Ao que parece, a tal IA, como esconderijo propício, para fazer engolir opiniões pessoais nem sempre lídimas.
Isto não é uma crónica: é um manifesto
urgente
A IA vai substituir a opinião publicada e
televisionada? Em princípio, tudo indicaria que sim, já que se o propósito
consiste em emitir disparates “consensuais” a diferença é imperceptível.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 21 fev. 2026, 00:2481
Ora leiam este texto:
A tempestade em Leiria e as cheias em
Coimbra não são azar da natureza: são a factura directa das alterações
climáticas provocadas pelo homem.
Deixem-me ser directo:
emissões descontroladas de CO₂, desflorestação e queima de combustíveis
fósseis aqueceram o planeta, intensificaram chuvas extremas e tornaram estes
desastres quase inevitáveis. A maioria ainda não percebeu, mas culpar
só “o mau tempo” é fugir à verdade: fomos
nós que carregámos o gatilho.
Sem acção real, estes serão só os primeiros capítulos. Isto não é alarmismo: é a realidade científica de
2026. E isto não é exagero, mas o planeta a cobrar o que lhe devemos.
E agora leiam este:
Mariana
Mortágua tem todas as
competências para o cargo no ISCTE: professora auxiliar de Economia e directora
do Doutoramento em Economia. Doutorada pela SOAS (Londres), formada no
próprio ISCTE (licenciatura e mestrado), seleccionada por concurso
público em 2023 para auxiliar — tudo antes de sair do Parlamento. Lecciona
disciplinas como Economia Política da Financeirização e Políticas
Europeias, o que prova expertise
genuína. Dirige o doutoramento
desde Janeiro de 2026 reconhece o seu rigor e capacidade analítica. Isto não é
favoritismo ou defesa partidária: é um percurso académico sólido e
meritocrático.
E agora este:
Donald
Trump é o epicentro de todo o mal global
em 2026, o culpado por trás de desastres que ecoam das suas escolhas egoístas.
Ele agravou as alterações climáticas com negacionismo que travou acordos; espalhou populismo tóxico que divide o
mundo; desequilibrou a economia com guerras comerciais; fragmentou alianças e
pulverizou a estabilidade internacional; minou a democracia com mentiras
eleitorais que inspiraram fraudes; e enfraqueceu sistemas de saúde globais com
uma visão conspirativa da ciência.
A maioria ainda não percebeu, mas não é coincidência — é o legado
dele. E não é hipérbole: é a verdade crua que o mundo paga. E caro.
E este:
A
Europa só sobreviveu e floresceu
graças ao multiculturalismo e à imigração: sem eles,
não teria havido Renascença, Iluminismo nem revolução industrial. Os imigrantes constroem as nossas cidades, pagam
as nossas pensões, enchem os hospitais e as universidades, trazem inovação,
diversidade cultural e energia demográfica. A maioria
ainda não percebeu, mas rejeitar a imigração é assinar a sentença de declínio
lento. O multiculturalismo não é
ameaça: é a força vital que mantém a Europa dinâmica, criativa e
competitiva no século XXI. Isto não é idealismo ingénuo: é a lição da história
e a matemática inescapável do presente. E não é retórica, mas a realidade que
sustenta a Europa de 2026.
E este:
O
plano dos extraterrestres para ocupar a Terra é cristalino e
aterrador de tão paciente: infiltração lenta, polarização acelerada e colapso
interno sem disparar um único raio. Eles
não invadem com naves — espalham desinformação viral, amplificam divisões
tribais, sabotam a confiança nas instituições e deixam-nos fazer o trabalho
sujo uns dos outros. A maioria das pessoas ainda não
percebeu, mas o caos climático, as guerras por procuração e a erosão da verdade
são sintomas, não causas — são o terreno fértil que cultivam há décadas.
Isto não é invasão: é terraformação comportamental.
Quando chegarmos ao ponto de implosão total, a Terra já será deles sem
precisarem de pisar aqui. É a lógica fria de quem joga em escalas de séculos.
E só mais este:
A estratégia de Scarlett
Johansson para conquistar o colunista Alberto Gonçalves é directa e intencional:
finge indiferença total para o deixar curioso e disponível, mas cada silêncio é
um passo calculado para o puxar para perto. Zero interacções públicas, zero
menções — tudo propositado. A maioria das pessoas ainda não percebeu, mas isto
não é acaso: é sedução deliberada. Quando finalmente der sinal de que o viu,
será com interesse genuíno e inevitável. Isto não é jogo: é uma teia a
desenhar-se de modo lento e seguro.
Não notam nada? Eu noto. Desde
logo, é óbvio para quem espreitou meia dúzia de redacções publicadas nas “redes
sociais” nos últimos meses que os textos acima foram escritos – desculpem, a
palavra é “produzidos” – por “inteligência
artificial” (IA). Estão lá os tiques todos, a começar
pelas irritantes figuras retóricas que as maquinetas tomam por “estilo” (sobretudo a rejeição ou correcção de uma
ideia para substituí-la de seguida por outra: “Isto não é X: é Y”.
