Por timidez na questão dos erotismos, que tanto nos apraz focar, em livros alheios, que nos desresponsabilizam relativamente às nossas motivações, assim expressas por conta alheia. A literatura portuguesa, inserida num contexto de pudicícia ditada por uma educação que se pretende de bom formato moral – pelo menos às claras - e mais atida às questões do sentimento, relega nobremente as questões sexuais ou mesmo racistas, pelo menos por conta própria. Donde a manipulação alheia, mesmo desvirtuada, aqui referida.
João Pedro George e a esquerda que treslê
O
afã anticolonialista de João Pedro George leva-o a encontrar negras
estereotipadas em personagens que nem negras são: o romance que acusa de ter um
olhar colonialista nem sequer fala de África.
JOÃO PEDRO MARQUES 13 fev Historiador e romancista
OBSERVADOR, . 2026, 00:1841
Por curiosidade, interesse e dever de ofício
leio muitos livros de autores portugueses sobre temas coloniais e um dos
últimos que li foi “O Cemitério do
Elefante Branco”. Retornados e
Ficções do Império Português”, de João Pedro George.
O que me traz aqui não é fazer a
recensão desse livro, mas corrigir e
interpretar uma passagem do seu capítulo 5 na qual o autor lança mão de uma
obra minha para tentar alicerçar as suas teses. De facto, ao
abordar a forma como certa literatura fala da líbido e da sexualidade dos
negros, João Pedro George afirma
que há uma “apreciação generalizada dos
negros como hiper-sexuais (leia-se: em estado de perpétua excitação), entregues à febre da luxúria, com um desejo insaciável de sexo, em que
a necessidade erótica se manifesta como uma reacção explosiva”. O autor
considera que “o exemplo mais
decadente, ou mais degradante” dessa hiper-sexualização e luxúria se encontra
“nas descrições do corpo das negras e da sua poderosa sexualidade, que convida
os homens a regressarem às deliciosas sensações primárias do sexo animal, a
cuja tentação não conseguem resistir”. George está convencido de que “essas descrições não surgem do nada,
inscrevem-se na história da literatura portuguesa” e afirma que “nos nossos dias, vários romances
descendem desta tradição, como O
Estranho Caso de Sebastião Moncada
(2014), de João Pedro
Marques, que
descreve a negra Poleciana a fazer amor com o tenente Mateus ‘como um animal
insaciável’ e aparentando ‘uma
expressão excitante, quase demoníaca’;
Maria, a criada negra de Sátiro da Costa, contorce o ‘corpo como uma cobra’; e
Luísa ama Mateus ‘de uma forma selvagem’, com uma ‘expressão devoradora’ (pp.
295-6).
Ou
seja, João Pedro
George usa o meu
romance O Estranho
Caso de Sebastião Moncada para
dar aos seus leitores exemplos daquilo que designa por “olhar colonialista sobre os corpos colonizados”. Sucede
que, no que diz respeito ao meu livro, nada disso é verdade, como quem o tiver
lido, ou for ler, sabe ou poderá vir a saber, e é verdadeiramente
extraordinário que George tenha extraído essas conclusões de uma obra que nada
tem a ver com África nem com africanos. De facto, O Estranho
Caso de Sebastião Moncada é
uma história de natureza passional, militar e policial,
passada exclusivamente em Portugal, sobretudo no norte do país, e no contexto
das Guerras Liberais de 1832-34. As personagens que João Pedro George refere
como sendo negras são todas elas
alvas como a neve. Aliás, e com
a irrelevantíssima excepção de uma cozinheira negra a que se alude uma única
vez, sem a identificar, no início do romance, e que não tem nele qualquer peso
ou intervenção, todas as personagens que interagem no desenrolar da trama são
brancas. Muitas vezes isso é explicitado nas descrições físicas das
personagens. Outras vezes está implícito, como é natural. Seria
redundante e absurdo ter de explicar caso a caso, acerca de cada personagem,
que se tratava de pessoa de raça caucasiana e pele branca. Não se especificando coisa diferente,
qualquer leitor pressuporá que num romance passado há cerca de 200 anos no
Porto, em Penafiel e noutras povoações do norte, assim seria já que o número de
negros existentes nessas terras era, nessa época, ínfimo ou nulo. Importa,
não obstante, sublinhar que mesmo nos casos em que a pertença étnica está
implícita ela subentende-se ou deduz-se com facilidade. Alguns exemplos concretos sobre as três
personagens que João Pedro George referiu: a criada Maria, que se contorce como uma cobra (para escapar aos abraços
e carícias do azeiteiro de Vilar) tem a cara corada (p. 116); Poleciana, ou
melhor, D. Poleciana Alves da Cunha, é uma senhora da fidalguia rural com
criados e gente de lavoura ao seu serviço (pp. 90-1), que vive numa casa
senhorial em Barcelos, em cujas paredes há quadros de austeros antepassados (p.
