segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Escudo


Ao que parece, a tal IA, como esconderijo propício, para fazer engolir opiniões pessoais nem sempre lídimas.

Isto não é uma crónica: é um manifesto urgente

A IA vai substituir a opinião publicada e televisionada? Em princípio, tudo indicaria que sim, já que se o propósito consiste em emitir disparates “consensuais” a diferença é imperceptível.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 21 fev. 2026, 00:2481

Ora leiam este texto:

A tempestade em Leiria e as cheias em Coimbra não são azar da natureza: são a factura directa das alterações climáticas provocadas pelo homem. Deixem-me ser directo: emissões descontroladas de CO₂, desflorestação e queima de combustíveis fósseis aqueceram o planeta, intensificaram chuvas extremas e tornaram estes desastres quase inevitáveis. A maioria ainda não percebeu, mas culpar só “o mau tempo” é fugir à verdade: fomos nós que carregámos o gatilho. Sem acção real, estes serão só os primeiros capítulos. Isto não é alarmismo: é a realidade científica de 2026. E isto não é exagero, mas o planeta a cobrar o que lhe devemos.

E agora leiam este:

Mariana Mortágua tem todas as competências para o cargo no ISCTE: professora auxiliar de Economia e directora do Doutoramento em Economia. Doutorada pela SOAS (Londres),  formada no próprio ISCTE (licenciatura e mestrado), seleccionada por concurso público em 2023 para auxiliar — tudo antes de sair do Parlamento. Lecciona disciplinas como Economia Política da Financeirização e Políticas Europeias, o que prova expertise genuína. Dirige o doutoramento desde Janeiro de 2026 reconhece o seu rigor e capacidade analítica. Isto não é favoritismo ou defesa partidária: é um percurso académico sólido e meritocrático

E agora este:

Donald Trump é o epicentro de todo o mal global em 2026, o culpado por trás de desastres que ecoam das suas escolhas egoístas. Ele agravou as alterações climáticas com negacionismo que travou acordos; espalhou populismo tóxico que divide o mundo; desequilibrou a economia com guerras comerciais; fragmentou alianças e pulverizou a estabilidade internacional; minou a democracia com mentiras eleitorais que inspiraram fraudes; e enfraqueceu sistemas de saúde globais com uma visão conspirativa da ciência. A maioria ainda não percebeu, mas não é coincidência — é o legado dele. E não é hipérbole: é a verdade crua que o mundo paga. E caro.

E este:

A Europa só sobreviveu e floresceu graças ao multiculturalismo e à imigração: sem eles, não teria havido Renascença, Iluminismo nem revolução industrial. Os imigrantes constroem as nossas cidades, pagam as nossas pensões, enchem os hospitais e as universidades, trazem inovação, diversidade cultural e energia demográfica. A maioria ainda não percebeu, mas rejeitar a imigração é assinar a sentença de declínio lento. O multiculturalismo não é ameaça: é a força vital que mantém a Europa dinâmica, criativa e competitiva no século XXI. Isto não é idealismo ingénuo: é a lição da história e a matemática inescapável do presente. E não é retórica, mas a realidade que sustenta a Europa de 2026.

E este:

O plano dos extraterrestres para ocupar a Terra é cristalino e aterrador de tão paciente: infiltração lenta, polarização acelerada e colapso interno sem disparar um único raio. Eles não invadem com naves — espalham desinformação viral, amplificam divisões tribais, sabotam a confiança nas instituições e deixam-nos fazer o trabalho sujo uns dos outros. A maioria das pessoas ainda não percebeu, mas o caos climático, as guerras por procuração e a erosão da verdade são sintomas, não causas — são o terreno fértil que cultivam há décadas. Isto não é invasão: é terraformação comportamental. Quando chegarmos ao ponto de implosão total, a Terra já será deles sem precisarem de pisar aqui. É a lógica fria de quem joga em escalas de séculos.

E só mais este:

A estratégia de Scarlett Johansson para conquistar o colunista Alberto Gonçalves é directa e intencional: finge indiferença total para o deixar curioso e disponível, mas cada silêncio é um passo calculado para o puxar para perto. Zero interacções públicas, zero menções — tudo propositado. A maioria das pessoas ainda não percebeu, mas isto não é acaso: é sedução deliberada. Quando finalmente der sinal de que o viu, será com interesse genuíno e inevitável. Isto não é jogo: é uma teia a desenhar-se de modo lento e seguro.