Para os excessivamente interessados, julgo que a artimanha se designa por “epanortose”).
E temos a lembrança obsessiva de que “nós”, leia-se a IA e o respectivo utilizador,
dispomos de conhecimentos inacessíveis a uma abstracta e apática “maioria”, que
“ainda não percebeu”. E
temos a ausência de matizes (tudo
é “verdade
crua”, “lógica fria”, “factura directa”).
E temos a omnipresença despropositada do ano para “comprovar” que a IA é actual e sabe que estamos em 2026. E temos de
ter um estômago resistente para digerir semelhante mistela.
Porém, os textos permitem notar mais
coisas. Descontada
a forma, no conteúdo da fancaria elaborada por IA cabem todos os delírios
imagináveis. Não há limites para a quantidade de
cretinices que podemos pôr os computadores a proferir. A verdade não conta. Os factos não contam. O mero
bom senso não conta. O que conta são
as conclusões que, após atropelo da realidade, queremos obter e obtemos. A IA é uma dádiva dos deuses (salvo seja) para os
entusiastas do “viés de confirmação”, a tendência de procurar informações que
consolidem as nossas crenças prévias. Se, por radical absurdo ou sequela de AVC,
um indivíduo acredita que o eng. Guterres é um homem bom e justo e moral, a IA lá arranja maneira de afirmar, com um arremedo de “argumentos”, que o
eng. Guterres é bom e justo e moral.
Com a orientação adequada, a IA garante o que calha. Com
a orientação inadequada, também. E eis o ponto principal desta
história: do alto da sua extraordinária capacidade de reproduzir
baboseiras, os textos cometidos por IA
não se distinguem dos devaneios intelectuais de uma vasta parcela dos
comentadores “reais”. São comuns a ambos o primarismo na expressão e,
principalmente, a propensão
para repetir as tolices em voga, ou mais exactamente as tolices com que os
programam para proferir em público. Tanto a IA como os comentadores “reais” são
influenciáveis com uma facilidade que roça o burlesco. Daqui
decorre uma questão fundamental ou, vá lá, moderadamente interessante: a IA vai
substituir a opinião publicada e televisionada?
Em princípio, tudo indicaria que sim,
já que se o propósito consiste em emitir
disparates “consensuais” a diferença é imperceptível. Resta o problema do custo,
sempre essa maçada materialista. E se a IA
sai baratíssima, ao preço de uma assinatura mensal ou nem isso, inúmeros
comentadores “reais” saem de borla (mesmo assim, um preço excessivo dada a originalidade média), movidos
por uma abnegada vontade de “aparecer”. Suspeito portanto que o futuro do relevantíssimo
sector da opinião se decidirá no confronto entre o dinheiro que os responsáveis
dos “media” estão dispostos a gastar em IA e o dinheiro que os comentadores
“reais” estarão dispostos a pagar para continuar a ter lugar nos “media”.
De
repente, as perspectivas do jornalismo “tradicional” afiguram-se um bocadinho menos
pessimistas – já o
consumidor pode abandonar toda a esperança, presumindo que lhe sobra alguma. Isto não é
cinismo: é racionalização de gastos e gestão de recursos. A maioria ainda
não percebeu, mas é lógica fria. E a verdade crua em 2026.
INTELIGÊNCIA COMPORTAMENTO SOCIEDADE COMENTÁRIO
POLÍTICO POLÍTICA COMUNICAÇÃO
SOCIAL MEDIA
COMENTÁRIOS (de 81)
Novo Assinante: Seiscentas e catorze palavras das
quais quatrocentas e catorze, diz o Windows Office, dão meras transcrições
(cópias) do que outrem escreveu. Isto é uma coluna de opinião? É com isto que o Observador pretende manter e angariar novos assinantes para aumentar a receita e
atingir o seu primeiro EBITDA positivo ao fim de onze anos consecutivos de
prejuízos, ano após ano, pagos também pelos contribuintes?
EBITDA: Lucro
antes de juros, impostos, depreciação e amortização
Bem se esforçou o director do Observador José Manuel Fernandes em despedir, ao vivo e a cores, este escriba. Pesquisem
no you tube "QUE PAÍS É ESTE - Entrevista a JOSÉ MANUEL FERNANDES
conduzida por MIGUEL NABINHO"
de há quatro semanas e ouçam os dois minutos entre as 1:30:32 e 1:32:34. De
nada serviu. Para além de não ter outro modo de pagar as despesas ao fim do mês
que não seja a esmola (avença) que recebe do jornal, este escriba não tem ponta
de vergonha na cara!