93) e que, à noite, pronta para dormir, deixa que os cabelos soltos lhe caiam
sobre os ombros (p. 97); Luísa é mulher do juiz Etelvino de Vasconcelos e filha
de um rico lavrador da região de Avintes (p. 43). Ou seja, nada no
texto permite ao leitor supor que as personagens que o habitam não são brancas,
muito pelo contrário.
Aqui chegado a pergunta que coloco é a
seguinte: como foi então possível que João Pedro George tivesse
confundido e subvertido a este ponto o que leu e o que eu escrevi? Estou em crer que não se tratou de uma
confusão entre dois romances meus, pois os nomes das personagens batem certo e
as citações também. Parece-me igualmente seguro que ao contrário de Margarida
Rendeiro que, por razões políticas e ideológicas, leu e criticou dois dos meus
romances com manifesta má-fé, neste caso não se trata de um mal-entendido
maldoso ou propositado. Julgo, isso sim, que este grande engano resulta da
conjugação de duas coisas diferentes e ambas negativas. Vejamo-las uma a uma:
Em primeiro lugar esta confusão de George parece resultar
de uma investigação algo descuidada e apressada, o que não abona a qualidade do
seu trabalho. Aliás, George
confessou em tempos, numa entrevista ao jornal Sol, que pode não ler os
livros “da primeira à última página”, mas ficar-se apenas por “nacos
significativos”. Não é de excluir que nem isso tenha acontecido na
leitura deste meu livro e que os tais “nacos significativos” tenham sido, nesse
caso, apenas esparsas migalhas.
Notem, porém, em segundo lugar,
que não se trata de um lapso causado por uma desatenção momentânea, mas sim
de três enganos em diferentes passagens do livro, três alucinações em torno de três mulheres diferentes — Maria,
Poleciana e Luísa —, mas todas no mesmo sentido, e isso pode também ter um
significado mais profundo do que um simples descuido e uma leitura superficial.
Julgo que João Pedro George leu O Estranho Caso de Sebastião Moncada e converteu aquelas três mulheres brancas em mulheres negras
por causa das passagens eróticas e das cenas de sexo. Maria, a criada com a cara afogueada, mas
que serpenteia como uma cobra para escapar às carícias do azeiteiro, passou,
por causa desse seu serpentear, a ser, no entendimento de George, africana.
Poleciana Alves da Cunha, poderosa
senhora de Barcelos que faz amor com a boca entreaberta e a ponta da língua a
percorrer eroticamente os lábios, passou igualmente, por demasiado excitante, a ser negra. E Luísa
também porque, na intimidade com o tenente Mateus, a mulher do juiz Etelvino de Vasconcelos se
mostra selvagem e devoradora.
