiadas vezes
uma UE quer impudente perante a sua própria serôdia solenidade, quer,
obviamente, muito frágil face a desafios prementes como a guerra na Ucrânia.
Portanto, o fracasso em obter-se acordo para
um 20º pacote de sanções contra a autocracia russa ao fim de quatro anos de
guerra é não só frustrante como espelha a sua inequívoca falta de coesão. Depois, os governo da Hungria e da
Eslováquia, conforme múltiplos noticiários, evocam interesses nacionais, que,
pelos vistos, passam pela insistência em ser abastecidas de gás e petróleo
russos (como se não houvesse outros fornecedores no mercado mundial e
gasodutos e oleodutos alternativos) sentem a falta da repressão soviética ou
russa nos seus países. Todavia e tal com José Manuel Fernandes sublinha na
crónica um 20º pacote nunca deveria ser necessário; um teria sido suficiente e
há quatro anos.
Desta forma, a Ucrânia terá
que continuar a resistir com dois estados europeus na sua retaguarda agindo
como parceiros do Kremlin e a habitual falta de dinheiro e decisão dos outros
parceiros europeus para apoiarem militarmente de maneira mais resoluta o
esforço de guerra ucraniano em resistir à agressão da Rússia.
E a UE vegeta embaraçada,
diariamente, na sua auto-satisfação
burocrática de mais de sete centenas de eurodeputados e governos, em média, de
mais de 50 membros.
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