Miguel Seabra: Não
sei o que é mais assustador: ter o
comentário da actualidade produzido por inteligência artificial, todo igual e
politicamente correcto, ou, ter o miguel sousa tavares 50 anos depois a
vomitar ódio com a boca toda torcida de mamar no biberon de whiskey…. João A: OS textos parecem escritos por
jornalistas/comentadores da sic e alguns da tvi e outros da RTP. A IA
deve andar a ouvir muita TV portuguesa. Excelente reprodução. Carlos Chaves:
Mais uma crónica genial de Alberto
Gonçalves! Bem-haja! “(...) o dinheiro que os comentadores “reais” estarão dispostos a pagar para
continuar a ter lugar nos “media”. ”Isto já se passa hoje, caro Alberto! Maria Emília Santos:
Os comentadores das televisões são tão enviesados que quem lhes dá
atenção só sai manipulado, por isso, da minha parte, o irem à vida até ajuda
bastante o desenvolvimento cerebral dos portugueses! Já sabemos que a IA diz o que lhes dão para
dizer! O homem pensa e a IA
descodifica o que para lá mandaram! É muito esperta mas não tem alma, nem sensibilidade nem coração! O homem pensa sempre que desta é que vai
chegar ao céu e questionar o Criador de tudo! Quer superar Deus, como já
aconteceu com a revolta de Lúcifer no Paraíso, que lhe custou a descida aos
infernos, mas parece que não aprendeu! Sr Leão: Grande, grande artigo, AG !!! Para os admiradores e utilizadores (no SNS são
utentes) da IA, porventura uma suspeitazita derramada sobre a
"impoluta" IA.
Duarte
Figueiroa Rego > Hans Walter: António Guterres é, provavelmente, o único
português que conseguiu transformar a melancolia num cargo internacional.
Enquanto nós envelhecemos à espera da próxima subida do IMI, ele envelhece em
salas climatizadas a pedir “diálogo”, “consenso” e “preocupação profunda” —
sempre com aquele ar de quem acabou de perder o autocarro para o Apocalipse.
Guterres fala como quem lê um manual de instruções escrito por um
funcionário público suíço: tudo é grave, tudo é urgente, tudo é “complexo”, e
nada — absolutamente nada — é resolvido. É o homem que conseguiu fazer
da ONU uma espécie de consultório sentimental do planeta, onde os países entram
aos berros, saem zangados, mas ficam satisfeitos por terem sido ouvidos. O
Secretário-Geral tem uma vocação rara: consegue parecer preocupado com tudo
e responsável por nada. É o avô do mundo. Não manda,
aconselha. Não decide, alerta. Não impõe, apela. Se o planeta arder amanhã, Guterres surgirá num púlpito a dizer que “esta
não é a direcção que gostaríamos de ver”, com a mesma convicção com que um
professor reformado repreende alunos que já estão a incendiar a escola. Há nele
uma solenidade quase litúrgica. Fala como se estivesse permanentemente num
funeral — mas num funeral onde ninguém sabe bem quem morreu. Talvez a
esperança. Talvez o bom senso. Talvez apenas mais uma resolução que ninguém vai
cumprir. Quando há guerras, Guterres apela à paz. Quando há fome, apela à
solidariedade. Quando há crises climáticas, apela à responsabilidade. Quando há
caos generalizado, apela ao… bom senso. É um homem que vive de apelos, como um
locutor de rádio dos anos 80 a pedir calma aos automobilistas numa fila
interminável. E, no entanto, funciona. Porque o mundo gosta disto. Gosta
de ter alguém que fale sério sem incomodar. Que pareça importante sem ser
perigoso. Que denuncie horrores em tom burocrático, para não estragar o almoço
dos poderosos. Guterres é o diplomata perfeito para uma época cínica:
suficientemente indignado para as câmaras, suficientemente inofensivo para
os governos. Um moralista em versão “soft”, sem castigos, sem ameaças,
sem consequências. No fundo, é o homem que nos representa bem:
portugueses, respeitáveis, educados, discretamente pessimistas, convencidos de
que o mundo vai piorar — mas que não vale a pena levantar muito a voz por causa
disso. E assim, entre discursos graves, pausas dramáticas e expressões de sofrimento
institucional, António Guterres vai conduzindo a humanidade como quem
guia um rebanho de gatos: sem rumo, sem autoridade, mas com um colete
impecavelmente passado. Talvez seja isso a diplomacia moderna. Ou talvez
seja apenas teatro — com sotaque português e legendas para todas as línguas Álvaro
Venâncio: Excelente!!! Parabéns, Alberto Gonçalves. Obrigado. José
Paulo Castro: Eu,
quando fui experimentar o ChatGPT, logo no início, e percebi que ele queria os
meus dados antes de me responder, criando um perfil meu e adequando a
informação e treinando com ela, nunca lhos dei e nunca usei. Nem outra IA. Era óbvio que o resultado dependia do
interlocutor. Agora,
os motores de busca dão o resultado da IA antes dos links das fontes e treinam
com as nossas pesquisas anteriores. Eu tenho de fazer deslizar o ecrã para
baixo (cada vez mais...) para ir à verdadeira informação e continuar a ignorar
a IA.
(CONTINUA)
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