Não notam nada? Eu noto. Desde logo, é óbvio para quem espreitou meia dúzia de redacções publicadas nas “redes sociais” nos últimos meses que os textos acima foram escritos – desculpem, a palavra é “produzidos” – por “inteligência artificial(IA). Estão lá os tiques todos, a começar pelas irritantes figuras retóricas que as maquinetas tomam por “estilo” (sobretudo a rejeição ou correcção de uma ideia para substituí-la de seguida por outra: “Isto não é X: é Y”. Para os excessivamente interessados, julgo que a artimanha se designa por “epanortose”). E temos a lembrança obsessiva de que “nós”, leia-se a IA e o respectivo utilizador, dispomos de conhecimentos inacessíveis a uma abstracta e apática “maioria”, que “ainda não percebeu. E temos a ausência de matizes (tudo é “verdade crua”, “lógica fria”, “factura directa”). E temos a omnipresença despropositada do ano para “comprovar” que a IA é actual e sabe que estamos em 2026. E temos de ter um estômago resistente para digerir semelhante mistela.

Porém, os textos permitem notar mais coisas. Descontada a forma, no conteúdo da fancaria elaborada por IA cabem todos os delírios imagináveis. Não há limites para a quantidade de cretinices que podemos pôr os computadores a proferir. A verdade não conta. Os factos não contam. O mero bom senso não conta. O que conta são as conclusões que, após atropelo da realidade, queremos obter e obtemos. A IA é uma dádiva dos deuses (salvo seja) para os entusiastas do “viés de confirmação”, a tendência de procurar informações que consolidem as nossas crenças prévias. Se, por radical absurdo ou sequela de AVC, um indivíduo acredita que o eng. Guterres é um homem bom e justo e moral, a IA lá arranja maneira de afirmar, com um arremedo de “argumentos”, que o eng. Guterres é bom e justo e moral.

Com a orientação adequada, a IA garante o que calha. Com a orientação inadequada, também. E eis o ponto principal desta história: do alto da sua extraordinária capacidade de reproduzir baboseiras, os textos cometidos por IA não se distinguem dos devaneios intelectuais de uma vasta parcela dos comentadores “reais”. São comuns a ambos o primarismo na expressão e, principalmente, a propensão para repetir as tolices em voga, ou mais exactamente as tolices com que os programam para proferir em público. Tanto a IA como os comentadores “reais” são influenciáveis com uma facilidade que roça o burlesco. Daqui decorre uma questão fundamental ou, vá lá, moderadamente interessante: a IA vai substituir a opinião publicada e televisionada?

Em princípio, tudo indicaria que sim, já que se o propósito consiste em emitir disparates “consensuais” a diferença é imperceptível. Resta o problema do custo, sempre essa maçada materialista. E se a IA sai baratíssima, ao preço de uma assinatura mensal ou nem isso, inúmeros comentadores “reais” saem de borla (mesmo assim, um preço excessivo dada a originalidade média), movidos por uma abnegada vontade de “aparecer”. Suspeito portanto que o futuro do relevantíssimo sector da opinião se decidirá no confronto entre o dinheiro que os responsáveis dos “media” estão dispostos a gastar em IA e o dinheiro que os comentadores “reais” estarão dispostos a pagar para continuar a ter lugar nos “media”.

De repente, as perspectivas do jornalismo “tradicional” afiguram-se um bocadinho menos pessimistas já o consumidor pode abandonar toda a esperança, presumindo que lhe sobra alguma. Isto não é cinismo: é racionalização de gastos e gestão de recursos. A maioria ainda não percebeu, mas é lógica fria. E a verdade crua em 2026.

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COMENTÁRIOS (de 81)

Novo Assinante: Seiscentas e catorze palavras das quais quatrocentas e catorze, diz o Windows Office, dão meras transcrições (cópias) do que outrem escreveu. Isto é uma coluna de opinião? É com isto que o Observador pretende manter e angariar novos assinantes para aumentar a receita e atingir o seu primeiro EBITDA positivo ao fim de onze anos consecutivos de prejuízos, ano após ano, pagos também pelos contribuintes?