Ou seja, não sou eu, como autor, que vejo os negros como “hiper-sexuais” ou
“em estado de perpétua excitação”, “entregues à febre da luxúria (e) com um
desejo insaciável de sexo”. Não existem nos meus romances diferenças
assinaláveis entre mulheres brancas e negras no que toca à líbido ou à forma de
viver e exprimir a sua sexualidade. As práticas e atitudes amorosas e
libidinais das personagens negras heterossexuais dos meus romances — Tangi, em Os
Dias da Febre (2010); Sara, em Do
Outro Lado do Mar (2015); etc. — em
nada se distinguem das de Maria, Poleciana e Luísa em O Estranho Caso de Sebastião Moncada. Não sou eu,
repito, que vejo os negros como “entregues
à febre da luxúria”, é João Pedro George que, ao que parece, tem esse estereótipo na cabeça e que associa
um certo tipo de libidinosidade, ou de
formas mais soltas de vivência do corpo, a figuras negras. E é precisamente porque o faz que, de
forma automática, enegreceu ou africanizou as minhas personagens femininas
brancas. É irónico que o livro de João
Pedro George, que tem no título a expressão “Ficções do Império Português”, inclua
nas suas páginas uma tão grande ficção nos planos da análise e da crítica, mas o
trabalho feito à pressa associado aos preconceitos e às fantasias
erótico-literárias pregam destas partidas às pessoas.
De todo o modo essa é uma questão menor
porque o que mais interessa neste caso não são os tropeções, erros e
fantasias de João Pedro George, mas o facto de eles serem sintomáticos e
ilustrativos da forma como não toda, claro, mas muita gente de esquerda está no
espaço público e tende a envolver-se nas questões do foro cultural,
intelectual, histórico e político. Nos meus já largos anos de debates na
esfera pública deparei-me e confrontei-me muitas vezes com interlocutores e
contraditores de esquerda que praticavam, impantes, esta metodologia da leitura
parcial, do estudo de relance, das conclusões precipitadas e das acusações
disparatadas. Vendo bem este estranho caso de João Pedro George, que
inventa mulheres negras onde só existem brancas, e vê olhares colonialistas
onde não há sombra de colónias, colonizadores e colonizados, não é assim tão
estranho no contexto dessa esquerda. É até, arrisco-me a dizê-lo, a típica
forma desse sector da opinião pegar nas coisas, projectando os seus fantasmas
sobre os outros. E é por isso que debater com gente que treslê a este ponto é
quase como jogar futebol num campo de minas. Exige técnicas e paciência de
soldado sapador.
COMENTÁRIOS:
Carlos Ferreira14 h: Arrasador.
Se fosse ao J. P. George, pintava a cara de preto (sem segundas intenções) :-) graça
Dias: Senhor
Professor João Pedro Marques . Mas
que artigo fascinante. Todo um relato admirável sobre a ignorância das
esquerdas Woke. Resumindo, este personagem anticolonialista de nome João
Pedro George, não passa de um activista de cultura
marxista Woke, que apresentou um conjunto de folhas, que são uns rascunhos com a habitual corrupção de linguagem e de factos históricos, que
caracteriza a ignorância da seita Woke, rumo ao obscurantismo. Este é um
artigo brilhante e escrito com elegância por quem tem grande autoridade na
matéria. Só poderei agradecer e dar os parabéns ao Senhor Professor João Pedro
Marques. Simplesmente delicioso e... também hilariante. Mário
Gouveia: Não é ignorância, é má-fé. Inenarrável
Paulo Silva: Lolada! A
desconstrução de mais uma burla woke… Grato, JPM. O efeito Sokal em versão
light chega para dar cabo da aureola 'científica' dos seminaristas dos estudos
pos-coloniais. Pobres coitados. Paul
C. Rosado: Muito bom
texto. O ocorrido neste caso é só mais um exemplo da ignorância da esquerdalha
intelectualóide.
Rita Salgado: É
o que dá “ler” livros pelas badanas… Gostava de ver a reacção dos alunos do Sr
George quando este lhes recomendar leituras! Maria
Nunes: O Sr. George devia pedir
desculpa ao Sr. Professor JPM.. ana rita: Juro que até sinto pena desse João Pedro George. Manuel Lourenço: Dia negro para João Pedro George.
José Roque: Quem diz apreciar obras
literárias através de "nacos significativos" está sobejamente
apresentado... Israel
Sousa: Parabéns pela explicação da "ficção" apresentada pelo sr. dr.
