quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Um comentário rigoroso

 

Sobre este repenicar opinativo fruto das nossas convicções de competência e parcialidade:


Zita Silva > Tim do A: Essa é a mentalidade que se alastra  a cada dia: destruir o que há e substituir pelo caos, pela incivilidade e fanatismos de época. Zero acção politica a sério, de transformação para desenvolvimento económico e social do pais.


Mesmo que demore não dura

Quem porá fim a esta operacionalidade politica inviável com três grandes blocos partidários de peso quase igual que animam o parlamento e desanimam a política? Não se sabe, sabe-se que não pode durar.

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 25 fev. 2026, 00:2627

 

1A ilusão com que “se” espera por António José Seguro é eloquente e perigosa. Mas é, sobretudo, inversamente proporcional ao que o espera a ele: um país fragmentadíssimo, instituições fragilizadas como nunca desde 1974; a perda da autoridade do Estado; um sistema de partidos cuja natureza dita a sua própria improdutividade; um governo praticamente bloqueado no seu funcionamento; uma operacionalidade política inviável por se fazer com – e através – de três grandes blocos partidários de peso quase igual que animam o parlamento e desanimam a política; o ar mediático contaminado pela prática do desrespeito e um universo político que desistiu das boas maneiras.

Os recentes desastres naturais de rara dimensão e prejuízo, ensombraram ainda mais um estado de coisas onde elas em vez de se concertarem, se dissolvem na acusação política e no desacerto.

Não se sabe o que vai na cabeça de uns e outros. Parece o fim de alguma coisa como aqueles restos deixados pela fúria das águas quando elas se foram embora.

2Como se fosse pouco (mas talvez não pudesse ser de outra maneiras) há uma concorrência malsã nas fileiras das duas oposições: de um lado um PS agora agarrado a António José Seguro, o inesperado “benfeitor” que pode salvar a família de um naufrágio político. Ou melhor, que os socialistas não escondem esperar que ele salve. Não nos revelou José Luís Carneiro que está a contar “com o contributo” (contributo?) do Presidente da República eleito para que “o Governo possa responder às propostas que o PS tem vindo a fazer ao longo destes meses”? Ou que “o PS agora tem uma voz em Belém” (uma voz?). Não me impressiono porque não acredito, mas fica–se esclarecido.

Já se notara que o líder do PS está sempre disponível a colaborar com o governo em nome da saúde da pátria desde que… o Executivo cumpra o guião socialista, as suas propostas, as suas medidas, o seu entendimento do que deveria ser o modus operandi governativo.

3André Ventura qualquer dia mete medo. O seu regresso ao palco parlamentar foi quase selvático; nos decibéis; no histrionismo; na exaltada retórica sempre desorganizada, sempre desproporcionada, onde se misturam alhos com bugalhos, se desconhece o uso do critério e se agride, acusa e ficciona. Diante do país, André Ventura praticamente acusou o chefe do governo – é só um exemplo – de ter atirado dos telhados abaixo os portugueses que tentavam heroicamente reparar as suas casas e tiveram a infelicidade de cair. Uma vergonha sem medida. Não é novo? Não, é apenas humilhante e extenuante, (em partes iguais). Novo é que o massacre do Chega ao PSD se agigantará, galgando sofregamente o irracional (até à destruição de um deles?)

 Mas que importa – e a quem importa na verdade? – esta galopante desqualificação da prática da política? No dealbar de um novo ciclo político num país ancorado em nada, talvez haja porém alguém que se importe.

4Que se passará na cabeça do secretário geral da UGT? Já foi assimilada, capturada, auto-desqualificada também ela? Nesse caso de que nova UGT estamos a falar?

Deixou de ser suficiente continuar a – “culpar” exclusivamente o governo de se ter “preparado mal” para lançamento de uma reforma com alcance da reforma laboral. Ou dizer – o que era verdade mas era apenas uma das faces da verdade – que ninguém tinha preparado a Sra. ministra para uma negociação de natureza política: empreitada por definição incomparável com qualquer outro tipo de negociação. Ainda em campanha, António José Seguro que tinha de falar para a esquerda, não só se mostrou muito crítico da reforma como quase transferiu para a UGT o poder da decisão final. A desenvoltura assertiva com que o fez pode ter amparado o seu debilitado partido e a própria UGT neste combate contra o governo. Admito. O desfecho será a descaracterização total da reforma (já esteve mais longe) ou a sua ingloriamente prematura morte. O país ficou ainda mais pequenino.

De novo não se alcança o que querem uns e outros quando todos os dias acusam o actual executivo de não reformar Portugal mas de caminho vetando tudo ou quase tudo de parecido -só parecido – com uma reforma. (e que faria se fosse mesmo uma reforma!).

Olhando de fora para tudo isto não parece politicamente verosímil acreditar que a barca governativa chegue a bom porto. Mas o que começa a ficar claro é que os responsáveis pela intercepção da viagem estão em maior número fora da barca do que lá dentro.

De tal modo quase tudo disfuncional e as vezes até disruptivo.

5E o Presidente eleito?

 António José Seguro convenceu os portugueses porque lhes surgiu antes do mais como “uma pessoa normal”. Alguém normal, com uma família normal, uma carreira política normal, uma vida normal, um republicano normal.

O Presidente eleito sabe que terá de fazer o seu lugar. Falou mais de uma vez “estabilidade” porque vai ter de lidar com o maior produtor de instabilidade que é o actual sistema de partidos; e assim sendo também sabe da imperiosa necessidade de criar condições políticas para a evolução do nosso tóxico enredo partidário: em direcção a uma maioria estável e coerente, naturalmente.

Como ? Ver-se-á.

