De egocentrismo, que é característica bastante
comum, num país de visão essencialmente parcelar, ao longo da sua História.
Marcelo não percebeu que a geringonça
deixou feridas que não foram saradas e contou que, com a sua popularidade, se
ia impor a um PS minoritário depois da pandemia. Podia ter tudo e ficou sem
nada.~
ANDRÉ ABRANTES AMARAL. Colunista do Observador
OBSERVADOR, 15 fev. 2026, 00:225
Devo ter sido dos que mais escreveram
sobre Marcelo nos últimos dez anos. Se não, pelo menos, quem mais
consistentemente o criticou. A forma como
o país se deliciava com as selfies e os abraços de Marcelo só aumentava a minha
vontade em lhe apontar o dedo. Quando o deslumbramento nacional abrandou
refreei eu também nas críticas até que pus termo aos textos sobre o ainda
Presidente da República. É tempo, pois, de regressar a ele. Pela última vez e
em jeito de balanço.
Marcelo
Rebelo de Sousa é um homem perspicaz e inteligente que não
conseguiu ser um bom presidente da República. Apesar da sagacidade e da
inteligência leu mal os sinais, falhou quando apostou e perdeu-se no fim do
segundo mandato. Leu mal os sinais ao
achar que a festa e a proximidade bastavam para que a maioria dos portugueses
esquecesse os sacrifícios do período da troika. Ignorou (ou não deu
importância ao facto) que a jogada de
António Costa para ser primeiro-ministro, apesar de constitucionalmente
legítima, deixou feridas profundas e comportou um custo que o sistema
partidário ainda hoje está a pagar. Durante oito anos, Marcelo Rebelo de
Sousa e António Costa desvalorizaram o trabalho invisível que dá resultados a
longo prazo, privilegiaram o imediato e o agora numa altura em que o país
precisava (e precisa) de mudanças que requerem tempo. Quando Portugal necessitava de equilíbrio
e de serenidade, Marcelo e Costa deram-nos festa, exaltação e azáfama.
Confundiram agitação com acção e, como geralmente acontece nessas situações,
pouco ou nada se fez.
Mas
Marcelo falhou também quando, em finais de 2021, apostou que o fim da
geringonça (em 2019) ditava um governo minoritário de António Costa subordinado
a Belém. Na altura, boa parte dos comentadores não
compreenderam por que motivo Marcelo fez depender a continuidade do governo da
aprovação do orçamento de Estado para 2022. Alertaram
que isso tornava a votação dos orçamentos em verdadeiras moções de confiança ou
de censura, o que conduziria a governos a prazo, dada a divisão no parlamento. Sucede
que a razão era precisamente essa: ao
convocar eleições, Marcelo esperava que um futuro governo minoritário do PS
dependesse dele para se manter. No fundo, não antecipou que António
Costa conseguisse uma maioria absoluta, depois de seis anos como
primeiro-ministro. A
inusitada vitória do PS, a 30 de Janeiro de 2022, colocou um ponto final nas
aspirações de Marcelo que há décadas sonhava governar o país. Se não como primeiro-ministro, ao menos
como um presidente popular que se sobrepunha a um chefe de governo debilitado
nas urnas.
Foi neste momento que o segundo
mandato de Marcelo se perdeu. De um presidente
omnipresente e tutelar, Marcelo viu-se transformado num chefe de estado sem
propósito. As selfies e os
afectos (feitos para ganhar popularidade e se tornar imprescindível ao governo)
perderam razão de ser e, sem brilho, banalizaram-se. Reduzido às
armas políticas que foram as suas desde sempre, os boatos, os mexericos, o
disse que disse, a pretensa fonte incógnita de Belém, os recados cada vez mais
inócuos e inofensivos, Marcelo passou a ser um presidente velhote de quem
sorrimos com compaixão.
Nem sequer as vitórias de Luís
Montenegro sem maioria absoluta lhe serviram de alento. Com experiência suficiente para saber ao
que ia, o novo primeiro-ministro teve o cuidado de se proteger do presidente e
de o afastar das decisões mais importantes. Tanto assim foi que, pela
primeira vez na sua vida, Marcelo deve
ter sabido pelos jornais o que se decidia em São Bento. Uma ironia com graça
que nos faz sorrir com a mesma complacência com que o vemos partir.
MARCELO
REBELO DE SOUSA PRESIDENTE DA
REPÚBLICA POLÍTICA
COMENTÁRIOS (de 5)
Nuno Abreu: A crónica sobre Marcelo é muito simples. Tudo se
resume a um prazer doentio pelo exibicionismo comunicacional. Penso que já
aqui referi que partilhei com ele o mesmo espaço – os corredores da faculdade
de direito de Lisboa – há mais de 45 anos, durante quatro anos, e todos os
dias, no intervalo das aulas, ocupava ele a ombreira da porta da sala rodeado
de alunos e olhando por cima deles para os que passavam no corredor como que a
convidá-los com os olhos para o ouvirem. Claro que é culto e inteligente mas perde-se nos
discursos só para aparecer.
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