João Pedro George, que está ao nível de um "documentário" da Netflix!
De facto a pesquisa que suportou a tese apresentada no livro do dr. George, é
completamente absurda, fantasiosa e falsa. Ou foi o resultado de preguiça e fanatismo ideológico,
ou de uma "alucinação" de alguma ferramenta de IA! Rui Lima: Noto que alguns
autores portugueses parecem desfasados relativamente ao tema actual. O debate
contemporâneo centra-se mais na colonização da Europa, um fenómeno que se
desenvolve a uma velocidade impressionante. Quando olhamos para a história,
vemos que Portugal, em 400 anos em Angola, não passou da costa . Actualmente, há obras que
explicam bem o futuro que poderá aguardar a Europa. Entre elas, Ferghane
Azihari pode ser considerado o “Voltaire do século XXI”. No seu livro L’islam
contre la modernité, Azihari oferece uma perspectiva do que poderá acontecer à
Europa nas próximas décadas.
Paradigmas Há Muitos!: Parece-me que a única saída
digna para esse João Pedro George será fazer harakiri, não? Atenção, isto é só
uma metáfora! No campo do anti-racismo woke, tenho verificado muito o que o JMM aqui
revela sobre o João Pedro George. O afã de sinalizarem virtude é tanto que as
suas acusações precipitadas aos outros acabam por ser a reflexão da sua própria
imagem no espelho. Eles ao verem racismo onde ele não existe estão a projectar
os seus próprios preconceitos e, infelizmente para eles, a denunciarem-se como
fraudes intelectuais e morais. António Sabbo: Brilhante. Carlos Chaves: Como sempre típico da esquerda, não consegues vencê-los com a razão,
arrasa-os com a mentira! Obrigado, caro João Pedro
Marques, por esta sua incansável luta pela verdade (histórica). GateKeeper: Top 10. antonyo antonyo: Custa a acreditar que tenha acontecido ,tal a
enormidade da descrição . A esquerda e os wokes alteram tudo mas aqui atingem o
limite . Aguardemos o pedido de desculpas do sr George . José
Paulo Castro: Se só
fosse tresler... pior é aquela contorção dos conceitos e da realidade para a
adequar aos fins. Chamam-lhe
interseccionalidade. Cisca
Impllit: A
ignorância é atrevida. É bom repor as coisas como elas são , até é
uma obra de misericórdia. Há sempre oportunidades de superarmos um
engano e emendar a mão .
joao lemos: e afinal quem é este sr George? vive de quê? quem lhe paga o ordenado? José Pedro Correia: Mais uma pérola de João Pedro George: da
gloriosa era do ‘quase-plágio’ a Zenith à nova temporada de deturpações da obra
de João Pedro Marques. Maria Augusta Martins: O ver tanta água faz mesmo muita sede e ela é
tanta (a água) que a estou a abominar. Penso professor que estamos muitos de acordo com isto. Vai um, ou
dois, ou três copos de verde de Barcelos á saúde e ao bom tempo! José B
Dias: Claramente
uma das tais ficções que constam do título ... 😂 Quantas mais existirão? Manuel
Matos: Genial,
devia ser a primeira página de todos os diários L do Campo: Se este senhor George faz estas "citações/interpretações"
de uma coisa que não existe como é que se poderá acreditar nas biografias que
escreveu? joao lemos: mais uma vez vem tentar meter
alguma luz na ignorância e só por isso muito obrigado reconheço-lhe a enorme
paciência para permanentemente desmontar a desonestidade intelectual desta
"turba" de analfabetos. Fossem os MIDIA correctos e
sérios e toda esta gente poderia ser desmistificada nas televisões. Infelizmente convidam três woke para debater temas
woke Manuel
Lisboa: Nem mais. Não tinha qualquer vontade de comprar o livro do tal Pedro
George. Agora, fica bem fundamentada essa minha rejeição. Como sempre palavras
sensatas e conclusões claras e muito acertadas de João Pedro Marques. Beta Martins: Muito bem!
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