Como me parece que se verá a também imperiosa necessidade do regresso da autoridade do Estado; ou – outro exemplo do que intuo que Seguro sabe – a procura da reconstrução de consensos em política externa: face a um outro mundo, diante de novas concepções geoestratégicas e numa Europa a tentar reconstruir-se e reprogramar-se.

COMENTÁRIOS (de 27)

Política 

António José Seguro Mais votados, 7 Todos, 27

AFJ O problema é o entendimento do que são reformas. Para um grande e conhecido bloco eleitoral, "reformas" é deixar tudo na mesma, veja se a votação de António Costa. Para outros "reformas" é resolver os problemas da saúde. Para outros, melhores salários, para outros resolver a vergonha que é a justiça. Têm todos algo em comum, ninguém quer pagar o "preço" das ditas reformas. Portanto, todos querem mudanças desde que não sejam incomodados, ou vejam incomodados os seus interesses. E, obviamente, assim não vamos lá, seja quem for o presidente, seja quem for o governo.                        João Floriano: Sempre li Maria João Avillez. Já concordei mais com a cronista no passado do que agora. Sem querer extrapolar o pensamento de MJA, mas já extrapolando, julgo ler nas entrelinhas que a situação de três forças partidárias  que a incomoda, se resolveria se uma delas desaparecesse do Parlamento ou ficasse de tal modo reduzida que passasse a  irrelevante. Mas é a democracia, ou o que resta dela em funcionamento . É assim que as recentes legislativas determinaram e será com esta configuração que temos de viver. Portanto linhas vermelhas que de repente passaram novamente  a existir ( o caso por exemplo da Câmara Municipal de Cascais), os ataques ferozes que se intensificaram na CS, vão ainda lançar mais sal sobre  a ferida que cada vez está mais assanhada. A propósito dos ataques de André Ventura ao governo, Maria João Avillez não se pronunciou sobre o edificante e interessante bate boca entre a Presidente da Câmara Municipal de Coimbra e o Ministro da Agricultura. Tudo acabou com abraços, não sei se umas lagrimitas de crocodilo da autarca e o perdão do ministro porque  não há nada que melhor se misture com política do que religião. Não sei a quem rendeu mais o abraço final. se a Ana Abrunhosa, se ao governo. O último grande pontapé nas nádegas esquálidas da nossa democracia foi a votação em Seguro. Aceito perfeitamente que Seguro tenha maior votação do que Ventura. Era expectável e compreensível já que na primeira volta Seguro ficou à frente de Ventura por cerca de 7,6%. Seguro teria certamente ganho sem que a dita direita se tivesse rebaixado, humilhado, prestado vassalagem, votado ao lado da esquerda e da extrema-esquerda. No final da crónica são apontadas duas grandes linhas de acção para o novo presidente (não é o meu presidente porque eu nunca votei em socialistas): promover uma maioria estável e coerente naturalmente. Que me desculpe a cronista mas atrevo-me a dizer que o CHEGA apesar dos muitos portugueses que nele votam, não entra neste novo paraíso de estabilidade (há quem teimosamente continue  a insistir na visão do pântano). Restabelecer a autoridade do Estado. Poderá começar por  a restabelecer internamente o que seria muito bom, já que externamente e sob a direcção de Paulo Rangel iremos  a reboque  da UE . O grande papel de Seguro será no entanto recuperar o PS. E não precisa de fazer grande coisa ou falar muito. A CS fala por ele e sempre que necessário estará pronta para lembrar como Seguro chegou a Belém. Mas também Costa chegou a S. Bento por um caminho fora do habitual e que causou todo este imbróglio em que estamos metidos. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita, lá diz o povo.                         Tim do A: Qual irá ser o partido a acabar primeiro? O PS ou o PSD? O Chega ficará.                    P.S.: Hoje a UGT é um sindicato de extrema-esquerda paralisante. Igual à CGTP.                      m s: Outra vez Ventura! É uma mania, uma focagem ou uma compulsão.  Neste contexto de saúde, a análise é inevitavelmente igual à análise do dia anterior.  Ventura seria a outra face da moeda política se esta não estivesse cunhada de ambos os lados com a bucólica quietude dos dias.                         maria santos: Pois é, o sufrágio universal é uma maçada, menina, uma maçada de monta!  Estava tão bem quando era a dois, o Soares para aqui, o Rui Rio para ali, o Freitas para aqui, o Paulo Portas para ali, o Montenegro para aqui e a Leitão mais a Isabel para ali. Embora estas duas sejam um pouco excessivas, mas são de bem, são do meio, é o que importa. Todos ligados à elite dirigente há 40 anos, ou aos organismos de representação institucional pós 25/Novembro, dos partidos na AR para os Tribunais Superiores (STJ, STA, Contas), para a direcção da saúde, para a direcção do ensino, para a direcção da segurança interna et cetera.  Todos a passarem dos organismos dirigentes da Função Pública para a Política como ministros e tal, não há diferença estatutária entre direcção da Função Pública e Política Partidária Governamental, o PS dixit e o PSD também. Todavia, à direita conservadora deu-lhe agora para a democracia, o Chega foi a votos e correu com o PS do 2º lugar.  E continua a subir. Uma maçada menina, esta do sufrágio universal a três.  Como diz a Maria João, o Presidente eleito "sabe o que terá de fazer". Nós, classes médias, temos tempo.          David Pinheiro: Cara Maria João, só vejo uma solução para este marasmo: Pedro Passos Coelho.                    Zita Silva > Tim do A: Essa é a mentalidade que se alastra  a cada dia: destruir o que há e substituir pelo caos, pela incivilidade e fanatismos de época. Zero acção politica a sério, de transformação para desenvolvimento económico e social do pais.

 

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