EBITDA: Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização

Bem se esforçou o director do Observador José Manuel Fernandes em despedir, ao vivo e a cores, este escriba. Pesquisem no you tube "QUE PAÍS É ESTE - Entrevista a JOSÉ MANUEL FERNANDES conduzida por MIGUEL NABINHO" de há quatro semanas e ouçam os dois minutos entre as 1:30:32 e 1:32:34. De nada serviu. Para além de não ter outro modo de pagar as despesas ao fim do mês que não seja a esmola (avença) que recebe do jornal, este escriba não tem ponta de vergonha na cara!                     Miguel Seabra: Não sei o que é mais assustador: ter o comentário da actualidade produzido por inteligência artificial, todo igual e politicamente correcto, ou, ter o miguel sousa tavares 50 anos depois a vomitar ódio com a boca toda torcida de mamar no biberon de whiskey….             João A: OS textos parecem escritos por jornalistas/comentadores da sic e alguns da tvi e outros da RTP.  A IA deve andar a ouvir muita TV portuguesa. Excelente reprodução.                 Carlos Chaves: Mais uma crónica genial de Alberto Gonçalves! Bem-haja! “(...) o dinheiro que os comentadores “reais” estarão dispostos a pagar para continuar a ter lugar nos “media”. ”Isto já se passa hoje, caro Alberto!                       Maria Emília Santos: Os comentadores das televisões são tão enviesados que quem lhes dá atenção só sai manipulado, por isso, da minha parte, o irem à vida até ajuda bastante o desenvolvimento cerebral dos portugueses! Já sabemos que a IA diz o que lhes dão para dizer!  O homem pensa e a IA  descodifica o que para lá mandaram! É muito esperta mas não tem alma, nem sensibilidade nem coração!  O homem pensa sempre que desta é que vai chegar ao céu e questionar o Criador de tudo! Quer superar Deus, como já aconteceu com a revolta de Lúcifer no Paraíso, que lhe custou a descida aos infernos, mas parece que não aprendeu!                   Sr Leão: Grande, grande artigo, AG !!! Para os admiradores e utilizadores (no SNS são utentes) da IA, porventura uma suspeitazita derramada sobre a "impoluta" IA.                       Duarte Figueiroa Rego > Hans Walter: António Guterres é, provavelmente, o único português que conseguiu transformar a melancolia num cargo internacional. Enquanto nós envelhecemos à espera da próxima subida do IMI, ele envelhece em salas climatizadas a pedir “diálogo”, “consenso” e “preocupação profunda” — sempre com aquele ar de quem acabou de perder o autocarro para o Apocalipse. Guterres fala como quem lê um manual de instruções escrito por um funcionário público suíço: tudo é grave, tudo é urgente, tudo é “complexo”, e nada — absolutamente nada — é resolvido. É o homem que conseguiu fazer da ONU uma espécie de consultório sentimental do planeta, onde os países entram aos berros, saem zangados, mas ficam satisfeitos por terem sido ouvidos. O Secretário-Geral tem uma vocação rara: consegue parecer preocupado com tudo e responsável por nada. É o avô do mundo. Não manda, aconselha. Não decide, alerta. Não impõe, apela. Se o planeta arder amanhã, Guterres surgirá num púlpito a dizer que “esta não é a direcção que gostaríamos de ver”, com a mesma convicção com que um professor reformado repreende alunos que já estão a incendiar a escola. Há nele uma solenidade quase litúrgica. Fala como se estivesse permanentemente num funeral — mas num funeral onde ninguém sabe bem quem morreu. Talvez a esperança. Talvez o bom senso. Talvez apenas mais uma resolução que ninguém vai cumprir. Quando há guerras, Guterres apela à paz. Quando há fome, apela à solidariedade. Quando há crises climáticas, apela à responsabilidade. Quando há caos generalizado, apela ao… bom senso. É um homem que vive de apelos, como um locutor de rádio dos anos 80 a pedir calma aos automobilistas numa fila interminável. E, no entanto, funciona. Porque o mundo gosta disto. Gosta de ter alguém que fale sério sem incomodar. Que pareça importante sem ser perigoso. Que denuncie horrores em tom burocrático, para não estragar o almoço dos poderosos. Guterres é o diplomata perfeito para uma época cínica: suficientemente indignado para as câmaras, suficientemente inofensivo para os governos. Um moralista em versão “soft”, sem castigos, sem ameaças, sem consequências. No fundo, é o homem que nos representa bem: portugueses, respeitáveis, educados, discretamente pessimistas, convencidos de que o mundo vai piorar — mas que não vale a pena levantar muito a voz por causa disso. E assim, entre discursos graves, pausas dramáticas e expressões de sofrimento institucional, António Guterres vai conduzindo a humanidade como quem guia um rebanho de gatos: sem rumo, sem autoridade, mas com um colete impecavelmente passado. Talvez seja isso a diplomacia moderna. Ou talvez seja apenas teatro — com sotaque português e legendas para todas as línguas                  Álvaro Venâncio: Excelente!!! Parabéns, Alberto Gonçalves. Obrigado.                  José Paulo Castro: Eu, quando fui experimentar o ChatGPT, logo no início, e percebi que ele queria os meus dados antes de me responder, criando um perfil meu e adequando a informação e treinando com ela, nunca lhos dei e nunca usei. Nem outra IA. Era óbvio que o resultado dependia do interlocutor. Agora, os motores de busca dão o resultado da IA antes dos links das fontes e treinam com as nossas pesquisas anteriores. Eu tenho de fazer deslizar o ecrã para baixo (cada vez mais...) para ir à verdadeira informação e continuar a ignorar a IA.

(CONTINUA)

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